• Sonuç bulunamadı

Inicialmente, André Borges foi mantido preso no prédio da Polícia Central, na Rua da Relação, no centro do Distrito Federal. Novamente, a imprecisão da data: “Em 57, por aí assim, 58, mais ou menos”.

Ele fala da convivência no presídio e revela suas atitudes: revolta, rebeldia, organização, processo de conscientização. Embora tivesse apenas o curso primário, e nenhuma formação política, revela que lia muito, autores clássicos, literatura política. Não fica claro se ele já lia anteriormente ou se passou a se interessar por livros, à medida que teve acesso a eles, na Penitenciária Professor Lemos Brito, hipótese que parece mais acertada, pelo conjunto de informações. Tinha 24 anos à época e foi designado por guardas como xerife de uma cela do Presídio Hélio Gomes:

189 O jornalista Julio Ludemir relata situação semelhante, ao entrevistar o ex- preso Paulo Cesar Chaves para a elaboração do livro O Bandido da Chacrete. Frente a seus seguidos pedidos de esclarecimentos, precisão nas

informações dadas, Paulo Cesar repete várias vezes a reclamação: “lá vem você com a porra do detalhe”

(LUDEMIR, 2007: 352).

Em uma cela de 10 x 10, tinha de 30 a 40 presos. (...) Ser o xerife da cela significava você ter o comando da cela. E expliquei pros cara que não iria acontecer naquela cela o que estava ocorrendo nas outras celas.

Aqui não vai ter estupro, não vai ter ninguém assaltando ninguém, não vai ter covardia. A gente tem que puxar cadeia aqui numa atitude de paz. (...) E outra coisa: ninguém mais vai roubar dentro da cela. Era uma coisa justa. As pessoas aceitaram.

Montou um sistema de divisão dos gêneros trazidos pelos visitantes dos internos daquela cela:

Então passou a ser distribuída a coisa socialisticamente. Eu reunia todas bolsas. Passou a ser coletivo. Depois que entrava na cela era usado e distribuído coletivamente. E ninguém tirava mais nada de ninguém. Tem que roubar na rua. (...) Aqui é cadeia. Tá todo mundo sofrendo. Não pode ter isso.

Medidas como essa foram tomadas por presos comuns mais conscientes, e pelos presos políticos, ao longo dos anos: impedir a violência sexual, furtos e roubos, e, ainda, estabelecer o que chamavam de cooperativas. Eram posturas integrantes da dinâmica do

coletivo, consistiam na organização de mantimentos, remédios, jornais, livros e oportunidades

– maconha, inclusão em uma fuga, acesso ao serviço médico, entre outros - que eram distribuídos pelos que não tinham como obtê-los de outra forma – não tinham visitas, não trabalhavam, estavam doentes, e, agora, estavam proibidos de furtar ou achacar companheiros. Os coletivos marcaram presença na maior parte dos estabelecimentos brasileiros, e os entendo como uma consequência natural da própria necessidade de convivência e sobrevivência em prisões. Graciliano Ramos, já em 1935 e 1936, escreve que depositava mensalmente 10 mil réis na caixa para a manutenção do coletivo da Casa de Detenção (RAMOS, 1979,1: 212).

Do mesmo modo, e diferentemente do costume de presos mais fortes explorando os demais, a limpeza da cela era feita por todos os presos que viviam ali, e André informa que191: “essa experiência se propagou. Tornou-se uma norma na prisão. É daí que vem a situação do Comando192, que era esse princípio de disciplina e ordenação das coisas”. E conclui dizendo

191 Entrevista ao escritor Júlio Ludemir em 5/04/2006. 192

Aqui, André Borges refere-se à disciplina estabelecida vários anos depois, pelo grupo que veio a ser chamado de Comando Vermelho, que incluía a formação de uma cooperativa para angariar e distribuir gêneros. Essa demonstração de exigência de comportamentos éticos é relevante, e voltaremos à questão no capítulo 7. Todos

que “lá fora que você tem que roubar. Não aqui dentro. Aqui dentro todos são iguais. São presos”.

Após a detenção de sete meses no Presídio Hélio Gomes ele foi condenado e enviado à Penitenciária Cândido Mendes, na Ilha Grande, reservada a presos indisciplinados, e aos considerados perigosos. André chegou a Ilha Grande pela primeira vez em 1958: “Chegando lá, encontro uma cadeia braba. Espancamento dos agentes penitenciários. (...). E havia a mentalidade geral da nação de que os caras que iam pra Ilha eram os piores elementos possíveis”.

Ele segue o curso da entrevista: “Aí um dia eu vim pra Lemos de Brito e consegui ficar no convívio193. É a partir daí que tem início o meu processo de fuga.” Era o ano de 1958. Note-se como admite explorar a possibilidade de fuga assim que consegue a transferência para a Penitenciária Lemos Brito. Apesar de viver em busca da oportunidade de fuga ele a encontrou apenas uma vez, em 1969. Mas fala e escreve com frequência que buscava realizar um sonho, ampliar a cultura de seus companheiros, e conscientizar a massa carcerária para ultrapassar os limites de sua condição de classe social e de presidiário. Assim, promove a própria educação, inicia a politização e se dedica à realizar o sonho que o estava encantando. Ele lembra:

Meu processo de politização foi na Lemos. Quando (...) comecei a ficar no convívio da Lemos de Brito foi que eu tomei contato com pessoas que já tinham consciência política e que tinham experiência de ter convivido com os presos políticos daquela época194.

Pergunto quanto tempo ele ficou preso na Lemos de Brito e ele diz, irritado: “Também não me recordo, assim, eu sou ruim de ficar calculando tempo, eu nunca me preocupei com esse negócio de ficar anotando nada, pra mim o tempo era curtinho, entendeu?” Mais uma vez, constato que datas, como marcas de épocas, não consistem referências significativas para os relatos de presos políticos no Brasil mencionam a organização de coletivos e de cooperativas com os mesmos objetivos.

193 Aqui, ele está dizendo que não ficou separado, em cela de castigo, e, sim, entre os demais, no espaço/situação a que chamam de convívio.

194

O entrevistado se refere aos presos e presas políticos do governo Vargas, que deixaram na penitenciária ensinamentos, livros, referências. Entre centenas deles, destacamos Apolônio de Carvalho, Luiz Carlos Prestes, Agildo Barata, Olga Benário, Hermes Lima, Maria Werneck, Eneida de Moraes, Campos da Paz, Carmem e Rodolfo Ghioldi, Rosa Meirelles, Armanda Álvaro Alberto, Haydée Nicolussi, Dinarte Silveira, Beatriz Bandeira, Moreira Lima, Benjamin Snaider, Eugênia Alvaro Moreyra, Adolfo e Renato Barbosa, Renato do Rego Barros, Edgar Süssekind de Mendonça, Nise da Silveira, Lauro Lago e Sebastião Hora.

a comunidade carcerária. Costumam se referir a “na época do guarda Jesus”, “quando

Mardoqueu estava na encadernação (no setor da encadernação)”, “pouco antes da nossa fuga”, “logo depois da chegada do pessoal de Caparaó”, “antes de matarem o C.O195”,

“depois da segunda greve de fome”, “no tempo em que o Achê escrevia os nossos

manifestos”, fatos relevantes da vida e dos personagens daquela comunidade, entronizados,

repetidos, mitificados. Nos diálogos, o tempo vai e retorna, como se não passasse, não tivesse já passado. E ali não ocorrem tantos fatos novos, característica da rotina da prisão, estão todos suspensos em um tempo medido formalmente pelas sentenças. O restante é organização, invenção, preservação, repetição, provocação, evasão, a construção de cada trajetória.

O antropólogo Roberto DaMatta, analisando rituais, rotinas e tempo, diz “os rituais permitem a sensação de uma ‘volta’ do tempo, porque prescrevem com nitidez e obsessão, um lugar para cada coisa, e então, o tempo fica congelado” (DA MATTA, 1997: 39). Os presos repetem, incessantemente, histórias que testemunharam ou que fazem parte do itinerário histórico da prisão, porque, conscientemente ou não, arvoram para a instituição o direito/necessidade do reconhecimento de um passado, condição para que haja um futuro a esperar. E um presente legítimo, que terá vindo de algum lugar, testemunho de tal história. Houve um percurso, cuja memória lhes cabe preservar. Têm seus heróis, que estão presentes em relatos de fugas espetaculares, greves de fome imbatíveis, auto incriminações para a defesa do grupo, grandes feitos que honram a cultura interna. E há os objetos de ódio, presos traidores, autoridades que descumprem tratos, guardas especialmente violentos, rixas, espancamentos sangrentos.

A noção peculiar de tempo consiste no que eles chamam de “paciência” ou “teimosia de preso”, “coisa de preso”: o dispor do compartilhamento de um tempo diverso ao da administração, e particular à comunidade intramuros; em muitas oportunidades os presos aguardam meses, anos, cultivando algum projeto, uma fuga, uma vingança, uma transferência, um pedido. Algumas vezes, o ritmo é apressado e a grande ansiedade é evidente. Assim sendo, esperam e cobram incessantemente, visitas, conquistas amorosas, transferências de estabelecimentos, cartas, refeições, presentes, decisões judiciais, festividades, comemorações. Novamente, vejo aproximação entre esse tema e os ensinamentos de DaMatta:

195 O preso Fernando Gomes de Oliveira, cunhado de Lucio Flavio Vilar Lírio, foi assassinado na Penitenciária Lemos Brito em dezembro de 1978.

Pois bem, é isso que permite controlar o tempo. É isso também que permite equilibrar o espaço, fazendo com que o mundo se torne menos indiferente e totalmente significativo, posto que ordenado por suas relações com os grupos que se combinam e se reformulam, na complexa lógica social que cada sociedade ordena para si e para seus membros (DA MATTA, 1997: 39).

André prossegue falando de suas primeiras interações no local, ainda antes do início da ditadura civil-militar, ao final da década de 1950. A partir de conhecimentos adquiridos naquele momento, ele e alguns companheiros construíram e/ou aderiram a uma rotina interna que passava pela política. Para isso usou o seu modo peculiar de lidar com a coletividade, aproveitando, também, os conhecimentos da nova vivência.

Nessa busca, recebeu a orientação de alguns presos comuns, que haviam sido influenciados por alguma forma de contato com os presos políticos que ali haviam estado durante o Estado Novo. Em outras palavras, André teve contato e influência indiretos, e se lembra de alguns desses presos, destacando Mardoqueu, Roberto Cieto, Zé Galinha, Roupa

Velha, Paulo, Bodão, Ivan, Boxer.

A biblioteca da penitenciária contribuiu fortemente para que realizasse seus projetos, como menciona elogiosa e repetidamente196. Para melhor utilizar os livros e levá-los a companheiros ainda não interessados por leitura, ou aqueles que estavam em celas de castigo, os presos recorreram à engenhosidade que costuma lhes ser peculiar: montaram um carrinho, com prateleiras sobre rodas, em cima das quais colocavam livros. Era chamado simplesmente de carrinho, e levado a diferentes partes da penitenciária incentivando muitos à leitura. André lembra:

Solicitamos à Editora Vitória197 livros mais atualizados para a biblioteca ambulante por nós organizada e assim desenvolvemos o trabalho de conscientização, politização e de organização, levado à prática por aqueles que os comunistas haviam preparado em sua passagem pelas prisões.

196

Analisando as oportunidades culturais e de ensino no sistema do Rio de Janeiro, duas décadas mais tarde, o

Ministério da Justiça afirma: “Quase todos os estabelecimentos possuem modestas bibliotecas doadas,

compostas quase que exclusivamente por antiquíssimos romances e por livros religiosos; os livros que os presos possuem e que são cuidadosamente passados de mão em mão costumam ser, frequentemente, apreendidos e, muitas vezes, destruídos pelos guardas, sob os mais diversos argumentos. Ao entrarem nos estabelecimentos, são rigorosamente censurados para que não transmitam o que cada diretor ou guarda chefe de segurança venha a considerar como "imoralidade" ou "subversão ideológica" (Relatório de Inspeção do Sistema Penitenciário do

Rio de Janeiro. Ministério da Justiça, 1982: 34).

197

Essa editora era ligada ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e publicava obras de autores marxistas. Foi a

Assíduos leitores do jornal “Novos Rumos”, passamos a escrever pequenas

crônicas, que foram publicadas no jornal (idem: 36).

André consegue ser alocado para trabalhar na encadernação, no setor de douração, então dirigido pelo preso Mardoqueu198, que ele considera um “profundo conhecedor da literatura revolucionária”199, e que é considerado pelo ex-preso Edison Mello como um “exímio tocador de pistão”200

:

André fala sobre os primeiros tempos na prisão, com Mardoqueu:

Notando o meu interesse pela leitura, iniciou o seu trabalho doutrinário me indicando os bons livros no ramo. Em função do seu vasto conhecimento no assunto, tornou-se assim o meu orientador, ensinou-me a profissão de dourador. Era um excelente doutrinador201. (...) Ficávamos horas perdidas discutindo política e filosofia. Foi quando me contou que tinha estado em contato com alguns daqueles presos comunistas (...) (BORGES, 2001: pp. 34, 35).

Mas, em pouco tempo surge uma possibilidade de solidariedade, inesperada e clandestina:

Logo, fomos contatados por uma célula comunista na prisão, integrada por agentes penitenciários, a rede de contato com o Partido Comunista e, dessa forma, punham para dentro dos muros da penitenciária a literatura marxista.

O jornal “Novos Rumos”, órgão oficial do Partido, e a revista “Problemas da

Paz e do Socialismo” também chegavam às nossas mãos (BORGES: 36, 37).

198

O preso comum Mardoqueu da Costa Moreira é citado frequentemente por presos antigos como sendo um estudioso, culto, articulador, doutrinador, tendo ensinado na escola de música que organizaram. Após ser transferido para a Penitenciária Esmeraldino Bandeira, continuou o trabalho cultural junto aos companheiros. Foi responsável pelas informações deste estabelecimento (sucursal) para o jornal Novos Rumos, editado na Penitenciária Milton Dias Moreira. Como se sabe, os presos votaram e elegeram este como o título do jornal, embora fosse o nome do jornal oficial do Partido Comunista Brasileiro. Outro companheiro de André na oficina de encadernação foi o ex-tenente Bandeira, que havia sido tenente da Força Aérea e era acusado do assassinato de um bancário na Ladeira Sacopã, Zona Sul do Rio de Janeiro. Outro companheiro foi Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas e sentenciado pela tentativa de homicídio do jornalista

Carlos Lacerda, episódio que ficou conhecido como o ‘atentado da Rua Toneleros’. André discorda da versão de

que sua morte teria sido queima de arquivo e diz que ele era homossexual e foi assassinado em razão da disputa por um preso.

199

Em sua entrevista a mim, André informa que, à época, estava lendo A Divina Comédia, de Dante Alighieri. 200

Declaração feita à autora em 4/07/2012. O pistão faria parte dos instrumentos da banda da Penitenciária. 201 Em recente conversa com André Borges, perguntei se sabia onde estava Mardoqueu, ou o que havia ocorrido com ele. O que aconteceu com Mardoqueu? André responde: ”tão logo terminou o festival de poesia, ele foi transferido da Lemos Brito para a Penitenciária Esmeraldino, em Bangu. Daí em diante, nos comunicamos por

recados de amigos. Depois os mesmos cessaram. Acredito que ele foi solto e nunca mais nos falamos”. A prisão

Entendo como muito importante a informação de que havia na penitenciária um grupo de guardas ligados ao Partido Comunista Brasileiro, ou com ideias comunistas. Trata-se de possibilidade relevante e desconhecida de qualquer autor consultado. André explica que não se tratava exatamente de uma célula, mas de um grupo de guardas que contestavam a ditadura e tinham ligações com o Partido Comunista. Tomavam algumas providências em conjunto, protegiam os presos politizados, levavam o jornal Novos Rumos para a penitenciária, enviavam mensagens ao exterior:

Havia alguns funcionários e Guardas Penitenciários que, à época, eram filiados ao partido Comunista. Eles, a princípio observavam o trabalho político-cultural realizado pelo nosso grupo, mas com alguma distância, pois eram funcionários. Depois se aproximaram, pois a nossa posição política era semelhante a do Partido e, além do mais, sabiam – como funcionários – que

não éramos “colaboradores” da Administração. Então passaram a colaborar

políticamente conosco: traziam o jornal do Partido, Novos Rumos, quando passei a escrever crônicas para seção de cartas do referido jornal e elas começaram a ser publicadas. Então, através de cartas à Editorial Vitória solicitando livros marxistas e passamos a receber os mesmos para a nossa formação202.

Na entrevista ao jornalista Júlio Ludemir, André Borges desenvolve esse e outros aspectos da questão:

Essa coisa do código (de honra), que sempre separou polícia de bandido, que sempre separou agente penitenciário de preso, não provocou nenhum tipo de confusão numa hora dessas [do encontro de guardas e presos contrários a ditadura]. É impensável hoje você ter, além da questão da legalidade, algum processo político que una o agente penitenciário ao preso. Os agentes não eram ligados aos presos. Eles eram quadros do Partido (Partido Comunista), que atuavam com os que eram guardas penitenciários. E ali procuravam desenvolver algum trabalho, selecionando os presos que eles viam que tinham comportamento, que tinham uma visão. Eles não se declaravam como membros do Partido. Eles eram agentes penitenciários. Não era uma célula do sistema penitenciário. E era, à medida que tinha quatro ou cinco do Partido. Embora não fossem uma célula, na prática era uma célula, porque a orientação deles era a mesma. Mas eles não atuavam como uma célula organizada, pra tomar decisão. Mas eles passavam a conhecer os presos que tinham determinados comportamentos, que eles aprovavam e se

aproximavam203. Ressaltamos que, mesmo durante o período de extrema vigilância da ditadura, houve policiais colaborando com organizações de esquerda. Além do grupo de agentes penitenciários mencionados, o preso político Raul Capitani se refere a um policial que deu apoio à fuga da Penitenciária, em 1969, alugando um imóvel para escondê-los (1997: 137). Menciona, ainda, outro agente prisional e um policial militar, que mantinha contato com os presos políticos da Ilha Grande, repassando informações para fora da penitenciária (idem: 139).

Benzer Belgeler