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F. EDATLAR

F.1. Çekim Edatları

Após analisarmos a evolução histórica da cidade e do campo e os fatores de migração, cumpre portanto uma visualização ampla da sociedade brasileira contemporânea, na qual a questão da habitação se insere e em cujo contexto a problemática habitacional deve ser equacionada.

A questão da habitação não pode ser desvinculada do contexto sócio-econômico geral do país. Em outras palavras, seu equacionamento envolve, em uma abordagem sistêmica, a observação de uma multiplicidade de variáveis de natureza econômica e social que atuam como condicionantes da capacidade da população de ter

possibilidade de alcançar um nível de renda que a habilite a comprar ou construir sua casa.

Esta visualização geral revela um país repleto de contrastes, agregando de um lado indicadores econômicos que permitem classificar o Brasil como a oitava economia do mundo ocidental e outros de natureza social que nos colocam em posição inferior a países subdesenvolvidos da África e da Ásia.

Os indicadores sociais, apresentando um quadro deplorável assinalam a evidente impossibilidade de equacionar adequadamente a questão da habitação enquanto 1/3 das famílias do país vegetam ao nível de miséria, apresentando rendimentos que não permitem sequer manter condições satisfatórias de alimentação.

O resgate desta dívida social é condição sine qua non para alcançar os ideais de democracia, liberdade e uma efetiva situação de desenvolvimento econômico. Revolucionar o quadro presente exige uma vontade nacional, um somar de forças coletivo ainda irrealizável, ao que parece, pois pressupõe elevados níveis de integração da população e lideranças políticas com larga visão e capacidade de decisão acima dos interesses particulares de grupos. A conjuntura política do Brasil contemporâneo é altamente desfavorável a reformas substanciais no quadro social, pois quaisquer medidas sugeridas, provocam, de imediato, o surgimento de grupos de oposição que sentem seus interesses feridos, agindo para inviabilizar qualquer proposta e não conseguindo impedir sua aprovação, tudo fazem para minimizar seus efeitos e alcance, para o que contribui acentuadamente a agigantada e emperrada estrutura burocrática do Estado brasileiro.

A nível da população, há condições objetivas para alcançar este estado de forças coletivo como bem o mostrou a campanha pelas diretas e a intensa mobilização popular após a edição do Plano Cruzado. Entretanto, sem a contrapartida institucional, tais condições de mobilização acabam perdendo vigor e retroagindo rapidamente como ocorreu em novembro de 1986, com as medidas de alteração do Plano Cruzado que estarreceram a nação e liquidaram com a primeira experiência de reforma econômica heterodoxa pela qual passou o país.

3.1. Economia Brasileira: alguns indicadores.

O Brasil é a oitava economia do mundo ocidental em termos de dimensão do PIB. Segundo o IBGE o PIB brasileiro alcançou a US$ 313 bilhões em 1987, gerando uma renda per capita de US$ 2.212. O quadro 9 apresenta a variação do PIB a partir de 1970.

Quadro 9 PIB índice do produto real e variação anual 1970-88 ano índice Variação % ano índiv Variação

1970 100 1980 227,2 7,2 1971 112 12 1981 223,6 (1,6) 1972 124,5 11,1 1982 225,7 0,9 1973 141,4 13,6 1983 218,6 (3,2) 1974 155,1 9,7 1984 228,4 4,5 1975 163,5 5,4 1985 247,3 8,3 1976 179,4 9,7 1986 267 8,2 1977 189,7 5,7 1987 274,7 2,9 1978 199,2 5 1988 273,9 (0,3) 1979 211,9 6,4

Fonte: Fundação Getúlio Vargas

*índice do produto real base 1970 = 100 ** variação anual do índice do produto real (em %)

O PIB brasileiro vem crescendo constantemente desde 1946, à exceção de 1963-64, mantendo uma média histórica de 7% até 1979. De 1970 a 1979 esta média cresceu para 8,6% ao ano, com destaque para os anos de 1970 a 1974 atingindo a 11,6% ao ano, sem dúvida a maior taxa média em toda a história econômica do país. Passada a euforia do milagre o país ingressou na década de 80 marcando passo e este decênio será um desastre em termos de evolução do PIB, com a queda da média anual para apenas 3% com o agravante dos anos de recessão em 1981, 1983 e 1988.

Como na década de 70 o espetacular crescimento ocorreu com concentração de renda e na década de 80 praticamente não há crescimento a registrar, o quadro social tendeu a agravar-se nos últimos decênios, particularmente nos últimos anos, pela inflação alcançar níveis estratosféricos.

É forçoso reconhecer que a acentuada expansão econômica na década de 70, além da concentração de renda, resultou em uma economia dinâmica e diversificada e o processo de substituição de importações acelerado na época, tornou o Brasil pouco dependente do exterior e em condições de ampliar consideravelmente suas exportações, viabilizando os elevados superávits comerciais que tem sido obtidos seguidamente desde 1982.

A década de 70, época do chamado "milagre brasileiro" representou um período de intensa contratação de obras, muitas delas

"faraônicas", traduzindo o desejo dos governos da época, de transformar o Brasil, em pouco tempo, de país desenvolvido, em potência média.

O irrealismo e a megalomania de então, permitiram até o despropósito de se ignorar a crise do petróleo, iniciada em 73, apesar do Brasil importar na época, mais de 80% do petróleo consumido internamente. Diziam os burocratas que em meio a um oceano de tormentas, o Brasil navegava tranqüilamente. A realidade era bem outra. Recorrendo indiscriminadamente aos capitais externos, em período de grande disponibilidade de divisas no mercado internacional, passamos a aumentar sem critério a nossa dívida externa, utilizando estes recursos para financiar um imenso volume de obras, muitas delas, sem qualquer retorno em termos de geração de divisas e outras que superestimavam a demanda mundial futura de determinados produtos, produzindo uma verdadeira manada de elefantes brancos.

Conseguimos com isso, entre outros resultados, sermos titulares da maior dívida externa do mundo subdesenvolvido, comprometendo todo o processo de crescimento do país ao longo da década atual e possivelmente também da seguinte, além de sujeitar a economia nacional à auditoria externa através dos acordos com o Fundo Monetário Internacional a partir de 1982.

O volume de obras contratado é impressionante. A maioria dos projetos foi idealizada e contratada sem uma ampla discussão pela sociedade brasileira, a margem portanto do Congresso Nacional, Universidades, Sindicatos, Imprensa, etc. Ao longo dos governos militares, decisões cruciais, envolvendo investimentos de bilhões de dólares, foram tomadas, quase às escondidas, por um reduzido grupo de tecnocratas e impostas ao resto da população.

Muitas obras contratadas sequer foram concluídas como a Ferrovia do Aço e as usinas nucleares Angra II e III. Outras como a Transamazônica e a Perimetral Norte representaram fabulosos gastos de construção, demandam um elevadíssimo custo de manutenção, para suportar um tráfego ínfimo, justificadas por um nebuloso conceito de segurança nacional e integração territorial. Tucuruí, o Projeto Grande Carajás, Albrás-Alunorte e Alcoa foram produto de estimativas demasiadamente otimistas sobre a evolução dos preços de matérias primas e da demanda mundial de vários minérios e que acabou não acontecendo. Obras como Balbina foram colocadas em execução sem aprofundados estudos correlacionando seu impacto ecológico, vis a vis, sua pequena capacidade de geração hidroelétrica. A megalomania que perpassou o período é facilmente expressa pelo acordo nuclear que previa a instalação de nove usinas nucleares até 1990 e 50 até o ano

2000, quando a realidade mostrou que não havia a necessidade de nenhuma.

Todo o imenso esforço dispendido no período voltou-se para o crescimento econômico, permanecendo em plano secundário o quadro social, a partir da justificativa de que era preciso primeiro crescer para depois distribuir. Esta postura acabou provocando o agravamento do já caótico quadro existente. Sem mecanismos adequados de controle, o crescimento ao longo da década de 70, contribuiu para ampliar a concentração de renda já bastante acentuada. O quadro 10 permite avaliar este fenômeno no período 1977-83.

Tabela 10 - distribuição dos rendimentos por decis

decis 1977 1983

simples acumulado simples Acumulado

1 1 1 1 1 2 1,9 2,9 1,8 2,8 3 2,8 5,7 2,8 5,6 4 3,6 9,3 3,6 9,2 5 4,5 13,8 4,4 13,6 6 5,5 19,3 5,5 19,1 7 7,3 26,6 7,6 26,7 8 10 36,6 10,4 37,1 9 15 51,8 16,7 53,8 10 48,2 100 46,2 100 5+ 35,1 33 1+ 14,8 13,3

Fonte: IBGE, Indicadores Sociais, v.2, 1984 p. 145, in JAGUARIBE, Hélio . Brasil 2.000 - Para um novo pacto social.Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986,p.63 .

Os 50% mais pobres do país detinham 13,8% da renda nacional em 1977, caindo para 13,6% em 1983, total equivalente ao possuído por apenas 1% dos mais ricos. Os 10% mais ricos controlavam 46,2% da renda nacional em 1983, caracterizando o Brasil como o país com maior desigualdade no mundo em termos de concentração de renda.

Dados recentes do Instituto de Planejamento de Economia Aplicada - IPEA, da Secretaria do Planejamento, mostram que o desnível de renda no Brasil continua se agravando. Em 1986, considerado um ano favorável à população de baixa renda devido ao Plano Cruzado, os

dados indicavam que os 50% mais pobres detinham 13,3% da renda nacional, índice inferior ao de 1983 e os 5% mais ricos alcançavam 34,6%, portanto mais que em 1983. Estes índices eqüivalem a uma renda per capita de US$ 661 para os 50% mais pobres, enquanto os 5% mais ricos desfrutam de US$ 20.307. (80)

A situação pós 86 com os Planos Bresser e Verão e a inflação atingindo a 1.000% em 1987 certamente deve ter piorado.

"Tal como se evidencia, o Brasil é, realisticamente analisando, um país maioritariamente miserável, bem mais do que apenas pobre, ou mesmo, indigente. E isto devido em grande parte a seus extremos de progresso e retardo... O problema da renda no Brasil, por conseguinte, não consiste tão somente em desconcentrar o topo da pirâmide, mas fundamentalmente em resgatar a base indigente e miserável da população trabalhadora brasileira, homens e mulheres, os analfabetos rurais e analfabetos urbanos, cujos infantes morrem de enterites, por mal nutrição ou falta de imunização, enquanto elas e eles, adultos, tem a saúde estiolada, por entre os excrementos expostos nas fossas que compõem a hidrografia da indigência, nas periferias urbanas e na vastidão rural". (81)

Neste perverso processo de concentração de renda e manutenção de elevados níveis de pobreza absoluta, a inflação tem desempenhado papel relevante.

O quadro 11 apresenta as variações anuais da taxa de inflação a partir de 1960.

QUADRO 11 - TAXAS DE INFLAÇÃO - VARIAÇÕES

Benzer Belgeler