• Sonuç bulunamadı

Este subcapítulo irá analisar os momentos destinados para brincar livre, sem pretensão de se trabalhar conteúdos ou desenvolver atividades relacionadas ao ensino, ocorridos nas turmas investigadas. Para tanto, justifica-se a importância desses momentos em turmas de anos iniciais, mais especificamente, em turmas do ciclo da alfabetização, por serem essas turmas formadas por crianças que, quase na totalidade, estão na faixa etária entre seis e oito anos de idade, ou seja, em plena infância.

Na educação infantil, até os cinco anos de idade, os momentos de brincar acontecem quase que diariamente, através da hora da pracinha ou do pátio. Nessa época escolar, ou seja, na fase da educação infantil, geralmente a criança brinca livremente no pátio da escola e com brinquedos presentes na sala ou, ainda, possui um horário fixo diário para brincar no pátio ou fazer uso da pracinha. Com o ingresso no ensino fundamental, muitas escolas proporcionam uma ruptura severa para as crianças, na qual as brincadeiras livres e a “escola divertida” deixam de existir, dando lugar a uma “escola séria”. Sobre isso, Fortuna (2011, p. 120) acrescenta:

Se examinarmos detalhadamente as práticas pedagógicas predominantes na atualidade, constataremos a inexistência absoluta de brinquedos e momentos para brincar na escola. Os pátios, áridos, resumem o último baluarte da atividade lúdica na escola, ainda que desprovidos de brinquedos atraentes, ou mesmo sem brinquedo algum, sob o pretexto de proteger os alunos ou alegando que estragam.

Essa citação de Fortuna ilustra a realidade de muitas escolas de ensino fundamental, cuja brincadeira cede a vez para a aprendizagem dos conteúdos. Nessas escolas, não há mais

espaço/tempo para brincar. E, quando a brincadeira acontece, geralmente é de forma tímida, através do dia do brinquedo, desenvolvida, na maioria das vezes, uma vez por semana, e em um curto espaço de tempo. Muitas vezes, se as crianças infringirem algumas regras estabelecidas pela turma ou não conseguirem desenvolver todo o conteúdo previsto, a primeira consequência ou punição é perder o momento do brinquedo, as brincadeiras, o recreio, as aulas em que a ludicidade está mais presente, como a aula de educação física. Paradoxalmente, essa não era a realidade da escola em que ocorreu a pesquisa. Lá, havia a existência de brinquedos e de momentos para brincar na escola. Os pátios não eram áridos e nem desprovidos de brinquedos atraentes. E não deixaram de ser usados.

A professora do primeiro ano levava seus alunos todos os dias ao pátio para brincar. Além do horário destinado para o recreio, as crianças tinham mais um horário diário para brincar livre, de forma espontânea, com os brinquedos disponíveis no pátio das crianças do primeiro ano e com os brinquedos que buscavam na sala de aula. Havia também outro pátio para o qual, às vezes, a professora levava as crianças, com o intuito de trocar de ambiente. Como relatou a professora durante a entrevista, esse momento de brincar livre, espontâneo é fundamental para a criança e para o professor: “Diariamente, eles têm o lúdico. Todos os dias.

E tem o lúdico que eu acho que hoje em dia é fundamental, não só o dirigido, eles têm que ter momentos de brincadeiras livres, mas não que o professor deixe eles brincando ali como um momento que ele vá estar descansando. Aí é que eu faço as observações, pois eu vejo, nesses momentos, como eles lidam com as frustrações, como eles estão no desenvolvimento da oralidade, se eles conseguem se fazer entender ou não, né? A tolerância que eles têm, o tempo de concentração, que fica muito claro naquela criança que não consegue se centrar para fazer uma atividade, geralmente ela não consegue se centrar nem para brincar, ela troca de brinquedo toda hora, aí ela vai lá, brinca um pouquinho com um, brinca um pouquinho com outro e não brinca de nada” (P1).

Durante os dias de observação na turma, pude perceber que a professora sempre esteve atenta aos alunos durante esses momentos de brincadeira livre. Entre uma brincadeira e outra, as crianças vinham conversar ou solicitar algo para a professora, que atendia, acompanhando as brincadeiras que aconteciam. Esse acompanhamento diário era de grande valia para a professora, pois permitia a ela observar as diferentes representações que as crianças faziam através da relação com o brinquedo e com as outras crianças. Adscrevendo-se, Vitória (2003, p. 38) afirma que o brinquedo, por ser uma construção social, conduz a diferentes comportamentos nas crianças, definindo também valores e atitudes. Dessa forma, os momentos de brincar livre podem ser um campo frutífero de pesquisa e estudo para o

professor. Além dessa atividade diária que contemplava o brincar livre, na sala de aula, havia o canto dos brinquedos, outro ambiente utilizado pelas crianças na ideia de brincar de forma espontânea.

Contudo, curiosamente, os momentos de brincar livre, espontâneo, eram algo que gradativamente ia diminuindo nas turmas investigadas, ou seja, acontecia de maneira decrescente. Na turma de primeiro ano, era uma atividade diária; no segundo ano, as brincadeiras livres ocorriam nos momentos finais da aula (sem dias determinados) e de forma fixa, uma vez por semana, todas as sextas-feiras quando ocorria o dia do brinquedo. Neste dia, as crianças poderiam trazer um brinquedo de casa ou, ainda, brincar com um dos brinquedos disponíveis na sala (a professora organizou um acervo de brinquedos e jogos, alguns comprados pela professora e pelos alunos, outros doados). No terceiro ano, o momento de brincar livre acontecia na hora do recreio e em momentos da aula, quando as crianças brincavam com jogos pedagógicos, sem a intenção de trabalhar conteúdos.

Durante o desenvolvimento da pesquisa, muito refleti sobre a decisão da professora do primeiro ano incluir o momento de brincar diário no seu planejamento de aula. Na época, fiquei pensando sobre o fato de que muitas escolas acabam banindo essa atividade do planejamento pelo fato de ter que trabalhar os conteúdos relacionados à alfabetização. Ao analisar as práticas pedagógicas dessa professora e o rendimento das turmas investigadas, tendo também como referência minha crença da importância dos momentos de brincar para o desenvolvimento das crianças nessa faixa etária, e utilizando como base o referencial teórico de autores que discorrem sobre o quanto as brincadeiras favorecem o desenvolvimento da criança nos mais diferentes aspectos, entre eles, os que estão relacionados ao contexto escolar, posso dizer que a professora do primeiro ano sabia do bem que estava fazendo para seus alunos e do quanto esses momentos eram importantes para eles e para ela. Ela sabia também que a riqueza das observações realizadas nos momentos de brincar poderia colaborar para a realização de práticas pedagógicas significativas e, consequentemente, para as aprendizagens e para o desenvolvimento das crianças. Sua atitude, certamente, vinha ao encontro das palavras de Drummond de Andrade38: “Brincar com as crianças não é perder tempo, é ganhá- lo. Se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem”. Trata-se da poesia retratando a vida.

38 ANDRADE, Carlos Drumond de. Brincar com crianças não é perder... [s.d.]. Disponível em: <www.pensador.info>. Acesso em: 28 abr. 2016.