III. Araştırma Konusuyla İlgili Kuramsal Çerçeve ve Konuyla İlgili Belli Başlı
1.7. Mücadele Yöntemlerinin Değişmesi
As origens do uso de relatos orais como base a todo tipo de informação são identificadas desde a Antiguidade (PEREIRA, 1991), porém, sua utilização nas ciências humanas, como método de pesquisa dentro de universidades, tem início nos anos 1920, quando as primeiras tentativas de pesquisa biográfica foram realizadas por sociólogos, antropólogos e psicólogos quase que simultaneamente (ROSENTHAL, no prelo).
O estudo sociológico intitulado “O lavrador polonês na Europa e nos Estados
Unidos”, desenvolvido por William Isaac Thomas e Florian Znaniecki entre 1918 e 1920 na
Universidade de Chicago, é considerado precursor neste tipo de pesquisa em sociologia (ROSENTHAL, no prelo; CHASE, 2005; KOHLI, 1981). O trabalho apresentado pelos autores enfocava a temática dos processos migratórios a partir do estudo de um único caso – a biografia de um imigrante polonês – e de uma profunda análise documental a respeito do problema. O objetivo amplo dos autores, causa de sua tão evidente influência para a sociologia interpretativa, porém, era o de ir além da superfície das organizações e instituições sociais formais envolvidas no processo, e buscava alcançar com efetividade a ação humana na gênese da experiência (ROSENTHAL, 2004):
Reconhecia-se, ali, a vantagem do estudo de caso biográfico não apenas para a apreensão da perspectiva subjetiva e do agir social de integrantes dos mais variados meios – inclusive da genealogia de seu surgimento –, mas também para a reconstrução de mundos da vida em geral e da aplicação de seus resultados na busca de respostas para questões originadas na práxis social (ROSENTHAL, no prelo, p. 180).
Foi a partir da iniciativa de Ernest W. Burgees e Robert E. Park na Escola de Chicago que, motivados pela necessidade de conhecer a perspectiva subjetiva dos atores sociais, fomentaram o crescimento significativo deste tipo de estudo durante as décadas de 1920 e 1930 (ROSENTHAL, no prelo; ROSENTHAL, 2004; PEREIRA, 1991; CHASE, 2005; FANTON, 2011). Os subsequentes projetos elaborados na Escola de Chicago estavam especialmente preocupados com as histórias de vida de criminosos e jovens infratores, mas acabavam por tentar explicar os comportamentos destes sujeitos como um processo interativo
com seu entorno sociocultural, perdendo de vista, em parte, o interesse pela experiência subjetiva (CHASE, 2005).
Neste sentido, muitos autores apresentam ideias diversas a respeito da relevância e modos de fazer pesquisa biográfica na época. Pereira (1991), em seu artigo intitulado “Relatos
orais em ciências sociais: limites e potencial”, elucida com particular destreza estes diversos
posicionamentos. Dentre estes, podemos destacar os apontamentos de Robert Angell, que evidencia a fraca aderência dos cientistas sociais ao método difundido pelos intelectuais de
Chicago. O autor justifica tal postura dos estudiosos com a tendência objetiva, “factual”, que
vinha se delineando no meio sociológico à época (DENZIN e LINCOLN, 2005). Logo haveria o total abandono do uso de relatos orais para a pesquisa social, paralelo à ascensão dos métodos quantitativos (PEREIRA, 1991; CHASE, 2005), tendo seu retorno mais definitivo apenas em meados da década de 1970 (ROSENTHAL, no prelo; FANTON, 2011).
Com a releitura dos trabalhos da Escola de Chicago por sociólogos, a década de 1970 vê emergir o intenso florescimento do interesse pela pesquisa biográfica interpretativa em todo o mundo acadêmico, e em especial na sociologia alemã. O primeiro volume contendo artigos sobre o método de pesquisa biográfica é publicado na Alemanha em 1978, por Martin
Kohli; em seguida, em 1981, o sociólogo francês Daniel Bertaux publica o manual “Biografia e Sociedade” (ROSENTHAL, no prelo; ROSENTHAL, 2004; FANTON, 2011). A partir
deste período, inúmeros outros volumes foram publicados, além de trabalhos apresentados em congressos e edições revisadas e relançadas.
O trabalho teórico e empírico a partir das mais variadas formas de fazer pesquisa biográfica vem chamando a atenção para a vasta gama de disciplinas, temas e meios que este tipo de estudo pode abranger. Rosenthal (no prelo) cita algumas áreas que foram sendo contemplados por acadêmicos de nacionalidades e disciplinas diferentes como, por exemplo: estudos sobre carreiras profissionais, migração, doenças, religião, sexualidade, socialização política, nacional-socialismo e sistema político na Alemanha Ocidental. Este último nos remete aos próprios trabalhos da profª. Gabriele Rosenthal, cujo método de análise biográfica vem se consolidando substancialmente na Alemanha e no Brasil, e para o qual darei especial atenção nas seções subsequentes deste capítulo. Vale também destacar que disciplinas como a psicologia, história e ciências da educação, dentro de suas especificidades teóricas, também vêm fazendo uso desde algum tempo da pesquisa biográfica como forma privilegiada de acesso à perspectiva do indivíduo.
A pesquisa biográfica, contudo, encontra especial progresso na academia alemã e, como apontam Apitzsch e Ionowlocki (2000), não se expande longe de críticas a respeito de
seu possível caráter “idealista”, sendo acusado de ter pouca preocupação com a compreensão sociológica da “realidade” e fazer uso de um apanhado metodológico demasiadamente
complicado para a análise de casos singulares. Existe, nas palavras das autoras, certa
“impaciência com os aspectos metodológicos da análise biográfica” (APITZSCH E
IONOWLOCKI, 2000, p. 5), principalmente com alguns conceitos de Fritz Schütze. A este último, é atribuído o lugar de um dos primeiros autores a desenvolver de forma sistemática os métodos de entrevista e análise de narrativas biográficas. Seu método de análise das entrevistas tem o objetivo de explicar as funções dos enunciados do entrevistado dentro dos quadros sociais que exercem algum impacto em sua forma e em seu significado; em outras palavras, Schütze busca classificar os dados empíricos de acordo com determinadas estruturas
teóricas previamente estabelecidas pelo pesquisador, através de uma “gramática” da narrativa
autobiográfica espontânea (FANTON, 2011; SCHÜTZE, 1983).
As observações de críticos a respeito da demasiada dificuldade nos métodos de análise desenvolvidos por estudiosos alemães não são incomuns, e retratam a confusão entre o difícil e o complexo. Em termos mais acertados, as diferentes linhas de análise de biografias na Alemanha possuem em comum a complexidade oriunda da legítima preocupação com o quadro teórico que as fundamenta. Portanto, tais críticas em relação a um provável
“idealismo” 30 são facilmente questionadas quando buscamos as raízes dos aportes teóricos tradicionalmente ligados ao desenvolvimento do conceito e da pesquisa biográfica. Fritz Schütze e Gerhard Riemann, por exemplo, têm seus conceitos frequentemente inspirados em tradições norte-americanas de sociologia interpretativa, dentre as quais podemos destacar a Escola de Chicago, o pragmatismo, o interacionismo simbólico, a etnometodologia, a sócio- linguistica e a grounded theory (APITZSCH E IONOWLOCKI, 2000). Existe, portanto, um processo histórico que faz defesa a estas críticas, como vemos a seguir:
A forte ligação com as tradições teóricas norte-americanas e da Europa ocidental não é um fenômeno acidental, nem mesmo recente. A base e a produtividade da abordagem qualitativa-interpretativa, especialmente entre a pesquisa biográfica, não está amarrada à hermenêutica subjetiva das ciências humanas alemã (Geisteswissenschaften), mas tem suas características e potencial derivados de um histórico de importação, exportação e re-importação do pensamento, bem como de um processo de migração. Isto pode ser exemplificado através do trabalho de Alfred Schütz, Georg Simmel e Karl Mannheim, que primeiramente tornaram-se proeminentes nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, antes de tornarem-se uma influência importante na sociologia qualitativa-interpretativa na Europa (APITZSCH E IONOWLOCKI, 2000, p. 6).
30 A respeito da discussão entre idealismo x realismo nas abordagens biográficas na Europa, ver Fisher-Rosenthal e Rosenthal, 1997.
Além das críticas específicas às formas de fazer análise biográfica na Alemanha, dito que são variadas – e já aí reside um ponto errôneo na natureza das críticas – existem as frequentes condenações ao próprio uso de biografias como objeto de análise. Algumas destas objeções merecem destaque, pois abrem espaço para o esclarecimento de importantes e
comuns equívocos. Uma delas diz respeito à questão da “verdade” nas narrativas biográficas,
que para Fisher-Rosenthal e Rosenthal (1997) deriva justamente da dificuldade do pesquisador em compreender a diferença entre realidade social e ordem simbólica, entre a vida real e o discurso sobre ela e, principalmente, sobre como estas instâncias estão intrinsecamente conectadas. Desta forma, não há vida social sem o trabalho simbólico, e o indivíduo que nega esta afirmativa, corre o risco de permanecer imerso no reputado dualismo entre mundo interno e externo, deixando de lado a preocupação central: de que forma eles constituem um ao outro (FISCHER-ROSENTHAL E ROSENTHAL, 1997).
Outra crítica frequente diz respeito a uma impossibilidade de generalização, ou ainda, se seria possível encontrar a sociedade e os processos sociais em um único caso biográfico. Esta questão traz à tona o problema de como estabelecer achados socialmente significativos em pesquisas biográficas (APITZSCH E IONOWLOCKI, 2000) e foi profundamente abordado em diversos trabalhos teóricos na área. Uma avaliação importante frequentemente difundida pelos críticos, e relacionada com o apontamento anterior, é de que a pesquisa biográfica seria alheia aos fenômenos coletivos e, portanto, estaria focada nos processos puramente psicológicos e individuais. Aqui residem dois problemas: o primeiro é
de que fazer esta crítica é o mesmo que equiparar o conceito de “subjetividade” estritamente aos conceitos de “psicológico” e “individual”, e o segundo é o de negar a subjetividade como
sendo constituída socialmente e como parte constituinte do mundo social (FISCHER- ROSENTHAL E ROSENTHAL, 1997). Neste sentido, é possível encontrar no início dos anos 1980 uma polarização entre pesquisas biográficas que trabalhavam com métodos quantitativos e outras que eram realizadas a partir de princípios qualitativos. Em relação à primeira, também chamada de “Life Events Research”, o objeto estudado são eventos “factuais” da biografia, diferente da segunda, preocupada com as interpretações e com o constructo
subjetivo chamado “história de vida” (ROSENTHAL, no prelo).
Atualmente, o uso de narrativas biográficas nas ciências sociais cresce, e o pesquisador interessado neste campo, invariavelmente, irá se deparar com uma gama significativa de difusões, com diversos tipos metodológicos em diferentes níveis de desenvolvimento (CHASE, 2005). A seguir, apresento os principais autores e conceitos que
compõem o quadro teórico adjacente a grande parte dos métodos biográficos de inspiração reconstrutiva e fenomenológica.