III. Araştırma Konusuyla İlgili Kuramsal Çerçeve ve Konuyla İlgili Belli Başlı
3.2. İslam ve Demokrasi
Ainda que, fundamentalmente, os métodos de pesquisa social qualitativa componham um conjunto que se opõe aos procedimentos quantitativos, não podemos apontar qualquer homogeneidade entre as concepções metodológicas adjacentes a estes. Contudo, como aponta Rosenthal (no prelo), podemos diferenciar entre aqueles métodos que, mesmo classificados como qualitativos, se orientam a partir da lógica quantitativista de generalização estatística, e estão preocupados com a frequência em que ocorrem determinados fenômenos; e aqueles procedimentos que se baseiam na lógica da generalização a partir de um caso ou de um meio específico, partindo de uma descrição densa e minuciosa, como apontada por Geertz (2008),
em sua obra “A Interpretação das Culturas”. À pesquisa social qualitativa caberia a produção
de hipóteses que não precedem o próprio processo de investigação, mas que são inerentes e oferecidas por este. É diante do material empírico que o pesquisador pode encontrar soluções interpretativas, fazer distinções e, progressivamente, descobrir no percurso novas questões capazes de modificar as ferramentas conceituais e esquemas interpretativos, engendrando novas interrogações (LAHIRE, 2004). Parte, portanto, do princípio de abertura, buscando desenvolver instrumentos que orientem o observador ao sistema de relevância próprio do
entrevistado ou observado, dando o maior espaço possível para que ele construa “a situação”
(ROSENTHAL, no prelo).
A escolha específica pela pesquisa biográfica interpretativa nos remete a alguns princípios teóricos, métodos de levantamento e análise de dados característicos, voltados para
a reconstrução de casos de narrativas de histórias de vida. O termo “narrativa” possui, neste
quadro teórico, um conceito específico com cinco características principais: a) é temporal, já que é a representação de eventos passados a partir de uma perspectiva atual; b) é social, pois a situação na qual ocorre a entrevista é uma situação social que influenciará o modo de narrar do indivíduo; c) é significativa, pois expressa o significado atribuído pelos indivíduos às suas experiências; d) é subjetiva, já que representa sempre a expressão da perspectiva de um sujeito cuja biografia é singular; e e) é linguística, pois é realizada a partir de linguagem que é cotidiana e familiar ao indivíduo (SCHÜTZE, 1983; FANTON, 2011). A reconstrução, por sua vez, é um processo extenso onde o pesquisador se ocupa, fundamentalmente, em
compreender profundamente o processo de criação, reprodução e transformação do fenômeno
estudado, e onde o conceito de “compreender” também adquire uma especificidade.
Como apresentado anteriormente, a fenomenologia estabelecida por Edmund Husserl como uma disciplina filosófica e desenvolvida por outros tantos autores, preocupa-se justamente com os problemas fundamentais do conhecimento e da experiência, pelos quais somos guiados em nosso cotidiano. Ademais, falarei sobre as contribuições da fenomenologia à teoria da Gestalt e seu desenvolvimento por Aron Gurwitsch. Estes conceitos serão fundamentais para compreendermos alguns posicionamentos básicos no trabalho de condução de entrevistas e análise de narrativas biográficas, principalmente no que diz respeito às elaborações de Gabriele Rosenthal.
3.3.1 Biografia e Aron Gurwitsch: a teoria da Gestalt e o campo temático
Na medida em que avançamos os estudos para uma metodologia qualitativa, a necessidade de termos uma epistemologia que sustente determinados quadros metodológicos torna-se evidente. A Gestalt tem se mostrado um pilar importante para o trabalho com narrativas biográficas, como veremos a seguir.
O pesquisador alinhado ao referencial aqui apresentado precisa, antes de tudo, estar interessado em saber o que os sujeitos vivenciaram concretamente, ou seja, como a ação se desenvolveu no passado, mas também no sentido que estes atribuíram e atribuem atualmente às suas ações: o curso de ação e a perspectiva dos sujeitos em relação a estas. Observamos a biografia do sujeito perguntando pelas experiências que antecederam e as que seguiram o fenômeno de interesse, assim como pela sequência em que ocorreram as vivências, buscando reconstruí-lo em seu processo de constituição (ROSENTHAL, no prelo; FANTON, 2011).
É comum, principalmente na Alemanha, que o pesquisador analise a biografia considerando-a integralmente, abarcando a reconstrução em sua gênese, bem como em sua construção a partir do momento da fala na entrevista, não limitando a análise a uma ou poucas fases de vida do entrevistado. Não nos esqueçamos, entretanto, que a entrevista é um processo de rememoração no presente, em uma situação de interação com o entrevistador que precisa ser considerada. Para compreendermos as declarações de um entrevistado sobre diferentes temas e situações no passado, é necessário conhecer seu contexto atual de vida, momento biográfico onde sua fala tem origem (ROSENTHAL, no prelo; LAHIRE, 2004).
A pergunta mais frequente, então, é: como falar no passado se as entrevistas biográficas nos remetem a declarações atuais, produzidas e manifestas em um momento
específico do presente? Existe, fundamentalmente, uma relação dialética entre aquilo que é vivenciado, aquilo que é lembrado e o que é contado (ROSENTHAL, 2006; ROSENTHAL, 2004), cuja dinâmica foi devidamente considerada pela teoria da Gestalt, partindo das considerações fenomenológicas de Aron Gurwitsch.
Uma Gestalt pode ser definida como um conjunto de itens que apoiam e determinam um ao outro, compondo uma estrutura geral que os governa e atribui funções – como partes de um todo –, um papel a ser cumprido, bem como um lugar específico naquele “todo”. Cada parte, portanto, só pode ser compreendida em relação a sua função, que a caracteriza e a quem
ela deve por ser o que é no “aqui-e-agora”. Entretanto, quando alguém muda sua maneira de perceber algo, testemunha também uma mudança nos “dados” e a alteração nas funções
atribuídas e nos detalhes do todo, mesmo que objetivamente eles não se submetam a nenhuma mudança. Ainda que seja apenas uma mudança na atitude mental, o objeto original desaparece, transformando-se em outro objeto. Além disso, a mudança nunca será restrita a apenas um detalhe da estrutura da Gestalt, já que todo o conjunto de detalhes é afetado devido às funções de cada parte serem intrinsecamente dependentes da estrutura total desta – todas as funções demandam uma a outra mutuamente, distinguindo-se daquelas concepções nas quais o total do conteúdo consciente, e mesmo o inconsciente, são apenas somas das partes que o compõem (GURWITSCH, 2009).
Dito isto, podemos seguir na compreensão do ato consciente não como a presença de um conteúdo cercado pelo caos de múltiplos conteúdos, ou como um holofote colocado sobre determinado conteúdo enquanto a confusão seria o ator caótico que preenche áreas de sombra e escuridão. A consciência é temática, e para cada estado mental em forma de pensamento, existe um campo que forma uma Gestalt (GURWITSCH, 2009). Isto justifica de forma contundente a afirmativa de que os relatos de um entrevistado referem-se tanto à vida atual quanto às experiências passadas: assim como o passado é constituído pelo presente e pelo passado antecipado, o presente surge do passado e do futuro. Assim, as narrativas oferecem informações sobre o presente e também sobre o passado de quem narra, bem como suas perspectivas para o futuro (ROSENTHAL, 2004). “Relatos sobre o passado estão diretamente ligados ao presente da fala. A situação de vida atual determina o olhar sobre o passado, isto é,
produz um passado específico, recordado de acordo com o contexto.” (ROSENTHAL, no prelo, p. 184) Edmund Husserl chama este ato de “voltar-se a” ou de noesis, aonde
determinadas vivências passadas vêm à mente apresentando-se de outra forma. Assim, tem origem um noema relativo à memória, ou seja, a atualização por meio da recordação (ROSENTHAL, no prelo).
Usemos como exemplo o caso que será compreendido neste trabalho: Maria, até os seis anos de idade, viveu com seus pais, até que passou a morar na rua e em casas de pessoas que lhe acolhiam temporariamente. Aos dezesseis anos teve seu primeiro filho, aos dezessete o segundo, aos dezoito o terceiro e aos vinte e quatro o quarto filho. Se perguntássemos a Maria sobre sua história de vida, preocupados com sua interpretação sobre o papel materno, evidentemente obteríamos respostas diferentes em cada uma das etapas apresentadas – Maria sem filhos, depois com um, dois, três e quatro filhos. Até os 15 anos, daria seu relato do ponto de vista de filha, cujas experiências de separação da família de origem, possivelmente seriam muito marcantes. Mas, ao perguntarmos a Maria sobre sua história aos 17 anos, provavelmente a questão da maternidade viria somada, entrecruzada ou mesmo significada a partir de sua própria experiência como mãe. Daí decorreria que Maria poderia tecer comparações, latentes ou manifestas, sobre como vê/via sua própria mãe neste papel, como vê a si, bem como os desejos futuros enquanto ocupante deste papel. Estes podem ser apontados como possíveis pontos de reinterpretação, como dito anteriormente na perspectiva de Husserl, e significam uma reorganização das lembranças e argumentações, gerando uma mudança de campo temático.
Neste sentido, nunca lidamos com um tema, mas sim com um campo temático, e o tema como pertencente a este campo. O campo em si é um contexto de objetos relacionados, pertencentes entre si e conectados ao tema a partir de uma conecção gestáltica (Gestalverbindung), que é específica em cada situação. Possui, portanto, um centro a partir do qual se orienta, ou seja, o fundo – campo temático – é organizado pela figura – tema, e a partir desta dinâmica os componentes do campo temático são reordenados (GURWITSCH, 2009). Esta organização, no caso da entrevista narrativa biográfica, será influenciada, em grande medida, pela situação de vida atual do entrevistado, bem como pela própria situação de entrevista - onde e para quem o narrador fala. Será no próprio processo de análise que o pesquisador dará conta de separar aquilo que é a vida pessoal narrada, e as nuances sobre a situação do falante e seu interesse de apresentação, e a vida pessoal vivenciada, como possivelmente experienciada no passado (ROSENTHAL, 2006), justificado pelos conceitos acima apresentados sobre o fluxo e processo de reinterpretação dos objetos partindo da hipótese de que todas as experiências são interdependentes dentro de um campo guiado por um tema (GURWITSCH, 2009), constituindo-se de passado, presente e expectativas para o futuro (ROSENTHAL, 2004).
Vimos acima breves considerações acerca dos fundamentos mais básicos para o trabalho com narrativas biográficas. Fica evidente que cada menção comporta uma extensa
produção teórica, discussões epistemológicas densas e a certeza de que seria necessário um esforço exclusivo para que eu pudesse abarcar todas as especificidades, bem como as contribuições e problemas decorrentes das ideias mencionadas. Entretanto, veremos adiante que grande parte destas compreensões será necessária para ampliarmos nossa visão sobre os limites e potenciais tanto na condução quanto na análise de biografias. Afirmo, entretanto, desde já, que tanto os limites quanto os potenciais oriundos deste entrecruzamento entre epistemologia e práxis são considerados importantes pontos de discussão interdisciplinar, e capazes de mediar o aperfeiçoamento e expansão daquilo que é comum a uma sociologia interpretativa, necessariamente preocupada com a vida cotidiana e social enquanto fundamentalmente dialógica.
A seguir, inicio um detalhado esclarecimento acerca da postura metodológica na entrevista narrativa biográfica, especialmente daquela desenvolvida por Gabriele Rosenthal, bem como as influências por ela incorporadas. Além disso, alguns exemplos oriundos do caso aqui trabalhado – a história de vida de Maria – para que cada etapa de condução da entrevista, bem como da análise, seja adequadamente posto em evidência.
4 PROCEDIMENTOS PARA A CONDUÇÃO E ANÁLISE DE ENTREVISTAS