Os velhos se lastimavam pelo que acabou. Os novos pelo que não vinha.
Dalcídio Jurandir
1. Breve interlúdio sobre autor e obra
Trata-se, sim, de localizar o espaço deixado vazio pelo desaparecimento do autor, seguir de perto a repartição das lacunas e das fissuras e perscrutar os espaços, as funções livres que esse desaparecimento deixa a descoberto.
Michel Foucault
Uma vez acabado o romance, adeus romancista, é ao romance que cabe explicar-se, espalhar, entre os leitores, o sortilégio, as intimidades, a visão particular do mundo e do homem, brotando de suas páginas vivas.28
Dalcídio Jurandir
Tendo a devida consciência da advertência expressa por Dalcídio Jurandir na epígrafe, e evitando buscar na vida a explicação ou as chaves de leitura e de interpretação das obras, traça-se nesta introdução um breve perfil do escritor cujas obras serão estudadas. O
28
O trecho citado é parte de um texto datilografado, de autoria de Dalcídio Jurandir, sem data ou indicação de publicação, pertencente ao espólio do autor, doado por sua família ao Instituto Dalcídio Jurandir, que funciona atualmente na Fundação Casa de Ruy Barbosa/FCRB, na cidade do Rio de Janeiro.
objetivo é, antes de qualquer outro, situar a voz desse romancista tão pouco conhecido além das fronteiras de seu estado de nascimento e levantar hipóteses para esse isolamento do autor paraense.
O caso do escritor paraense Dalcídio Jurandir (1909-1979), nascido em Vila de Pedras, na Ilha de Marajó, Pará, pode ser considerado exemplar de como uma obra consistente, com um projeto literário29 bem delineado e de amplo alcance pode ser ignorada
pelos leitores. Esse romancista, que criou uma obra tão forte na representação dos dramas de seus personagens ribeirinhos, em geral de condição humilde, mulatos, isolados em pequenas vilas, e com a utilização consistente de uma linguagem tocada por expressivos termos regionais, é praticamente desconhecido dos leitores brasileiros, apesar do esforço de alguns estudiosos de sua obra. Assim como Érico Veríssimo logrou arquitetar um amplo painel sobre o sul do Brasil em “O tempo e o vento”, mais ou menos a partir da mesma época30 Dalcídio
Jurandir compõe o seu denso painel amazônico. Com uma obra composta por onze romances31, dez dos quais de temática amazônica, formando estes a “Saga do Extremo Norte”,
denominada desse modo por Jorge Amado, o autor contempla todas as ricas nuanças dessa região verde e aquática do norte do Brasil que é a Amazônia, desde as terras alagáveis da ilha de Marajó (Chove nos campos de Cachoeira, 1941), passando por pequenas vilas cheias de vivas paixões e contradições sociais (Três casas e um rio, 1958), até a urbanidade antiga e estratificada de Belém, que é o palco de intrigas e disputas políticas (Belém do Grão Pará e Passagem dos Inocentes), onde mudar de casa ou bairro é também um deslocamento na escala social – uma descida ou uma subida, dependendo das apostas feitas pelos personagens. Já em Ribanceira (1978) acontece a volta do personagem a um espaço semelhante ao da infância, mas já formado e com um cargo público garantido, o que lhe permite certo distanciamento irônico para os problemas vividos pelos habitantes da pequena vila.
Dessa maneira, por sua declarada intenção, mas especialmente por sua realização, a obra de Dalcídio Jurandir ambientada na Amazônia insere-se numa ânsia bem modernista de mapear ficcionalmente o país, incorporar ao romanesco o espaço nacional distante e diferente daquele já plenamente desvelado pela literatura praticada nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste. Por outro lado, ao fazê-lo, Dalcídio Jurandir se alinha aos intérpretes da Amazônia discutidos
29
No espólio do autor consta uma relação dos romances a serem escritos, datada da década de 1920. Essa relação encontra-se em um pequeno livro de poesias manuscritas intitulado “Alegoria”.
30
O primeiro volume de “O tempo e o vento”, O continente, de Érico Veríssimo, foi publicado em 1949, e o primeiro romance de Dalcídio Jurandir, Chove nos Campos de Cachoeira, é de 1941.
31
Na obra Dicionário Literário Brasileiro, em seu volume III, no verbete dedicado a Dalcídio Jurandir, há a notícia de uma coletânea de contos que se chamaria Rés do chão, de 1931, porém essa obra não é mencionada em qualquer outra fonte.
no capítulo anterior, mas de maneira muito diferente, por exemplo, daquela utilizada no Naturalismo, marcada pela ascendência do ambiente sobre os personagens, e nas obras regionalistas, excessivamente determinadas pelo pitoresco da linguagem e dos lugares. Dessa ânsia e dessa busca pelo país resultaram importantes obras da literatura brasileira, tais como Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, o poema Cobra Norato, de Raul Bopp, a saga gaúcha O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, os romances de José Lins do Rego, que abordam a área de influência do ciclo da cana de açúcar, entre outras. De todas essas obras, apenas Érico Veríssimo, com propósitos mais épicos e localizados na história da região sul, e Dalcídio Jurandir, na Amazônia paraense, logram incorporar ficcionalmente ambientes variados da mesma região. Além das obras que fazem parte dessa saga, o autor ainda escreveu mais um romance, Linha do Parque (1959), que aborda o cotidiano e as lutas dos operários do porto no Rio Grande/RS e é uma de suas obras mais explicitamente políticas.
Elogiado por vários escritores de renome, entre eles Jorge Amado, Adonias Filho, Josué Montello, ou por ensaístas e críticos do porte de Sérgio Milliet e Benedito Nunes, Dalcídio Jurandir parece não ter conseguido formar uma comunidade consistente de leitores, um fator essencial para que uma obra literária mantenha-se viva e atuante, a despeito das qualidades que essa obra possa apresentar. Mesmo os vários prêmios que ele ganhou ao longo de sua carreira – entre eles o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1972, pelo conjunto da obra – não foram suficientes para levá-lo à pequena relação dos escritores do passado que ainda são lidos e comentados. Seus livros há muito estão esgotados por não serem reeditados com a freqüência merecida. De sua obra, apenas Chove nos campos de Cachoeira (1941), seu primeiro romance, e Marajó, de 1947, foram reeditados e ainda podem ser encontrados em algumas livrarias, além da reedição recente de Belém do Grão
Pará pelo Instituto Dalcídio Jurandir, em co-edição da Fundação Casa de Rui Barbosa com a
editora da Universidade Federal do Pará. Dessa maneira, essa consistente produção literária, que abrange quatro décadas de trabalho, permanece pouco lida e, menos ainda, conhecida fora de sua região de nascimento, além de pouco estudada em sua complexidade.
Tendo em vista esse quadro, há que se perguntar: como um autor de obra tão importante, no sentido em que ficcionaliza e põe em foco uma região quase desconhecida pelos brasileiros de outras regiões, sem concessões ao naturalismo ou ao regionalismo comuns na literatura ambientada na região, tão importante pelo mapeamento empreendido, pela construção cuidadosa de personagens e situações, pode ser deixado continuamente de lado ou tratado como escritor periférico pelos que escrevem a história da literatura brasileira? Ou, talvez mais importante do que a inclusão na historiografia ou a produção de estudos
críticos, por que a obra de Dalcídio Jurandir não conseguiu criar e manter uma “comunidade de leitores” consistente, mesmo entre seus conterrâneos nortistas? Várias hipóteses podem ser aventadas para esse ostracismo do escritor, porém nenhuma pode ser relacionada à qualidade indiscutível de sua obra, impecável no gesto de incorporação do espaço amazônico, dos problemas que suscita aos seus personagens isolados e suas maneiras específicas de reagir aos desafios, sublimando as condições do meio ou acomodando-se ao que a vida proporciona.
Uma hipótese para esse isolamento em que Dalcídio Jurandir foi colocado, levantada durante as pesquisas empreendidas para esta tese, diz respeito à intensa militância política do autor, ativo colaborador da Revista Diretrizes na década de 1940. De acordo com Wilson Martins, o conhecido crítico do Modernismo em suas várias facetas32 e historiador da inteligência brasileira, em um artigo acerca da trajetória de Otto Maria Carpeaux, afirma que Dalcídio Jurandir “comandou” a campanha contra este crítico em resposta a uma nota fúnebre que o mesmo havia escrito para o escritor Romain Rolland (Martins, 1999). Segundo ainda Wilson Martins, a independência e a heresia de Carpeaux “em relação aos dogmas partidários”, despertaram a ira dos comunistas, suscitando respostas de vários intelectuais33, já que o crítico havia cometido a ousadia de afirmar que Romain Rolland “morto, ainda não nos deixava em paz”.
A resposta de Dalcídio Jurandir ao artigo citado, publicada na Revista Diretrizes em 17.02.1944, sob o título de “Mais respeito a Romain Rolland”, também reproduz a nota escrita por Carpeaux, comentando-a quase ponto por ponto, declarando que as palavras desse crítico bem poderiam ter sido ditas por qualquer autor fascista, sem nenhuma preocupação com a trajetória política do escritor criticado. Como agravante ao escritor paraense, Wilson Martins salienta, no mesmo artigo, que Dalcídio Jurandir era “(...) o homem do PCB para as "tarefas" de baixeza moral”, lembrando que ele também era encarregado de “vigiar” escritores brasileiros no exterior para evitar deslizes, como aconteceu por ocasião da viagem de Graciliano Ramos à antiga URSS na década de 1940. O episódio da campanha contra o crítico austríaco também é relatado por Olavo de Carvalho, na introdução à edição de ensaios de Otto Maria Carpeaux (Carpeaux, 1999), em que o autor confirma que Dalcídio Jurandir havia organizado a reação contra o artigo sobre Romain Rolland.
32
Ver, por exemplo, sua obra O modernismo (1916-1945), para a coleção “A literatura brasileira”, volume VI. 33
Na mesma Revista Diretrizes, um grupo de jornalistas e escritores publicou um abaixo assinado contra a nota de Carpeaux, intitulado “Em desagravo à memória de Romain Rolland”, em 09.03.1944, p.8. Na Revista Leitura, de fevereiro do mesmo ano, p. 34-5, um autor que assina com as iniciais B.M., também publicou um artigo intitulado “Em defesa de Romain Rolland”, no qual reproduz artigos de Maximo Gorki e Aníbal Ponce sobre Rolland.
A crítica de Wilson Martins é contundente, mas se houve um movimento deliberado e sistemático de “vigilância” partidária, ou promoção de campanhas difamatórias por parte de Dalcídio Jurandir, é difícil de afirmar, como faz com tanta segurança esse crítico, pois o mesmo não cita suas fontes e a distância temporal desses acontecimentos e a morte dos envolvidos impede o confronto com outras versões. Mais difícil ainda torna-se relacionar tais episódios ao ostracismo vivido pelo autor, especialmente se confrontarmos esse com outro episódio que pode ter marcado (e condenado) a trajetória literária de Dalcídio Jurandir, relatado por Jorge Amado em seus apontamentos de memória enfeixados no livro Navegação de Cabotagem (1992), também mencionado por Wilson Martins em seu artigo. Segundo o escritor baiano, por ocasião do Segundo Congresso da Associação Brasileira de Escritores (ABDE), no ano de 1949, em que houve intensa batalha pelo controle da Diretoria, Dalcídio Jurandir, atendendo às recomendações do Partido Comunista, “arrancou a muque, das mãos do poeta Carlos Drummond de Andrade, o livro de atas da reunião” (Amado, 1992: 326). Segundo Jorge Amado, o que restou do fato na memória dos escritores foi um Dalcídio marcado como “vilão principal”, embora o escritor paraense fosse uma “doce e terna criatura”, apenas sendo fiel às suas convicções e às ordens de seu partido (Amado, 1992: 327). O fato voltou a ser comentado por ocasião das negociações para a atribuição do Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1972, quando houve “resistências numerosas, obstinadas” contra o nome de Dalcídio Jurandir, mas que teriam sido vencidas pelo esforço de Jorge Amado (Amado, 1992: 327).
Por outro lado, como diz Antonio Candido, “temos uma tendência quase invencível para atribuir aos grandes escritores uma quota pesada e ostensiva de sofrimento e de drama, pois a vida normal parece incompatível com o gênio” (Candido, 1977: 15), o que pode fazer com que o leitor apressado torne relevante o que seria mero incidente na vida de um escritor, ou interprete como perseguição política o que pode ser apenas o esquecimento ou o descaso, mesmo porque um escritor bastante lido e apreciado como Jorge Amado também teve participação ativa no Partido Comunista. Resguardadas essas possibilidades, é provável, ou possível, que o insulamento do escritor paraense seja apenas mais um entre tantos outros de bons escritores esquecidos, dos quais a historiografia da literatura brasileira é abundante. Não é o caso, aqui, de elevar ou mesmo “canonizar” Dalcídio Jurandir, até porque a “canonização” crítica não garante a construção de uma comunidade de leitores, mas investigar o seu lugar na literatura da Amazônia e, por conseqüência, na literatura brasileira.
O fato é que, apesar da relevância e da amplitude da obra, da meticulosa construção de personagens e situações, o escritor paraense não conseguiu formar uma comunidade
consistente de leitores, que se renovasse ao longo do tempo, mesmo durante sua vida. No processo de tornar viva a obra de um autor, a crítica, que desempenha importante papel, pouco espaço dedicou aos romances de Dalcídio Jurandir, em geral apenas notas de rodapé ou comentários de passagem, enumerando-o entre vários outros escritores.
Nos últimos anos alguns esforços isolados foram realizados no sentido de reavaliar a obra e a importância da ficção de Dalcídio Jurandir, sendo por esse motivo que há relativamente poucos trabalhos acadêmicos acerca da obra do escritor.
No entanto, especialmente a partir da década de 1990, surgiram alguns importantes estudos enfocando diferentes aspectos de sua ficção. O primeiro trabalho a se considerar é a dissertação intitulada “Marinatambalo: construindo o mundo amazônico com apenas três casas e um rio”, de Enilda T. Newman Alves (Alves, 1984), enfocando o lugar mítico criado por Dalcídio Jurandir e que aparece ou é mencionado em vários de seus romances. Outro trabalho relevante é a tese de doutorado “Dalcídio Jurandir: da re-velação da Amazônia ao sul”, de Olinda Batista Nogueira (Nogueira, 1991), que traça um panorama da obra do escritor e sua recepção fora da região amazônica. Em dois trabalhos de Rosa Assis (1992 e 1998) é analisado o intenso diálogo da ficção desse escritor com a linguagem falada e com o homem e a paisagem amazônicos, os quais são apropriados e transfigurados pela ficção, sendo que o primeiro texto enfoca as peculiaridades lingüísticas da obra do autor e o segundo é uma edição crítica do primeiro romance de Dalcídio Jurandir, Chove nos campos de Cachoeira, de 1941.
É importante mencionar a obra “Aquonarrativa: uma leitura de Chove nos campos de Cachoeira”, de Paulo Nunes (Nunes, 2001), que trata da onipresença da água na obra de DJ, em contraposição à sedenarrativa, característica da prosa de Graciliano Ramos segundo o autor. A relação intertextual que se estabelece entre histórias orais da Amazônia e a narrativa de Dalcídio é o tema da obra O entorno da serpente: um discurso do imaginário tecido em verbo e imagens, de Josse Fares (Fares, 2001). As dissertações de Zélia Amador de Deus e Elizabete de Lemos Vidal, defendidas em 2001 analisam o regionalismo e o racismo, entre outras questões, na obra de Dalcídio Jurandir (Vidal e Deus, 2001). Recentemente, foi defendida por Marli Tereza Furtado a tese de doutorado intitulada “Universo derruído e corrosão do herói em Dalcídio Jurandir” (Furtado, 2002), que analisa alguns aspectos dos romances que compõem o ciclo, do ponto de vista do protagonista. Além desses há que se mencionar artigos esparsos em revistas como, por exemplo, o artigo de Pedro Maligo (1992) e em livros, como o de Salim Miguel (1986). Há, ainda, um capítulo na História Crítica do Romance Brasileiro, de Temístocles Linhares (1987), prefácios nas próprias obras do autor,
como o de Vicente Salles, para Marajó (1978), verbetes em dicionários (ver Menezes, 1969; Moisés, 2006), além de um número especial da Revista Asas da Palavra, publicada em 1996 pela Universidade da Amazônia/Unama, de Belém.
De maneira geral, não houve uma tentativa de interpretação da transfiguração desse extenso espaço que é a Amazônia paraense em ambiente romanesco como a que se propõe nesta tese acerca de Dalcídio Jurandir. Se há análises do espaço essas se mostram pontuais e servindo a outros objetivos do pesquisador. Na análise que aqui se empreende, parte-se da hipótese de que a escolha de um personagem em franca aprendizagem, obrigado a deslocar-se em busca de abertura de novos horizontes, que é, aliás, a configuração básica do romance como gênero, como o personagem Alfredo, é determinante para que o mapeamento da região, dos problemas vividos por seus habitantes, dos pequenos e grandes dramas que se passam no isolamento do interior, seja vívido e verossímil, escapando ao perigo do Naturalismo, à literatura como documento e ao pitoresco do regionalismo ou mesmo, ainda, à literatura engajada.
Em romances pertencentes à saga, Alfredo é personagem recorrente e eixo em torno do qual se desenvolvem os enredos de nove deles. Dentre eles foram escolhidos três para análise mais detida por sua representatividade, conforme relação a seguir, na qual estão sublinhados os romances que pertencem ao corpus básico e entre parênteses constam o ano da primeira edição e as abreviaturas que poderão ser utilizadas deste ponto em diante:
1. Chove nos campos de Cachoeira (1941) (CCH)
2. Marajó (1947) (MRJ)
3. Três casas e um rio (1958) (TCR) 4. Linha do Parque (1959) (LPQ)
5. Belém do Grão Pará (1960) (BGP)
6. Passagem dos Inocentes (1963) (PIN)
7. Primeira Manhã (1967) (PMN)
8. Ponte do Galo (1971) (PGA)
9. Os habitantes (1976) (OHB)
10. Chão dos Lobos (1976) (CLB)
11. Ribanceira (1978) (RIB).
No primeiro romance da série, Chove nos campos de Cachoeira (1941), Alfredo já aparecera, mas ali ele ainda era um personagem periférico, com os conflitos de seu irmão
Eutanásio ocupando o primeiro plano. Dessa forma, é em Três casas e um rio, de 1958, que se configura realmente a obsessão do personagem em ir estudar em Belém e o empenho da mãe, D. Amélia, em realizar o sonho do filho. Entre os romances que têm por cenário a cidade, Belém do Grão Pará (1960) é o mais consistente e aquele em que o personagem, novato e curioso pelo novo espaço, a tudo explora com mais disposição. Já em Ribanceira (1978), podemos acompanhar, por fim, o que o longo aprendizado fez com o olhar do personagem, cuja volta ao espaço do interior é acompanhada por uma ironia bastante significativa de sua experiência.
Como veremos no próximo capítulo de análise dos três romances do escritor Milton Hatoum, na obra do escritor amazonense o espaço ficcional deixa de ser externo, aberto, amplo como em Dalcídio Jurandir, para concentrar a ação na intimidade das casas, nos conflitos familiares, com poucos deslocamentos pelas ruas e praças da cidade de Manaus, e o tema da viagem – a busca – já aparece com outras funções, até mesmo pelas diferentes épocas em que cada autor começou a realizar sua obra e também os distintos objetivos implícitos nos projetos ficcionais de cada um. Já fora ultrapassada a época do mapeamento do país e dos grandes painéis, da intensa busca da geografia nacional, e agora possivelmente o que interessa ficcionalizar são as “histórias da vida privada”.
2. De como três casas e um rio transfiguram um mundo
A obra de Dalcídio Jurandir, planejada desde a década de 20 para ser um grande painel da vida amazônica, pelo menos se levarmos em conta os manuscritos do autor (ver nota 2), previa várias romances com títulos diferentes daqueles que saíram editados e Belém do Grão Pará, por exemplo, foi anunciado, em excerto publicado em jornal (sem identificação e sem data, no acervo citado), com o título de “São João do Bruno”. Muitas obras também foram finalizadas muito antes de terem sido publicadas, possivelmente para obedecer à cronologia e ao desenvolvimento da trama planejados pelo autor.
Como foram selecionados apenas três romances para análise mais acurada, em uma série de 10 romances de ambientação amazônica, dos quais Alfredo participa de nove, para que o leitor possa situar-se nesse percurso do personagem os demais foram abordados de forma sumária seguindo a ordem de publicação. Excepcionalmente, os outros sete romances compareceram com exemplos consistentes para enriquecimento dos aspectos analisados. Na