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2. ÖN BİLGİLER ve LİTERATÜR ARAŞTIRMASI

2.5. Veri Seti

2.5.2. Yararlanılan Veri Setindeki Özellikler

Nós somos as cantoras do rádio Levamos a vida a cantar De noite embalamos teu sono De manhã nós vamos te acordar

E sou feliz só assim Agora peço que cantes Um pouquinho para mim Cantoras do rádio Alberto Ribeiro, João de Barro e Lamartine Babo

Nosso objetivo neste tópico será apreender as memórias engendradas pela atuação da amplificadora Voz Católica e da Rádio Castelo Branco, criadas para dinamizar o lazer em Serra Branca, com o intuito de apreendermos de que maneira essas memórias (re)elaboram este passado, cristalizando uma determinada cultura histórica juntamente com o cinema e o futebol, compondo, então, uma versão para a história dessas experiências culturais e de lazer no município. Resolvemos priorizar, para elaboração deste tópico, as entrevistas dos moradores que estiveram envolvidos diretamente com os temas abordados aqui, para além da condição de ouvintes. São eles: o Sr. Luiz Gonçalves123 e o Sr. Severino Ramos124, embora também tenhamos utilizado eventualmente a entrevista do Sr. Luiz Gonzaga125 e da D. Maria de Lourdes Gomes de Lima126.

O rádio, como meio de comunicação/informação, foi o responsável pelo aumento da velocidade dos acontecimentos, além de levá-las a um número cada vez maior de pessoas devido ao seu poder de alcance, Hobsbawm (2003). Ele permitiu que as notícias chegassem às pessoas com maior rapidez. Neste sentido, para este autor,

Ao contrário do cinema, ou mesmo da nova imprensa de massa, o rádio não transformou de nenhum modo profundo a maneira humana de perceber a realidade. Não criou novos meios de ver ou estabelecer relações entre as impressões dos sentidos e as idéias. Era um veículo, não uma mensagem. Mas sua facilidade de falar simultaneamente a incontáveis milhões, cada um deles sentindo-se abordado como indivíduo, transformava-o numa ferramenta inconcebivelmente poderosa de informação de massa (...) (HOBSBAWM, 2003, 194-195). 123 Ver nota 78. 124 Ver nota 32. 125 Ver nota 46. 126

D. Maria de Lourdes Gomes de Lima, 73 anos, é natural de Serra Branca. Trabalhou como costureira. Atualmente é aposentada.

O rádio logo se difundiu devido ao custo relativamente acessível entre os diferentes segmentos sociais. A radiodifusão teve sua primeira experiência comercial registrada nos Estados Unidos, em 1920, vinculada a coberturas jornalísticas. Entre 1921 e 1924, o setor de produção de aparelhos e equipamentos teve uma explosão que assegurou a expansão para outros países. No Brasil, o rádio teve sua primeira aparição pública em 1922, na comemoração pelo Centenário da Independência do Brasil. Deste modo, esse evento marcou o momento em que o Brasil se apresentava como um país desenvolvido e moderno aos olhos do mundo127 (AZEVEDO, 2002, p. 47).

Nota-se que, no Brasil, o rádio tem sua primeira apresentação associada ao Estado – Centenário da Independência. De acordo com Azevedo (2002), a difusão do rádio entre os brasileiros iniciou na década de 1920 e ganhou velocidade na de 1930. Contudo, apenas com o final da II Guerra é que ele se tornou um veículo acessível às classes populares. Neste interregno de tempo, o Estado brasileiro se apropriou de diversos modos e em diferentes momentos das transmissões via rádio com finalidades vinculadas ao seu interesse próprio.

O pioneirismo do Rio de Janeiro com a Rádio Nacional é sempre lembrado pelos estudos deste tema. No entanto, não houve uma rápida propagação das emissoras de rádio no Brasil, observada em outros países, adverte Azevedo (2002). Um ponto de discussão que perpassou o debate acerca da função social do rádio nas décadas que marcaram seu surgimento e expansão, girou em torno do caráter dos conteúdos a serem divulgados pelas emissoras. A questão que se colocava era se tais conteúdos deveriam informar, educar ou divertir.

Hobsbawm (2003) enfatiza a rapidez com que a prática de ouvir o rádio logo adentrou os lares, misturando-se às outras práticas cotidianas. Por outro lado, essa mídia

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Para ilustrar esta observação, podemos mencionar a criação de um programa nacional de caráter oficial

Programa Nacional, em 1934, ficando submetido à direção do DPDC (Departamento de Propaganda e Difusão

Cultural). Em 1938, foi criado o programa Hora do Brasil, transmitido pelas emissoras de rádio por todo o país,

agora gerido pelo DNP (Departamento Nacional de Propaganda). Em 1939, o DNP foi substituído pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e este passou a conduzir a Hora do Brasil, cuja finalidade atendia a três orientações: informática, cultural e cívica. Na página da FGV/CPDOC que: “Além de informar detalhadamente sobre os atos do presidente da República e as realizações do Estado, "Hora do Brasil" incluía uma programação cultural que pretendia incentivar o gosto pela "boa música" através da audição de autores considerados célebres. A música brasileira era privilegiada, já que 70% do acervo eram de compositores nacionais. Comentários sobre a arte popular, em suas mais variadas expressões regionais, e descrições dos pontos turísticos do país também eram incluídos na programação. Quanto à parte cívica, era composta de "recordações do passado", em que se exaltavam os feitos da nacionalidade. Nas peças de radioteatro, para as quais eram convidados os mais destacados dramaturgos da época, como Joraci Camargo, enfocavam-se dramas históricos como a retirada da Laguna, a abolição da escravidão e a proclamação da República”. Em 1971, a Hora

do Brasil passou a se chamar Voz do Brasil, nome pelo qual é transmitido, atualmente, todos os dias, as 19:00h

pela emissoras de rádio do país. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos37- 45/EducacaoCulturaPropaganda/HoraDoBrasil>. Acesso em: 22/05/2012.

também inaugura uma nova modalidade de experiência da esfera pública, tornando possível o compartilhamento de notícias e músicas a uma parte da população.

É difícil reconhecer as inovações da cultura do rádio, pois muito daquilo que ele iniciou tornou-se parte da vida diária – o comentário esportivo, o noticiário, o programa de entrevistas com celebridades, a novela e também todos os tipos de seriados. A mais profunda mudança que ele trouxe foi simultaneamente privatizar e estruturar a vida de acordo com um horário rigoroso, que daí em diante governou não apenas a esfera do trabalho, mas a do lazer. Contudo, curiosamente, esse veículo – e, até o surgimento do vídeo e do videocassete, sua sucessora, a televisão – embora essencialmente centrado no indivíduo e na família, criou sua própria esfera pública. Pela primeira vez na história pessoas desconhecidas que se encontravam provavelmente sabiam o que cada uma tinha ouvido (ou, mais tarde, visto) na noite anterior: o grande jogo, o programa humorístico favorito, o discurso de Winston Churchill, o conteúdo do noticiário (p. 195).

Analisando o caso brasileiro, no entanto, Azevedo (2002) observa os aspectos que limitaram a propagação e a popularização do rádio na nossa realidade, ainda no contexto de seu surgimento, a saber: “o lento desenvolvimento das emissoras, os horários irregulares de transmissão e as freqüências de baixa intensidade, junto com os altos preços dos aparelhos receptores” (p. 52), acrescente-se a isso, a ausência de recursos, pois o Estado brasileiro além de tomar para si o direito à concessão das emissoras de transmissão, também regulava a autorização da propaganda de textos comercias que, eventualmente, poderiam ajudar os donos das emissoras a manterem-nas no ar. Relatando a dificuldade em encontrar toda a parafernália técnica, o Sr. Luiz Gonçalves comenta, a respeito da difusora Voz Católica:

Era uma difusora, eu estendi pela cidade inteira, pra cobrir a cidade inteira né? Tinha um amplificador, então eu fiz uma bateria de amplificadores, construí... na época foi eu mesmo que fiz porque não havia no comércio, a mesa de som... na realidade a mesa de som é um instrumento que permite ligar vários microfones, várias fontes de programa, pra você conseguir “mixar” o som e ter uma geração assim quase que simultânea fazendo fundo musical, você retirando uma música, colocando outra ou permitir que vários microfones falem simultaneamente, né? É o chamado “ping pong”. Aí eu fiz, eu construí porque eu já tinha a habilidade, eu já tinha curso de eletrônica, aí eu construí essa mesa de som depois que passou. Aí hoje você compra em qualquer loja especializada, uma mesa de som, vários canais, 100 canais e assim por diante, os estúdios todos tem uma mesa de som. E através disso aí eu fiz o programa a “Voz Católica”, o programa assim de rádiodifusão, rádiodifusão não, difusora como dizia, chamava difusora, não é? O serviço de auto-falante. Eu fiz um negócio bastante dinâmico, porque ali eu fazia entrevista, ali eu conversava com o pessoal nas suas casas, lá tinha o povo de Serra Branca quase que ficava literalmente que esperando esse programa. Eu começava de 6 horas da tarde, às vezes, 4 horas da tarde e ia até meia noite, fazendo programa ali, eu interagia com toda a cidade, quando eu começava a falar numa rua eu mandava mensagem pra toda aquela gente lá daquela rua e

falando tal, e o pessoal ficava nas calçadas ouvindo aqui e ai de mim se esquecesse o nome de alguma pessoa (Luiz Gonçalves, 64 anos).

Além de indicar a dificuldade de reunir todo o material necessário para criar uma estação de transmissão sonora, o depoente apresenta suas habilidades em lidar com a tecnologia do período, afirmando que possuía uma formação específica que possibilitava o desenvolvimento da difusora que, a princípio, funcionaria para garantir um alcance maior da missa à população mediante os auto-falantes instalados em pontos da cidade. Deste modo, a população da zona rural já estava excluída desta transmissão.

Percebemos que o depoente ressalta o caráter aglutinador e dinâmico da difusora, uma vez que ela percorria as ruas da cidade em contato com a população que tinha hora certa para esperá-la. Para isso, então, o maior incentivador desta iniciativa foi o padre João Marques Pereira. Sobre a implantação da Voz Católica, o ouvinte Sr. Luiz Gonzaga lembrou,

É, a... foi primeira difusora que veio para o município, né? Ela veio em 1950128. Essa difusora quem trouxe foi o padre Marques, foi instalada com um fone na Igreja e outro por cima do Armazém do Povo129 e, então, foi um sucesso e, por sinal, a primeira música que essa difusora tocou foi ‘Bodas de Prata’, de Augusto Carneiro, foi a primeira música que ela tocou e era disco de (?), era o disco... eu tô esquecido o nome, não era nem LP, era um disco que tinha uma rotação rápida130, foi tocada aquela música (Luiz Gonzaga, 74 anos).

A ideia de criar a difusora Voz Católica já indica a necessidade de acompanhar as transformações que vinham ocorrendo no período no que dizia respeito, especificamente, ao desenvolvimento tecnológico e ao surgimento dos novos meios de comunicação a distância. O depoente ainda esclarece em quais momentos a Voz Católica era utilizada e quais interesses ela atendia, ressaltando a centralidade da religiosidade daquela sociedade, em que era predominante, como já mencionamos em outros momentos deste trabalho, a prática do Catolicismo, liderado, no município, pelo padre João Marques.

Sim, aos domingos ou em festa a gente tava transmitindo todo acontecimento religioso, porque Serra Branca é uma cidade, não sei hoje, mas naquele tempo era quase que 100% católica, né? E tudo girava em torno de Serra Branca católica. Padre Marques era muito fervoroso e ele fazia questão da cidade muito movimentada tinha assim um zelo profundo assim e com todo aquele movimento que ele, num... gostava muito de peregrinações,

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Não encontramos nenhum registro sobre o ano da criação da difusora. O Sr. Luiz Gonzaga afirma que foi em 1950, no entanto, o Sr. Luiz Gonçalves, o fundador, ainda era bastante novo, neste ano, para desenvolver todo o mecanismo necessário à difusão.

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Uma das casas comerciais do município na década de 1950, pertencente ao Sr. Antônio Bezerra de Sousa.

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Provavelmente trata-se do disco de 78 rotações, produzido com cera de carnaúba e recoberto com goma-laca ou apenas feito com este último produto. Esses discos comportavam uma única música em cada um dos seus lados e eram extremamente frágeis, por isso quebravam com bastante frequência.

fazia a Nossa Senhora de Fátima peregrinar no meio de maio, fazia um acontecimento no mês de junho, Santo Antonio, havia festa lá nos Caboclo, aonde fazia uma romaria, uma peregrinação lá pros Caboclo de dona Onete Ramos, seu Roque Ramos, era muito concorrido, uma cidade bastante ativa nesse sentido. E eu estava dando cobertura a tudo, dentro dos seus limites, porque você sabe, utilizava cabo pra fazer isso depois foi que eu consegui fazer algum transmissorzinho pequeno em FM que a gente já tinha algum alcance (...) (Luiz Gonçalves, 64 anos).

A Igreja Católica tinha prioridade quanto às transmissões da Voz Católica, sobretudo a missa. Ainda é relevado o “zelo profundo” do padre, que podemos traduzir como controle dos fiéis e combate à outras práticas religiosas. Assim, o acompanhamento da Voz Católica era definido pelos eventos religiosos da Igreja. A manutenção desta difusora era feita mediante a contribuição de alguns comerciantes locais e a programação incluía, além das missas e demais eventos religiosos, música. Apesar disso, não havia uma regularidade na programação da difusora. Seu tempo de existência não foi lembrado pelo Sr. Luiz ou pelos outros depoentes. Apenas houve uma menção à década de 1950 referindo-se ao seu surgimento.

No entanto, a experiência que marcou as memórias destes entrevistados sobre radiodifusão em Serra Branca, foi a criação da Rádio Castelo Branco. Souza (2008) informa que os aparelhos de rádio começaram a chegar em Serra Branca na década de 1940 e a posse desses bens ficou restrita a comerciantes locais, que eram as pessoas que tinham recursos financeiros de obtê-los, o que revela que os aparelhos ainda não haviam sido popularizados no município.

Com o desenvolvimento dos meios de comunicação foi possível chegar o rádio. O primeiro rádio que surgiu aqui, foi comprado pelo Sr. Honorato José Brandão em 1940. Ele trouxe no período da Semana Santa e o povo se reunia em sua casa para assistir os programas religiosos dessa semana. Depois ele levou para sua fazenda Jatobá. Para funcionar ele comprou um catavento a fim de fornecer energia para carregar as baterias (2 baterias). O catavento foi instalado pelo Sr. Raul da Costa Leão (Raul Arão). A marca do rádio era “Piloto”131. O segundo rádio que funcionou em Serra Branca pertencia ao Sr. José Morais (Sernhozinho Morais) e o terceiro foi trazido pelo Sr. Joaquim de Andrade Gaião. Essas pessoas eram comerciantes, compradores de algodão que tinham condição de viajar pra as grandes cidades (Campina Grande, Recife etc.) (SOUZA, 2008).

O Sr. Luiz Gonçalves, fundador da Rádio Castelo Branco, conta como foi que conseguiu fazer a transição da difusora para a rádio sem contar com incentivo algum e, ainda, na clandestinidade.

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Inferimos que é uma referência a marca Pilot Radio Corporation, empresa fabricante de aparelhos de rádio dos Estados Unidos.

Olhe, como técnico em rádio e televisão, todo jovem daquela época, era uma certa coqueluche assim, um interesse terrível pra gente saber, normalmente o ser humano é voltado pra isso, pra conhecer o desconhecido, né? E eu sempre como falei no inicio, era eletricista, mexia com eletricidade e tinha esses desejo tudo. Eu quis ser técnico, fiz uns quatro ou cinco cursos de técnico em rádio, como se diz, aprimorando nessa área, né? E todo técnico em eletrônica ele sonha em transmitir, é um negócio, é uma coisa que tá no sangue, faz “cosca”. Você gasta tudo o que você, investe tudo o que você adquirir, pra você fazer isso, primeira coisa que você quando é técnico, você quer transmitir, você quer sair de onde está, você quer aparecer. Aí foi aonde eu fiz alguns, a própria escola ensinou a gente a fazer uns transmissorezinhos, embora que não sai da área doméstica, transmitir daqui praquele carro ali ou vê se tá funcionando em outro canto, e a sua vontade é ir cada vez mais longe. Foi onde eu consegui, com um amigo meu, em Campina Grande, tinha ali no Ponto de Cem Réis, o Herbógenes, era um técnico, velho, experiente, Seu Deoclécio. Aí eu consegui com ele, com muita dificuldade e com muito sigilo, muito respeito, porque eles têm medo de dar esse negócio, um esquema, um transmissor, era um transmissor bastante potente. E com medo também dessa potência eu fui cortando, aparando as arestas pra ele não ficar tão potente, mas eu consegui ainda construir, reformei bastante o esquema e montei um transmissor, com 4 válvulas de saídas em 807, ele funcionava em push-pull, que é o puxa- empurra, né? E 4 de 807, eu conseguia refrigerar essas 4 válvulas a ar, com um ventiladorzinho, porque esse transmissor, ele funcionava refrigerado a água, porque as válvulas de potência muito pesada aí, hoje em dia, numa televisão, numa grande emissora, as válvulas são refrigeradas a água e não é água comum não, é água refrigerada mesmo, através de chira. Então, construí aquele transmissor, foi um espanto, porque aquele transmissor a principio era pra cobrir 10 km, ele conseguia cobrir 50, 60 facilzinho, dada a topografia do local lá de Serra Branca, que é bastante plana, não tem muita serra, né? E o arranjo que eu fiz assim, mais uma vez dizendo como técnico, eu tinha um certo conhecimento ou uma certa coisa que queria fazer, como ia ser, então ainda hoje tudo que eu faço eu fecho os olhos e antevejo toda a obra pra frente. Construí aquele transmissor. Foi bom, comecei a fazer programa de calouros, né!? (...) Mas quando apareceu, surgiu a estação de rádio, aí não, era pra valer. E era um negocio de bastante atividade, porque não tinha a facilidade que tem hoje de celular, né? Telefonia ou você mandar recado, toda aquela gente que vinha lá do sítio dizia: “Escuta o rádio! Fica escutando aí que eu vou mandar a mensagem pelo rádio!”. E me lembra muito aquelas senhorinha, chegava lá, não sabia nem falar direito né? Eu muita vezes tinha que interpretar o que era que ela queria dizer, aí bolava ali, tinha umas menininha lá, Maria José de (?), que era secretaria, pra atender mais aquelas senhorinhas, e ela escrevia direitinho, eu passava a mensagem. As famílias, aquelas senhorinhas, eram tão pobrezinhas que vinha me pagar muitas vezes com um ovo de galinha, uma galinha, um cozinhado de batata, embora que eu nem exigia, né? Eu tinha a satisfação de atender, e assim... (Luiz Gonçalves, 64 anos). [grifos nossos]

Neste trecho podemos apreender alguns aspectos acerca do surgimento da rádio em Serra Branca. É interessante notarmos que a rádio aparece em um momento em que os próprios aparelhos receptores ainda não estavam ao alcance de toda a população. A RCB, como era chamada, foi criada nos anos 1960, segundo este depoente, por volta de 1967. Ela

permaneceu no ar por dois anos, ou seja, até 1969. Durante seu tempo de atuação, ela desenvolveu uma programação musical e um programa de calouros, com apresentação de moradores do município.

Como vimos, devido ao seu conhecimento do aspecto técnico na área de eletrônica, o Sr. Luiz Gonçalves conseguiu criar o transmissor que emitia as ondas de rádio a uma distância considerável, tendo em vista a precariedade de materiais que dispunha, o que lhe permitiu concretizar seu sonho de transmitir, de sair de onde está e aparecer. Neste sentido, para este técnico, a rádio possuía um significado que extrapolava a extensão de lazer ou de informação. Ele se transformaria em comunicador, estabeleceria contato direto com as pessoas, ou melhor, com o público, em um tempo em que isso era algo novo e não tão banal para aquela sociedade, em oposição à facilidade existente hoje em dia com a telefonia móvel que garante o contato cada vez maior entre as pessoas e entre estas e os meios de comunicação, incluindo além do rádio e da TV, a revolucionária internet com todos os recursos que oferece aos sujeitos e empresas. Naquele contexto em Serra Branca, o rádio era o veículo que tinha essa atribuição. Sobre a relação entre as rádios e o público, podemos considerar a análise seguinte.

O rádio tornou-se popular, estabelecendo uma relação de cumplicidade com o conjunto da sociedade que se efetivava num complexo processo de co- participação da construção do conteúdo que era veiculado. A participação do público no processo de construção da programação se expressa diretamente na aceitação ou rejeição daquilo que é irradiado. Tendo o rádio brasileiro, na

Benzer Belgeler