! !
! Outro aspecto importante para compreender a coesão da multidão que se mobiliza em função do “Churrascão de Gente Diferenciada” nos remete, novamente, ao possível que surge no agenciamento de enunciação contido na criação do evento no Facebook.!Embora, no início. o evento seja visto apenas como uma piada virtual (e inclusive assim é descrito pelas primeiras matérias sobre o tema na grande mídia), em pouco tempo, parece tornar viável a ideia de uma manifestação completamente orgânica, sem líderes e sem hierarquia. Ou seja, um tipo de mobilização de caráter político, mas absolutamente desvinculado daquelas instituições já estabelecidas, tais como movimentos organizados e partidos. É o encantamento com essa nova possibilidade um dos fatores propulsores da mobilização. No dia 11 de maio de 2011, por exemplo, a usuária Luana Torres postou que o “Churrascão” seria o “primeiro uso útil das redes $ociai$ no Brasil”. Mesmo a grande mídia aponta o caráter novo e inesperado da mobilização num tom surpreendentemente positivo: no dia 12 daquele mês o perfil do “UOL Notícias” (seção jornalística do portal UOL27) postou no Twitter: “Por essa os moradores do Higienópolis não esperavam: a gente diferenciada usa a internet”.
É interessante observar como o número de usuários que confirmam que irão às ruas no dia marcado é, ao mesmo tempo, indício e propulsor desse encantamento. Se o tamanho de uma manifestação sempre foi determinante para seu êxito, a funcionalidade “confirmar presença”, disponibilizada pelo Facebook, permite uma tentativa de prever as dimensões de um tipo de mobilização do qual não havia histórico para servir de parâmetro. Além disso, a informação de quantos usuários “comparecerão” ou “talvez compareçam” aparece em destaque na página de eventos do Facebook. A importância de tal característica técnica dessa plataforma não deve ser minimizada.
Até o final do dia no qual a página “Churrascão de Gente Diferenciada” foi criada, aproximadamente 30 mil usuários já haviam confirmado presença. Pode-se observar no material amostral coletado que o volume de “confirmados” foi um dos temas mais tratados tanto no Facebook como no Twitter. Praticamente todas as postagens que festejavam esse número estavam, na verdade, realizando um ato ilocucional, demonstrando apoio à mobilização, e tentando realizar também um ato perlocutório, buscando convencer seus
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
27
enunciatários a também comparecerem ou, pelo menos, a apoiarem. Esses enunciados eram palavras de ordem, que utilizavam o potencial sucesso da manifestação para ganhar força.
Nota-se um processo semelhante na utilização da hashtag “gentediferenciada”. Recuero et all (2014) recuperam outros autores para indicar o papel panfletário de hashtags políticas enquanto estratégias para espalhar determinada ideia, angariando apoio (Bastos et all, 2012), e também sua função como artifício para unificar “narrativas” (Cancian et all, 2013). Para Antoun e Malini a “hashtag cria um regime de atenção cujo principal motor reside na capacidade da tag ser controversa e inconclusa, porém influente” (2014, p. 124).
Parece equivocado assumir que a hashtag #gentediferenciada tenha surgido estritamente com uma intenção política de mobilização, pois já de partida carregava um significado irônico maior que aquele relacionado especificamente ao “Churrascão”, mas certamente ela desempenhou um papel importante na visibilidade do movimento. Já no dia 11 de maio, ela chegou a ser listada no trending topics global, dando mais força ao movimento.
É o êxito inesperado do “Churrascão de Gente Diferenciada” nessas duas redes que chama a atenção da grande mídia, que começa a noticiá-lo, às vezes colocando-o apenas como uma brincadeira, um meme28 de humor sem importância como tantos outros, outras assumindo uma postura mais cuidadosa, considerando a real possibilidade que a manifestação se realizasse. Ainda no dia 11, por exemplo, o portal da revista Exame postou a seguinte manchete: “Metrô de Higienópolis vira gozação no Twitter”29, na qual o destaque eram as piadas feitas por usuários da rede social sobre o tema, enquanto o evento merecia apenas uma observação no fim do texto. Já o site do jornal A Folha de S. Paulo publicou na seção cotidiano o título: “Internautas marcam churrasco em protesto a mudança de metrô em SP”30, seguida de um texto que destacava:
“
No Facebook a piada foi além e promete sair da esfera virtual.”Neste momento, os usuários engajados na mobilização, em ambas as redes sociais digitais, começam a replicar os links dessas matérias como estratégia para reforçar a potência de suas palavras de ordem, num comportamento similar ao realizado com o !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
28
Meme é um conceito cunhado pelo teórico evolucionista Charles Dawkins em analogia ao gene, corresponde às informações, características e comportamentos que se replicam na cultura de um povo. Recentemente, o termo meme começou a ser utilizado para caracterizar um conteúdo que se replica e espalha-se pela internet.
29
Disponível em http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/metro-de-higienopolis-vira-piada-no-twitter (acesso em 11 de março de 2015)
30
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2011/05/914459-internautas-marcam-churrasco-em-protesto-a- mudanca-de-metro-em-sp.shtml (acesso em 11 de março de 2015).
Trending Topics e o número de usuários confirmados no evento do Facebook. Entre os dias 11 e 14 de maio, observamos, no corpus referente ao material coletado no Twitter, que pouco mais de 1/3 das mensagens traziam um link para uma notícia ou para o evento no Facebook, o que corresponde a um total de 164 postagens com links.