• Sonuç bulunamadı

5. BULGULAR

5.4. Profesyonel ve Amatör futbolcularda Psikolojik Yıldırma (Mobbing) Alt

Ao avaliar o desenvolvimento da paisagem humana no Brasil, Gilberto Freyre assinalou que o processo de "crescente amorenamento do tipo nacional de Homem brasileiro" poderia ser classificado mais acertadamente pelo termo "meta-racial", "o qual envolve a superação de característicos racialmente antropológicos pelos, em vez de raciais, sócio-culturais" (FREYRE, 1982). Em outras palavras, a gradual transformação do brasileiro transcenderia a matéria exclusivamente biológica e influenciaria os "modos de sorrir, de andar, de falar, de viver, de conviver", dando gênese a "um tipo, um caráter pessoalmente nacional" que seria, antes de tudo, "meta-racialmente moreno" (idem).

A terminologia tão típica de Freyre permite-nos evocar a noção de que o Brasil e os brasileiros, à luz daquilo que referimos no início do presente capítulo, são objetos singulares, antropofagicamente singulares. Se há um modo próprio "de sorrir, de andar, de falar, de viver, de conviver", há de existir um modo próprio de interagir com o universo político; há de existir uma identidade na maneira de conceber e expressar as ideias políticas.

Nesta lógica, o conservadorismo brasileiro será necessariamente singular, como singular seria em outras realidades sociais. Não poderia ser um conservadorismo de

97Ver, por exemplo, Datafolha (2013). Apesar disso, iremos sugerir no próximo capítulo que a decisão do voto

por parte do eleitorado mais conservador sofre interferência de outros fatores, como aqueles relacionados ao que denominaremos "consenso de esquerda”.

109 aristocráticos gentlemen ingleses talhados pelo íntimo contato com "a tradição anglo- americana da liberdade" (ESPADA, 2008). Tampouco poderia ser um conservadorismo fundamentalmente apologeta do Ancien Régime, ortodoxamente católico, à moda francesa de De Maistre ou De Bonald. Por certo, igualmente não se enquadraria plenamente no neoconservadorismo militante de Irving Kristol, intelectualizado e preocupado com o inchaço do Estado e com a política externa.

Subsidiando tal parecer sob outro prisma, Bernardo Ricupero, em artigo intitulado O conservadorismo difícil (2010), refere, por exemplo, que a formação do Brasil, marcada que foi por contradições e pela dominação estrangeira, impediria que os conservadores brasileiros se valessem do passado para positivar aquele elemento tão caro ao conservadorismo: a tradição. Assim,

[...] não é fácil encontrar espaço para ele (o conservadorismo) numa ordem política, como a americana, que busca apagar os traços do passado de uma maneira que não se pode fazer na Europa. Em poucas palavras, é muito difícil, como já foi dito, para conservadores na América valorizar o passado porque esse passado é o passado colonial. Aceitá-lo seria, no limite, valorizar a dominação das antigas metrópoles e pôr em questão a própria independência (idem, p. 79).

Logo, a tradição que brotaria do passado brasileiro, pela sua natureza, dificilmente encontraria por parte dos conservadores nacionais o mesmo entusiasmo que pautou Burke em seus louvores às seculares instituições inglesas ou que fez De Bonald saudoso da Europa medieval. Intelectuais como e Oliveira Vianna e Gilberto Freyre, assim, vislumbrariam entraves instrasponíveis para dar fôlego a um conservadorismo clássico no Brasil.

Com efeito, procurou-se demonstrar que um conservadorismo existe e se difunde no Brasil não por meio do esforço de intelectuais, mas através das crenças morais e ideológicas que residem no homem comum, alheios a problemas filosóficos de fundo. Lançando mão de um leque psicológico socialmente lapidado, fatias expressivas do povo brasileiro dão ânimo a um conservadorismo, mas do jeito que lhes soa mais natural, mais familiar. Emergirá, assim, um conservadorismo mestiço, "moreno", antropofágico, à medida que absorve elementos de conservadorismos oriundos de outras culturas, mas os digere e os transforma em algo naturalmente peculiar.

Em virtude disso, a disposição conservadora no Brasil será mesmo eventualmente inconsciente. Pode-se crer em determinados valores e ajuizar que as políticas públicas devam rumar para alguma trilha conhecida pelo conservadorismo sem associar essa receita a

110 quaisquer dos conservadorismos já sistematizados (até porque, como se pretende demonstrar no próximo capítulo, são virtualmente inexistentes os partidos políticos consolidados que se declaram conservadores no Brasil contemporâneo, de onde nasceria um vácuo representativo).

Inconsciente ou não, a tendência conservadora não parece espelhar um grupúsculo (ou mesmo uma minoria) no seio da sociedade brasileira. Vislumbra-se um contingente significativo da população cujas posições ideológicas, ainda que pouco esquematizadas, tendem a estarem muito mais próximas dos conservadorismos do que dos liberalismos e dos socialismos, por exemplo.

É verdade que os conservadorismos (o plural não é aleatório) são distintos em suas ênfases e existem sob adornos diferentes em cada contexto geográfico e histórico, visto que o estado de pureza, para uma doutrina ou ideologia política, só existiria nas penas dos intelectuais ou na oratória idealista de líderes de massa. Logo, não haveria motivos para que no Brasil fosse diferente, e não se pretende inferir que o fenômeno da adaptação seja uma exclusividade brasileira. Porém, o conservadorismo à brasileira não deixa de ser diferente entre os diferentes, e plural na pluralidade.

Manifesta-se na positivação de instituições tradicionais, notadamente daquelas de algum modo ligadas à ordem moral (Igreja Católica e outras igrejas) e à ordem propriamente social (Forças Armadas). Se "ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado" (OAKESHOTT, s/d, p. 5), a maioria do povo brasileiro, de acordo com os surveys consultados, aprova e confia mais nas duas instituições mais antigas e testadas ao longo da história do país do que naquelas que ainda não parecem capazes de representá-lo.

Dentre as últimas, encontram-se o parlamento, os partidos políticos e, em sentido largo, a própria democracia. É plausível supor que as razões para a descrença nos arranjos representativos estejam fundadas na ausência de responsividade de tais instituições em face das demandas básicas da população que lhes cumpriria representar. Contudo, é igualmente razoável conjeturar que o problema tenha ao menos uma raiz anterior, estando incrustrado na concepção que é manifestada por partes importantes da sociedade brasileira: uma concepção de cariz autoritário e hierárquico, que valoriza a ordem quase a qualquer custo (e que, portanto, rapidamente se desilude com a tolerância quase relativista, com a agitação social e

111 com a proeminência dos direitos do réu e do condenado que acompanham a rotina de algumas realidades democráticas).

De fato, pesquisas de opinião sugerem que expressivas fatias dos brasileiros apoiam sem tergiversar assertivas como aquelas que rezam que "o presidente não deve se limitar à lei em caso de dificuldades" e que "todo país deve ter direito de expulsar pessoas que tenham posições políticas que ameacem o governo". A autoridade, e a liberdade negativa importam mais do que o laissez-faire e a liberdade positiva.

Logo, para muitos brasileiros o recrudescimento da legislação penal é um clamor, o discurso dos direitos humanos tem legitimidade apenas parcial, a hierarquia e o modo tradicional de reger as relações sociais ordinárias são mais caros do que a igualdade e a liberalização dos costumes. O remédio para o crime é, antes de qualquer coisa, a punição severa. As gradações simbólicas entre as pessoas e classes sociais devem ser respeitadas integralmente. O homossexualismo não é plenamente assimilado. Condutas sexuais tidas por heterodoxas são, a priori (e, talvez, hipocritamente), censuráveis, mesmo quando praticadas entre casais heterossexuais. O aborto sem justificativas muito específicas é errado e deve ser tratado como tal pelo arcabouço jurídico.

Neste rol estão prerrogativas que não são necessariamente exclusivas do pensamento de direita98, mas certamente condizem com os conservadorismos em diversos níveis (ao menos, mais do que com o socialismo). O desprezo de Irving Kristol – cérebro do neoconservadorismo em terras norte-americanas – por aqueles que ultrajam esses valores bem poderia sair da boca de muitos dos brasileiros que se posicionaram em recentes pesquisas de opinião:

Uma das características mais extraordinárias da nossa presente civilização é a maneira como a ‘contracultura’ da Nova Esquerda é recebida e aceite como uma cultura ‘moderna’. Grandes empresas publicam alegremente livros e revistas, editam e vendem discos, produzem e distribuem filmes e patrocinam programas de televisão que glorificam a pornografia, que denunciam a instituição familiar, que ultrajam a ética da posse, que justificam a insurreição civil [...]. E, no entanto, essa é a questão com a qual nos confrontamos, à medida que a nossa sociedade vai produzindo incansavelmente mais e mais desses ‘seres’ cujos vícios privados de modo algum trazem benefícios públicos para a ordem (KRISTOL, 2003, p. 115- 116).

98É certo que não seria impossível um esquerdista defender, por exemplo, a redução da maioridade penal. De

igual modo, um católico ligado à teologia da libertação pode simultaneamente esposar visões politicamente progressistas e condenar o homossexualismo. Mas a regra geral, há que se convir, não costuma ser essa.

112 Conforme se sublinhou reiteradamente no primeiro capítulo, as ideias conservadoras em geral têm os costumes assentados em elevada consideração, e muitos brasileiros aspiram preservá-los, opondo-se, talvez sem o saber nitidamente, à "contracultura" mencionada por Kristol. Essa tendência se verifica, por exemplo, no modo como os entrevistados se posicionaram acerca das relações entre as pessoas de patamares sociais diferentes, e um dos resultados das enquetes do ESEB é bastante emblemático: o empregado deve continuar tratando o patrão por senhor mesmo que lhe seja concedida, por parte do seu próprio superior hierárquico, a liberdade de deixar de fazê-lo.

Posturas semelhantes denotam uma concepção pouco igualitária da vida, o que é habitual no conservadorismo e nos intelectuais que o codificaram em outros países. Com efeito, ao analisar o pensamento de S. T. Coleridge99, por exemplo, Peter Viereck observa que o poeta vislumbrava que "a sociedade dividiu suas funções em diferentes ‘ordens de classe’", já que "cada classe teve suas valiosas funções" e "todas as classes precisam cooperar harmoniosamente com a unidade orgânica" da sociedade (VIERECK, 1956, p. 34, tradução nossa). Tal unidade orgânica repousa no acatamento da diferença. Negá-lo seria ceder às pretensões das ideias da esquerda:

O pavilhão da defesa das diferenças, hoje empunhado à esquerda com ares de recém-chegada inocência pelos ‘novos’ movimentos sociais (o das mulheres, o dos negros, o dos índios, o dos homossexuais, o das minorias étnicas ou linguísticas ou regionais, etc.) foi na origem – e permanece fundamentalmente – o grande signo desígnio das direitas, velhas ou novas, extremas ou moderadas. Pois, funcionando no registro de evidência, as diferenças explicam as desigualdades e de fato reclamam a desigualdade (legítima) de direito. Différence oblige, chacun à sa

place (PIERUCCI, 1999, p. 19).

Se cada um deve saber o seu lugar, a cosmovisão de segmentos importantes da sociedade brasileira não se entusiasma com o tratamento tolerante diante dos criminosos. A igualdade que merecem assenta-se apenas na rígida equivalência entre a pena e a gravidade do ilícito que cometeram. Esse princípio condiz com as considerações de outro importante conservador norte-americano:

[...] as pessoas se diferem nas bases dos seus desertos e dos seus méritos morais. A justiça, então, é essencialmente desigual porque as pessoas têm méritos morais diferentes, e por isso elas merecem diferentes tipos e quantidades de benefícios e malefícios. Isso, é claro, não significa negar que a justiça exige que pessoas com o mesmo mérito moral mereçam o mesmo tratamento. Mas significa negar que as pessoas têm o mesmo mérito moral nos casos típicos em que são avaliadas do ponto de vista da justiça (KEKES, 1998, p. 179, tradução nossa).

99Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) foi um poeta inglês que se notabilizou também pelos escritos políticos

113 Porém, muitos dos valores morais do conservadorismo à brasileira estão amparados na tradição religiosa (lembremo-nos que, conforme o Pew Research Center [2014], 86% dos brasileiros considera que "é necessário acreditar em Deus para ser moral"). Embora a valorização da religião não seja unânime para os intelectuais conservadores, não há dúvida de que se trata de um ingrediente geralmente considerado importante. Nesse sentido, em The Case for Conservatism, Lord Hailsham sustenta que "não pode haver conservadorismo genuíno se este não estiver fundado sobre uma visão religiosa como base da obrigação civil, e não pode haver verdadeira religião onde a base da obrigação civil é considerada puramente secular" (HAILSHAM apud SCRUTON, 2001, p. 159, tradução nossa).

Em termos de regulações civis, entretanto, o conservadorismo à brasileira opõe-se às mais sólidas tradições anglo-saxônicas. Prescreve um Estado forte, diametralmente contrário ao governo limitado que é historicamente reclamado pelo grosso das sociedades britânica e estadunidense (embora não seja exatamente esse o parecer de determinadas linhagens da escola francesa de conservadorismo). De acordo com os dados que foram anteriormente apresentados, a defesa de valores tradicionais, no Brasil, se conjuga com a positivação de um Estado interventor e vigoroso. Para o bem ou para o mal, o fato é que o Estado forte é mais familiar para os brasileiros à luz da sua história.

Assim, insista-se, o conservadorismo à brasileira não pode ser mecanicamente enquadrado em nenhuma das correntes formais do conservadorismo, mas incorpora elementos de várias delas simultaneamente. É um pouco burkeano, porque valoriza a tradição social e os costumes. É um pouco reacionário, porque condiciona a moral à religiosidade e tem ojeriza a aspectos da "modernização". É um pouco evoliano, porque deseja um Estado forte e preza as hierarquias. É um pouco cético, porque desconfia de instituições políticas em vigor. É um pouco neocons, porque se mostra intransigente com os criminosos e com comportamentos desviantes.

O conservadorismo à brasileira é tudo isso, mas é outra coisa. Equilibra antagonismos de múltiplas correntes, é híbrido, é antropofágico, é popular100. É mestiço – como mestiços são, de algum modo, todos os conservadorismos –, mas também a sua mestiçagem é única. Talvez não mais seja um pensamento que se revela por suas "feições conciliatórias", por "uma ideologia da mediação" (MERCADANTE, 1965, p. 7), haja vista

100No sentido de que está fundando na percepção de parcelas do povo, e não nas contribuições de intelectuais

114 que a instransigência diante de condutas consideradas desviantes é patente. Mas o conservadorismo à brasileira, mesmo sendo “difícil” (RICUPERO, 2010) por conta de heranças históricas com as quais se debatem os intelectuais, de alguma forma vinga entre o homem comum e procura fazer permanecer101.

Por fim, se disposições conservadoras encontram significativa ressonância no corpo do eleitorado brasileiro, é natural que o país possua partidos conservadores consistentes e armados de um discurso francamente "de direita", ao menos no vetor conservador que o disforme conceito de "direita" possa encerrar. No capítulo seguinte, almeja-se investigar em que medida essa consequência lógica de fato se faz notar na realidade política do Brasil contemporâneo.

101No quarto capítulo, procuraremos analisar a tese de Mercadante à luz das ações dos conservadores do Brasil

do século XX, a fim de verificar se as citadas "feições conciliatórias" permanecem reinando na arena estritamente política.

115 3 NEGAÇÃO PETRINA E VÁCUO REPRESENTATIVO

Analisamos primeiramente as bases do pensamento conservador, apontando alguns de seus princípios e as diferenças centrais existentes entre as diversas correntes que se exprimiram ao longo do tempo. Em seguida, procurou-se demonstrar que o conservadorismo, ainda que escassamente presente nas reflexões da intelectualidade brasileira, manifesta-se em determinadas percepções da sociedade, que o desenvolve de modo mais ou menos singular. Finalmente, foi salientado que as inclinações conservadoras, longe de se restringirem a segmentos marginais da população, fazem parte do posicionamento ideológico e moral de contingentes significativos da sociedade brasileira. Nesse sentido, verifica-se que boa parte das pessoas situadas nos extratos mais pobres da hierarquia social tende a se posicionar à direita do espectro ideológico, o que contraria o senso comum segundo o qual o pensamento de esquerda granjearia aderência natural entre os carentes, ao passo que o reduto da direita estaria nas camadas abastadas102.

Assim, ideias que via de regra estão associadas ao conservadorismo existem no Brasil e são acolhidas por um número considerável de pessoas. A lógica supõe, portanto, que a representação deste conservadorismo nos espaços políticos formais seja não apenas viável, mas pujante. Do contrário, o cumprimento do princípio da representação – condição sine qua non para a saúde das democracias – poderia estar em risco, uma vez que muitos eleitores tornar-se-iam virtualmente desprovidos de representantes (e de partidos) suficientemente capazes de responder às suas demandas sem objeções fundamentais.

Considerando tal panorama, o presente capítulo investigará inicialmente o posicionamento de partidos e políticos brasileiros no continuum ideológico, objetivando mensurar se haveria um partido autentica e ostensivamente conservador na atualidade. Para tanto, recorrer-se-á aos subsídios disponibilizados pela literatura da Ciência Política e pela

102A tese é questionada também por Huntington (1957), ao fulminar os pressupostos da "interpretação

aristocrática”, a qual associa o conservadorismo aos interesses dos círculos elitistas. Do outro lado do espectro, o mencionado senso comum também não resiste aos fatos no caso das esquerdas brasileiras, uma vez que o PT, principal partido de esquerda no país, historicamente encontrou respaldo nas classes médias e nas porções mais escolarizadas da população (inclusive na intelectualidade universitária, onde também nota-se aderência a partidos ainda mais claramente marxistas). Ainda assim, já ponderamos que as eleições presidenciais de 2014 demostraram que o PT conquistou importantes maiorias eleitorais em regiões mais deprimidas economicamente do país.

116 avaliação de alguns posicionamentos e programas partidários. Em seguida, será discutido o problema da "direita envergonhada", mapeando a fundamentação do conceito e questionado seus significados práticos na atualidade. Ademais, à luz da configuração das mais recentes eleições presidenciais, serão definidas as bases do fenômeno que denominamos "consenso de esquerda" e suas implicações para a ordem política.