• Sonuç bulunamadı

Acontece que a Amazônia é uma metáfora do Novo Mundo, do outro mundo, do lugar dos

deslumbramentos, exotismos, maravilhas.

Octavio Ianni

1. Uma breve panorâmica

Pois se esta Amazônia é de carne, suor e sangue, ela também fora – e será ainda? – fenômeno, experiência de fascinação, talvez medida, sobre a terra, do absoluto infinito.

Michel Riaudel

Peter Burke, o conhecido historiador inglês, com várias obras traduzidas em português, questiona, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 2001, o uso amplo e irrestrito da palavra “invenção” em várias obras que buscam reinterpretar o passado, minimizando as “restrições impostas pelo ambiente físico ou cultural” (Burke, 2001), especialmente a partir da ampla circulação da obra A invenção da tradição, de Eric Hobsbawm. Burke afirma que os autores dessas obras9 enfatizam “a criatividade humana, especialmente a criatividade coletiva, a vontade das pessoas comuns de modificar tanto seus entornos quanto suas identidades, imaginando-os de novas formas.” (Burke, 2001:11).

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Peter Burke cita em seu artigo várias obras com a palavra invenção no título, tais como: L’Invention du

Sabendo-se que “ninguém, mesmo no meio de uma revolução cultural, existe num vácuo cultural” (Burke, 2001:11), esse historiador sugere que seria mais adequado usar o termo “reconstrução” nesses casos, já que quem “inventa” uma tradição está apenas tentando “dar novos usos a materiais antigos”, trabalhando, portanto, sobre dados existentes mas arranjando-os de novas formas ou imprimindo-lhes novos sentidos. Trata-se aí não de uma mera questão retórica de uso deste ou daquele termo, já que Peter Burke chama a atenção para o fato de que, aspectos como aqueles analisados nos livros citados por ele, fazem parte de uma “reconstrução deliberada” do passado e também de um processo mais amplo de construção da identidade de um povo, da história de uma nação, ou pelo menos uma tentativa de intervenção no processo. A partir dessa reflexão, poder-se-ia questionar que a palavra “invenção” do título do livro importante e pioneiro de Neide Gondim sobre leituras que viajantes e ficcionistas fizeram sobre a Amazônia, intitulado significativamente A invenção da Amazônia (Gondim, 1994), bem poderia ser substituída pela “reconstrução” de Peter Burke, a partir mesmo dos argumentos expostos pela autora ao longo de sua análise, já que “a invenção da Amazônia se dá a partir da construção da Índia, fabricada pela historiografia greco-romana, pelo relato dos peregrinos, viajantes e comerciantes” (Gondim, 1994:9).

De qualquer maneira, “inventada”, “fabricada” ou, simplesmente, “reconstruída”, é possível afirmar que a Amazônia também teve sua era de “mistério, (configurada como) uma terra prodigiosa que simbolizava a busca nostálgica de uma origem perdida” (Hatoum, 2001) e passou por um processo de reconhecimento e de estabelecimento de um discurso que pudesse dar conta desse Outro espaço, como aconteceu com o Oriente, segundo a tese defendida por Edward Said em Orientalismo (Said, 2001). Em suma, ela passou por um processo de “descoberta”, ou de várias “redescobertas”, que se traduz em um discurso que se desdobra em muitos gêneros, como Marlyse Meyer afirma para o Brasil como um todo (Meyer, 2001).

2. Unidades temáticas na diversidade

Enigmática e fascinante, a região – e sua história feita de ciclos de expansão desmedida e efêmera e descontinuidades – suscitou o aparecimento e a recorrência de diversos temas que foram explorados intensamente por viajantes e ficcionistas, especialmente se pensarmos nos surtos de interesse que a região amazônica despertou por ocasião da exportação maciça da borracha, cujo auge se estende entre 1852 e 1910, com posterior

estagnação, o breve período de revitalização da importância do produto por ocasião da II Grande Guerra, até a atual supervalorização da Amazônia como área de maior biodiversidade do planeta e determinante para a estabilidade do clima global.

Como se verá mais adiante, o primeiro período citado foi tão importante para a região que gerou uma espécie de modernidade na selva, conforme Francisco Foot Hardman (Hardman, 1991), ou uma belle époque amazônica, no dizer de Ana Maria Daou (Daou, 2000), o que, pelos grandes contrastes sociais e injustiças que suscitou, rendeu uma vasta ficção sobre o período. Esse também foi um período de intensas transformações urbanas nas duas grandes cidades da região, Manaus, conforme mostra Otoni Moreira de Mesquita (Mesquita, 1997), e Belém, de acordo com Ana Maria Daou (Daou, 2000), criando espaços diferenciados para a exibição do poder das elites amazônicas, como os dois grandes teatros, os cinemas e os prédios oficiais que surgiram na época, fenômeno do qual também se apropriará a ficção, como veremos ao analisar a obra de Dalcídio Jurandir, especialmente em Belém do Grão Pará (1960). Gilberto Freyre, em ensaio sobre postais enviados da Amazônia por portugueses a seus conterrâneos em aldeias de sua terra natal, mostra que esses monumentos erigidos com o fim de ostentar a riqueza recente também eram índices de tentativas de modernização, ou europeização, das capitais da borracha, não sem certa rivalidade entre os habitantes de Manaus e Belém (Freyre, 1978).

Ao lado do chamado “Ciclo da borracha”, outro tema recorrente na literatura amazônica é a Cabanagem, movimento de rebelião eminentemente popular que se passou entre 1835 e 1840, com exemplos nos contos do paraense Inglês de Sousa10, no passado, e em romances do amazonense Márcio Souza11, na literatura contemporânea. Pode-se dizer que os personagens amazônicos de Dalcídio Jurandir, em sua maioria negros e mulatos pobres, são descendentes diretos dos cabanos e marcados por um preconceito que se apresenta de maneira crítica nos romances do autor paraense sob diversos matizes. Em vários momentos os personagens mencionam a Cabanagem, especialmente se alguém demonstra rebeldia, como Alfredo em diversos episódios. Se na obra de Milton Hatoum não se nota sinais da

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Ver, por exemplo, no livro Contos amazônicos (1988), de 1893, o conto “O rebelde”, em que os cabanos são representados como violentos, vingativos e sanguinários, a despeito de um dos personagens centrais, Paulo da Rocha, tentar compreender e explicar aos outros, em longo discurso, as razões da revolta popular expressa na Cabanagem. Na verdade, o enredo mostra os sentimentos ambíguos da população em relação ao evento, ainda relativamente recente à época do conto, apresentando-se como uma mistura de fascínio, pela coragem dos revoltosos, e extremo medo pela violência e aparente indistinção de objetivos. Uma revisão histórica da Cabanagem como revolta eminentemente popular aparecerá apenas no século XX com o livro A Cabanagem, de Henrique Jorge Hurley, editado em Belém, em 1936.

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Especialmente o romance Lealdade (1997), que faz parte de uma anunciada tetralogia intitulada “Crônicas do Grão Pará e Rio Negro”, no qual aparecem personagens importantes da Cabanagem, como Batista Campos, e onde se procura apreender a importância desse movimento popular por meio da trajetória de um dos revoltosos.

Cabanagem – note-se que o movimento foi mais fraco no Amazonas e a época representada ficcionalmente já é o século XX –, a Manaus configurada em suas obras exibe rastros de uma pujança anterior e uma decadência acentuada, e a história da fulgurante e breve riqueza proporcionada pela borracha está inscrita nesses sinais. No entanto, o autor abordará mais detidamente a segunda metade do século passado e o advento da Zona Franca de Manaus, buscando, entre outros aspectos, representar ficcionalmente de que maneira esse acontecimento afetará a vida de todos na cidade.

Se o ciclo da borracha foi importantíssimo no passado, não só economicamente, mas também no sentido de produção ficcional, a importância da floresta para o planeta como um todo e a consciência de sua impressionante biodiversidade hoje começam a se transformar em temas recorrentes, haja vista romances como O opositor, de Luís Fernando Veríssimo (2004). O enredo desse romance mirabolante se passa quase todo em Manaus e adjacências, reunindo conspiração internacional, assassinatos e o consumo maciço de ervas alucinógenas da Amazônia. Mesmo considerando-se o tom irônico que domina o romance de Veríssimo, que pode ser rastreado por meio das alusões12 e da descrença do personagem principal em qualquer conspiração, a narrativa não deixa de aproveitar-se do imaginário formado em torno da Amazônia, do “exótico” que ocorre ao ambientar um romance naquela região, numa recorrência daquela mitificação do espaço amazônico referida por Jerôme Assa em “Mythe et Histoire: la constructionn de l´Amazonie par les Européens” (Assa, 2002:250).

Por conseguinte, se o discurso do Ocidente já “conteve” e se apropriou, por meio do discurso dos “orientalistas”, do Oriente e de seus “mistérios” (Said, 2001), sempre haverá de restar lugares que se tornarão pontos de fuga para o exotismo na ficção e, certamente, a Amazônia estará entre eles13. É a vastidão em contínua redescoberta (Meyer, 2001:35): “A imensidão deste país-continente poderia explicar que ele não acabe nunca de ser descoberto.” (Meyer, 2001:35). É um eterno retorno a um enigma não resolvido, como diria Octavio Ianni: “O Novo Mundo pode ser visto como um enigma que se reitera periodicamente, desafiando

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As alusões mais claras referem-se ao nome do dono do bar onde se passam muitas cenas do romance, Hatoum, e o nome do barco que conduzirá o jornalista e seu amigo bêbado em uma excursão à floresta para confirmar uma história de conspiração, Márcio Souza.

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Um paralelo que se pode fazer é que em histórias que se passam no Oriente, como por exemplo O americano

tranqüilo, de Grahan Greene, aparece o ópio, que povoa a relação afetiva do personagem inglês com a garota

vietnamita, e no romance O opositor, de Luiz Fernando Veríssimo, que se passa na Amazônia, aparece o

Ayauasca, o alucinógeno que é usado em rituais do Santo Daime, o qual é consumido fartamente pelo jornalista

e narrador, iniciado que fora por uma exótica mulher de duas cores. Se o paralelo parece forçado, a proximidade é intrigante, inclusive porque o personagem principal de O americano tranqüilo também é jornalista, como aquele de O opositor, ambos desempenhando o papel de correspondentes em lugares importantes situados em lugares estratégicos do Ocidente e do Oriente.

seus habitantes e assinalando algumas configurações e movimentos da história universal.” (Ianni, 2003:35).

Dada a imensidão dessa região, onde tudo é abundante, de maneira inquietante para o forasteiro que não domina seus códigos nem detém os saberes necessários para a vivência ali14, numa vastidão verdadeiramente “amazônica”, coloca-se também o problema da unidade literária da região, especialmente se considerarmos que os dois autores objeto de análise nesta tese, Milton Hatoum e Dalcídio Jurandir, ambientaram seus romances nos estados do Amazonas e Pará, centrados em Manaus e Belém, respectivamente. A distância física entre essas duas capitais é imensa, cerca de 1.500 km em linha reta, porém, como afirma Amarílis Tupiassú,

Apesar do difuso, repartido e isolado, é possível definir, sim, uma Amazônia literária, porque, quando se diz Amazônia, não se pode fugir às referências que conferem marcações de identidade à região inteira (2005:305).

Se as “marcações de identidade” não são facilmente detectáveis do ponto de vista cultural – ainda que a fisionomia indígena ali seja predominante –, fisicamente o rio e a floresta, assim como as cidades que se situam nas fronteiras desses dois elementos, de certa maneira condicionadas ou limitadas por eles, são as partes que dão unidade ao todo. As duas principais cidades da região partilharam muitos acontecimentos marcantes, foram as que mostraram com maior vigor os efeitos da opulência efêmera proporcionada pela valorização da borracha e ostentaram as ruínas do mundo estagnado que se seguiu à decadência econômica. Só pensando na região como um todo é possível falar de uma modernidade na selva (Hardman, 1991), ou uma belle époque amazônica (Daou, 2000), cujos monumentos espalham-se pelas suas duas maiores capitais. Um dado interessante da questão é que durante muito tempo, provavelmente até meados do século XIX, a Amazônia constituía-se como uma colônia à parte do Brasil, primeiramente chamada de “Grão Pará e Maranhão” e posteriormente como “Grão Pará e Rio Negro”, segundo Márcio Souza em artigo publicado em 2005 na revista Estudos Avançados (Souza, 2005) e em sua Breve História da Amazônia (Souza, 1994:95-108). Esse Estado era mais distante do Brasil do que de Portugal, pois uma viagem de Belém a Lisboa durava cerca de vinte dias, enquanto de Belém ao Rio de Janeiro durava três meses (Souza, 1994:96). O pesquisador Leandro Tocantins também confirma a

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Lembro aqui a perplexidade do personagem Finnegan, do romance Mad Maria (1980), de Márcio Souza, com aquele “conjunto tão vasto de perigos e ameaças” que ele encontrara na Amazônia (Souza, 1980:11).

existência desse Estado à parte do Brasil em sua importante obra O rio comanda a vida (1983), demonstrando que o isolamento da região merecia um tratamento diferenciado por parte de Portugal e que essa experiência deveria ser levada em conta pelos governos brasileiros (Tocantins, 1983:258). Capistrano de Abreu, em seu Capítulos de História Colonial, de 1907, afirma que a idéia de criar um Estado independente na Amazônia surgira com as dificuldades de comunicações marítimas com o resto do Brasil (Abreu, 2000:138), e Raimundo Pontes Filho, em sua obra Estudos de História do Amazonas, sugere o mapa reproduzido na Figura 1, com a divisão dos “dois Brasis”, ambos sob domínio português (Pontes Filho, 2000: 88):

A reprodução desse mapa é pertinente porque ilustra uma época em que o isolamento da região encontrava-se formalizado por medidas oficiais da metrópole; além disso, esse mapa físico coincide com o da Amazônia ficcional, construindo-se nos relatos de viajantes e na ficção dos escritores como um lugar à parte do Brasil, distante demais para figurar no projeto literário de um escritor do Sudeste ou mesmo do Nordeste. A reunião dos dois estados num só aconteceu apenas depois da independência do Brasil. Incursões quase contemporâneas como as de Mário de Andrade e Raul Bopp pela região demonstram de forma indiscutível a novidade daquele espaço para a literatura brasileira.

Djalma Batista, eminente amazonólogo, em ensaio publicado pela primeira vez em 1955, após criticar o isolamento e as rivalidades decorrentes da divisão política, expressa da seguinte maneira sua visão da cultura da região:

(...) temos a comunidade geográfica, temos a identidade étnica, temos o mesmo tipo de economia; temos, provavelmente, o mesmo padrão de cultura, no Amazonas, no Pará, no Acre, no Guaporé, no Rio Branco ou no Amapá, com as variações que a história (principalmente a cronologia), a demografia e a situação material impõem. (Batista, 2003:67)

Essa unidade, do ponto de vista da literatura, transformar-se-á na recorrência de temas, como os efeitos dos sistemas econômico e social que se formaram em torno da borracha, a interação ou o estranhamento do homem em relação às peculiaridades da região, a representação ficcional das tentativas de conquistar e domar a natureza da Amazônia para incorporá-la à área de exploração pelo capital – na Modernidade, a Cabanagem, a industrialização e o extrativismo, entre outros. Dessa forma, mais do que dois mundos diferentes, separados pela enorme extensão espacial amazônica, os universos ficcionais de Dalcídio Jurandir e Milton Hatoum, objeto desta tese, são complementares, ainda que haja diversidade nos aspectos abordados e nos recursos expressivos utilizados, e as peculiaridades de cada autor serão investigadas nos capítulos dedicados a eles.

3. Relatos do espaço percorrido

Estabelecidas as unidades temáticas da região incorporadas ficcionalmente, e a fim de preparar o caminho para as análises das obras de Milton Hatoum e Dalcídio Jurandir, autores que ambientaram suas narrativas na Amazônia, urbana ou rural, interior – esse espaço

marcado por imagens grandiosas e freqüentemente mitificado –, torna-se oportuno verificar alguns antecedentes ficcionais desse ambiente. Como mostra Maria Helena Rueda, a percepção da selva como uma metáfora cujos sentidos flutuam entre paraíso, eldorado, cárcere, labirinto, teia, inferno e abismo faz parte de toda uma tradição de leituras e releituras desse espaço: “Como falar hoje dessa selva imaginária e distorcida, na aparência muito distante da selva real e sem dúvida tão determinante em nossa percepção dela?” (Rueda, 2003:31). O próprio Arthur Cezar Ferreira Reis, um dos historiadores mais conhecidos da Amazônia, também reclamava do prejuízo causado por uma literatura que mais desfigurava que representava (Reis, 1956:22).

Marilene Weinhardt (1996:105), tendo em vista um outro contexto, qual seja o passado da região sul do Brasil abordada pelos cronistas e viajantes, coloca a mesma questão de outra maneira:

(...) o espaço não é mais o mesmo depois do olhar dos viajantes. A propósito, questionei: em que medida a criação do ficcionista se condicionará por esse olhar prévio, quando e como se rebelará?

Essa é a questão que se coloca para os ficcionistas que ambientam sua ficção na Amazônia, pois os discursos não nascem do vazio. Eles sempre trabalham materiais existentes, dando-lhes novas formas e contornos, imprimindo-lhes sentidos inusitados, mas dialogando com um repertório de imagens já existente, acrescentando-lhe sentidos e usos renovados. Não se trata aí de uma certa “angústia da influência15”, mas da necessidade de considerar os viajantes anteriores do caminho. Dessa forma, o espaço amazônico transformar- se-á num palimpsesto (Riaudel, 1992), onde não somente os europeus vão projetar suas esperanças e fantasias, religiosas e econômicas, além de sua bagagem de histórias oriundas da Ásia (Gondim, 1994), mas os brasileiros também irão tentar torná-lo legível com obras ficcionais ou não. Entre esses “desbravadores discursivos” estão, por exemplo, autores como Lourenço Amazonas, com o romance Simá, Inglês de Souza, com O missionário, Euclides da Cunha e seus ensaios de À margem da história e, especialmente, o escritor Ferreira de Castro, com seu A selva, este último assumindo posição fundamental na construção de uma

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Mesmo porque sabemos que o diálogo que se estabelece entre um escritor e seus precursores não é uma via de mão única, como essa expressão de Harold Bloom dá a entender (Bloom, 1991), isto é, um novo escritor nunca consegue “matar” seu antecessor ou, talvez, mesmo não o queira, especialmente quando envereda pela paródia. Esse recurso estilístico, como demonstrou Linda Hutcheon (1985), é uma arma de muitos gumes: ao parodiar, o escritor pode, simultaneamente, negar e “sacralizar” o precursor/intertexto pela simples referência a esse criador e sua obra. Isso acontece, por exemplo, no próprio Dom Quixote, romance no qual vêm à tona obras que de outra maneira poderiam não ser mais lembradas.

representação ficcional de uma Amazônia ainda um tanto quanto naturalista, mas também de forte conteúdo social.

Se a conquista física já acontecera, a apropriação discursiva do chamado “Novo mundo”, em oposição ao “Velho mundo”, demandou o esforço de vários segmentos, entre relatórios de naturalistas, relatos de aventureiros e religiosos, entre outros. Desse modo, vários são os agentes que construíram um certo imaginário sobre a Amazônia, uma certa maneira de olhar esse espaço e os seres que o habitam, entre cronistas de viagem, cientistas e escritores brasileiros ou europeus. Se considerarmos a força desses relatos sobre a imaginação, não só européia, mas também sobre os brasileiros de outras regiões, pode-se afirmar que qualquer escritor que aborde esse espaço em sua ficção há de se confrontar, em algum momento, com essas visões grandiosas e extremas, pois os viajantes, cronistas e ficcionistas que perambularam pela Amazônia, ou não16, e deixaram seus relatos, conseguiram a proeza de fixar esses depoimentos pessoais como roteiros por onde a imaginação literária poderia vagar, abrindo veredas e preparando um certo olhar – todo um imaginário – sobre esse espaço.

Pelo menos um dos escritores estudados aqui, Milton Hatoum, já mencionou em mais de uma ocasião ser um leitor dos relatos dos viajantes e também citou o perigo, para um autor amazonense, de construir personagens e abordar o espaço da Amazônia com o toque de exotismo (Hatoum, 1996: 10) que se poderia esperar de um escritor da região, enveredando por um regionalismo que primaria pelo linguajar local marcado pelo pitoresco e pela configuração da paisagem como um personagem opressor. No entanto, não é só o perigo do regionalismo exacerbado, levando ao exotismo, que ronda o escritor que situa sua obra no espaço amazônico, mas também a armadilha do Naturalismo, que coloca o homem sob o jugo, a influência e a determinação total do meio e do clima, em um olhar que privilegia o fisiológico, ressaltando sua feição patológica e não a psicológica.

Por boa parte da literatura amazônica, a irrupção e a colisão entre a “civilização” e a “barbárie” são recorrentes, seja de maneira complacente, em que o mundo criado por determinado autor aceita e reitera essa polarização, ou de forma crítica, quando o próprio enredo encarrega-se de desmontar qualquer oposição binária, mostrando que o cenário é muito mais complexo do que um olhar simplista poderia supor. É preciso lembrar aqui de Márcio Souza, escritor amazonense cuja obra ficcional e ensaística vai radicalmente de

Benzer Belgeler