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Yapay Sinir Ağlarının Eğitimi ve Yapay Sinir Ağları Kullanılarak

5. DENEYSEL ÇALIŞMA SONUÇLARI

5.1. Yapay Sinir Ağlarının Eğitimi ve Yapay Sinir Ağları Kullanılarak

Esse é o nome com que William encabeçou uma série de cartas escritas à família e aos amigos219 e também será o título do livro que está tentando escrever. As cartas falam de um período de grande revolta e perplexidade, em razão da demora e insensatez da Justiça em seus sucessivos apelos processuais. Enquanto desempenhou papéis de liderança, a organização representava uma defesa, e espelhava a identidade que desenvolveu para si. Enquanto esteve no cárcere ele foi fiel a essa identidade.

Sendo um preso rebelde e contestador, atraiu para si muita vigilância e violência nos estabelecimentos em que esteve, e da direção do Departamento de Sistema Penitenciário. Parte da rebeldia era estratégia de sobrevivência dentro dos parâmetros que estava escolhendo para si: a defesa de sua individualidade, a construção da imagem, da identidade de luta contra a submissão impressa pelo cárcere. Dentro de uma cela da Penitenciária Dr. Serrano Neves – Bangu 3, ele escreve:

15:00 há concentração de quase todos, estão voltados para o jogo do Brasil e Noruega, enquanto isto a televisão faz a cabeça, mas vamos burlando o que nos faz mal, na busca do equilíbrio necessário à calma e saúde mental. Pois, se não conseguir este equilíbrio, fatalmente vem a loucura nas suas diversas manifestações, as vezes incuráveis diante da organização social dividida em classes que estigmatiza, discrimina e no último estágio elimina física ou mental220.

Enquanto forjava uma identidade ligada à rebeldia e solidariedade interna, William buscava escapar da prisão. Tentou e conseguiu fugir várias vezes, na maior parte delas liderando a fuga, tornando-se conhecido como um preso fujão, um tatu. Em seus escritos anteriores à união com a companheira Simone Barros Corrêa, e à constituição da família, os planos de fuga eram frequentes e reeditados. Ele costuma afirmar que tem dois orgulhos na vida: ter constituído e mantido a família e ter fugido da Ilha Grande. No documentário Senhora Liberdade221, ele diz: “Estou condenado a 35 anos, 36 anos e eu tenho sorte porque

219 Outra série de cartas tem o nome de À Flor da Pele. Em meio ao texto delas, ele menciona frequentemente

caverna quando se refere à prisão onde se encontra.

220 Carta à família em 22/06/1998.

eu fugi, senão eu seria um trapo humano, entendeu? (...) A liberdade para quem vive nesse inferno é como nascer de novo. E eu quero nascer de novo”.

Separei alguns momentos em que William da Silva Lima fala sobre fuga. Quando no Presídio Ary Franco ele afirma “o pensamento era o mesmo: fugir” (LIMA, 2001: 77). Lamentando a morte do companheiro Heleno ele diz, elogiosamente: “Pois é, sujeito de valor, tinha uma história de conduta séria: vivia furando parede, arrumando jeito de ir embora” (idem: 87). “Para mim 1980 começou melhor. Fugi.” (idem: 93). Sobre a decepção de uma fuga frustrada, “(...) acabei de volta a Água Santa (presídio usado para castigo). Mas estava vivo. Podia fugir novamente” (idem: 98). Em documento do ano de 1980222

, ele compara a nova vida: “(...) diferente do estado de espírito quando me preparava para tentar fugir, que sabia que era tudo ou nada, morrer, fugir ou ser jogado no hospital em estado de coma”.

Abaixo está reproduzida uma folha com uma poesia escrita por ele no ano de 1964223. Como se vê, continha a percepção social crítica que manteve, embora à época, ainda fosse bem jovem.

222

Acervo da autora.

5.4.3 Simone

Desde o início de 1984, William manteve um relacionamento apaixonado com Simone Barros Correa Menezes, uma estagiária de Direito do Departamento de Sistema Penitenciário, DESIPE, que conheceu prestando serviço na Ilha Grande. Essa relação foi fundamental para a vida do preso. Arrisco-me a afirmar que a relação foi vital para ele. Sua atenção permanente cobrou de autoridades segurança para ele, benefícios legais que eram recusados, cuidados médicos, transferências. Ela se tornou conhecida no sistema prisional, uma familiar insistente e cobradora, que transformou sua vida em militância, e assume que passou a exercer a diplomacia na prisão, junto a autoridades, foi a diplomacia da marginalidade. Reconhece hoje que tinha – e tem – personalidade fortíssima, feroz. Diz, ainda, que a marginalidade desagrega, destrói as pessoas, as famílias, e que ela e o marido são exceção, como família, o que considero indiscutível.

Continuam casados, apesar de inumeráveis problemas pelos quais passaram, a começar pela criação solitária dos três filhos, e por mais de 25 anos de prisão em seu cotidiano:

O rádio toca João Bosco “(....) O amor quando acontece a gente esquece que sofreu um dia...” desde que te conheci me tornei mais humano, mais calmo,

mais gente. Isto não quer dizer que eu fosse uma pessoa perversa, cruel, sem sensibilidade, mas cultivava a dureza de quem vive em guerra, sempre preparado para se defender e atacar. E não se tratava de um comportamento anormal pelo ambiente em que vivia e vivo224.

No dia seguinte ao dessa carta William escreve novamente a Simone:

Somos pessoas além de especiais, somos divinamente privilegiadas na vida. As vezes, e quase com certeza penso que já éramos parceiros há milênios na história do Universo e estava certo o nosso encontro nesta vida. Apesar das amarguras da minha ausência por estar preso me sinto um privilegiado e apaixonadamente feliz. Olho para nossos filhos e uma emoção indescritível me envolve, um sentimento gostoso225.

224 Carta a Simone, escrita em 20/6/98, na Ilha Grande, quando estavam juntos há 18 anos. 225 Carta a Simone em 21/06/98, escrita às 11hs.

Ela foi o grande apoio que ele teve para organização de uma família que foi mantida bem unida e sintonizada com as questões presentes na vida do pai. Um pai preso por quase toda a vida dos quatro filhos226, exceto nos momentos em que esteve foragido. Assim, orgulha-se de ter visto dois dos filhos nascerem, em momentos que procurara estar fora da prisão:

Tenho na minha lembrança o nascimento dos nossos filhos que tive o privilégio de acompanhar, foi uma experiência maravilhosa e extremamente humana, aprendi muito com eles, reforcei meu amor pelo ser humano, afundei com carinho e ternura no meu amor por você, entendendo mais o que significa ser mãe (...) e com certeza estes anos que estou na prisão não esmoreceram esta experiência mais do que divina227.

De fato, os sentimentos gerados pela união com Simone e pelos filhos funcionaram muito positivamente na vida de William. O casal optou por não ambientar os filhos na prisão, ou seja, não permitir que a visita semanal tornasse a prisão um universo normal. Impediram a convivência deles em um ambiente que consideravam nocivo. Considero essa decisão bastante equilibrada, especialmente considerando o fato de que a presença dos filhos poderia ter alegrado enormemente a vida deste preso, que, aqui, mostra que agiu como pai, e não como preso. Assim, ao longo de todos os anos em que esteve preso, os filhos foram visitá-lo a cada espaço de tempo acordado, ou em ocasiões especiais, durante uma época, ou com espaços bem maiores do que o habitual:

Nossos filhos me visitam de dois em dois meses para poupá-los das humilhações que os familiares sofrem para estar com nós, e também não atrapalhar os estudos deles. Dá saudade mas prevalece uma lógica que consideramos certa, pois, queremos que eles sejam pessoas que nos respeitem e respeitem seus semelhantes, resumindo que amem com toda a força criadora deste divino sentimento228.

226 O filho mais velho ele teve com Dalva, figura importante em sua vida, com quem foi casado, bem antes de encontrar Simone.

227 Carta a Simone, sem data, escrita em 1998, as 19h30 horas. 228 Carta à família em 22/06/1998.

Incontáveis vezes ele afirma que o casamento lhe trouxe mais equilíbrio, legitimidade, proteção e oportunidades229.

Figura 22. Simone e William com a filha Marina Morena, em 1986.

Essa imagem de William poderia parecer incongruente com a parte pública de sua vida, como um assaltante de bancos, mas “arquivar a própria vida é se por no espelho, é contrapor, à imagem social, a imagem íntima de si, e nesse sentido, o arquivamento do eu é uma prática de construção de si mesmo e de resistência” (ARTIÈRES, 2004: 11). William costuma dizer que após o encontro deles, em todas – todas - as fotos que Simone aparece, ela está sorrindo. De fato, nas fotos que vi ou que tenho dela, há sempre um sorriso no rosto, como pode ser constatado na foto acima (figura 23).

Analisando-se os documentos escritos por William, nota-se que duas palavras parecem ser referência: saudade e liberdade. Em quase todas as suas cartas, e centenas de documentos e relatórios, e mesmo em filmagens, essas palavras são onipresentes, sublinhadas por riscos à caneta, circundadas por desenho de corações ou flores, promessas e previsões de chegada, como um mantra, uma direção, uma exigência à vida. Na correspondência com a

229

Sobre a relação da família e as consequências da interação da mesma com a prisão ver SOUZA, 2005; ABRÃO, 2010; SANTA RITA, 2009; STELLA, 2006; JARDIM, 2010; BECKMAN, 2007; GODOI, 2011; NASCIMENTO, 2005; MYASHIRO, 2006; LOPES, 2004; BARRETO, 2006; SILVA, 2008; SILVA, 2007.

mulher, Simone, e com os filhos, estão as palavras mágicas, adotada por todos, como um norte a mover a família inteira: saudade e liberdade.

Sua filha, Marina Morena, em carta escrita no dia de seu aniversário, diz: “Pai, eu te amo”, e reclama de sua ausência “tenho 11 anos eu já não aguento mais”, “Salve a liberdade”. “Pai estou morrendo de saudades, pai nunca vamos te esquecer” (figura 24).

Figura 23 - Cartão escrito pelos filhos para William, sem data.

Nas cartas, cartões e mensagens trocadas com as crianças, notam-se os mesmos assuntos presentes em qualquer relação de pai e filhos: notícias da escola, notas, provas, queixas de irmãos, relatos de atividades fora da escola, saudades, esperança de reunião da família e, mesmo, pedido de relaxamento do castigo. Castigo este, determinado e cumprido distante de onde vive o pai, mas aproximado pela relação emocional que os ligava.

É inusitado conhecer essa face de chefe de uma família que ele organizou de dentro da prisão230. No bilhete a seguir (figura 26) o filho Demétrio diz: “pai você deicha eu sair do castigo pur favor pai você deicha sim ou não eu teamo pai eu vou tirar os oitos pontos pai eu te amo. Assinado Demetrio”.

230

Alguns trabalhos recentes analisam a influência da prisão no exercício da paternidade e da maternidade, nas relações familiares e em seu futuro, entre eles: SILVA, 2007; LOPEZ, 2004; JARDIM, 2010; LIMA, 2001; BARRETO, 2006; MYASHIRO, 2006.

Figura 24 - Bilhete escrito por Demétrio para o pai231.

O acervo de escritos trocados entre William da Silva Lima e Simone, durante as décadas de 1980 e 1990, e parte da década de 2000, contém algumas centenas de cartas, cartões, versos, músicas, bilhetes e algumas fotos232. As cartas, trocadas diariamente, no decorrer de décadas, falam por si, justificando, também, a afirmação de que “a escrita de si e também a escrita epistolar podem ser (e são com frequência) entendidas como um ato terapêutico, para quem escreve e para quem lê” (GOMES, 2004: 19). Entendo que a afirmação cabe perfeitamente ao casal, cuja ininterrupta e incansável correspondência facilitou, ou, mesmo, permitiu que se mantivesse ocupado com o bem-estar e os sentimentos comuns.

Na carta abaixo, ilustrada com desenhos de muitas flores, borboletas e frutos – e fortes raízes expostas - Guilherme escreveu: “Pai eu te amo ás vezes eu sonho com você e quando eu acordo eu choro por que eu não estou com você. Minha mãe chora de tristesa por que sem você minha mãe não vive. O Demetrio pega muito no futebol e ele está muito levado. A

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O bilhete de Demétrio diz: “pai você deicha eu sair do castigo purfavor sim ou não eu te amo pai eu vou tirar

os oito pontos pai eu te amo assinado Demetrio”.

marina está fazendo retiro de jovens na igreja perto da nossa casa. Beijos Pai. Guilherme. A vida tem que ser aproveitada”.

E William escreve em carta à família, após um dia de visitação233:

As crianças estão maravilhosas, fico deslumbrado com eles e uma vontade intença toma conta de mim desejando viver o dia a dia de vocês. Ter a participação humana de ser pai, mas falta menos do que faltava (para ser libertado e se juntar a eles) e o equilíbrio que trás a calma necessária para superar a dor da ausência (temporária é claro!)!!

Assim, reafirma-se a possibilidade de presos como William e André terem mantido relações pessoais duradouras e produtivas, uma realidade que se opõe à consideração de que a prisão, necessariamente, significa o fim das relações familiares, como bem apontam Godói (2011) e Biondi (2010), esta com o exemplo próprio. A perda ou a modificação radical dos laços familiares parece ocorrer, sim, na maior parte dos casos, mas não na totalidade234. E, hipoteticamente, não somente em razão dos efeitos da prisão, já que muitos casos poderiam ter chegado ao mesmo resultado, ainda que não houvesse cumprimento de pena.

Benzer Belgeler