Em 1995, aos 68 anos de idade, Freire encerra o que chamarei aqui de “período ensaístico” da sua reflexão, iniciado em 1977, com viva eu viva tu viva o rabo do tatu. Após publicar, nos anos 1980, Utopia & Paixão; Sem tesão não há Solução e, no início dos anos 1990, Ame e dê Vexame, no qual ele conclui a tarefa de definir o seu anarquismo somático, ele encerra este “período ensaístico” com o lançamento pela Scipione de tesudos de todo o mundo uni-vos. Na introdução
61Após a morte de Freire em 2008, Da Mata afirmou: “o Brancaleone hoje ainda existe mas sua
sobrevivência depende de como vamos levá-lo adiante. Na prática, os membros que compõem este coletivo hoje estão muito separados”. Segundo ele, tanto Jorge Goia quanto Vera Schroeder querem pensar a Soma fora de seu contexto terapêutico. Schroeder confirma: “a Soma precisa ser repensada, esgarçada, invertida. Foi o que aconteceu no Macunaíma. Precisa acontecer de novo. Ele [Roberto Freire] dizia que quando chegou ao Macunaíma ele era mais quadrado, conservador e que através do trabalho no Macunaíma com Miriam Muniz e Silvio Zilber ele se desendureceu, tornou-se menos ortodoxo”. No presente, o coletivo, pelo que indica as conversas que tive com Da Mata, Schroeder e Goia, não existe mais, ou pelo menos não existe como modo de associação inventada por eles em parceria com Freire, no início dos anos 1990.
provoca: “roubo a frase final do Manifesto Comunista de Marx e Engels, trocando apenas uma palavra da mesma, de modo que servisse de título para este livro. Porque estou convencido de que serão os tesudos e não os proletários que porão fim ao capitalismo nesse mundo” (Freire, 1995: int). No livro, Freire problematiza de maneira incisiva a militância da qual fez parte na década de 1960. “Éramos verdadeiros libertários na ação política, enfrentávamos todos os riscos e nos submetíamos a qualquer sacrifício na luta contra o autoritarismo (...) Entretanto, observava nítido ou disfarçado autoritarismo na relação com a mulher e os filhos (...) como se a revolução libertária pela qual devemos a vida começasse apenas do lado de fora da porta de nossas casas” (Ibidem: 122). Todavia, mesmo afirmando cada vez mais a diferença entre sua prática política e a da militância da qual havia pertencido, Freire ainda cultuava, nos anos 1990, certa admiração por existências como a do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara. Em 1997, trinta anos após a morte de Guevara, ele publica na sexta edição do jornal da Soma o texto “Che libertário”, no qual, forçosamente, o articula ao que chamou de socialismo libertário, identificando o guerrilheiro que fora companheiro de luta de Fidel Castro, em Cuba, como um “anarquista de coração”. “Che Guevara era marxista e nós anarquistas o estamos referenciando como um paradigma ideal. Porque, no fundo, era um socialista e
passou sua curta vida procurando libertar povos submetidos à violência e à escravidão. Era uma espécie rara de socialista libertário”62.
Nos dois primeiros textos do livro, “Uni-vos contra o Zagalo e o Parreira!” e “Uni-vos pelo amor ao Garrincha”, escancara sua paixão pelo futebol. Enquanto o primeiro ensaio problematiza a mediocridade da seleção campeã do mundo em 1994, “jogando apenas como trabalhadores pernais e graças aos cálculos matemáticos dos cartolas, eles ganharam pobremente a Copa, porque um jogador italiano errou um pênalti” (Idem, p.17), o seguinte recupera a matéria que escreveu para a revista Realidade no fim dos anos 1960 e na qual homenageia Garrincha, considerado até hoje como um dos maiores craques da história do futebol.
Para além da união de tesudos na busca por um futebol livre e solto, Freire propõe neste livro, mesmo afirmando que os anarquistas não precisam votar, visto que, solucionam seus problemas em grupo por meio de consenso, o voto nulo como modo de explicitar o descontentamento com o ritual democrático eleitoral. “Essa é a única e paradoxal arma. Usar as eleições para acabar com as eleições” (Freire, 1995: 142). Analisando já na época os resultados eleitorais concluiria: “basta ler o programa dos partidos políticos do Brasil. São praticamente todos iguais. Na última eleição, a do PT era igual ao do PSDB” (Idem: 141).
Contudo, a principal revelação de tesudos de todo o mundo uni-vos é a insatisfação de Freire com a velhice. Na contramão da campanha politicamente correta que a nomeia como a fase da “melhor idade”, ele afirma no livro não gostar de velhos. “Nenhum velho presta para nada neste mundo. Eles só sabem encher o saco da gente com suas rabugices reacionárias. Além disso, são muito usados e muito feios, nem para sexo eles servem. O que é pior: podem-se tornar muito perigosos” (Ibidem: 39). Prossegue relembrando o Golpe de 1964, no Brasil, como manobra “desses generais, que passam seus dias na vagabundagem de preparar seus Exércitos para uma guerra que não haverá nunca, fecha o Congresso Nacional, prende o presidente e assume o poder total” (Ibidem: 40) e o investimento do governo estadunidense contra a juventude libertária durante as manifestações contrárias a Guerra do Vietnã. “A Guerra do Vietnã mostrou os crimes do velho Tio Sam contra a juventude dos Estados Unidos (...) O filme ‘Nascido a 4 de julho’” argumenta “é um belo e corajoso documento sobre isso que estou afirmando, sobretudo na cena em que o soldado paralítico quer mostrar seu pênis impotente para os pais que o fizeram ir guerrear ” (Ibidem: 41). Freire diz ter resistido até os quase setenta anos não por escolha, mas sim por culpa da gerontocracia “que produz assistência excessiva e implacável aos velhos através da medicina”. “Pelo menos não convivo com velhos” desabafa “em verdade, sinto-me agora, escrevendo essas coisas, como Groucho Marx, que disse uma vez não querer pertencer a um clube que o aceitasse como sócio” (Ibidem: 43).
Apesar de marcado por um humor libertário irresistível, tesudos de todo o mundo uni-vos é o livro de ensaios menos combativo e mais utópico de Freire. Depois do fogo e do vigor de viva eu viva tu viva o rabo do tatu, Utopia & Paixão, Sem tesão não há Solução e Ame e dê Vexame, o livro apresenta o Anarquismo no singular e como acontecimento inevitável no planeta após a Queda do Muro de Berlim e a abertura da União Soviética. “Com o fim do poder econômico, o homem certamente vai se decidir pelo Anarquismo” garantiu Freire (Ibidem: 53). Ao problematizar as resistências anarquistas Edson Passetti conclui que elas “se queriam menores diante da democracia e do socialismo autoritário” – menores aqui como aponta o filósofo Gilles Deleuze, “uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria (...) uma minoria não tem modelo, é um devir, um processo” (Deleuze, 1992: 214) –, porém, conclui Passetti, “não deixavam de buscar a maioridade como utopia” (Passetti, 2003: 29).
Na introdução de tesudos de todo o mundo uni-vos, Freire anuncia pela primeira vez: “ando querendo fechar as portas de minha vida” (Freire, 1995: int), desejo que ele manifestaria novamente nos dois volumes de Os cúmplices. “Sinto a morte como uma espécie de migração. Descobri isso quando fazia pesquisa para o meu romance ‘Os Cúmplices’, sobre a emigração dos italianos, deslocando-se de Gênova para São Paulo, do velho para o novo mundo. No Museu do Bixiga, bairro onde grande parte desses italianos passou a viver, observava atentamente fotos antigas dos emigrantes no porto de Gênova,
aguardando a partida. Os olhares desses homens e dessas mulheres nas fotografias amareladas me impressionavam profundamente. Coisa que talvez aconteça com quem espiar agora meu único olho ainda vivo, neste momento que antecede minha migratória partida” (Freire, 2002: 405).