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III. Araştırma Konusuyla İlgili Kuramsal Çerçeve ve Konuyla İlgili Belli Başlı

1.6. Yanlış Cihat Anlayışları

A preocupação dos pesquisadores em relação ao lugar do indivíduo nas ciências sociais, ou de qual seria o verdadeiro objeto para a sociologia como ciência, não é nenhuma novidade (VELHO, 2006). Para Srubar (1984), as formulações teóricas não devem ser atribuídas apenas a seus autores, elas têm origem no espírito do tempo, que atravessa as ideias em consequência das discussões das obras pela comunidade científica, inclusive com autores passados cujo pensamento ainda exerce influência. Portanto, qualquer tentativa de remontar as bases para a reformulação do que seria o objeto da sociologia, está intimamente ligada a estes processos de reconstrução na história do conhecimento:

Todas as disciplinas têm seus fundadores porque eles são parte de seus mitos de origem. Não há mais divisões naturais entre as disciplinas do que entre países em um mapa. Toda disciplina intelectual reconhecida passou por um processo de autolegitimação não muito diferente daqueles que estiveram envolvidos na fundação das nações. Todas as disciplinas têm suas histórias de ficção [...] que evocam mitos do passado como um recurso para cartografar seu próprio desenvolvimento interno e sua unidade, assim como para estabelecer seus limites em relação às disciplinas vizinhas (GIDDENS, 1998, p. 13-14).

Para Simmel (2006), a tarefa de apontar diretrizes para a ciência da sociologia não estaria livre de controvérsias. A falta de uma definição indiscutível só poderia ser contornada caso existisse um conjunto de problemas singulares e não abordados, ou não esgotados, pelas outras ciências, capazes de encontrar alguma unidade em uma camada mais profunda. Esta

tentativa frágil é, por sua vez, incapaz de resistir à conceituação de “sociedade”, e tal

dificuldade subjaz em dois pontos: o de atenuação da sociedade e o de sua conotação exagerada. Para ele, portanto, a ciência da sociedade estaria em uma posição desconfortável onde, diferente das outras ciências já bem-fundamentadas, precisaria demonstrar seu direito à existência (SIMMEL, 2006).

As mudanças de objeto da sociologia não ocorrem em separado da tentativa de estabelecê-la como ciência legítima. Srubar (1984, p. 164) coloca que a sociologia

“tradicional”, ou positivista, tal como concebida por Comte, ancorada em um conceito de

sociedade pautada na autonomia desta e a subordinação dos sujeitos a ela, dava ao conceito de

sociedade um status de “entidade em si” – orgânica e percebida de acordo com suas próprias

leis, analisada através de um modelo metodológico naturalista.23

Aron (2002) coloca que uma das principais influências do pensamento de Comte foi Montesquieu 24, em quem busca através de uma interpretação simplista do “Espírito das Leis”, o princípio do determinismo aplicado à diversidade de fenômenos sociais e ao devenir das sociedades. A ideia central encontrada no livro, por Comte, seria “As leis são as relações

necessárias que derivam da natureza das coisas”, e expressava, para ele, o determinismo

rigoroso de todos os fenômenos sociais (ARON, 2002). Na Alemanha,25 pelo contrário, a forte tendência de historiadores, psicólogos e economistas de negarem a tentativa positivista de universalidade, trazia questionamentos quanto a sua legitimidade como ciência, dado a condição de falta de objeto próprio em que permanecia. Era preciso encontrar uma nova fundamentação, uma redefinição do objeto e dos métodos: Qual a área de pesquisa sociológica? O que, na realidade social, era exclusivamente social?

Estas questões nascem em um Zeitgeist de intensas discussões filosóficas acerca da relação entre as ciências naturais e as humanidades, e preparam o terreno para um turning point que aconteceria com o exortamento da busca por leis gerais. Se uma ciência que se pretende social e histórica quisesse lidar com seu objeto adequadamente, teria que reconhecer a configuração da sociedade, ou realidade social, como sendo produzida por indivíduos que experenciam, interpretam, entendem e agem de maneira significativa.26 Em respostas a estas questões, a realidade social enquanto complexo de interações sociais é demarcada como o verdadeiro elemento social; a sociologia deveria, enquanto ciência, examinar os tipos e

23A discussão naturalismo x interpretação é mais amplamente apontada em: ROSENBERG, Alexander.

Philosophy of Social Science. Boulder: Westview Press, 1988.

24 Aron (2002, p. 3) coloca que, na França, o autor é geralmente apontado como um precursor da sociologia e que, a Auguste Comte, atribui-se o mérito de fundador da sociologia como ciência. A este respeito, Aron posiciona Comte como fundador se, apenas, for chamado de fundador aquele que criou o termo que designa

determinada ciência. Para ele, Montesquieu e seu “O espírito das leis” proveria uma análise, sob certos aspectos, mais “moderna” do que a de Comte e, portanto, não deveria ser considerado um dos precursores, mas

antes um dos fundadores da sociologia.

25 Para um melhor entendimento do pano de fundo que cercava as discussões sociológicas na Alemanha, ver Srubar, 1984.

26 Aqui, Srubar (1984, p. 166) refere-se às ideias estreadas pelos neokantianos Wilhelm Windelband, Heinrich Rickert e por Wilhelm Dilthey.

formas de interação em relação à sua constituição e consequências – as instituições seriam resultantes das interações e reguladas por elas (SRUBAR, 1984).

Weber (2009) anuncia tal virada quando postula os fundamentos de uma sociologia compreensiva, definindo-a como “uma ciência que pretende compreender interpretativamente

a ação social” (WEBER, 2009, p. 3-4). Na tentativa de desenvolver um método de

interpretação controlável, introduz a ideia dos tipos ideais,27 que seria a melhor forma de ter acesso à ação individual e, simultaneamente, permitir generalizações (SRUBAR, 1984). Se em Comte era predominante o objetivo de que se chegasse à formulação de um quadro claro e definitivo de leis fundamentais, para Weber a ciência tinha como essência o devenir, e ignoraria as proposições relacionadas ao sentido último das coisas; a ciência teria um objetivo colocado no infinito e renovaria incessantemente suas indagações diante da natureza. As características da história e da sociedade, tal como analisadas por Weber, diferenciar-se-iam profundamente das formas como as ciências da natureza operam, já que apesar de terem a mesma inspiração racional, caracterizam-se por serem compreensivas, históricas e se orientarem para a cultura (ARON, 2002).

Para Srubar (1984), a mesma tentativa é feita por Simmel ao formular a ideia de forma e conteúdo. Simmel (2006) coloca que seria possível identificarmos em cada sociedade sua forma e conteúdo: a própria sociedade significaria a interação entre indivíduos, que formariam uma unidade, isto é, a sociação ou forma. A interação se daria por meio de certos impulsos ou busca de certas finalidades: instintos eróticos, impulsos religiosos, interesses objetivos, objetivos de defesa, ataque, jogo, conquista, ajuda, doutrinação, e outros diversos fatores que colocariam os indivíduos em convívio e relação um com o outro, ou seja, seria este o conteúdo e matéria da sociação.

Para Ianni (1990)28, os impasses e controvérsias sobre o objeto e método da sociologia são mais ou menos permanentes 29 e dizem respeito às exigências da produção

27 Na introdução feita por Gerth e Mills ao Ensaios de Sociologia de Weber (2002), os autores colocam que com

a expressão “tipo ideal”, Weber não quis introduzir um novo instrumento conceptual, mas pretendia

simplesmente dar consciência ao que os cientistas sociais e historiadores faziam quando utilizavam palavras como “homem econômico”, “feudalismo”, etc. Com esta formulação analítica, poderiam ser construídos tipos

ideais de prostitutas ou líderes religiosos, sem que a palavra “ideal’ possuísse caráter avaliativo (GERTH;

MILLS, 2002).

28 Ianni (1990) discute a equiparação feita por Robert Merton entre o avançado desenvolvimento das ciências naturais e a dificuldade da sociologia em recuperar informações previamente empregadas e adequá-las como novos pontos de partida – “Os dados mostram que a física e a biologia têm em geral sido mais bem-sucedidas

do que as ciências sociais em recuperar o conhecimento acumulado e relevante do passado e incorporá-lo às formulações subseqüentes. Este processo de enriquecimento pela absorção é ainda raro na sociologia. Como resultado, informações que não foram previamente recuperadas estão ainda lá, para serem empregadas de

forma adequada, como novos pontos de partida.” Em resposta, Ianni coloca-se – “Primeiro, está baseado na

intelectual. A sociologia seria uma ciência que se pensa enquanto se realiza, se desenvolve, enfrenta impasses e se reorienta, ela se pensa criticamente e de modo contínuo. Haveria algo como uma espécie de sociologia da sociologia em todo trabalho sociológico de maior envergadura. Touraine (1984) acrescenta que a sociologia clássica se valeria sobre o princípio da substituição dos atores sociais por conjuntos estatísticos, definidos por nível ou forma de participação social, e também pelos sinais da lógica interna de funcionamento do sistema social. Esta sociologia teria sido destruída pelas transformações históricas ao longo da primeira metade do século XX na Europa – a ideia central da sociologia clássica de correspondência entre institucionalização dos valores e socialização dos atores era oposta à ideia de separação entre sistema e atores: o sistema passa a valer como conjunto de regras e de condicionamentos que o ator deve aprender a utilizar ou contornar, e o ator surge como indivíduo, membro de uma comunidade e uma tradição cultural (TOURAINE, 1984).

Alguns autores colocam-se radicalmente a favor do desenvolvimento de novos paradigmas, enquanto outros propõem não a desqualificação dos clássicos, mas antes uma renovação e desenvolvimento destes. Critica-se a abordagem histórica, globalizante ou holística, preconizando-se a sistêmica, estrutural, neofuncionalista, fenomenológica, etnometodológica, hermenêutica, do individualismo metodológico, etc. Os conceitos formulados nos clássicos já não poderiam dar conta das novas configurações e o indivíduo ou ator social, o movimento social, a identidade, a diferença, o cotidiano, a escolha racional, entre outros, é que deveriam, então, ser objeto da sociologia (IANNI, 1990).

Hall (2006) escreve que,

Em 1991, o então presidente americano, Bush, ansioso por restaurar uma maioria conservadora na Suprema Corte americana, encaminhou a indicação de Clarence Thomas, um juiz negro de visões políticas conservadoras. Nos julgamento de Bush, os eleitores brancos (que podiam ter preconceitos em relação a um juiz negro) provavelmente apoiariam Thomas por ele ser conservador em termos da legislação de igualdade de direitos, e os eleitores negros (que apoiam políticas liberais em questão de raça) apoiariam Thomas por ele ser negro. Em síntese, o presidente

estava ‘jogando o jogo das identidades’ (HALL, 2006, p. 18).

argumento de origem positivista, renovado com o neopositivismo. Supõe que a lógica do conhecimento científico é única. E que dada ciência social se constitui e amadurece na medida em que atinge os níveis alcançados pelas mais desenvolvidas, no caso as naturais, ou a física, a biologia. Essa é apenas uma posição no âmbito das reflexões sobre epistemologia. Há outras e bastante elaboradas. As conquistas científicas realizadas por Weber e Simmel, Marx, Lukács e Gramsci, Horkheimer, Adorno e Marcuse, Habermas e Gadamer, além de outros, abrem diferentes horizontes para a epistemologia das ciências sociais, e não

apenas para a sociologia. As diferenças entre ciência natural e ciência social são essenciais e irreversíveis.”

29 Ver: Merton, Robert M. “A Ambivalência Sociológica”. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. Em especial, capítulo 7:

O exemplo de Hall parece ter, em princípio, dois objetivos principais. O primeiro é o de mostrar concretamente o que parece ser a grande característica da passagem dos indivíduos e da sociedade para a modernidade, e o segundo, mais longamente desenvolvido pelo autor, é o de tirar do plano da abstração aquilo a que se vai compreender como a nova tendência do conceito de identidade, adequado ao novo quadro moderno.

Inerente ao início da modernidade está o prelúdio para uma existência

dessacralizada, o desafio de um mundo sem o milagre da salvação divina e do “espírito de pertinência e coesão da comunidade”. O movimento de desencantamento, tal como apontado

por Habermas, constitui-se de seis conceitos centrais: a epistemologia racional crítica, a

“universalidade”, o ideal iluminista de progresso, a diferenciação estrutural, a integração

funcional e o determinismo (SHINN, 2008). O processo de institucionalização e individualização são crescentes e exaltados por uma dissidência moderna emancipatória. Para Fischer-Rosenthal (1995), ocorre a inauguração de uma liberdade em relação a condições fixas e da abertura de multifacetadas oportunidades de escolha, que demarcam a associação dos indivíduos à sociedade apenas por sua funcionalidade em relação a ela. Shinn (2008), por outro lado, ressalta que, embora a modernização emancipatória exaltasse o individualismo, este era de um tipo altamente e amplamente padronizado, monitorado e disciplinado, compreendido a partir de uma perspectiva weberiana de burocratização, que assegurava tanto o consentimento quanto as sanções no Estado-nação.

Entre a visão de um indivíduo mais livre e, portanto, mais demarcado pela confusão das múltiplas escolhas, e a de um indivíduo que tem estas escolhas, em parte, definidas por fronteiras que limitam e colocam ordem, a modernidade trouxe a necessidade da busca por novas diretrizes que pudessem compreender as formas da coesão social e questionar a própria existência de tais instâncias. Para Fischer-Rosenthal (1995), as soluções encontradas assumem formas tão árduas e diversas quanto a densidade de mudanças trazidas pelo modernismo, deixando acadêmicos e indivíduos comuns, mais uma vez, com a questão em aberto. Desta forma, uma gama significativa de filósofos e sociólogos buscaram a constância em um self que estaria, a partir desta perspectiva, fragmentado, e à mercê de uma ambivalência socialmente desorganizadora. O conceito de identidade assume, então, os contornos de princípio formal necessário para ordenar as ações e experiências dos indivíduos modernos.

Para Hall (2006) a passagem para a modernidade conflui com o declínio das velhas identidades, que por um longo tempo desempenharam a função de estabilizar o mundo social. Novas identidades nascem de um indivíduo moderno fragmentado que, devido ao

deslocamento das estruturas e processos centrais das sociedades modernas, tem seu universo de referência abalado permanentemente.

Na perspectiva de Hall (2006), três concepções de indivíduo devem ser salientadas. A primeira diz respeito ao sujeito do iluminismo, cujas principais características são o centramento, a unidade e a razão, resultando na consciência e na ação; uma concepção individualista onde o centro do sujeito nascia com ele e se desenvolvia permanecendo essencialmente o mesmo ao longo de sua existência; esta era, pois, sua identidade. A segunda é chamada de sujeito sociológico (formulada, principalmente pelos interacionistas simbólicos, por G.H. Mead e por C.H. Cooley), que tinha por característica básica refletir a complexificação do mundo moderno e a consciência de que este núcleo não era autônomo ou dissociado do externo. Era antes um sujeito formado por relações com pessoas centrais para ele, que tinham o papel de mediadores entre ele e os valores, sentido e símbolos – a cultura – das diferentes esferas do mundo do qual fazia parte. Ou seja, a identidade seria formada a

partir da interação entre o “eu” e a sociedade, em um diálogo contínuo que transforma constantemente o núcleo, o “eu real” do sujeito, a partir das identidades que este mundo

oferece.

Em contrapartida, a hipótese cartesiana colocada por Fischer-Rosenthal (1995) para a

identidade é manifesta através do posicionamento do conceito enquanto uma “relíquia moderna”, cuja incapacidade reside na impossibilidade de manter-se no mundo-da-vida sem

perder-se em um mundo objetivo de manipulação racional. Além disso, o conceito-em-ação se

mostra estanque e inútil quando precisa lidar com a multiplicidade de “eus” e de “outros” que

pertencem ao passado, ao presente e ao futuro e não podem ser razoavelmente contemplados sem o paradigma fundamental da temporalidade. A temporalidade assume, no argumento pela biografia, o principal papel de defesa: a temporalidade é a pedra angular que sustenta a biografia enquanto uma abordagem adequada às propriedades sincrônicas e diacrônicas presentes na complexidade do self múltiplo.

A preocupação biográfica trabalha, portanto, a partir de perspectivas binárias. O tempo cronológico e o tempo fenomenológico, o nível do mundo-da-vida e o da estrutura social, a forma da apresentação e o seu conteúdo (FISCHER-ROSENTHAL, 1995; KOHLI, 1986), de maneira a não reproduzir a separação entre o individual e a sociedade, mas antes de estruturar as duas esferas (FISCHER-ROSENTHAL, 1995). Para Kohli (1986) a tarefa é ambiciosa, porém, é a única forma de integrar a teoria macrossocial e a teoria do mundo da

vida: o “contexto social” não deve ser compreendido como um conjunto dado de regras, mas

história de vida individual não deve ser olhada sob a perspectiva de um resultado da organização macrossocial – ou da interação de propriedades psicológicas individuais –, mas como o resultado de uma atividade subjetiva de construção dos sujeitos ao se apropriarem das possibilidades de escolhas a eles disponíveis (KOHLI, 1986).