III. Araştırma Konusuyla İlgili Kuramsal Çerçeve ve Konuyla İlgili Belli Başlı
1.4. Savunma ve Saldırı Savaşları
O conceito de família é uma construção cultural e histórica em constante transformação, e deve ser olhado a partir dos diversos pontos de vista que o atravessam a cada época. Se a sociedade medieval atribuía ao aparato familiar a função da transmissão da vida, de bens e nomes, a preocupação com sentimentos maternos, conjugais e com as crianças não era igualmente considerada. Uma mistura entre o público e o privado era marca deste período, e apenas uma profunda transformação político-econômica seria capaz de promover alterações funcionais e simbólicas nas estruturas de parentesco. A saída da Idade Média inaugura lentamente o “sentimento de infância”, cujos significados também estariam em constante transfiguração (ARIÈS, 1981).
O término da Idade Média trouxe um novo olhar sobre a família, agora vista como uma unidade de consumo e reprodução, onde a criança possui uma nova importância. A necessidade de cuidar e zelar pelo infante seria, em princípio, oriunda de uma preocupação com a força de trabalho que daria continuidade à emergência econômica da sociedade capitalista em ascensão (ARIÈS, 1981). As ideias de família nuclear, sentimento de família e fragilidade infantil seriam, neste sentido, construídas de forma múltipla e, portanto, não poderiam ser naturalizadas a qualquer época e lugar.
Assim como as mudanças históricas e sociais apontam estas transformações, o universo acadêmico, de certa forma, não poderia deixar de ter sua própria história – proficuamente conectada com teu tempo e espaço e, portanto, com as ideias em vigência – sobre as formas com que tem olhado para a família e para suas transformações. O esboço que segue, busca mapear estas formas de pensar a família que têm sido atribuídas a determinadas épocas dentro das ciências sociais no Brasil. Porém, não é meu objetivo esgotar o eixo temático, mas apenas situar o leitor e este trabalho dentro de uma tentativa de renovação das perspectivas até o presente momento valoradas.
Isto não significa dizer que os sistemas interpretativos até hoje arraigados foram sistematicamente provados como insuficientes, mas antes que tiveram, à sua época, a
relevância que aquele tempo pôde dar a eles. Entretanto, a contemporaneidade parece admitir que a necessidade de buscar por novos sistemas e novos olhares é um imperativo, já que as transformações sociais seguem de forma acelerada e as ideias que antes conversavam com seu objeto – a família – parecem agora lentas e desmotivadas. Assim, novas perspectivas precisam nascer junto as nem tão novas famílias de nosso tempo.
As mudanças nas famílias brasileiras e no quadro geral contemporâneo justificam a crescente preocupação em buscar sistemas interpretativos que solucionem, mesmo que em parte, a dificuldade em coordenar um número grande e variado de dados empíricos. Para Bilac (2003), este problema não encontra ainda solução quando pesquisadores se deparam com uma volumosa produção empírica de alto nível, para cuja articulação busca-se resposta consistente. Tal como as idiossincrasias pós-modernas, é paradigmático que o pesquisador coerente encontre explicações de longo alcance ou almeje, simultaneamente, profundidade e abrangência no produto final de análise. Não se trata, portanto, em abrir mão da competência analítica, mas antes de uma escolha teórica importante.
Para que possamos compreender o que isto significa, é necessário que remontemos alguns paradigmas que guiaram a pesquisa com famílias no Brasil até a contemporaneidade e a maneira como grande parte destas concepções acompanha a própria concepção de pobreza e de dominação no pensamento social brasileiro. Para Couto (2005), serão duas as tradições que, por coerência interna, ampla filiação e defesa de marcos analíticos, merecem destaque: a tradição subjetivista dos estudos de famílias de classes médias urbanas e a tradição econômico-produtivista dos estudos de famílias trabalhadoras/pobres/populares urbanas.
A antropóloga Cynthia Sarti (1993), em sua extensiva análise da produção acadêmica brasileira sobre famílias, coloca que estas abordagens também podem ser representadas
através “do tipo de lógica que admitem”. A partir da ruptura com a visão biologista de
família, as ciências sociais teriam se atualizado de forma a interpretar a unidade familiar enquanto a realização de uma função econômica, o que significa guiar-se por paradigmas de
“lógica prática”, ou ainda, pela “ótica da razão instrumental” (SARTI, 1993). Couto (2005)
corrobora esta visão ao salientar a emergência da categoria trabalho nos anos 1970, cuja inspiração claramente marxista abordava as relações familiares como unidades funcionais para o capital e para a produção da força de trabalho. A autora (COUTO, 2005) chama esta lógica de corrente produtivista, cujos trabalhos sobre famílias pobres urbanas podem ser divididos em dois segmentos: famílias pensadas enquanto reprodução da força de trabalho e famílias pensadas enquanto arranjo produtor de estratégias de sobrevivência (WOORTMANN, 1987).
Para Couto (2005), tratam-se claramente de abordagens com caráter externo de análise, ou seja, concebem as famílias populares urbanas enquanto instâncias ideológicas e reprodutoras de relações de dominação social. Consequentemente, muitos dos trabalhos ancorados em tais pressupostos acabam por ignorar as razões simbólicas, dinâmicas internas e a construção social dos papéis de homens e mulheres diante da classe, do trabalho, da família e de sua própria biografia. Será apenas nos anos 1980 que a sociologia do trabalho começará a incorporar o referencial gênero, dado o inegável movimento de ingresso da mulher no mercado de trabalho, passando a questionar as explicações econômicas que partiam de teorias do patriarcado de dominação masculina e desigualdade de gênero:
A proposição, quase que axiomática, de que o trabalho constitui a principal referência que determina não apenas direitos e deveres, diretamente inscritos nas relações de trabalho, mas principalmente padrões de identidade e sociabilidade, interesse se comportamento político, modelos de família e estilos de vida, vem sendo amplamente revista. Novas categorias de análise como identidades, estilos de vida e movimentos sociais ganham preeminência e asseveram, implícita ou explicitamente, que o trabalho e a produção perderam sua capacidade de estruturar posições sociais, interesses, conflitos e padrões de mudança social. [...] Desejo apenas assinalar que a área ficou acuada entre dois movimentos teóricos distintos, ambos, a meu ver, insatisfatórios: um que continuou a insistir na validade de modelos explicativos tradicionais, especialmente os de inspiração marxista, apesar do reconhecimento da perda do seu poder explicativo, e outro que rapidamente abraçou as teses sobre o fim do trabalho, deslocando o interesse da Sociologia para outras esferas da vida e adotando novos conceitos de rentabilidade sociológica, supostamente superiores (SORJ, 2000, p. 27).
Assim, a participação feminina no mercado de trabalho passa a ser compreendida a partir dos condicionantes impostos pelo ciclo de vida familiar e reprodutivo. O gênero, então, é visto como um sistema simbólico que medeia relações sejam elas de poder, de igualdade ou desigualdade, no espaço público ou privado, no trabalho ou na família e na relação entre os dois.
Ademais, muitos estudos sobre famílias pobres urbanas passaram a ser
desenvolvidos a partir do chamado “paradigma da cultura”, ou seja, com ênfase na cultura
enquanto componente simbólico importante a qualquer tentativa de apreensão do objeto investigado. Aqui têm destaque estudos de caráter etnográfico, que buscam trazer à luz os modos próprios de existência destas famílias, dimensionando seu cotidiano, a sua auto- representação como trabalhadores e pobres, homens ou mulheres, além da sexualidade, da violência, do lazer e da participação política (COUTO, 2005). Se antes os estudos que envolviam famílias estavam ligados a um referencial externo, agora ocorre a inversão desta lógica: os trabalhos de cunho etnográfico, ainda que de início muito ligados a uma visão
estruturalista, partem primordialmente das lógicas internas para então traçarem algum tipo de observação mais ampla ou macro social. Alguns estudos demarcam esta virada, como veremos a seguir.
No estudo intitulado “A Família das Mulheres”, Woortmann (1987) parte do
pressuposto de que existe uma diferença importante entre pobres e ricos no que diz respeito ao parentesco e aos papéis sexuais. Para ele, o sistema de parentesco faria parte de um tema tradicional em Antropologia, mas que, ao mesmo tempo, participaria de um campo muito recente: o estudo das culturas ocidentais contemporâneas, cujo objetivo é vincular sistematicamente relações de parentesco e papéis sociais. Os papéis e os padrões de parentesco seriam, portanto, o resultado da interação ou manipulação consciente de dois níveis ideológicos: um modelo ideal ligado a uma cultura dominante e um modelo adaptativo, procedente da prática cotidiana dos pobres.
Tal estudo parte da perspectiva estratégia de sobrevivência e busca romper com os trabalhos anteriores que viam na família uma instância de simples reprodução de dominação social. Ou seja, distancia-se, em parte, dos trabalhos de base estritamente externa (COUTO, 2005). Existe, evidentemente, o interesse em compreender as dinâmicas específicas dos segmentos populares, mas ainda assim o paradigma da sobrevivência coloca-se à frente na abordagem. Woortmann (1987), portanto, explora o parentesco enquanto estratégia crucial de ajustamento e suporte em face da pobreza, onde a carência de recursos materiais produziria uma definição de papéis sexuais muito diferente daquelas encontradas nas elites e na classe média.
Em seu trabalho intitulado “A Família como Espelho: Um estudo sobre a moral dos pobres”, Cynthia Sarti (1996) utiliza entrevistas com famílias de classe popular de São Paulo
com o intuito de compreender a identidade social e os valores particulares àquele grupo de trabalhadores. A autora parte da hipótese de que as fontes da organização social ampla estariam no âmbito da família, onde se localiza a origem de todo universo simbólico dos indivíduos que formam a sociedade. Nas famílias populares urbanas a família exerceria um papel ainda mais fundamental, já que o padrão tradicional de hierarquia seria o principal organizador das relações nestes grupos. Isto significa dizer que é justamente a assimetria de papéis tão presente nestas famílias que tornaria possível o senso de responsabilidade e os elos de obrigação que prevalecem sobre os projetos individuais. Para Sarti (1993), o mundo cultural dos pobres não poderia contemplar os recursos necessários para a formulação de projetos individuais, pois estes pressupõem condições específicas de educação e valores sociais que não encontram referência em seu universo simbólico:
A tradição mantém-se, assim, como uma referência fundamental da existência. Pensam seu lugar no mundo a partir de uma lógica de reciprocidade de tipo tradicional em que o que conta decisivamente é a solidariedade dos laços de parentesco e de vizinhança com os quais viabilizam sua existência. Sua busca em serem modernos, ou seja, de usufruírem da possibilidade, dada por nossa época, de conceber e realizar projetos individuais, quando chega a ser formulada, torna-se uma busca frustrada, em que aparece o peso de sua subordinação social (SARTI, 1993, p. 47).
Tal abordagem, de acordo com Couto (2005), reflete um duplo caráter: ao mesmo tempo em que relativiza a organização e as diferenças culturais entre classes trabalhadoras e a classe média, segue subjugando a cultura das camadas populares aos determinantes de classe. Machado e Barros (2009) apontam que a literatura sócio-antropológica brasileira contemporânea busca justamente uma revisão deste paradigma holista que até meados dos anos 1990 orientou os trabalhos das camadas populares, e cuja tese geral salienta a organização do mundo e da família de forma hierárquica. Entretanto, grande parte das produções não rompe com o paradigma holista, mas tenta compreender como acontece a comunicação entre as classes, ou seja, como a “cosmologia moderna” se articularia com as características tradicionais de tal segmento: quais seriam as possíveis combinações entre o ideário individualista e os pressupostos hierárquicos dos trabalhadores (MACHADO E BARROS, 2009).
Fonseca (2005) afirma que falar em famílias de grupos populares é falar em redes extensas de ajuda mútua, e de pessoas que, muitas vezes sacrificam seus projetos individuais ou os de seu núcleo familiar para ajudar aqueles indivíduos problemáticos da rede ampla de parentes. isto significa, portanto, desmistificar algumas concepções popularizadas de família, tais como aquelas em que a unidade se dá pela ligação biológica e da unidade doméstica. olhar para famílias pobres seria justamente deparar-se com um quadro que contradiz estes limites e que, através das gerações, implica numa lógica de reciprocidade. A escolha operacional da autora é que, portanto, se desloque a conceptualização da vida familiar do
“modelo ou unidade familiar” para as “dinâmicas e relações familiares”. A definição, assim
deslocada, se apresenta como uma relação marcada pela identificação estreita e duradoura entre determinadas pessoas que reconhecem entre elas certos direitos e obrigações. Ou seja, para além do ideal normativo, outras possíveis estruturas familiares podem ordenar as práticas e dar sentido à existência (FONSECA, 2005).
A família “desestruturada”, não raro é associada à pobreza e a indivíduos “problemáticos” do ponto de vista moral. porém, ainda que as condições objetivas como
diferenças de oportunidade, desigualdades econômicas e sociais levem os sujeitos a olharem para o mundo de um jeito ou de outro, os valores são invariavelmente reconstruídos e investidos de novos significados por meio das práticas dos atores sociais (FONSECA, 2005), ou seja, existe uma teoria da prática que permite a compreensão de agente que não está totalmente refém das estruturas, nem mesmo é anterior a elas, mas uma constante dialética de construir e reconstruir entre os dois polos.
As autoras Machado e Barros (2009) partem de um pressuposto que tenta, de alguma forma, contra argumentar a tese do individualismo contemporâneo das classes médias de um lado e o retrato holista das camadas pobres do outro, como se existissem enquanto níveis absolutamente segmentados. Para tanto, adequam o conceito individualismo para o senso de pluralidade; o termo individualismos compreende ambas as instâncias no mundo dos pobres: a do sujeito que responde à moral tradicional e hierárquica e que ao mesmo tempo se coloca como sujeito de ethos individualista, ainda que subordinado a uma determinada classe e suas condições. Deixam claro, entretanto, que não pretendem ignorar especificidades de gênero e das relações, nem mesmo do papel significativo da classe social na biografia dos indivíduos, mas antes destacar a importância de compreendermos os sentidos atribuídos por homens e mulheres aos mais diversos âmbitos de sua vida, não apenas através da classe social, mas também das diferenças geracionais, além do gênero.
Aqui vemos florescer com mais intensidade a correlação entre gênero, família e geração como porta para estudos mais preocupados com a descoberta das formas de ser das famílias. Partem, portanto, de uma observação da estrutura para buscar os significados e simbolismos que ali estão envolvidos. Para Berquó (2001), as famílias chefiadas por mulheres são um fenômeno tipicamente urbano em constante crescimento, que geralmente encontramos
em camadas mais pobres da população. Mendes (2002) discute o termo “chefia” de famílias e
questiona a que exatamente tal categoria estaria se referindo: a mulher que chefia uma família é responsável pela provisão econômica apenas, ou a chefia também faz relação com a autoridade? Neste sentido, existiria uma chefia feminina mesmo com a presença masculina no domicilio? Independente da resposta a esta pergunta, em si muito relevante como interesse de investigação e questionamento das conceituações próprias na normatividade de estudos demográficos, as dúvidas remanescentes têm sua primeira pauta no próprio motivador para o ingresso das mulheres no mundo do trabalho.
Mendes (2002) coloca que nas camadas populares, o principal motivador da mulher seria a luta pela sobrevivência, enquanto que nas classes médias e altas, o ingresso no mercado de trabalho estaria muito mais ligado à questão da emancipação feminina. Mais uma
vez vemos que a superação da visão holista em relação às camadas populares traz dificuldades e não necessariamente se arraiga de forma uniforme no meio acadêmico ou, pelo menos, igualmente entre as diferentes disciplinas.
Torna-se evidente a necessidade de buscarmos novos referenciais e, é neste sentido que apresento o uso de narrativas biográficas como uma possibilidade contemporânea para a compreensão qualitativa das famílias. Três níveis tornam-se mais acessíveis para análise através do uso do método biográfico: o da estrutura social – certa plataforma geral que perpassa, em algum grau, todas as biografias, como um fundo dinâmico e ao mesmo tempo estável; o mundo da vida, ou seja, o mundo enquanto construção e interpretação subjetiva individual onde o sujeito lê os recursos disponíveis e toma decisões que respondem, em parte,
ao “contexto”, mas que não é imposto por ele; e o conceito de geração a partir de uma
perspectiva simbólica. Se para Mello (1993) estávamos ainda diante de uma exacerbada generalização nos estudos das famílias de classes populares, a abordagem biográfica e os diversos pressupostos teóricos e práticos que ela reserva seriam uma saída adequada e ainda muito original para a necessidade de trabalhos que vejam as famílias de dentro para fora (COUTO, 2005).
Falarei mais atentamente sobre quais seriam estes pressupostos, de que forma eles atuam e como podem contribuir para uma leitura atual da família nas seções do capítulo metodológico.
3 METODOLOGIA: UM QUADRO TEÓRICO PARA A PESQUISA