Inventada no ano de 1966, “em plena revolução da sexualidade e introdução da pílula anticoncepcional”, a Revista Realidade fazia sucesso com “um jornalismo baseado na reportagem social, na discussão crítica da moral e dos costumes” (Kucinski, 2003: 6), incorporando as inovações estéticas do new journalism norte-americano, isto é, a vivência direta do jornalista com a realidade que pretendia retratar. Roberto Freire foi indicado por Carlito Maia para integrar a equipe que produzia a revista na editora Abril e, de início, por não ter formação jornalística ganhou uma sessão sobre arte e cultura chamada “Ronda”. Entretanto, com a colaboração de Sérgio de Souza, não demoraria muito para se tornar um ativo repórter, assinando matérias importantes sobre Pelé, Roberto Carlos, Garrinha e João Cabral de Melo Neto. Freire inovava ao redigir os textos na primeira pessoa do singular, “como sendo uma espécie de personagem secundário no assunto da reportagem, com a função de registrá-la abertamente com minha visão política e sensibilidade poética” (Freire, 2002: 250).
Arriscando-se no que chamou posteriormente de “jornalismo-paixão”, tornou-se com o tempo um dos jornalistas mais respeitados da revista. Sua matéria sobre os meninos do Recife, para a qual viveu longo período, atuando como pipoqueiro no centro da cidade, até conseguir apreender melhor como estes jovens se movimentavam, praticavam seus roubos, se escondiam da
polícia e conquistar a amizade do bando que o aceitou como cúmplice e companheiro, foi premiada com o prêmio Esso de Reportagem, em 1968. Depois de roubarem uma padaria onde se empanturraram de doces estragados, o bando inteiro sofreu com uma crise geral de vômitos e diarréias. Preocupado com o estado geral dos meninos e percebendo que a desidratação grave em alguns deles poderia causar até mesmo a morte, Freire acabou comprando remédios na farmácia e aplicando soro naqueles que se encontravam em estado mais grave, embaixo da ponte onde dormiam. Desta maneira foi desmascarado. “Recebi todo o seu desprezo e me obrigaram a sumir dali da região da ponte onde viviam, pois estavam convencidos de que eu não era da Polícia, mas um desastrado e pretensioso jornalista que mentira para eles” (Idem, p.253). Mesmo após a expulsão continuou a matéria pelas ruas do Recife que só se encerrou depois de ser internado num hospital vítima de uma forte crise de angina pectoris.
Após decisão autoritária de Robert Civita, diretor da Abril, de afastar Paulo Patarra, editor da revista, Freire se demite da Realidade. Outros demissionários, entre eles Sérgio de Souza, criaram, coletivamente, uma pequena editora para produção independente de novas publicações. O primeiro empreendimento do grupo foi o Bondinho. Financiado inicialmente pelo Pão de Açúcar, mas depois tornado independente, este jornal obteve enorme sucesso entre os jovens brasileiros no início da década de 1970. Segundo Miguel Jost, foi
neste contexto repressivo, pós AI-5, que se começou a conceber um novo formato de jornalismo cultural, influenciado pelas publicações contraculturais dos países em que a cultura pop se desenvolvia com mais força, tais como Estados Unidos, Inglaterra e França. “Do final da década de 1960 para o início dos anos 1970 foram feitas varias tentativas de se consolidar um periódico independente que pudesse suprir a demanda criada tanto pela efervescência cultural do Brasil dos últimos anos quanto pelas revoluções de comportamento que explodiam no mundo desde maio de 68” (Jost & Cohn, 2008: 5). Para Bernardo Kucinski, com suas concepções anarquistas “temperadas com um cristianismo herético”, Roberto Freire inspirado pelo “new journalism norte- americano, que ele conhecia desde as leitura da geração beat” tornou-se uma espécie de mentor espiritual destes jornalistas que queriam experimentar uma vida liberada, aqui e agora, ao invés de mergulhar na militância clandestina de combate à ditadura. Como resistência às subjetividades coletivas marcadas por “um profundo conformismo político, em que a defesa da ordem, da hierarquia, da disciplina, da submissão são enfatizados, e onde o medo às autoridades domina a todos”, diz Cecília Coimbra, “a imprensa ‘alternativa’ ou ‘nanica’, como Pasquim, Flor do Mal, Bondinho, A Pomba e outros, tenta romper com os padrões jornalísticos impostos pela grande imprensa, deixando o tom ‘objetivo’ e supostamente neutro para abertamente exprimir suas opiniões” (Coimbra, 1995: 25).
Depois de sua trigésima quarta edição, dedicada inteiramente ao retorno do exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a redação toda do periódico passa a viver uma nova filosofia de vida e aluga, coletivamente, uma casa no bairro da Lapa, onde experimentavam em liberdade o jornalismo, o sexo e as drogas. Porém, a irreverência e o desbunde fizeram com que os anúncios minguassem e a Editora Abril abandonasse o projeto. Depois de vender, em seu auge, cerca de cinquenta mil exemplares, o Bondinho teve de encerrar sua história, e é somente então que Roberto Freire decide se dedicar exclusivamente à Soma no Centro de Estudos Macunaíma.
Entretanto, antes ainda de Bondinho, paralelo à sua militância política na Ação Popular e o trabalho posterior como jornalista na Realidade, Freire dedicou- se a divulgação da Música Brasileira realizada por jovens compositores nos anos 1960 e início da década seguinte. De 1965, na TV Excelsior, a 1972, o último, realizado pela TV Globo, no Maracanãzinho, participou apaixonadamente como jurado em inúmeros festivais. “Tive a alegria de ter ajudado a nascer, como um obstetra, claro, os mais importantes compositores brasileiros: Edu Lobo, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, entre muitos outros” (Freire, 2002: 264).
Em 1972, o júri era presidido pela cantora Nara Leão e contava além de Freire com Sergio Cabral, Rogério Duprat e Décio Pignatari. O Festival teve como grandes concorrentes ao prêmio, Jorge Ben com “Fio Maravilha” e Walter
Franco com “Cabeça”. Insatisfeitos com as declarações combativas de Nara à Ditadura dias antes da final, no Maracanãzinho, e da possível premiação da experimental canção de Walter Franco, a Globo, submissa as exigências dos militares, destituiu o júri substituindo-o por uma equipe que fazia parte da revista internacional Bilboard. “A direção do FIC esperava inocentemente que ninguém chiasse. Mas nenhum dos jurados engoliu. Nara ficou revoltada afirmando tratar-se ‘de um verdadeiro escândalo mudar-se as regras depois do jogo começado, uma grossura, um desrespeito’. Os jurados brasileiros redigiram um comunicado para ser distribuído à imprensa” (Mello, 2003: 422). Segundo Zuza Homem de Mello “Roberto Freire berrava contra a violência de que fora vítima. Provavelmente por ser um destemido atuante em manifestações de caráter político, ele fora designado pelos companheiros do júri nacional para entrar no Maracanãzinho, penetrar nos camarins e subir ao palco para ler o comunicado que haviam redigido” (Idem: 425).
A aventura teve início quando Freire, munido de credencial conseguiu o apoio do grupo “O Terço”, formado por jovens amigos de seus filhos, para entrar escondido com eles no palco. “Cheguei ao microfone e, diante do espanto geral, comecei a ler o manifesto. Mas fui logo agarrado por homens da segurança da Globo, que me arrastaram para trás das cortinas. Ali, fui jogado nas mãos de uns dez policiais, que começaram a me aplicar uma tremenda surra (...) Bateram o quanto quiseram, fraturaram-me um braço e quatro
costelas, fazendo do meu rosto uma couve-flor sangrenta. E me trancaram num camarim, preso” (Freire, 2002: 267). Nara Leão, depois do acontecimento, enfrentou o diretor da Globo, Boni, e mais uma vez a ditadura, ameaçando invadir o palco com todos os jurados se o manifesto não fosse lido em transmissão nacional. No texto anunciado em todo o Brasil, o júri acusa a ditadura militar pela arbitrariedade do resultado do Festival e, mesmo sem poder para isto, provoca a todos declarando Walter Franco como um dos vencedores daquele ano.