2. ÖN BİLGİLER ve LİTERATÜR ARAŞTIRMASI
2.4. Literatür Araştırması
Acervo: Foto gentilmente cedida por pessoal Juarez Ribeiro Araújo FOTO 15: Antiga máquina de projeção do Cine Educativo
Acervo: Fabiolla Lemos (11/06/2011)
Analisando as relações entre o cinema hollywoodiano e o cotidiano para a formação de sensibilidades no Nordeste do Brasil, Souza (2010) revela as manifestações e discute os valores, símbolos e signos que marcaram o cinema entre as décadas de 1940 e 1960. De acordo com este autor, “O cotidiano dos brasileiros foi marcado pelo cinema desde o século XIX, mas somente com o crescimento do cinema americano na década de 1920 é que ele vai adentrar com maior força nas vidas e mentes dos jovens” (p. 90).
O Sr. Severino foi outro morador que recordou o Cine Educativo, enfatizando a sua importância para a sociedade local naquele período, uma vez que ele era garantia de diversão para a população que, pelas suas palavras, era assídua às exibições, pois “enchia” a sala. Para
que isso ocorresse, os filmes eram anunciados pela difusora, revelando a propaganda e a convocação dos moradores para o cinema.
Em 68, mais ou menos, ele [padre Marques] comprou a máquina e Luizinho que era... entendia dessas coisa toda, então fundou o Cine Educativo, né? Então, quase todo dia tinha filmes e realmente foi um período muito bacana. Aqueles filme de antigamente que a gente assistia, aqueles faroeste, aqueles filme... (...) Então naquela época enchia mesmo, quase todo dia tinha filme, a gente ligava a difusora, tinha a difusora, era no mesmo prédio, né? E agente fazia a propaganda e... Mas com o decorrer do tempo, acho que toda cidade pequena no Brasil acabou o cinema, né? Acabou. A televisão acabou com o cinema, né? (Severino, 56 anos).
Ao mesmo tempo em que identificamos uma fala nitidamente marcada pelo saudosismo, o Sr. Severino apresenta um discernimento com relação às mudanças que ocorrem no mundo e afetam as experiências mais simplórias, como ir ao cinema, que naquele tempo era algo inabitual. Sua conclusão acerca das transformações com o processo de modernização e o acesso aos produtos resultantes dele que adentraram as casas e as vidas das pessoas revelam isso.
Ele se refere à televisão, um instrumento usado para comunicação e entretenimento, que penetrou as casas em detrimento das salas de cinema, derivando disso, o acesso cada vez mais fácil à produção cinematográfica. Porém, por outro lado, as pessoas perderam o hábito de sair de casa, de ir ao cinema, e, dessa forma, manterem uma sociabilidade que ainda existia no tempo lembrado por nossos entrevistados. O cinema era um lugar de (re)união, de compartilhamento de experiências que foi sendo “furtado” paulatinamente pela televisão.
O Sr. Severino informa, ainda, alguns dos gêneros mais populares exibidos no Cine Educativo, como as comédias, romances, épicos, mas, principalmente, “O faroeste sempre tava em primeiro lugar”. Entre as personagens e produções exibidas e mencionadas estavam “Tarzan”, “O ébrio”, “Ben-Hur”, “O morro dos ventos uivantes”, “A ponte Waterloo”, “E o vento levou”, “O gladiador”, “Hércules”, dentre outros. Também haviam os de caráter religioso lembrados por Dona Margarida, como “Os dez mandamentos” e “Céu sobre pântano”.
O Sr. Luiz Gonçalves descreveu como eram realizadas as sessões e também mencionou os filmes que recordou a exibição. A única exceção com relação aos gêneros e temáticas de filmes recaia sobre aqueles que envolviam sexo.
Quem administrava era eu. Aí o que é que eu fazia? Eu ia alugar filme no Recife, eu saía toda semana, alugava 3 filmes, lá no Recife veio, aluguei
muito filme da Telmex118
, que era “películas mexicanas para o Brasil”. Antes eu passava na (?), que é aquele programa americano para o Brasil, e pegava bastante trailer, bastante documentário, assim, muita coisa bonita, o rio Mississipi, aquelas coisas. E aí fazia como abertura, trazia tudo aquilo pra juventude, depois alugava muitos filmes. (...) Principal. Então, o nosso interesse era o de prender bastante gente ali no ambiente do cinema, né? Que primeiro, vinha algum trailer de algum filme, tal esse passava, depois passava aquele documentário e o pessoal gostava muito, né!? Ai depois vinha o filme principal. E eu passei muitos filmes bons ali, como por exemplo: Ben-Hur, Os Dez Mandamentos, A Ponte Waterloo, O Morro dos Ventos Uivantes, E o Vento Levou, aquele Love Story, era esses filmes era os filmes atuais da época, né?! (Luiz Gonçalves, 64 anos).
Percebemos que, de certo modo, os filmes exibidos eram escolhidos com o cuidado de atender a diferentes “gostos”, como demonstra a diversidade de gêneros apontados. A juventude era o público-alvo do cinema, e era composta justamente pela geração que entrevistamos no município. Havia a tentativa de agregar o maior número possível de pessoas, o que sugere que quanto maior o número de espectadores, maior seria o alcancedos anseios da Igreja, uma vez que os valores presentes nos filmes eram reproduzidos como aqueles desejados por uma sociedade “decente”.
Outro elemento revelado na citação é a influência americana, aludida pela exibição de um programa que não conseguimos identificar. Documentários e trailers eram mostrados como “aperitivo” para instigar a imaginação, com o intuito de despertar a atenção dos frequentadores da sala. O Sr. Luiz Gonçalves ainda relembra o deslocamento que fazia para conseguir assegurar as sessões realizadas às quartas, sábados e domingos. Ele esclarece que “o filme do sábado, eu passava na sexta e no sábado, e o filme do domingo eu passava em matinê, às vezes até quando era um filme bom e caro, eu passava em suarê, matinê e à noite”.
A propósito da difusão do cinema americano, Souza (2010) destaca uma verdadeira produção de sentimentos e emoções nas pessoas, considerando as alegrias, raivas, invejas, surpresas, sustos, paixões, medos e ciúmes que os filmes provocam nos espectadores, especialmente, dentro das salas de cinema, pois ao adentrarmos, uma peculiar experiência com o tempo e com o espaço é vivida. Além disso, o caráter dinâmico do cinema também contribuiu para que ele se exercesse grande influência na vida fora das salas de exibição.
O Cinema, para além do aspecto de indústria de produtos formados de imagem e, posteriormente de som, era também uma prática cultural que conseguia, num único e dinâmico processo, unir dança, música, teatro, ginástica, ópera, arquitetura, pintura e escultura, num todo harmônico que
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Não encontramos informações da Telmex com relação à produção e/ou distribuição de filmes. Na nossa pesquisa, identificamos que é uma empresa de telecomunicações sediada na Cidade do México, que oferece produtos e serviços em diferentes países na América Latina.
criava a ilusão de que aquele mundo existia de verdade e que podia ser copiado em qualquer parte do planeta (SOUZA, 2010, p. 92).
Com tamanho poder, o cinema produziu mudanças no comportamento e nos padrões de gosto e consumo das pessoas, para isso contou, inclusive, com o apoio da propaganda que permitia o prolongamento das sensações vividas nas salas e passou a criar as estrelas que alimentavam a imaginação dos amantes das sessões (SOUZA, 2010). Avaliando, então, a importância do cinema como modificador e criador de hábitos e disseminador de valores, acreditamos que é interessante observarmos que tipo de filme era exibido no Cine Educativo, a partir de alguns que foram citados pelos depoentes.