2.1 Araştırmanın Kuramsal Çerçevesi
2.1.9 Yaratıcı Biliş
cadernos fechados e trabalharem somente com o material dourado. Ela distribui o material dourado para as duplas. Roberto e Gilberto dividem o material, metade para cada um. A professora junta o material deles e diz que é para eles trabalharem juntos: - ‘Não é pra dividir, é tudo dos 2’.(...) Vera trabalha com Ygor. Ele está com três barras na mão. A professora pergunta quanto ele tem ali e responde ‘3 barras’. Ela pergunta quanto vale cada barra, ele não responde. Sara fala que vale 10. Ele repete. Vera pergunta: - ‘E três barras?’. Sara conta com ele: - ’10, 20, 30’. A professora diz que é isso e pede para Sara trabalhar com ele assim. (Diário de campo: EUC, 13º dia).
Nestas situações é possível perceber como Vera tentava ensinar seus alunos e alunas a ajudarem aos colegas com mais dificuldades. E, ao considerar que as crianças são fonte de aprendizagem para seus colegas, Vera nos dá um indicativo de porque refuta a repetição como metodologia. A professora concebe a aprendizagem como relacional e a repetição é um processo solitário.
Embora em alguns momentos possa parecer que a professora demarcasse claramente quem eram os alunos que sabiam mais e os que sabiam menos, a preocupação dela em não manter grupos fixos diluía tal impressão. Na escola rural na maioria das vezes em que eu a auxiliei trabalhando com uma parte da turma, enquanto ela trabalhava a alfabetização com
outro grupo, as crianças gritavam e levantavam as mãos para pedir para ficarem comigo ou com ela, independente da atividade a ser desenvolvida (reforço, por exemplo), como mostra a situação abaixo:
Vera explica que vai trabalhar com a sala dividida: ela diz que dará reforço e eu matemática. Algumas crianças dizem que querem matemática, outras gritam que querem reforço. (Diário de campo: ER, 11º dia).
Na escola urbana central algumas situações observadas nos grupos indicam que as relações estabelecidas entre as crianças eram, algumas vezes, marcadas por relações de poder. Contudo, alguns fatores como a interação da professora com as crianças parecia delimitar muito mais estas relações de poder do que o trabalho em grupo ou a forma como a professora selecionava e organizava as tarefas dentro dos grupos.
Nas duas situações observadas Núbia estava envolvida. Núbia não era tolerada pela professora, que manifestava verbalmente seu descontentamento com a menina. Do outro lado estavam Ricardo e Luan, dois meninos considerados perfeitos pela professora e, por isso, valorizados em sala de aula verbalmente e na interação com a professora.
Somada à preocupação com o trabalho em grupo, a atenção aos diferentes níveis em que se encontrava cada um de seus alunos e alunas deve ser destacada como um dos pontos positivos do trabalho de Vera.
Perrenoud (2001) ao tratar da diferenciação na escola afirma que a maior produtora de fracasso escolar é a ‘indiferença à diferença’, fruto do discurso de que os alunos são iguais em direitos e deveres. O autor utiliza-se de uma metáfora sobre diferentes pessoas, em diferentes condições de treinamento que se propõem a escalar uma montanha. Ele destaca que, se a intervenção ocorrer de forma padronizada, no pico da montanha serão encontradas as mesmas desigualdades iniciais: os que estavam mais bem treinados chegarão primeiro.
Porém, o autor ressalta que é praticamente impossível ser ‘indiferente às diferenças’. Assim como mostram os dados acerca da interação da professora Vera com seus alunos e alunas, o autor afirma que:
É normal que o professor se interesse de forma bastante espontânea pelos alunos que se parecem com ele, que respeitem as regras de comportamento, que trabalham e participam do seu jogo; porém tende a gostar um pouco menos, podendo chegar a rejeitar os que desviam da norma, os contestadores, os apáticos, os desordenados, os brincalhões, os feios, os sujos, os mal educados.
O ponto nevrálgico da afirmação do autor é, então: o que fazemos com esse interesse diferente que percebemos possuir pelos alunos e alunas? Porque a partir do momento em
que eu percebo este interesse e deixo-o transparecer na sala de aula, construindo oportunidades e relações diferentes com os estudantes, estou produzindo desigualdade.
A questão central para Perrenoud (2001) seria, então, quais diferenciações devemos suprimir e quais devemos manter e melhorar com o objetivo de controlar as discriminações negativas e de reforçar as positivas, aquelas que permitem que cada criança tenha sua aprendizagem favorecida.
Trazendo a metáfora da montanha para a escola, as crianças chegam hoje ao processo de alfabetização em diferentes ‘níveis de treinamento’, que chamamos de níveis de letramento. O nível de estudo dos pais, o uso que se faz da linguagem e da escrita na família, o acesso a material impresso, livros e a programas de televisão educativos, o fato de terem ou não irmãos que já frequentam a escola, a profissão dos pais (filhos de pais professores, por exemplo, costumam ver seus pais lendo e escrevendo com mais freqüência) entre tantos outros fatores podem delimitar a intimidade e, sobretudo, o desejo que uma criança constrói com relação ao mundo letrado. Por isso, Perrenoud (2001) é categórico: ‘cada criança deverá contar com uma ajuda proporcional às suas
necessidades’ (p.21).
Cabe destacar que a “profecia auto-realizadora” pode ter forte relação com a diferenciação entre os alunos e alunas. Assim, rever os modelos de aluno, de comportamento, de aprendizagem e tantos outros modelos que podem ditar quem são os bons e quem são os maus alunos é um exercício de reflexão essencial para que percebamos que diferenciações são importantes para o crescimento da turma e de cada criança e que diferenciações produzem desigualdades.
Na caso das turmas de Vera, as atividades de leitura e escrita, que sempre envolviam letras de músicas, parlendas ou pequenas estórias conhecidas pelas crianças, eram pensadas de forma a atender as necessidades de aprendizagem das crianças em seus diferentes níveis de alfabetização. Estas atividades eram elaboradas de duas e até três formas distintas para que cada grupo de crianças fosse instigado a pensar e tivesse seu avanço propiciado. Algumas situações exemplificam tais afirmações: