As margens da memória, uma vez fixadas com palavras, cancelam-se.
Italo Calvino
1. Breve interlúdio sobre autor e obra
(...) o fato de se poder dizer “isto foi escrito por fulano” ou “tal indivíduo é o autor”, indica que esse discurso não é um discurso cotidiano, indiferente, um discurso flutuante e passageiro.
Michel Foucault
Propor uma abordagem acadêmica da obra de um escritor em franca atividade, principalmente se o autor em causa possui uma obra ainda pouco numerosa, como é o caso de Milton Hatoum, pode levantar vários problemas para a consecução de um estudo crítico. Em primeiro lugar, não se pode afirmar que as características presentes em seus textos publicados vão se afirmar ou se consolidar nos textos seguintes, desdobrando-se em temas recorrentes, motivos que reaparecerão ou obsessões que irão aflorar posteriormente. Em segundo lugar, em decorrência do que se disse antes, a crítica é feita no calor do presente, com todos os riscos de analisar como acabado o que está em plena gestação, já que uma obra também é composta por todas as leituras que se faz dela. Mesmo as leituras que estão se processando neste momento movimentam-se, refazem-se, deslocam-se, articulam-se com outras, (re) articulam-se a partir de outras. Sem contar a leitura dessas “leituras” pelo próprio autor, o que
pode ecoar em suas próximas narrativas, num intrincado relacionamento nem sempre fácil de desvelar. Tudo isso favorece a profusão de resenhas e notas ligeiras em jornais e revistas, como é o caso da obra do autor amazonense, com poucos trabalhos acadêmicos registrados. Porém, todos esses problemas, a princípio apresentando-se como obstáculos claros a transpor, podem revelar-se, antes, como estímulo para um estudo mais aprofundado de seus três romances: Relato de um certo oriente (1989), Dois irmãos (2000a) e Cinzas do Norte (2005a)38.
A obra de Dalcídio Jurandir já pode ser colocada em perspectiva, não só pelo fechamento do percurso do protagonista de sua saga amazônica, mas também pelo falecimento do autor, o que garante o efetivo acabamento de sua obra. Por outro lado, Milton Hatoum é um autor cuja obra, como se disse acima, está em pleno desenvolvimento, sendo, principalmente por este motivo, o menos estudado dos dois autores selecionados. Assim, há poucos trabalhos sobre esse escritor, em geral apenas resenhas sobre suas obras e comunicações apresentadas em congressos como, por exemplo, os trabalhos de Scramin (2000), Nestrovski (2000), Pereira (1999b), Gomes (2002) e a antologia de literatura amazonense compilada por Tenório Telles (1996), entre outros. Em 2004, Tatiana Salgueiro Caldeira defendeu dissertação acerca das relações entre identidade e memória no romance Dois Irmãos (Caldeira, 2004). Em sua tese de Doutorado, Benedita Afonso Martins estuda a construção de imagens da Amazônia por meio de um corpus que inclui Alberto Rangel, Benedito Monteiro e Milton Hatoum (Martins, 2004). Recentemente foi defendida por Maria da Luz Pinheiro de Cristo uma tese sobre a construção dos narradores nos dois primeiros romances do autor (Cristo, 2005). Trabalho consistente e inspirador sobre a obra de Milton Hatoum é a análise que Luiz Costa Lima faz em O romance de Milton Hatoum, enfatizando a utilização fecunda da memória como traço comum aos dois, apesar de sua maneira de realização bastante distinta, especialmente com relação às características dos narradores (Lima, 2002). Como se disse, o autor só lançou até agora três romances, além da publicação de contos39, poesia40 e estudos críticos esparsos em
que tem demonstrado preocupação em analisar as relações da literatura com a memória41,
além de realizar estudos sobre a literatura amazonense42. Além disso, o autor tem participado
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A partir daqui poderão ser utilizados as seguintes abreviaturas para os romances: RCO, para Relato de um
certo Oriente, DI, para Dois irmãos, e CN, para Cinzas do Norte.
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Um de seus mais conhecidos contos é “Reflexão sobre uma viagem sem fim”, publicado na Revista USP, maio/1992, n.º 13, p. 61-65. Ver também “A casa ilhada” (Hatoum, 2005b).
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Trata-se do texto poético que acompanha as fotografias de Maria Isabel Gouvêa, Sônia da Silva Lorenz e João Luiz Musa no livro Amazonas: palavras e imagens de um rio entre ruínas (Hatoum, 1979).
41
Como, por exemplo, em Literatura & memória. Notas sobre Relato de um certo oriente (Hatoum, 1996). 42
Ver, por exemplo, o estudo “A natureza como ficção”, no livro O espaço geográfico no romance brasileiro (Hatoum, 1993).
ativamente de feiras literárias, como a de Parati/RJ, de debates sobre literatura e proferido palestras em universidades no Brasil e no exterior43 e esteve envolvido em intensa polêmica
acerca da obra e da atuação do escritor Edward Said, por ocasião da morte deste.
A polêmica sobre Edward Said começou com a publicação, no jornal Folha de S. Paulo, em 29 de setembro de 2003, de um artigo do crítico e poeta Nelson Ascher sobre a obra e a atuação política do intelectual palestino, em que o autor conclui que a influência intelectual de Said seria avassaladora e perniciosa. Como resposta a essa avaliação sumária de Ascher, cento e oitenta e sete intelectuais brasileiros assinaram um manifesto, publicado no mesmo jornal em 04 de outubro de 2003, rechaçando as acusações e defendendo Edward Said, numa reação rápida que desencadeou polêmica das mais intensas.
A participação de Milton Hatoum na recepção de Edward W. Said no Brasil também se refere ao envolvimento direto com a obra do intelectual palestino, pois o escritor amazonense escreveu a “orelha” do importante e polêmico livro de Said, Orientalismo (Hatoum, 200144), e traduziu Representações do intelectual (Said, 2005), ambos os livros
editados pela Companhia das Letras, mesma editora das obras de Hatoum. Para o breve perfil que se traça aqui de Milton Hatoum, o que importa no episódio é que esse autor participou ativamente dessa polêmica como um dos organizadores e redatores do manifesto que defendia Said, como assevera Janaína Rocha (Rocha, 2003), o que mostra um autor consagrado e atuante nos debates públicos45, sempre pronto a promover intervenções em debates, podendo
ser enquadrado justamente naquele perfil de intelectual que Said desenha e elogia em Representações do intelectual.
Apesar de sua produção ainda consideravelmente pequena, seus livros têm sido muito bem recebidos pela crítica especializada e têm obtido ótimas resenhas, além de ter proporcionado a seu autor, por todos os três romances publicados os Prêmios Jabuti de melhores romances do ano. Seu último romance, Cinzas do Norte, de 2005, também obteve reconhecimento da crítica (Mello, 2005). Sendo assim, já se pode dizer que, pela força e consistência de seus romances e pela refinada técnica de elaboração de seus mundos ficcionais, sua obra já merece figurar entre aquelas dos grandes escritores nacionais e pode ser
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Confrontar as intervenções de Milton Hatoum no debate sobre Literatura e Identidade, transcrito na revista
Remate de Males nº. 14 (Hatoum, 1994a e 1994b).
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Segundo nota no livro de Edward Said, a indicação editorial de Orientalismo foi de Milton Hatoum (Said, 2001).
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Para mais informações acerca da polêmica envolvendo Edward Said, ver os nos. 75, 77, 78 e 79 da Revista Cult. A revista citada encerrou essa polêmica em seu número 79, considerando que o debate deve “prosseguir de outras formas” (Revista Cult, nº 79, p. 59).
objeto de um estudo mais aprofundado da configuração do espaço como este que aqui se propõe.
Os romances lançados pelo autor têm por cenário primordial a cidade de Manaus, sendo que os dois primeiros enfocam a comunidade de origem libanesa, o que confere uma visão alterna ao mundo amazônico urbano por ele recriado, marcada pelo desenraizamento de seus personagens e de seus narradores em primeira pessoa, que tentam reconstruir, a partir dos fragmentos de sua memória, o passado irremediavelmente perdido. Cinzas do Norte (2005) expande o universo romanesco do autor, incluindo cenas no Rio de Janeiro e em cidades da Europa, e é uma amarga visão do conflito de gerações, em que Mundo, o rebelde filho do empresário Jano, que tinha planos para que ele continuasse seus negócios, torna-se um artista em processo de destruição e sai do país para buscar a liberdade longe dos pais. Em todos esses romances há uma visão crítica dos efeitos destruidores de um “progresso” desordenado que desfigura completamente a cidade de Manaus, afetando a todos os personagens de alguma maneira. Essa é uma configuração e uma utilização do espaço muito diferentes, por exemplo, daquelas empreendidas por Márcio Souza, outro escritor amazonense de grande circulação, sobre o qual defendemos dissertação em 2002 (Freire, 2002). Se em Márcio Souza os espaços públicos e privados da cidade de Manaus são recriados com o intuito de criticar ou satirizar a interpenetração e os significados intercambiáveis dessas duas instâncias, com integração mais ou menos homogênea desse elemento no todo da narrativa, como, por exemplo, em A resistível ascensão do Boto Tucuxi, de 1982, nas obras de Milton Hatoum importa aos narradores empreenderem suas próprias buscas por identidade, com implicações claras dessas trajetórias e dos obstáculos enfrentados inscritas na conformação do espaço romanesco. Mais complexo que o relato desse “certo oriente” que Milton Hatoum empreende em seus dois primeiros romances, é o encontro e o choque desse mundo de origem distante com o mundo amazônico que os cerca. Se a distância do oriente das famílias libanesas que habitam os dois romances perturba a identidade de alguns de seus componentes, a busca por um sentido de identidade, que envolve estreitamente um sentido de lugar, também move os personagens amazônicos de Milton Hatoum, especialmente o narrador de Dois irmãos (2000a), como veremos. Já em Cinzas do Norte46, se o que está em causa é, principalmente, o conflito entre
pai e filho, acompanhados pelo amigo deste último, Lavo, que é também o narrador do romance, há também um choque entre o interior e a cidade, por meio da locomoção e
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A partir daqui, a referência aos romances serão feitas pelas seguintes siglas: Relato de um certo Oriente: RCO;
interação entre os diversos personagens, e o mundo anterior à Zona Franca e as transformações profundas posteriores.
De certa maneira, os motivos que aparecem na obra de Milton Hatoum e a maneira refinada com que são tratados, focalizando a narrativa na intimidade dos personagens, não encontram paralelo na Literatura Amazonense, como se pode depreender da antologia O Amazonas em sua literatura, organizada por Tenório Telles (Telles, 1996). Por outro lado, a preocupação recorrente de Milton Hatoum com o espaço amazônico, transfigurado como cenário em suas obras, pode ser rastreada tanto no texto poético composto para o livro Amazonas: palavras e imagens de um rio entre ruínas, quanto em texto seu sobre exposição de fotografias sobre a Amazônia, Desenhos do olhar (Hatoum, 2000b). Se no primeiro texto o eu poético observa e transfigura o rio, mas situando-o em relação aos homens, em intensa relação intertextual com ensaios de Euclides da Cunha, conforme Suzana Scramin, (Scramin, 2000), no segundo o escritor privilegia a focalização dos espaços íntimos, mais do que os grandes espaços abertos da Amazônia, as cenas do cotidiano dos homens da região, de certo modo lançando pistas sobre suas próprias preocupações ficcionais.
2. O espaço de um coral de vozes dispersas: Relato de um certo Oriente
(...) uma meia voz, uma escrita embaçada, que produzia um leitor hesitante.
Milton Hatoum
O romance Relato de um certo Oriente, lançado em 1989, é uma intrincada composição de muitas vozes, uma espécie de tecido em que cada voz funciona como um fio que se vai entretecendo com os outros até formar a complexa tessitura que forma a narrativa, sob a “coordenação” de uma voz narradora feminina, que cede seu “comando” sempre que alguém de seu passado se dispõe a narrar e acrescentar algo que interessa à composição. Dessa forma, o primeiro problema com que se depara o leitor desse relato é essa sua composição múltipla, um concerto para várias vozes, explicado pela narradora em virtude de esta levar sempre consigo um caderno de notas e um gravador para guardar os diversos relatos que secundam o seu, tendo sempre em vista o irmão distante como interlocutor. Já que sua
visão do passado é, necessariamente, limitada, e isso implica, também, um menor grau de informação que ela pode fornecer ao leitor, essa “deficiência” de visão é amplamente compensada pelo complemento do que sua voz pode dizer e efetivamente dirá a partir dos relatos de vários personagens que vão se mesclando a essa voz primeira. À sua visão, ao quadro que ela constrói a partir da própria memória, juntam-se outras visões, os quadros construídos pelos relatos dos narradores que ela convoca ao seu relato desse certo oriente que é a casa da família de Emilie. Dado o caráter caprichoso, fragmentário e intermitente da memória, a voz narradora se assegura que irá apresentar um quadro mais amplo do passado acrescentando esses outros relatos, entretecendo a sua voz aos fios de várias vozes que compartilharam com ela preciosos detalhes acerca desse passado. Dessa forma, a narrativa se construirá a partir da oscilação constante entre os vários tempos da família, dependendo de cada narrador, entre antecipações e recordações esclarecedoras.
Como afirma Davi Arrigucci Jr., “este é o relato de uma volta à casa já desfeita” (Arrigucci Jr., 1989), que será articulado a partir de lembranças e lacunas, por meio das várias vozes que ecoam na voz da narradora, a empreender uma dolorosa viagem de retorno ao mundo da infância. Não causa estranhamento, então, que seja mencionada no romance a narrativa mais emblemática do mundo árabe (referência obrigatória também deste relato de um “certo oriente”), As mil e uma noites (RCO, p.79), em que Scherazade, a narradora, para escapar à hora da morte anunciada, entretece suas várias histórias, tecendo também um labirinto literário em que se perdem espontaneamente o leitor e o sultão.
A casa de Emilie, espaço polimórfico e povoado de símbolos, é o mundo onde se cruzam esse certo oriente, representado por essa família de origem libanesa, e um ocidente reiterado pelo espaço da cidade e pelos personagens nativos que aparecem na narrativa, inclusive a narradora, que, por sua vez, fazem parte de um outro lugar, também situado na periferia do ocidente. Como afirmam Carlos Reis & Ana Cristina Lopes, em seu Dicionário de Narratologia (1991: 130), à medida que o espaço romanesco se restringe à casa familiar a importância da descrição aumenta e seus significados ficam mais ricos e concentrados. A referência à parede onde se espalham, de maneira caótica, entre vários objetos, ideogramas e pagodes chineses, criando um efeito pelo espelho que transforma o ambiente em um labirinto, pode ser tomada como aquele portal que descortina o mundo do romance de que fala Northrop Frye: “As modulações da imagem do espelho nos remetem a quadros, tapetes ou estátuas, que aparecem tão freqüentemente no começo de um romance para indicar o umbral do mundo do romance” (Frye, 1980:125). Assim, esse umbral que nos descortina o mundo de Relato de um certo Oriente se assemelha a uma tapeçaria, em que diferentes artesãos, ou narradores,
contribuem para o efeito geral do conjunto. É natural que, convergindo para um mesmo fim – unir-se ao “coral de vozes dispersas”, orientado por uma voz que não só registra, mas também filtra, esses múltiplos narradores se assemelhem na utilização da linguagem e das idéias (Santiago, 1989: 4): longe de ser um defeito de falsidade ideológica, como afirma Silviano Santiago, essa característica demonstra que os narradores tornam-se todos aparentados à narradora principal pela afinidade com que a personagem empreende sua busca. Essa confusão de vozes também traduz a dificuldade que a narradora encontra em manipular e organizar num relato coerente esse conjunto impreciso de acentos e confidências, que compõem o “coral”, e restava a ela apenas “recorrer à própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes” (p.166). Apesar de declarar seu “jeito esquivo, de observadora passiva” (p.30), é ela a encarregada de alinhavar as várias vozes em desordem, interferindo e dando coerência aos relatos solitários. À memória é forçoso aplicar um filtro que exclua os excessos, recorte a essência, pois não conseguimos, nem podemos, reter tudo o que vivemos, sob pena de ficarmos enredados nas teias do passado, impedidos de viver o presente, ou seja, o esquecimento e a seleção também são necessários. Como veremos durante o percurso pela análise dos relatos e dos mundos que os narradores constroem, buscar o tempo perdido é, principalmente, buscar os lugares perdidos e desfeitos da infância.
2.1 A narradora e o mundo paralisado, à espera de movimento...
A que se agarrar, se os lugares, como os tempos e os seres, também são arrastados nessa corrida que só conduz até a morte?
Georges Poulet
Assim como Hakim, um dos filhos de Emilie, a matriarca da família que é o centro de Relato de um certo Oriente, ao se debruçar sobre as cartas que a mãe trocara com uma amiga (RCO, p. 56), iniciamos a leitura desta obra como um leitor hesitante, buscando uma orientação nessa narrativa que proporciona tantas sugestões e símbolos, enunciada quase à meia voz e que se abre ao leitor como um quadro de características francamente impressionistas tanto pela falta de contornos claros dos objetos e dos seres enquadrados face à manhã nublada, quanto pela condição de recém despertar da personagem:
Quando abri os olhos, vi o vulto de uma mulher e o de uma criança. As duas figuras estavam inertes diante de mim, e a claridade indecisa da manhã nublada devolvia os dois corpos ao sono e ao cansaço de uma noite mal dormida. (...) Deitada na grama, com o corpo encolhido por causa do sereno, sentia na pele a roupa úmida e tinha as mãos repousadas nas páginas também úmidas de um caderno aberto, onde rabiscara, meio sonolenta, algumas impressões do vôo noturno. (RCO, p. 9)
Necessariamente turva em virtude da luz ainda esmaecida do amanhecer, nessa primeira visão do entorno as figuras fundem-se à matéria do sonho, da qual a narradora parece ter acabado de sair. Desde esse primeiro quadro, em que a personagem parece dissolver-se no espaço, ainda confusa por acordar dessa maneira e possuída pelo desejo de reconstruir um passado perdido, essa narradora sem nome dispõe-se a reconhecer o ambiente que serviu de cenário para sua infância com o irmão:
A atmosfera da casa estava impregnada de um aroma forte que logo me fez reconhecer a cor, a consistência, a forma e o sabor das frutas que arrancávamos das árvores que circundavam o pátio da outra casa. (RCO, p.10)
A evidente referência sinestésica posiciona lado a lado as sensações visuais e olfativas do presente às “impurezas” incorporadas no passado, imbricando espaço e tempo, transformando o primeiro em uma espécie de livro em que as várias camadas do segundo se justapõem e dialogam, colocando-se à disposição do leitor/espectador que as interroga e lhes atribui um sentido, ou que por meio delas busca recompor o painel do passado. Paradoxalmente, o despertar da personagem pode ser lido como uma entrada em outro mundo, um mundo de sonhos – o mundo do romance, no qual o que está em jogo já não é o presente, mas o passado, mais especificamente as lembranças fixadas nos lugares do passado. Assim, a narradora decide começar sua exploração da casa nesse retorno ao seu espaço-refúgio também em busca de si mesma:
Duas salas contíguas se isolavam do resto da casa. Além de sombrias, estavam entulhadas de móveis e poltronas (...). A única parede onde não havia reproduções de ideogramas chineses e pagodes aquarelados
estava coberta por um espelho que reproduzia todos os objetos, criando uma perspectiva caótica (...). (RCO, p. 10)
Dessa maneira, explorar essa casa será como explorar seu dono, e é nessa conformação significativa de labirinto, ampliada pela reprodução do espelho, que se apresenta à narradora, aparentemente desabitado, que aparecem as primeiras possibilidades de recuperação das lembranças da infância distante na forma de um pequeno papel contendo um desenho feito por uma criança: “ao contemplá-lo, algo latejou na minha memória, algo que te remete a uma viagem, a um salto que atravessa anos, décadas” (RCO, p. 11). No trecho citado, estão as figuras que serão recorrentes no romance e que podem ser as chaves para a interpretação desse périplo da personagem – a memória, a viagem e o tempo (anos, décadas) – que ela busca articular em sua narrativa, alinhavando as várias vozes que escuta em seu caminho: Hakim, um dos filhos de Emilie; Dorner, o fotógrafo alemão; e Hindié Conceição, a