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Na República Velha a questão social era uma questão de polícia. Getúlio Vargas apesar da ditadura do Estado Novo, soube habilmente cooptar o apoio dos trabalhadores através de uma série de medidas de caráter trabalhista, com destaque para a edição da CLT - Consolidação das Leis do Trabalho. Após 1945 e em particular após 1964, com o breve interregno do Governo Goulart, a questão social permaneceu atrelada ao econômico, entendido que o grave quadro social do país seria minimizado à medida em que a capacidade produtiva do país se expandisse, ampliando as ofertas de emprego e melhorando os níveis de salário. A prática mostrou como tal postura era inadequada, pois o crescimento econômico ocorreu com concentração de renda e muitos indicadores sociais mantiveram-se críticos.

A Nova República, instalada em 1985 passou ao nível do discurso a priorizar o social, adotando aquilo que Hélio Jaguaribe chama de perspectiva reformista que "conduz ao reconhecimento de que, numa economia de mercado, o desenvolvimento social tem que ser perseguido como um fim específico, mediante o emprego de medidas apropriadas, que limitem e corrijam as distorções de mercado, assegurem supletivamente a produção e a oferta de determinados bens e serviços e promovam um desenvolvimento econômico encaminhado para otimizar o desenvolvimento social". (93)

Entretanto, a postura de ênfase ao social acabou ficando mais no terreno do discurso do que na prática efetiva. A extinção do BNH, pelo retrocesso que representou na questão da habitação, espelha esta realidade. A distribuição de recursos para programas sociais permaneceu concentrada na Presidência da República em programas

como o de distribuição de leite, tipicamente propícios a ações clientelísticas.

As graves questões a nível social começam no próprio mercado de trabalho, onde cerca de 45,1% não possuem carteira assinada, não contando com a proteção legal em termos de seguro acidentes, aposentadoria, 13º salário, férias, FGTS e PIS. O maior número de não registrados situa-se nas regiões menos industrializadas, entre trabalhadores domésticos e bóias frias, mulheres e menores.

Em termos de renda a situação do país é deplorável. Cerca de 61,2% da população ocupada encontra-se em níveis que variam da estrita miséria (até um salário mínimo) - 36,2%, à estrita pobreza (mais de um, a dois salários) - 25,0%. O quadro 12 espelha esta realidade, particularmente grave na região Nordeste, onde a pobreza extrema atinge a 78,6% da população economicamente ativa.

Quadro 12 - distribuição da população economicamente ativa Ocupada pelas três classes de renda mais baixos , como % da PEA ocupada total . Brasil e regiões - 1984

Brasil Norte Nordest Sudeste Sul Centro O Este 1 13,4 7,1 25,4 9,5 8,5 9,3 2 22,8 17,7 29,8 20,5 19,6 21,1 3 25 27 23,4 24,4 27,7 29,3 4 61,2 41,8 78,6 59,4 55,8 59,7

Fonte Dados Brutos IBGE PNADs 1984, quadros do capítulo 3.16.

1 - Miserável (até 1/2 s.m. ) ; 2 - Indigente (+ de 1/2 até 1 s.m.) 3 - ;Pobre (+ 1 a 2 s.m.)

OBS: 1. Exclusive população rural da região Norte

2. Exclusive "sem rendimentos" e "sem declaração" in JAGUARIBE, Hélio. Op. cit. p.64.

A esperança de vida ao nascer, ao redor de 32 anos no início do século, cresceu de 41,5 anos em 1940 para 60,1 anos em 1980, mas ainda é baixa em termos internacionais, pois nos países desenvolvidos está por volta de 74 anos. Atualmente o Brasil apresenta

uma expectativa de vida equivalente à que existia nos EUA por volta de 1940.

Entretanto, os disparates regionais em termos de esperança de vida são gritantes. Muitos nordestinos vivem em média 21 anos a menos que os paulistas, caracterizando a correlação existente entre esperança de vida e nível de renda da população, como mostra o quadro 13.

QUADRO 13 - Esperança de vida ao nascer , segundo classes De renda mensal familiar "per capita"

classes Esperança de vida ao nascer ( anos) Brasil Nordeste São Paulo

Até ½ s.m. 55,4 48,6 62,9

½ a 1 s.m. 62,1 54,5 64,1

+ de 1 a 2 s.m. 65,8 60,8 68,0

+ de 2 s m 69,0 64,7 69,6

Total 58,2 49,8 64,8

Fontes: Divisão Nacional de Epidemiologia do Ministério da Saúde e IBGE com base em números de 1977, in Folha de São Paulo. São Paulo, 29 jul. 1986.

Classes de rendimento mensal familiar "per capita". Os números que revelam a incidência de doenças entre os brasileiros são falhos, não retratando fielmente o frágil quadro da saúde pública. Muitos casos não são notificados, mesmo assim o quadro é alarmante, mais ainda por que as estatísticas dos últimos anos assinalam um aumento de grande número de vitimados por doenças endêmicas.

A malária, que em 1950 estava praticamente banida do país voltou a crescer com vigor, principalmente em Rondônia e no Pará. O número de casos aumentou de 430 mil em 1986, para 508 mil em 1987 e 562 mil em 1988.

O Mal de Chagas atinge a 5 milhões e a Esquistossomose a 5,4 milhões de brasileiros segundo estimativas da SUCAM, mas existem 30 milhões de pessoas habitando áreas onde ainda existe risco de contaminação.

Mesmo as doenças controláveis pela vacina continuam a manifestar-se pelo território nacional. A pólio registrou 398 casos em 1986, mais do que o dobro de 1985 (175 casos), sendo 324 casos no Nordeste.

O sarampo também cresceu de 63.224 casos em 1985 para 113.000 casos em 1986. O ano de 1986 marcou o surgimento de uma nova epidemia, a dengue. Esperada há cinco anos pelos especialistas, a partir da invasão do mosquito transmissor e da pouca ênfase em combatê-lo, alastrou-se em poucas semanas pelo Rio de Janeiro e Niterói. Mais tarde apareceram focos no Alagoas e Ceará, totalizando no país 473.000 casos. A presença do "aedes aegypti" tornou real o perigo de reaparecimento da febre amarela urbana, uma doença erradicada no país há pelo menos três décadas e que no início do século causou a morte de milhares de pessoas no Rio de Janeiro.

Em 1985 nasceram 3.887.999 crianças no país e morreram aproximadamente 320.000 entre zero e quatro anos, das quais 84,4%, ou seja 254 mil, com menos de um ano e, dessas, 50% antes dos primeiros trinta dias de vida. O Nordeste, mais uma vez com um terço dos nascimentos do Brasil, totaliza quase a metade da mortalidade infantil na América Latina. Mais de 30% das mortes das crianças com menos de 5 anos, poderiam ser evitadas, por terem como causa, doenças de controle relativamente simples, se tratadas a tempo: desnutrição, doenças respiratórias, diarréias, moléstias pré-natais e doenças preveníveis por vacinação. O Brasil apresenta um índice de mortalidade infantil de 78,9 por 1000, enquanto na Argentina o índice é 32,0 por 1000 e nos países desenvolvidos a média oscila entre 8 e 20 por 1000.

Os casos de tuberculose voltaram a crescer, tendo sido registrados 83.000 em 1986. O número de alcoólatras passa de 6 milhões, sendo elevados os índices de acidentes no Trabalho - 1 milhão em 1983 e acidentes de trânsito - 587.000 em 1982. O aborto, "ilegal", ocorre mais de 2 milhões de vezes por ano.

Pesquisa realizada pelo Prof. Nelson Chaves, da Universidade Federal de Pernambuco, revela que as pessoas na Zona da Mata estão diminuindo de tamanho e por uma diferença de apenas 3 centímetros, ainda não são consideradas anãs.

A pesquisa revela também que as mulheres começam a ter filhos com quinze anos, com problemas de gestação e um quinto dessas crianças morre antes de completar um ano de vida. Os sobreviventes da Zona da Mata não tem melhor sorte, pois 70% tornam-se desnutridos permanentes. Nelson Chaves é enfático em suas conclusões: "É preciso fazer-se alguma coisa, de imediato, pois do contrário, teremos no futuro, uma significativa população de nanicos e idiotas".

Outra pesquisa, conduzida pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais mostra que o trabalhador rural, na década de 70,

alimentava-se pior que os escravos que trabalhavam nos engenhos no final do século passado, antes da abolição.

No Norte e Nordeste, 70% da população infantil é considerada desnutrida e nas regiões Centro e Sul este índice chega a 45%. Essas são constatações do Dr. Azor José de Lima, que afirma: "as crianças estão morrendo mesmo é de fome. Falta de alimento e não somente de proteínas como pensava-se antes". (94)

Na área de educação, ainda 27,1% dos brasileiros com cinco ou mais anos são analfabetos e destes 53,9% são analfabetos urbanos, predominando as mulheres. Da totalidade da população acima de dez anos, apenas 18% tem o primário completo e 5,5% conseguiram completar o primeiro grau. Das crianças que ingressam no primeiro ano escolar, 31% conseguem chegar à 4a. série, 17% à 8a. série e 9% concluem o 2º grau.

O número de analfabetos no Brasil é praticamente, igual ao de estudantes, temos 30,5 milhões de analfabetos e 31,8 milhões de estudantes, sendo 25 milhões no 1º grau, 3 milhões no 2º grau e 1,4 milhão de universitários.

O ensino de 1º grau apresenta elevados índices de evasão e repetência, além de não ter qualquer ligação com o mercado de trabalho e mesmo no 2º grau, dos muitos cursos profissionalizantes, a maioria em geral é de baixo nível.

"A posição brasileira quanto aos principais indicadores sociais não é apenas significativamente pior do que a de países de nível de renda apenas marginalmente mais elevada, como Coréia do Sul e Argentina, mas é também pior quase que em todos os indicadores de países de renda significativamente menor, como a Colômbia, a Tailândia e as Filipinas. Dos países com renda per capita superior a brasileira, apenas os produtores de petróleo e a África do Sul apresentam indicadores menos satisfatórios". (95)

O quadro social do Brasil, como visto, é extremamente grave. As carências habitacionais refletem os baixos níveis de renda, sendo evidente que este quadro somente poderá reverter com uma política econômica que mantenha a ampliação do nível de empregos com melhora significativa nos salários e uma política social com maciços investimentos públicos nas áreas de saúde, educação, saneamento, transporte, habitação, entre outras.

O cientista político Hélio Jaguaribe entregou ao governo Sarney, em 8 de abril de 1986, uma alentado estudo, intitulado Brasil 2000, onde diagnostica a grave situação social brasileira e propõe alternativas de redução das deficiências para o período 1985-2000.

Os principais objetivos a serem alcançados são quantificados no Quadro 14.

QUADRO 14 - Indicadores referentes ao Paradigma "Brasil 2000"

Esper.vid Mortal inf. Ligaç ág Lig. esg Taxa alfab

Norte 75 14 95,6 66,0 96,3 Nordeste 74 15 62,3 66,0 86,0 Sudeste 75 14 93,9 80,3 95,4 Sul 76 14 80,4 66,0 94,6 Centro Oe 75 15 76.4 66,0 93,2 Brasil 2000 75 15 81,2 72,4 92,4 Brasil 84 60,1 87,9 66,2 46,1 78,7

Fonte: JAGUARIBE, Hélio. Op. cit. p.24 e 127.

Esperança de vida ao nascer ( anos ) ; Mortalidade infantil ( menos de um ano ), por 1000 nascidos vivos ; Ligações de água na rede geral ( % de domicílios permanentes ) ; Ligações de esgoto na rede geral ou fossa séptica ; Taxa de alfabetização (%) .

"Para reverter esse quadro de miséria e desemprego o Plano Brasil tomou como paradigma as sociedades do Sul da Europa, que num prazo historicamente curto, passaram de uma situação de pobreza e desigualdade na distribuição de renda, a um estado satisfatório em termos de bem estar social, investindo prioritariamente no setor social". (96)

Jaguaribe cita algumas medidas básicas que deveriam ser tomadas: importação de alimentos, política de estímulo à agricultura, através de créditos e facilidades fiscais, reforma agrária, incentivo à indústria intensiva de mão de obra, para amenizar os dois principais problemas - produção agrícola e desemprego.

A maior prioridade ao social exigiria um considerável aumento dos investimentos no setor, estimado por Jaguaribe em acréscimo de 10,5 para 12,5% do PIB com gastos, o que representaria em torno de US$ 6 bilhões/ano.

A incapacidade e a incompetência demonstrados pelo governo na implementação de políticas sociais representam um sério obstáculo para o sucesso de qualquer programa de melhorias sociais. A burocracia excessiva, a dispersão de esforços em dezenas de órgãos de

atribuições semelhantes, as mordomias, corrupção, favoritismos, entre outros aspectos, são registrados diariamente pela imprensa brasileira.

A maior participação política da população é essencial, pois como diz Paul Singer "nenhuma transformação social significativa acontece, se os principais beneficiários não estiverem solidamente organizados e capazes de pressionar". (97)

A questão crucial é política, pois o equacionamento da questão social passa pelo resgate do poder público como agente coordenador de programas e direcionador de recursos. A disponibilidade destes, por outro lado, implicará em medidas drásticas de eliminação de isenções, benefícios, incentivos fiscais, bem como coibir eficazmente a sonegação fiscal, além de ampliar a taxação em áreas onde ainda a tributação é pequena.

É preciso ser muito otimista para vislumbrar a luz no final do túnel em um país com tantos problemas, embora o Brasil tenha recursos, condições e potencial para resolvê-los todos e proporcionar condições adequadas de vida para a totalidade de sua população.

Benzer Belgeler