3. MATERYAL ve METOT
3.2. Buğday Kalitesinin Belirlenmesi
A conotação política da vida de William fora da prisão é nublada e fragmentada. Parece mais o relato de alguns momentos em que foi seduzido pela ambiência de luta, reação, movimentação de grupos de protesto e de ação. Mas também são fragmentos o que exponho aqui, e que, embora possam ser bem mais frequentes são os que tive condições de encontrar durante a pesquisa. De todos os presos de quem coletei escritos e memórias, William é o único que parece ter tido algum contato com alguns militantes políticos antes de entrar na prisão. Menciona ter tido participação no MR8 e em movimentos de trabalhadores rurais. Sua participação parece extrapolar o que poderia ser tomado como uma construção fantasiosa de sua vida. Há alguns registros formais de sua movimentação antes de ser preso, e também do intervalo proporcionado por fugas. No documento confidencial212 da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, de 21/05/1981, de cujas conclusões sempre é possível duvidar, já que as informações costumavam ser obtidas mediante torturas, lê-se:
211 Entrevista à autora em 15/11/2011.
Registra, em 68 (William), ter apoiado ações de organizações subversivo- clandestinas, bem como ter trabalhado para a obtenção de apoio da massa carcerária e seus familiares, visando às candidaturas de Antonio Modesto da Silveira e José Eles de Freitas.
Desde o Ato Institucional nº 2, de 1965, os presos políticos não eram mais julgados pela Justiça Federal, tendo passado à jurisdição da Justiça Militar, que, em sua Primeira Instância, era exercida pelas Auditorias de Guerra, presentes nos estados, segundo os Código Penal Militar e o Código de Processo Penal Militar.
Mas a edição da Lei de Segurança Nacional, o Decreto-Lei 898 de 28/09/1969, trouxe mudanças mais significativas à área da segurança pública. Essa legislação refletiu as restrições impostas pelo Ato Institucional nº 5, editado em dezembro de 1968. Através do artigo 27 da Lei de Segurança Nacional, os roubos a bancos e instituições financeiras passaram a ser investigados e interrogados pelos órgãos montados pela ditadura militar. Portanto, todos os assaltantes de bancos passaram a ser enquadrados na LSN. As penas foram dobradas, em relação ao roubo, tal como está no Código Penal, e passaram a incluir prisão perpétua e pena de morte.
Já no ano de 1967, foragido, William havia sido acusado de participar de atividades políticas contra a ditadura militar, mantendo uma gráfica no quarto em que estava morando, e fazendo panfletos de protestos, que eram distribuídos na Cinelândia213, o que ele confirma.
Em 1973, também foragido, após ser preso pela tentativa de roubo à agência do Banco de Crédito Territorial S/A, em Engenho de Dentro, a conclusão do interrogatório – sempre suspeita de ter sido obtida sob tortura - é a de que ele estaria praticando assaltos para realizar atividades supostamente políticas:
Conforme declaração do epigrafado o dinheiro resultante do assalto seria empregado em subversão, para compra ou aluguel de imóvel destinado a
servir de “aparelho”, no qual seria instalado um mimeógrafo para expansão
de propaganda de organização terrorista214.
213 Prontuário do Departamento Geral de Ordem Política e Social, Pasta n° 48.775, constante do Prontuário GB do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Informação n° 2, MEM n° 50 SE-DOPS SO-SOP, de 10/02/1967.
Desse modo, no ano de 1973 William já estava condenado a 45 anos de reclusão, sendo três condenações por Auditorias de Guerra e uma condenação anterior, pela 11° Vara Criminal da Comarca do Rio de Janeiro. Essas condenações foram expandidas, pois, no Prontuário GB do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro/DOPS, em interrogatório, William da Silva Lima teria confessado que, após uma de suas fugas (em 3/01/1973), participara de assaltos a bancos com diversos companheiros.
Independentemente de sua proximidade com alguma organização de esquerda ter ocorrido, e, tendo ocorrido, possivelmente ter sido frágil e eventual, ele foi uma liderança importante no sistema penitenciário comum, não político. Reunia as características consideradas pela massa carcerária como essenciais ao preso de respeito: preso responda215: era confiável, não criava problemas para companheiros, sabia que havia questões que atingiam a coletividade e que, ainda que não o atingissem particularmente, mereciam apoio; não era voltado para a prática rotineira da violência, buscava soluções através de diálogo, inclusive com a administração. Respeitava e participava da imposição de novas regras, ou de regras ainda não assimiladas pela massa carcerária, como a proibição de furto e roubo, de violência sexual entre presos216. Segundo William afirma, o traficante Isaías do Boris, muito conhecido pelas polícias, afirmava que ele (William) era o equilíbrio da penitenciária em que estivesse217. Essas características foram essenciais para a manutenção de sua vida no sistema prisional, mesmo anos após o fim do domínio de seu grupo, a primeira geração do Comando Vermelho, substituído por outros sem compromisso com a organização inicial e com os interesses da massa carcerária. Falaremos mais sobre o assunto no Capítulo 8.
Em documento confidencial da Polícia Militar do Rio de Janeiro218 William é mencionado como sendo “de alta periculosidade, assaltante de bancos, integrante do ‘grupo da Lei de Segurança Nacional’ e líder de toda a massa carcerária do Presídio da Ilha Grande, bem como de outros Institutos Penais do Estado”.
215
Referência a preso de responsabilidade, cumpridor de seus deveres junto à comunidade prisional. 216
Embora essas noções de convivência respeitosa sejam tidas como surgidas a partir da organização do Comando Vermelho, ou, mesmo, a partir da entrada dos políticos no meio prisional, André Borges já as menciona, como vimos anteriormente, quando relata alguns aspectos do início de sua vida prisional.
217
Afirmação feita em 13/07/2014.
218 Informe n° 151 – 20/82/PM-2/PMRJ, de 04/05/1982, constante do Prontuário do Departamento Geral de Ordem Política e Social, Pasta n° 48.775, do Prontuário GB do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.