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3.6. Futbol Kulüplerinde Yıldırma Türleri ve Etkileri

3.6.3. Yıldırmanın Futbolcular Üzerindeki Etkileri

Uma vez que o capítulo posterior abordará com maior profundidade também os pilares da discussão acerca da aplicabilidade da díade direita-esquerda, importa assinalar, por hora, o modo como os eleitores brasileiros se autolocalizam no continuum ideológico. À margem da proposta de relativização encabeçada por algumas correntes filosóficas contemporâneas, a ideia de que existe uma direita e uma esquerda segue presente no vocabulário político e as pessoas comuns por vezes tendem nela identificarem-se. Nesta ótica,

[…] os eleitores - apesar da falta de estrutura ideológica definida, para a qual seriam necessários conhecimentos que eles não têm - possuem identificação ideológica suficiente que lhes permite distinguir as posições de esquerda ou de direita, progressistas ou conservadoras (BRESSER-PEREIRA, 2006, p. 36).

Logo, ainda que seja plausível a advertência de que o grosso dos eleitores eventualmente possa não apreender suficientemente os significados mais densos de "direita" e "esquerda" nos moldes difundidos pela filosofia política, a conclusão de Bresser-Pereira não chega a ser isolada. Ao interrogar-se acerca de "como pode o eleitor usar seu posicionamento em um espectro ideológico esquerda-direita para orientar seu voto, se não sabe o que é esquerda e direita?", Singer pondera:

A nosso ver, trata-se [...] de um conhecimento intuitivo, se um sentimento do que significam as posições ideológicas. Esse sentimento permite ao eleitor colocar-se na escala em uma posição que está de acordo com suas inclinações, embora não as saiba verbalizar. E a mesma intuição o conduz a situar os candidatos (e os partidos) nessa escala e votar coerentemente. No entanto, além de permitir uma orientação em relação a candidatos e partidos, essa intuição ideológica está associada a um conjunto de opiniões que representam, a nosso ver, o modo pelo qual o eleitor enxerga a sociedade (SINGER, 2002, p. 143).

Assim, os eleitores comuns, embora potencialmente desprovidos de critérios sofisticados alicerçados em teorias sistemáticas, seriam capazes compreender a dimensão direita-esquerda por meio "de um conhecimento intuitivo" ofertado pela experiência. Com base em semelhante conclusão, surveys como o Cultura Política (1989-1990) chegaram aos seguintes resultados:

104

Distribuição dos eleitores no continuum esquerda-direita (em %)

Fonte: Cultura Política (1989-1990 apud SINGER, 2002, p. 131- adaptado pelo autor).

O predomínio do grupo identificado com a direita é notório, visto que, em 1989, 35,7% dos eleitores identificaram-se com as escalas cinco, seis e sete e 21% preferiram as escalas um, dois e três. No ano seguinte, cresceu o universo dos entrevistados que se associaram às graduações mais à direita: 40,7% (contra 22,7% mais próximos à esquerda).

Avançando no tempo, o mesmo survey foi aplicado no ano de 1993. Embora a escala tenha se expandido, passando para dez gradações, os resultados encontrados não foram fundamentalmente diferentes:

Distribuição dos eleitores no continuum esquerda-direita (em %) Fonte: Cultura Política 1993 (apud SINGER, 2002, p. 131 – adaptado pelo autor).

0 5 10 15 20 25 30

1 Esq. 2 3 4 5 6 7 Dir. Outros

1989 5,8 6,4 8,8 18,1 12,4 9,8 13,5 25,1 1990 5,8 7,7 9,2 16,7 14,4 10,4 15,9 19,9 6,9 6,1 7,9 6,9 11,4 10,9 12,2 18,6 5,8 6,3 7

105 A maioria dos respondentes novamente se identifica com as escalas mais à direita (oito, nove e dez): 30,7%. Por outro lado, a diferença entre os dois grupos diminui, já que 20,9% dos eleitores mostraram-se mais simpáticos à esquerda (escalas um, dois e três).

O ESEB (2002 e 2006) igualmente mensurou a percepção da população acerca do assunto. Ainda que as pesquisas mais uma vez apontem para um aumento da fatia do eleitorado que não soube autolocalizar-se na escala94, a direita continua possuindo mais adeptos do que a esquerda:

Distribuição dos eleitores no continuum esquerda-direita (em %) Fonte: ESEB (2002 e 2006).

Outra pesquisa (Datafolha, 2006) revela que 47% do eleitorado brasileiro se define como sendo de "direita". Outros 23% de "centro" e apenas 30% de "esquerda". Em 201395, o instituto aplicou novamente a pesquisa, e os índices se mantiveram: 49% da população identificou-se com a direita, ao passo que 30% associou-se à esquerda. Eis o detalhamento dos dados:

94Uma das hipóteses para se explicar a variação seria a de "seria importante verificar se ainda havia em 2006

uma parcela significativa do eleitorado que em 2002 associou ‘esquerda’ à oposição e ‘direita’ ao governo. Se, em âmbito nacional havia, até 2002, certa ‘adequação’ destas ‘definições’ aos fatos (já que os governos em âmbito federal haviam sido de centro-direita e a esquerda sempre havia ficado na oposição), a partir do governo Lula esta ‘adequação’ deixa de ocorrer. Isto pode ter contribuído para ‘confundir’ esta parcela do eleitorado, resultando no aumento das "outras respostas” à questão do posicionamento dos eleitores na escala esquerda-direita” (CARREIRÃO, 2007, p. 314).

95Os dados de 2014 não são muito diferentes, embora tenha havido algum crescimento da "esquerda”: 45% dos

brasileiros estariam ideologicamente na "direita”, 35% na "esquerda” e 20% no "centro” (DATAFOLHA, 2014). 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45

Esquerda Centro Direita

Ns/Nr

Esquerda Centro Direita Ns/Nr

2002 25,7 23,3 27,8 23,2

106

Autolocalização na escala direita esquerda Fonte: DataFolha (2013).

Note-se que a escala se complexifica sensivelmente, à medida que oferta ao respondente a possibilidade de se enquadrar em tipologias como "centro-esquerda" e "centro-direita", que operariam como dimensões mais moderadas no interior do espectro ideológico. Ainda que o resultado geral não seja essencialmente diferente das pesquisas anteriores, o instituto fracionou os respondentes também em extratos sociais (sexo, escolaridade e renda), abrindo margem para análises pertinentes.

As mulheres apresentam uma leve tendência de se associarem mais à esquerda do que os homens. Ademais, um contingente maior dos mais escolarizados inclina-se para as categorias situadas do centro para a esquerda, o mesmo ocorrendo em algum nível com os mais ricos. Logo, um homem, menos escolarizado e com menor renda constituiria o eleitor típico de direita no Brasil.

Paralelamente, ao analisar os dados do ESEB, Almeida (2007) considerou que esse tipo ideal seria essencialmente definido pela escolaridade. Ou seja, a tendência seria a de que

107 os menos escolarizados (e, em regra, mais pobres) tenham posicionamentos mais conservadores/tradicionais do que os mais escolarizados (e, em regra, mais ricos). Emerge assim um delineamento que eventualmente surpreende o observador menos atento: a associação ordinária entre esquerda e pobres e entre direita e ricos pode ter validade em outros contextos, mas não é absolutamente o caso do Brasil em termos amplos.

Outra pesquisa do instituto Datafolha, embora tenha se detido especificamente no eleitor paulista, reforça esse possível padrão. A pesquisa se desenvolveu a partir de uma adaptação da metodologia do Pew Research Center no contexto norte-americano96, e consistiu em aplicar perguntas acerca de temas tidos como controversos, tais como a posição dos entrevistados em face da pena de morte, importância atribuída à religiosidade, simpatia ou antipatia em relação ao homossexualismo e à imigração, causas e tratamento da pobreza, posse de armas, liberalização do uso de drogas, origens e punições às práticas criminosas. Com base nisso, foram elaboradas cinco gradações ideológicas: "extremo liberal" e "liberal" (esquerda), "mediano" (centro) e "conservador" e "extremo conservador" (direita). Como resultado, 33% dos entrevistados foram considerados "liberais" (sendo 6% "extremamente liberais"), 23% seriam "medianos" e 44% dos eleitores foram associados ao conservadorismo (sendo 10% "extremamente conservadores"). O jornalista Ricardo Mendonça oferece pistas a respeito do detalhamento social das categorias:

A fatia de extremo-conservadorismo é a única que tem mais homens que mulheres (61% masculina), a de eleitores mais velhos (média de 49 anos) e a com o maior contingente de pessoas com ensino fundamental (42%). Já os extremamente liberais são os mais ricos (24% têm renda familiar superior a R$ 6.220), os mais jovens (37 anos) e os mais escolarizados (58% têm ensino superior) (MENDONÇA, 2012).

Mais uma vez, a ideia de que os valores de esquerda encontrariam abrigo nas classes populares não corresponderia plenamente à realidade brasileira. No Brasil, pelo contrário, os dados até então sugerem que haveria uma tendência para que a base social da esquerda se alicerce justamente entre os eleitores que detém maior renda e escolaridade, ocorrendo o inverso com os conservadores (ou direitistas). Do mesmo modo, as pesquisas apresentadas indicam que o segundo grupo, o dos conservadores, constitui a maioria da população.

96Já citado anteriormente, o centro investiga temas de diversas naturezas nos Estados Unidos e em âmbito

global. A entidade publicou inúmeras pesquisas de opinião a respeito do posicionamento ideológico dos eleitores norte-americanos, de modo que a metodologia foi adequada pelo instituto Data Folha.

108 A associação entre renda e opção política não é pacífica e evidências mais recentes poderiam mesmo sugerir o contrário. Nas eleições presideciais de 2014, por exemplo, os resultados do segundo turno da votação deixaram claro que as regiões do Brasil nas quais residem os extratos populacionais com menor renda média (como é o caso do nordeste) concentraram grande quantidade de sufrágios para o PT, ao passo que seus principais adversários, ligados ao PSDB, venceram em regiões nas quais a renda per capta tende a ser mais alta (sobretudo em São Paulo e no sul do Brasil). Ainda assim, seria possível contrapor que a adesão ao PT entre os mais pobres, nesse caso, se alimentaria, em parte, do sucesso de programas petistas como o Bolsa Família, que beneficiam precisamente os menos aquinhoados. A opção eleitoral dos mais pobres pela esquerda seria, portanto, pontual e baseada no interesse de manter um programa específico, e não em inclinações morais ou ideológicas. É em vista de elementos como esses que pesquisas indicam que o perfil ideológico dos eleitores brasileiros pouco interfere na opção de voto97.