domingo’. E fala a parlenda com eles duas vezes, a maioria das crianças falava junto com a professora. Ela explica que as duplas do lado esquerdo da sala receberão letrinhas para recortar e montar a parlenda. E diz, para a turma da direita: - ‘Vocês vão fazer a mesma coisa, só que com palavrinhas’. (Diário:
EUC, 19º dia).
É importante destacar que, ao valorizar o trabalho em grupo, propor atividades adequadas aos níveis de aprendizagem de cada grupo de crianças e, conjuntamente, trabalhar de forma individualizada com alguns alunos, Vera constrói uma prática pedagógica que rompe com algumas limitações indicadas por Perrenoud (2001, p.33) no trabalho com a diferenciação.
Segundo o autor, a individualização, primeira solução indicada pelos professores no trabalho com a diversidade de ritmos na sala de aula, seria uma dessas limitações. Para ele, individualizar não é a resposta para as diferenças uma vez que, para atender cada aluno individualmente é preciso que o professor coloque-se como fonte única do saber, algo que ‘desconhece a força do grupo como lugar de educação mútua e de aprendizagem, através
da comunicação e da cooperação’.
Além disso, individualizar e não atentar para o nível das atividades, não é a solução, já que, como indica Perrenoud (2001, p.35):
Uma parte da falta de sentido ou do pouco sentido das lições coletivas e das atividades escolares habituais está relacionada ao fato de que essas lições e atividades aborrecem os alunos mais rápidos ou mais adiantados e superam a capacidade daqueles que encontram mais dificuldades. Uma atividade que pode ser dominada facilmente não motiva (...) uma tarefa inacessível confirma o sentimento de fracasso e desmobiliza o aluno.
Perrenoud (2001, p.36) indica, ao invés de adotarmos o que ele chama de visão estreita de diferenciação, que adotemos uma definição mais ampla, envolvendo:
• ‘a individualização em alguns âmbitos;
• a mediação pelo ensino mútuo e o funcionamento cooperativo;
• a busca de atividades e de situações de aprendizagem significativas e mobilizadoras e,
• o respeito pelas diferenças e a construção de relações interpessoais positivas no grupo-classe’.
Vera investia nos três primeiros itens de forma sistematizada e consciente. Ela valorizava o trabalho em grupo, sabia que precisava diversificar as atividades, o que fazia com empenho e habilidade, e identificava os casos em que era preciso haver momentos de trabalho mais individualizados. Quanto às relações interpessoais mais positivas, no capítulo seguinte ficará claro que era preciso investir esforço neste sentido. Contudo, a professora percebia relações interpessoais mais negativas, incomodava-se com esta situação e tentava modificá-las, como indica a situação descrita a seguir.
Numa conversa informal, na disciplina que cursávamos juntas, comentei com Vera que algumas crianças da turma da escola urbana central estavam se relacionando de forma ríspida ou pejorativa com algumas crianças que ela expunha negativamente. Citei as
reações de Ricardo com Núbia e um comentário de Amanda, que disse: ‘A Núbia e a
Vanessa é muito ‘das relaxada’...eu queria ser professora, mas não quero mais não’.
Uma colega do GEIFoP, formadora de professores e que nos acompanhava na conversa, disse que se Vera mudasse a forma pela qual interagia com algumas crianças, relacionando-se com elas de maneira mais positiva, logo a turma também mudaria, já que eles se espelhavam nela.
Na última sessão de entrevistas conversamos sobre isso:
Ths: Aquilo que conversamos deu certo? Vera: Do que?
Ths: Que se você mudar a forma como você interage, as outras crianças
também vão se comportar de forma diferente, lembra?
Vera: Com aquela outra criança? Ths: É.
Vera: Mas eu acho que isso também é verdade. Porque elas vêem como eu lido
e, então, elas também fazem.
Ths: Lembra que eu perguntei pra elas quem eram os melhores e os piores
alunos?
Vera: Sim.
Ths: Os melhores alunos são aqueles com quem você se comunica bastante: O
Ricardo e o Davi. E os piores alunos elas falavam o Gustavo, a Núbia ou Roberto.
Nessa mesma sessão de entrevistas, conversamos sobre Núbia:
Ths: Uma vez você me disse que não estava disposta a mudar com relação à
Núbia...
Vera: Mas eu mudei.
Ths: Sim. O que te faz estar ou não disposta a mudar? Vera: O que me faz estar disposta a mudar...
Ths: Ou não?
Vera: Achar que não adianta, que eu estou batendo em ponta de faca, sabe?
Mas eu vi que não é.
Ths: Mas você não estava disposta porque você achava que estava batendo em
ponta de faca. O que mudou?
Vera: Porque nós conversamos e porque eu converso em casa e a minha sogra
é espírita e ela me falou que era para eu conversar com a menina. Eu falei do comportamento da Núbia, do vocabulário da Núbia. E ela acredita numas coisas que eu ainda não tenho também estabelecido na minha cabeça como que é o mundo na questão de religião. E ela fala que a gente traz coisas de outras encarnações, que a Núbia pode ser um caso assim, que pelas vidas que ela já tenha vivenciado ela traga...E uma das coisas seria o vocabulário rebuscado numa criança dessa idade. Porque você já viu como é que a Núbia fala, né?!? Ou você nunca viu?
Vera: Eu já chamei a atenção da Ana (estagiária) para ela perceber, já repeti
algumas coisas que a Núbia fala. Ela usa um vocabulário que a gente não fala. Ela fala coisas que você desacredita que essa menina está falando. Ela chegou pra mim e falou que o Papai Noel é lenda. As crianças vêm falar que Papai Noel não existe, Papai Noel é mentira. Ela virou pra mim e falou que Papai Noel era lenda, que a mãe dela tinha dito isso. Ela falou pra mim, no parque ecológico, que se eu quisesse ver o furão, era só eu imitar o ruído dele, que ele aparecia. Ela usa palavras que a gente não costuma usar. E aí eu comecei a pensar...e aí a mãe, pelas coisas que a avó da Núbia veio e falou pra mim, tudo o que a Núbia sofreu quando era criança (problemas de saúde e internações
hospitalares). E eu comecei a perceber que a Núbia faz de tudo pra chamar
atenção: ela fala e ela já olha pra sala para ver quem está olhando para ela; quando eu chamo a atenção dela, ela olha pra ver quem está olhando pra ela, quem está vendo que eu estou chamando a atenção. E eu comecei a me preocupar assim: isso que eu fazia devia machucar demais a menina e eu comecei a parar. Achei que eu estava extrapolando...que acho que era quem eu extrapolava demais era ela e o Gustavo. O Roberto nem tanto porque o Roberto não liga. Mas o Gustavo eu via que sofria porque chorava, se escondia debaixo da carteira quando não conseguia fazer as coisas. Aí eu resolvi abaixar a guarda pra ver o que ia dar. E ela está querendo fazer; nessa última semana ela estava conseguindo acabar a parte do cabeçalho antes do que várias outras crianças, queria fazer...(Trecho da 5ª sessão de entrevistas).
Núbia já estava alfabetizada desde agosto47, resolvia as operações matemáticas propostas pela professora, não apresentava problemas de comportamento em sala (não se recusava a fazer, não brigava com os colegas, não era desrespeitosa com a professora ou os outros colegas). Era um pouco ‘lerda’ - na avaliação da professora - no que diz respeito à cópia das atividades da lousa ou à confecção de atividades no livro. Mas nada que explicasse o descontentamento explícito da professora. Mesmo quando questionada, Vera não conseguiu explicitar de forma coerente as motivações para sua interação ríspida com a menina; apenas disse que ela não correspondia às suas expectativas.
Nesta mesma conversa citada acima, Vera nos deu indícios da forma como via Núbia, sua aprendizagem e necessidades. Ao me perguntar: ‘E você acha que ela não aprende por
minha culpa?’, ela assume claramente que, para ela, a menina não está aprendendo; ou seja,
Vera não conseguia (ou não queria) perceber o desenvolvimento de Núbia. E um pouco antes nesta conversa, quando pergunto porque a menina a incomoda, ela diz: ‘Ela não
responde às minhas expectativas, é avoada, conversa demais, brinca, é mentirosa’. Quando
digo que muitas outras crianças também são assim e pergunto porque esta menina a
47 Logo na primeira avaliação que realizei com a turma, Núbia escreveu: APTADO (para apontador),
incomoda em especial, Vera conclui: ‘Eu já tentei tanto com ela no começo do ano, alisei,
agradei, disse que queria que o caderno dela fosse bonito como ela...eu cansei!’. (Diário de
campo: EUC, 6º dia).
A “profecia auto realizadora”, como indicado, atua exatamente na relação entre as expectativas do professor e o desenvolvimento ou aprendizagem do estudante. Algumas conclusões da pesquisa de Rosental & Jacobson (1981, p.274) indicam que
Quando as crianças de quem não se espera um desenvolvimento intelectual contrariam tal expectativa, esse desenvolvimento parece vir acompanhado de comportamentos indesejáveis ou, no mínimo, os professores atribuem tais características indesejáveis à criança. Quando uma criança demonstra que progrediu intelectualmente, é melhor para sua vitalidade intelectual (real ou percebida) e para sua saúde mental (real ou percebida) que o professor esteja esperando esse progresso intelectual. Tudo indica que o desenvolvimento intelectual não previsto pode ser desastroso.
Núbia parecia ‘desmentir’ uma profecia de Vera. Por isso a professora manifestava tanto descontentamento com a menina, que foi indicada por Vera como apresentando problemas familiares e de saúde. Como poderia aprender assim? Como podia saber ler e escrever e ter um vocabulário ‘rebuscado’, sendo ‘avoada, conversando demais, brincando, sendo mentirosa’?
Outra criança que ‘desmentia’ uma profecia de Vera era Gustavo. Gustavo era de classe média, sua mãe comprara uma lousa para fazer as tarefas com ele, era filho único, recebia muito cuidado da família e...contrariando as previsões de Vera, não aprendia no ritmo da turma. O menino era, assim como Núbia, alvo de críticas duras, exposições e, de acordo com o que conta a professora, chegava a chorar e se esconder debaixo da carteira quando ela fazia o que chamava de ‘sessões de tortura’.
No excerto da 5ª sessão de entrevistas - destacado anteriormente - Vera afirma: ‘Aí eu resolvi abaixar a guarda pra ver o que ia dar’. Parece que a professora resolveu ver as crianças como elas são, sem suas expectativas e sem profecias. E é importante destacar que Vera mudou seu relacionamento com Gustavo e com Núbia a partir desta nova forma de olhá-los. Quando ela faz o exercício de colocar-se no lugar deles e resolve ‘baixar a guarda’, como ela diz, sua interação com as crianças fica menos ríspida e negativa.
Outro ponto que merece destaque no trabalho de Vera refere-se à forma pela qual ela trabalhava a matemática com as crianças. Sempre buscando trazer atividades relacionadas
com situações problema, com a realidade das crianças e valorizando as diferentes formas de chegar a um resultado. As situações abaixo demonstram tais preocupações: