OTURUM -IV ALZHEİMER HASTALARININ KURUMSAL BAKIMI (HUZUREVİ,
ALO 183 SOSYAL HİZMET DANIŞMA HATTI
Os cúmplices narra as aventuras apaixonadas vividas por dois jovens irmãos no bairro do Bixiga, em São Paulo, nas décadas de 1950 e 1960. O romance trata do período em que Freire se dedica ao que denominou como jornalismo-paixão, sobretudo, seu envolvimento engajado com a equipe que produzia a revista Realidade. A trama tem início um pouco antes, na década de 1950, momento em que Bruno e Victor se orgulhavam de “chocar bonde”, rebolar ao som de Elvis Presley, mas principalmente de assistirem nos cinemas Marilyn Monroe e depois Brigite Bardot, concluindo que “em matéria de mulher para ver em filmes, depois lembrar e fantasiar, acho que estivemos bem servidos em nossa adolescência” (Freire, 1995: 93).
Se durante a redação de Coiote nos anos 1970, Freire se aproximava dos libertários escrachados do Inimigo do Rei, Os cúmplices, de 1995, demonstra uma aproximação - efeito da realização na PUC-SP do “Outros 500: Pensamento Libertário Internacional”, encontro entre libertários de vários cantos do país e do planeta, propiciado pela iniciativa de Edson Passetti, Jaime Cubero e Plínio Coêlho - ainda mais intensa de amizade com certos anarquistas, sobretudo, Cubero, do Centro de Cultura Social de São Paulo.
Para Margareth Rago, o evento realizado na PUC-SP “foi decisivo tanto por articular toda uma rede internacional de anarquismos, a que não tínhamos acesso direto, mas também pela própria aproximação que permitiu aos e às anarquistas brasileiros (...) Foi das poucas vezes em que estivemos todos juntos por uma semana, talvez a única desde os anos setenta”. Segundo ela, que neste momento se aproximou de Lucce Fabri, anarquista sobre quem escreveria anos mais tarde um importante livro para a historiografia libertária, “uma coisa é ler um texto, outra é ver as pessoas, ouví-las, conhecer suas idéias pessoalmente, conversar”. Além das mesas-redondas, palestras, apresentações, cursos, “houve festas, jantares, exposições artísticas, muita animação” completa Rago.65 Salete
Oliveira diz que o encontro propiciou certas descobertas em jovens inquietos. Oliveira conta que fora apresentada aos anarquismos nas aulas de Passetti, já no primeiro ano de graduação em Ciências Sociais, e que com os “Outros 500”
aproximou-se não apenas do anarquismo ou do movimento anarquista mas, sobretudo, de anarquistas, “gente anarquista que veio ressoar minha inquietação”.66 Envolvida como estudante no encontro desde sua preparação,
colando cartazes e preparando boletos de inscrição, ela recorda de uma tarde em que vários participantes do “Outros 500” saíram da PUC-SP, em direção ao vale do Anhagabaú, para acompanhar as movimentações pelo impeachment do presidente Fernando Collor de Melo. “Nós fomos para a rua. Mas existia uma diferença clara. Enquanto a maioria pedia eleições, os anarquistas gritavam ‘ninguém’“.67
Roberto Freire já havia se aproximado de Jaime Cubero no final dos anos 1980. De acordo com Jorge Goia, foi Cubero quem sugeriu a designação de anarquismo somático para apresentar a perspectiva política inventada por Freire. Cubero auxiliou na redação de Os cúmplices, descrevendo sua vida militante, a partir dos anos 1950 em São Paulo, quando é convidado por Edgar Leuenroth para participar das atividades do CCS depois deste assistir ao seu discurso em favor do amor livre - “cismei de dar um discurso, pregar o amor livre. Eu dizia que aquele papel não valia nada” -, durante a festa de casamento da própria irmã. Baseando-se nas conversas realizadas com ele, Freire desenvolve a história de dois irmãos que acabam descobrindo o anarquismo através das
66 Depoimento com Salete Oliveira: 19/03/2011. 67 Idem.
“peladas”, jogos de futebol de várzea. Após enfrentarem o time da Mooca, Bruno e Victor recebem o convite do zagueiro da equipe rival, Liberto, filho de um anarquista que lutara na Revolução Espanhola, para frequentarem as reuniões do Centro de Cultura Social. Os dois irmãos passam a visitar o espaço localizado no bairro do Brás onde recebiam formação libertária, assistindo a palestras como as do reichiano José Ângelo Gaiarsa68 e os cursos proferidos
pelos libertários Edgar Leuenroth e José Oiticica. É justamente em conversa no CCS que, pela primeira vez, Bruno e Victor são alertados da iminência do Golpe Militar de 1964.
Para além do jornalismo-paixão presente nas ambições do corajoso irmão mais velho, Bruno, com sua primeira matéria assinada sobre um famoso ladrão de São Paulo, Meneghetti,69 a qual escreveu depois de praticar assaltos na
companhia do célebre bandido e que chamou atenção de jornalistas mais velhos pela narrativa quente, Os cúmplices também trata do teatro experimentado por Freire nas décadas de 1950 e 1960. Victor, o irmão mais novo, descobre junto dos prazeres do sexo, as inovações do teatro inventado por Grotowski na
68 É interessante notar que certos anarquistas se interessavam pelas pesquisas reichianas ainda
na década de 1950. Gaiarsa, um dos pioneiros nos estudos de Reich no Brasil, foi convidado para falar no Centro de Cultura Social nesta década. Em sua última entrevista, realizada para a série de programas para a televisão universitária Os Insurgentes, produzida pelo Nu-Sol e Tv Puc, Freire se refere a Gaiarsa como importante pesquisador do pensamento de Reich. Contudo, a diferença entre os trabalhos de Freire e Gaiarsa são notáveis. Em matéria especial sobre a ressonância de Reich no Brasil publicada na revista Trip, n, 195, Rubens Knigel diz que, enquanto Gaiarsa era mais médico, Freire era mais poeta.
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A reportagem com Meneghetti foi publicada no Pasquim, em 7 de março de 1972, por Sergio Cabral e Marc Ferm. Freire talvez a cite por considerar tal reportagem e também o Pasquim
Polônia e do Living Theater nos Estados Unidos. Porém, as atividades realizadas pelos dois irmãos, as descobertas da vida, são interrompidas bruscamente pelo Golpe Militar.
No dia 1º de abril, após reunião com membros da Ação Popular, Freire conta que saiu caminhando pelas ruas de São Paulo, mais precisamente pelo parque Dom Pedro II. Esta caminhada desalentadora ele descreve na pele de Victor que, depois de entrar em alguns bares e constatar que o assunto era o mesmo de sempre, resolve ir para o hotel onde morava sozinho e pede um táxi. Na corrida pergunta ao motorista: “E, agora, como será nossa vida com esse golpe militar?”. “Igual”, responde o chofer. Diante da insistência de Victor de que os militares iriam acabar com “nossa liberdade”, ouve como resposta, “que liberdade, cara? Preciso é de dinheiro” (Freire, 1996: 137).