No ano de 2006, após quase quatro décadas de encarceramento em diversas prisões, ele se aproveitou de uma visita ao lar e não retornou à prisão: abandonou a longa rotina de custódia que enfrentou, e que, a partir da década de 1980, compartilhou com a mulher e com os três filhos que foram nascendo. Após descumprir as regras do benefício da saída, William exilou-se no pequeno apartamento em que sua família estava vivendo, em Copacabana, alugado por temporada, pela falta de fiador. Embora a esposa, Simone, tenha feito tudo para que ele retornasse à prisão e aguardasse a saída por vias legais, William recusou-se terminantemente, e isto veio a consistir uma forte e longa desavença entre os dois.
Abrigar um fugitivo da Justiça trouxe muitos problemas: para que não fosse descoberto o seu paradeiro, os filhos abandonaram estudos e trabalho; a mulher saiu do emprego – já que os estudos na Faculdade de Direito ela já havia abandonado em 1984, logo
233 Carta de 20/07/98.
234 Sobre um quadro amplo de atitudes e sentimentos que giram em torno de família e de visitação ver “Casadas
com o Crime”, de Josmar Jozino, e “Junto e Misturado”, de Karina Biondi.
235 Esse é o nome dado por William a outro conjunto de cartas escritas à família e a amigos durante a década de 1990. Diz que será o nome do livro que está pretendo escrever.
no início da relação deles. Com a saída inesperada, concentraram-se na sobrevivência, contando com a ajuda de alguns amigos. Foram cinco anos de penúria, enfermidade, desentendimentos, várias mudanças de endereço, muita tensão. Simone e a filha Marina Morena haviam contraído tuberculose236. Para a família, um peso e preocupação ainda maiores do que a preocupação e o peso anteriores, quando, durante muitos anos todos trabalhavam para ajudar seu sustento na prisão; para a mulher visitá-lo em diversos estabelecimentos, tentar protegê-lo, frequentar a Vara de Execuções Penais, gabinetes de juízes e de autoridades em busca de brechas judiciais que o libertassem.. Ele não foi recapturado, embora a família e os amigos estivessem certos de que seria impossível que as delegacias de Polícia Civil do bairro não o tivessem localizado.
William escapou da prisão muito debilitado, doente e precisando de cuidados médicos. Aos 73 anos, é portador de sequelas neurológicas muito graves em razão do longo tempo confinado, da precariedade da alimentação, da escassez de remédios, da tensão permanente e de espancamentos sofridos. Um deles, em especial, em 1983, como reação a uma tentativa de fuga fracassada, no Complexo Frei Caneca, quando foi violentamente agredido com uma barra de ferro, quando se encontrava rendido e deitado, e que lhe causou traumatismo crânio-encefálico, provocando permanente epilepsia sintomática e labirintite traumática.
Desde os fatos ocorridos durante essa tentativa de fuga, ele foi atendido pelo psiquiatra Cauby Araújo. Por vários anos, o médico o visitou em estabelecimentos do sistema prisional, aconselhou, prescreveu medicação controlada, parte da qual conseguia gratuitamente, preparou os laudos necessários à instrução de diversas etapas dos processos. Em um desses laudos o Dr. Caubi atesta as agressões sofridas237: em novembro de 1983, quando exercia o cargo de coordenador de saúde penitenciária do DESIPE, foi chamado ao Instituto Penal Milton Dias Moreira, em razão de haver presos feridos em uma tentativa de fuga: “Lá chegando encontrei o interno William Silva Lima, atingido na cabeça por golpes de barra-de-ferro, tendo encaminhado o mesmo para internação no Hospital Souza Aguiar, devido à gravidade do seu caso”. E prossegue:
236
Toda a família de William contraiu tuberculose. Ainda nesse ano de 2014, oito anos após a sua saída do cárcere, a esposa e dois de seus filhos são portadores da doença.
Em consequência dos golpes sofridos, William teve contusão cerebral e comprometimento do órgão do labirinto, resultando daí quadro epiléptico com desmaios e convulsões, zumbidos e perda do equilíbrio crônicos, e
prejuízo acentuado na audição do ouvido direito. Na época, por não haver
neurologista no sistema penal, passei a atendê-lo com frequência, tornando- me seu médico particular, por caráter humanitário238.
O preso desenvolveu uma amizade profunda pelo médico, que o acompanhou em vários estabelecimentos em que esteve, garantindo que não faltasse a medicação indispensável, que o sistema prisional não fornecia, e a família não teria condição de comprar. Em escrito da série Diário da Caverna, em 1998, ele diz:
Caubi tem um significado muito marcante em minha vida, ele é uns dos mais competentes neuropsiquiatras. Conheci ele em 1983, quando numa tentativa
de fuga fui “agraciado” com uma barrada de ferro na cabeça, tive hemorragia
interna e fui removido para o hospital Souza Aguiar, onde me socorreram, inclusive com transfusão de sangue face a grande perda com a hemorragia. (...) 239.
Mas, em 2011, o psiquiatra Cauby Araújo faleceu.
Ainda no período de cinco anos em que esteve foragido, e por recomendação de amigos e conhecidos, William chegou a um advogado pro bono, na tentativa de conseguir se entregar à Justiça sem ter que retornar à penitenciária. Requereu prisão domiciliar e, para viabilizar o cumprimento das condições necessárias à obtenção do benefício judicial, demonstrou que atualmente está colaborando em uma pesquisa acadêmica sobre o sistema prisional. Os argumentos compilados pelo advogado foram aceitos pela juíza, e, desde 07 de julho de 2011 ele pode aproveitar o dia, entre as 06h00minh e as 18h00minh, cumprindo o restante da pena em regime de Prisão Domiciliar com Monitoração Eletrônica.
Portanto, embora identificado como líder do grupo chamado de Comando Vermelho, o que impediu que lhe fossem concedidos os benefícios a que teve direito enquanto preso, William finalmente – e agora legalmente – está fora da prisão..
William procura escrever e é convidado para dar palestras em algumas universidades da cidade, já que não pode se afastar da mesma. Fala sobre suas experiências e busca chances de gerar recursos à família, agora já com dois netos, nascidos em 2011 e 2012. Além de
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Laudo do psiquiatra Cauby Araújo, de 14/01/2008, acervo da autora.
escrever outro livro sobre sua passagem pelo sistema prisional, e reeditar o livro 400 Contra
Um, que está sendo editado na França, ele quer reativar a Associação de Familiares e Amigos
de Presos – AFAP- e lutar pelos direitos de presos e familiares.
Como disse antes, está tentando publicar a terceira edição do livro Quatrocentos
Contra Um, que há alguns anos está esgotado, e virou filme em 2010. Seria uma possibilidade
imediata de entrada de algum recurso para participar da subsistência da família. No entanto, ele acha que não deve, simplesmente, lançar outra edição, e sim, complementar o novo livro: colocar nele “algumas poesias, para que vejam o meu lado humano, percebam que tenho sentimentos, que também sou gente” 240
. A edição francesa acaba de sair como ele quis, enriquecida com fotos e poemas seus.