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Almejando compreender a percepção dos próprios políticos brasileiros acerca do posicionamento dos partidos na díade direita-esquerda, Zucco Jr. (2009) tem nas entrevistas com deputados federais alguns de seus ilustrativos instrumentos de pesquisa. Postos diante das alternativas "esquerda", "centro" e "direita", três dos deputados consultados (pertencentes ao PT, ao atual DEM e ao PMDB) assim posicionaram os partidos no continuum:

Posição ideológica dos partidos conforme três deputados federais Fonte: Zucco Jr. (2009, p. 1079).

A percepção destes deputados, conforme o autor, expressa a generalidade das opiniões dos demais parlamentares, e, a priori, imprime desenhos bastante similares àqueles encontrados pelos especialistas e pelos eleitores: haveria grupos de partidos claramente

129 identificados à esquerda, ao centro e à direita. Contudo, nota-se que o parlamentar petista situou seu próprio partido na extrema-esquerda (a pontuação propunha a variação de 1 a 10, na qual 1 equivale à extrema-esquerda e 10 indica extrema-direita) e alocou seus maiores adversários na extrema-direita. O deputado, portanto, não apenas reivindica para seu partido a identidade de esquerda como o faz segundo uma acepção mais radical do que aquela que ordinariamente norteia os analistas, que costumam situar o PT à centro-esquerda ou à esquerda, mas não à extrema-esquerda. Já o representante peemedebista encaixa o partido no qual milita no centro, mas com alguma tendência à esquerda. Valendo-se do intervalo 3 a 8, o parlamentar ligou o PMDB ao número 4, mais próximo do grupo da esquerda (3) do que do grupo da direita (por ele emoldurado entre os pontos 6 e 8).

Entretanto, o caso mais intrigante é sem dúvida o do deputado pertencente ao atual DEM, que ignorou a dimensão original da escala (1 a 10) e classificou os partidos no intervalo 1-5. Em última análise, Zucco Jr. preferiu considerar o critério utilizado pelo parlamentar como mera redução da escala original: o entrevistado teria associado a esquerda ao número 1 e a direita ao número 5. Nós aventamos outra avaliação: a de que o referido deputado foi assaltado pelo "temor" de situar seu próprio partido em uma dimensão para além do centro, e por isso não ultrapassou o número 5126. Se assim não fosse, por que o parlamentar não utilizou, por exemplo, a escala 3-7, que refletiria mais explicitamente o espaçamento entre direita e esquerda?

Caso a hipótese contenha razoabilidade, importa questionar se juízos como os assumidos pelo deputado do DEM seriam pontuais ou sugeririam um padrão. Se considerarmos, como Timothy Power e Zucco Jr. (2011, p. 15), que "não se trata aqui – de maneira alguma – de insinuar que dados de opinião sejam superiores a dados comportamentais, mas simplesmente que a combinação desses dois tipos de evidência permite uma abordagem mais ampla", a percepção dos políticos brasileiros sobre as ideologias ganha legitimidade e interessa para os fins da presente tese.

Com efeito, o citado trabalho de Power e Zucco congrega dados oriundos de seis baterias de surveys aplicadas no Congresso Nacional entre 1990 e 2009. Totalizando nada menos de 997 questionários respondidos, o esforço é capaz de espelhar com algum rigor a propensão perceptiva do conjunto dos parlamentares durante duas décadas. Atentando-se aos dados, ver-se-á que o "temor" do deputado anteriormente avaliado se instala na mentalidade

130 da imensa maioria dos parlamentares brasileiros, uma vez que "88% dos parlamentares se posicionam à esquerda da reputação de seu partido"127, e "enquanto apenas 13,5% dos parlamentares se colocam à direita de onde colocam seus próprios partidos, 25,5% se colocam mais à esquerda" (ZUCCO JR., 2011, pp. 43-44). Assim, parecer de esquerda seria um valor importante para grande parte dos membros do Congresso Nacional.

Mas o fenômeno não é recente. Leôncio Martins Rodrigues, ao estudar as ideologias dos deputados constituintes em meados da década de 1980, constatou que

Quando se trata de se auto-definirem ideologicamente, os parlamentares evitam as posições mais radicais, e se situam um pouco mais para a esquerda. No conjunto, a esquerda ('extrema-esquerda', 'esquerda' mais 'centro-esquerda') tem mais da metade da constituinte, enquanto a direita ('extrema-direita', 'direita' e 'centro- direita') praticamente desaparece, tal como evidenciamos em nossa pesquisa. A julgar pela auto-definição política dos deputados, o Brasil seria um país sem direita (RODRIGUES, 1987, p. 99).

De fato, nenhum dos 428 deputados federais entrevistados pelo autor declarou pertencer à "extrema-direita" e ínfimos 6% identificaram-se com a "centro-direita". Entretanto, 37% dos parlamentares reclamaram o "centro", 52% declaram pertencer à "centro- esquerda" e 5% não tiveram qualquer constrangimento de associarem-se à "extrema esquerda" (idem, p. 97). Por isso, sublinhe-se, "a julgar pela auto-definição política dos deputados, o Brasil seria um país sem direita".

De igual modo, já no entardecer da década de 1990, Pierucci evidenciou:

Não obstante o uso generalizado da dimensão direita/esquerda no linguajar dos estratos politizados da cidadania brasileira, existe aqui uma acentuada assimetria no modo de ambos os lados se auto-representarem. É que, à esquerda, não lhe incomoda aparecer como tal, antes, lhe agrada; os políticos de direita, por sua vez, têm o reflexo de se esconder como tais. Enquanto a esquerda se exibe como esquerda, sobretudo os da esquerda radical, assumindo com ares às vezes provocativos nome e orientação, os homens de direita que se declaram de direita, que ‘se assumem’, são bem raros (PIERUCCI, 1999, p. 72-73).

"Temor", "desconforto", "se esconder", "não se assumir": eis os sintomas da "direita envergonhada" (SOUSA, 1988), fenômeno que, conforme sinalizam os dados, penetra profundamente na elite política brasileira desde a redemocratização e ainda se faz sentir, talvez com menos robustez, no tempo presente. Diante disso, "o curioso – e que merece ser estudado – é saber por que, mesmo depois de mais de duas décadas, esse ‘desconforto’ continua existindo" (ZUCCO JR., 2011, p. 44).

127O autor entende "reputação” como a posição média do partido de acordo com a classificação empreendida

131 Um dos subsídios para o clareamento dessa questão guarda estreita relação com o regime militar instalado em março de 1964. O Brasil que assistiu ao golpe estava imerso em uma atmosfera profundamente polarizada, na esteira da acentuada ideologização reinante na Guerra Fria que então opunha o capitalismo liberal à economia planificada socialista. Assumindo dimensões globais, esse cenário de agudas clivagens não poupou o Brasil, e se a tese de que o presidente João Goulart almejava introduzir um Estado comunista no país pode parecer frágil à luz daquilo que vivenciamos hoje, não será escusado lembrar que a possibilidade de adesão do Brasil à esfera de influência soviética era uma hipótese então seriamente considerada por diversos setores da sociedade brasileira.

Desde a desastrada renúncia de Jânio Quadros, passando pelo movimento da Legalidade e pelos acordos mal acatados que finalmente viabilizaram a posse de Goulart, a vida política brasileira transformara-se em um barril de pólvora. Revoltas organizadas por militares de baixa patente punham em risco a hierarquia no seio das Forças Armadas. O sindicalismo, ganhando musculatura, tomava as ruas em demandas constantes nas já importantes cidades industriais. As "ligas camponesas" de Francisco Julião incendiavam a paisagem rural em busca da reforma agrária. O presidente da república apadrinhava reformas estruturais que feriam arranjos historicamente enraizados. A imprensa atacava frontalmente os líderes políticos e intensificava a pressão. Grupos religiosos marchavam em massa denunciando o ateísmo comunista e os perigos que rondavam a família brasileira e seus costumes tradicionais.

Acompanhando a crescente convulsão social, os partidos políticos ingressam em uma espiral conflitiva sem precedentes. Como ocorrera com os movimentos gestados pela própria sociedade, o centro político agoniza e os extremos do espectro visivelmente ganham energia, neutralizando-se mutuamente em um jogo de soma zero que Wanderley Guilherme dos Santos (2002) argutamente classificou como "paralisia decisória". Assim, a atomização da sociedade e a paralisia/anomia das instituições provocaram o vácuo político que mais tarde seria ocupado pelas forças civis e militares que finalmente colapsaram o sistema em 31 de março.

O novo regime reconfigurou drasticamente a competição partidária no Brasil, e com a introdução do bipartidarismo e da censura das informações, sufocou a expressão ideológica dos movimentos de esquerda ortodoxa nos canais institucionais durante vinte e um anos. À margem do debate que possa haver acerca positivação ou negativação dos seus

132 resultados e dos seus métodos característicos, o fato é que o governo dos militares é, no presente, ordinariamente associado ao autoritarismo, à tortura de presos políticos, à interdição do Congresso Nacional e à repressão dos dissidentes.

Portando-se como "vinhos antigos em novas garrafas" (MADEIRA, 2006), as elites políticas, mesmo aquelas que suportaram material ou ideologicamente o regime, empreenderam notáveis esforços para desvencilhar-se do passado a fim de sobreviverem politicamente na era do pós-redemocratização. E uma vez que o regime militar está identificado com a direita, cumpriria dela afastar-se, e, se possível, apresentar-se como simpático a alguma modalidade de esquerda, eis que, como reza o ditado, à mulher de César não basta ser honesta: é preciso parecer honesta (e ser honesta em tal contexto significaria pertencer às esquerdas que combateram o regime). Seguindo essa cartilha, boa parte das direitas, assim, torna-se envergonhada e petrinamente renuncia a seu passado.

Com efeito, o novo pluripartidarismo que emerge na década de 1980 esteve pontilhado de partidos de esquerda e centro-esquerda que reclamavam (e ainda reclamam) explicitamente o legado de famílias políticas que protagonizaram a política brasileira antes de 1964. É o caso do Partido Trabalhista Brasileiro e do Partido Democrático Trabalhista (os quais advogavam descender do velho PTB criado por Getúlio Vargas), bem como do Partido Comunista Brasileiro (herdeiro do PC que nascera em 1922) e do Partido Socialista Brasileiro (que retoma o PSB de 1947). Contudo, a tradição da direita que militara no interregno democrático de 1945-1964 não encontrou discípulos ardorosos após o fim do regime militar: se as ideias do Partido de Representação Popular, de inspiração integralista, ficaram praticamente confinadas ao passado128, o liberal-conservadorismo do Partido Social Democrático e da União Democrática Nacional seriam apenas muito marginalmente reavivados, e sob outros batismos, pelo PDS e pelo PFL129. Consoante a interpretação que se vislumbra em Madeira e Tarouco (2012), muitos dos programas partidários que vieram à luz nos primeiros anos da redemocratização de fato estavam eivados pela preocupação de

128Exceção feita a grupos realmente minoritários e sem qualquer robustez ou organização política, como é o

caso dos movimentos FIB (Frente Integralista Brasileira) e MIL-B (Movimento Integralista e Linearista Brasileiro).

129Acrescente-se que as constantes mudanças de nome do PDS e do PFL não deixam de ilustrar a tentativa de

desvinculação com o passado e o intuito de associar-se a correntes políticas mais à esquerda. O PDS tornou-se PPR (Partido Progressista Reformador), PPB (Partido Progressista Brasileiro) e finalmente PP (Partido Progressista). O termo "progressista”, queira-se ou não, está relacionado às esquerdas na linguagem política contemporânea. O velho Partido da Frente Liberal (PFL) também altera o batismo, e além de suprimir o termo "liberal”, opta pela alcunha "Democratas” (o que remete ao Partido Democrata norte-americano, à esquerda no contexto político daquele país, ou a meros defensores de um regime político, a democracia, o qual pode ter representantes à esquerda e à direita).

133 criticar o regime militar (no caso dos partidos de esquerda) ou dele afastar-se (no caso de PDS e PFL), configurando "a gênese da ‘direita envergonhada’" (MADEIRA e TAROUCO, 2012, p. 2).

Mas o Brasil, em verdade, não detém exclusividade nessa matéria. O caso português, por exemplo, comporta algumas analogias. Desde o fim da I República (1910-1926) e da ascensão definitiva de Oliveira Salazar ao poder (1932)130, Portugal esteve sob o império de um regime antidemocrático intrinsecamente condizente com ala direita do continuum ideológico131. Suprimindo as liberdades políticas e amortizando as oposições, o "Estado Novo" e seu aparato de controle só seriam fulminados em 1974, quando a "Revolução dos Cravos" inaugura a ordem democrática. A partir de então, as esquerdas portuguesas apropriam-se do legado dos "capitães de abril" e, como ocorreria no Brasil, "foram raros os casos de forças políticas a reclamar antepassados em regimes anteriores", uma vez que "revoluções, vários regimes e constantes desaparecimentos e reconstruções dos partidos obscureceram as continuidades e heranças", notadamente no campo da direita (RAMOS, 2012, p. 17).

Em acréscimo, os setores que pertenceriam à direita aparentemente despovoam a competição político-ideológica após a redemocratização portuguesa:

Um dos enigmas para alguns observadores mais atentos da realidade política portuguesa é o silêncio ou a ausência de direita. Além das declarações periódicas e interessadas da esquerda afeita ao PC, da esquizofrenia dos radicais e dos clamores de um ou outro político folclórico que proclama os perigos do ‘fascismo’ e da ‘extrema-direita’, a direita parece estar morta, desaparecida, voluntária ou necessariamente ausente do panorama político português (PINTO, 1996, p. 181).

Passando a vigorar "a ideia de que a direita é necessariamente um sinônimo de autocracia" (RAPOSO, 2012, p. 385), o conservadorismo e a direita são apartados da política e dos círculos intelectuais: "haverá quem talvez argumente que as direitas, mais do que omitidas, têm sido sobretudo enjeitadas pela historiografia acadêmica tal como esta se instituiu em Portugal desde 1974, sob forte influência do chamado marxismo" (RAMOS, 2012, p. 14).

130Salazar detém grande influência na política portuguesa já a partir de 1928. Contudo, sua ascensão definitiva

ocorre em julho de 1932, quando assume a chefia do governo.

131O debate acerca da "exata” filiação ideológica do regime salazarista ainda não firmou grandes consensos, de

modo que há correntes que simplesmente o vinculam ao fascismo (ROSAS, 2001) e existem aqueles que, como Manuel Braga da Cruz, preferem identificá-lo com um autoritarismo conservador e não totalitário que se singularizou através do "nacional-catolicismo” (CRUZ, 1982, p. 794). Seja como for, trata-se de um regime de direita.

134 Contudo, se elites políticas de Brasil e Portugal percorreram trilhas ideológicas similares no momento da redemocratização de seus respectivos países, as correntes de direita pouco a pouco retornam à realidade política e cultural portuguesa. A fim de romper com "o domínio da esquerda na área cultural e editorial", as direitas portuguesas centram-se "na ideia quase obsessiva de criar uma alternativa cultural à esquerda" (PINTO, 2012, p. 363). Embora atualmente sejam pouco salientes os grupos que abertamente façam proselitismo do salazarismo ou de cosmovisões alinhadas com o fascismo histórico, a direita lusa sobreviveu às intempéries, e ressignificou-se sem deixar de proclamar-se "de direita". Assim, a virtual supremacia construída pelos partidos e pela cultura de esquerda nos primeiros anos da democracia é contraposta pelo lento (mas irreversível) enraizamento de novos partidos e intelectuais ostensivamente conservadores/de direita.

Ao contrário do sucedido no Brasil, as direitas lusas foram socorridas por movimentos intelectuais ativos (e combativos), porque se "a nova direita liberal e de raiz anglo-saxônica já superou o bloqueio pós-1974", "os intelectuais já conseguiram impor debates proibidos pela vulgata marxista e o PSD132 já não é igual ao PS133" (RAPOSO, 2012, p. 404). Experimentado percurso mais ou menos equivalente àquele enfrentado pelos neoconservadores nos Estados Unidos, os intelectuais portugueses travaram a "guerra cultural" contra a esquerda, fundando revistas (Nova Cidadania, Atlântico, Futuro Presente), jornais (O Independente), blogs (Coluna Infame, Blasfêmias, 31 da Armada, O Insurgente), grupos de discussão intelectual/think tanks (como o Grupo de Ofir) e publicando inúmeros livros e artigos. Erguidos os alicerces teóricos e culturais, o ciclo então se completa e as direitas investem também na política: "esta direita saiu da esfera de um mero desafio intelectual e entrou no campo do combate político tout court" (idem, 2012, p. 393).

Com efeito, no aspecto estritamente político "emergiram várias ‘direitas’ nas últimas décadas do século XX. Por exemplo, uma direita que se apelidou (ou, mais corretamente, foi apelidada) de ‘nova’, francesa de inspiração, e outra ‘liberal’, anglo-saxônica de formação" (ZUQUETE, 2012, p. 410), e superando a timidez dos primeiros momentos da democracia, "já não era uma mera direita apolítica e neutral", nem tampouco "uma direita colonizada, uma direita a pensar com os termos marxistas" (RAPOSO, 2012, p. 385).

132Partido Social Democrático. 133Partido Socialista.

135 Neste rol de grupos políticos de direita inserem-se, primeiramente, os nem tão relevantes Partido Nova Democracia (PND), Partido Popular Monárquico (PPM) e Partido Nacional Renovador (PNR). Enquanto o primeiro, em última análise, avaliza os princípios conservadores/democrata-cristãos que norteiam o Grupo do Partido Popular Europeu e os demais partidos congêneres que se difundem pelo território da Europa, o PPM, reversionista e católico, deseja a restauração da monarquia, ao passo que o PNR não se esquiva de exibir um perfil simpático às bandeiras da extrema-direita134.

Para além desses, importa mencionar siglas que, ao lado o Partido Socialista, protagonizam o cenário político português na atualidade: o Partido Social-Democrata (PSD) e o Partido Popular (CDS-PP). O PSD formou-se pela aglutinação das elites liberais e reformistas que participavam do regime salazarista, e o peso de qualquer social-democracia de pendor marxista que poderia ter se feito sentir nos anos imediatamente posteriores à revolução de 1974 é abatida sem traumas irreparáveis a partir da liderança de Cavaco Silva (primeiro-ministro entre 1985 e 1995 e atual presidente da república). É o momento em que o PSD

Deixa ‘cair’ o socialismo e assume as especificidades que o caracterizam como um partido personalista, para o qual o início e o fim da política residem na pessoa humana; um partido de forte pendor nacional; um partido com valores e princípios claros, permeável à criatividade e à imaginação, aberto à inovação e à mudança; um partido que, sendo social-democrata, a favor de um Estado-Providência forte e seguro para organizar a atividade económica, valoriza também o liberalismo político e a livre iniciativa caracterizadora de uma economia aberta de mercado, própria das sociedades contemporâneas que são globalizadas (MACHADO, 2009, p. 47).

Abraçando tais princípios sem negar a origem de seus quadros, o PSD assumiu a chefia de governo por seis vezes desde a redemocratização e tornou-se o maior partido político português da atualidade. Sob a condução de Pedro Passos Coelho (primeiro- ministro desde 2011), "este ideário liberal e conservador saiu da periferia intelectual e partidária e entrou no centro da governação" (RAPOSO, 2012, p. 396).

Mas semelhante flerte com o conservadorismo não estaria completo sem o Partido Popular (CDS-PP), sigla na qual se traduz com maior nitidez o conservadorismo português do tempo presente. O partido, já em sua gênese (1974), congrega-se com o conservadorismo saxônico: em parceria com o Conservative Party da Inglaterra, funda a União Democrática

134Uma análise consistente acerca história, da ideologia e da ação política do PND é desenvolvida por Marchi

136 Europeia e torna-se observador no Partido Popular Europeu. As aproximações com a democracia-cristã são óbvias:

Três dias depois de o episcopado ter tornado pública uma importante pastoral sobre a contribuição dos cristãos para a vida social e política, o CDS foi fundado em 19 de Julho de 1974 por Freitas do Amaral e pelo filho de um dos ministros de Salazar, Adelino Amaro da Costa, membro da Opus Dei. Tornou-se imediatamente um dos principais candidatos a representar o movimento democrata-cristão internacional em Portugal (ROBINSON, 1996, p. 958).

Para além do catolicismo tradicional e de alguma herança salazarista, o corpo doutrinário do CDS-PP é suplementado e definitivamente moldado pelo influxo de Lucas Pires e o "conservadorismo popular" (FREDERICO, 2000, p. 58) esculpido pelo chamado Grupo de Ofir, formado por intelectuais que mesclaram o liberalismo econômico e o "cristão regresso à pureza do princípio da subsidariedade, na ordem política, econômica, educativa e social" (GRUPO DE OFIR apud NUNES, 2007, p. 44). Assim embasado, em seu programa de 1993 o CDS-PP decididamente afasta-se de qualquer complexo de "direita envergonhada":

Sem equívocos nem complexos, confessamos a direita que queremos representar: é uma direita democrática, popular e nacional. Para nós, há uma maioria natural de portugueses que se reconhecem no vasto espaço político que vai do centro para a direita. É esse o espaço do Partido Popular no regime democrático português. [...] No quadro democrático, recusamos qualquer espécie de socialismo, porque todos secundarizam o homem perante o Estado, a sociedade perante o governo, e a comunidade perante a classe. Recusamos igualmente as políticas sociais- democratas, porque se baseiam na perversão do Estado-Providência e no relativismo moral, conduzindo desse modo a sociedades mais dependentes do que responsáveis, mais públicas do que privadas, mais viciadas do que virtuosas (CDS/PP, 1993, p. 5).

Em um consórcio bastante mais nítido ideologicamente do que aquele que une PSDB e DEM no Brasil, PSD e CDS-PP juntam-se na Aliança Democrática (AD) que assume o leme do Estado português em 2011 e "têm governado numa base liberal-conservadora. O ‘patriotismo liberal’ ou ‘conservadorismo popular’ (para usar a terminologia de Lucas Pires) está presente na AD 2011-15" (RAPOSO, 2012, p. 399).

Devido à pluralidade de grupos e ao livre trânsito que suas ideias adquiririam por meio de um esforço político e intelectual, há mesmo uma batalha pela "posse" do rótulo "direita" por parte de alguns líderes partidários portugueses. Como ilustração, em 2006, Manuel Monteiro, então líder do PND, sustentou que "não existe direita em Portugal: o

137 CDS-PP é um partido de centro-direita e o PSD não é, de todo, de direita", o que o levou a crer que o PND seria "a verdadeira e única direita portuguesa, patriótica e soberana"135.

Ao estimar as tendências apresentadas anteriormente, um contencioso dessa natureza adquiriria contornos quase surreais no contemporâneo sistema partidário brasileiro, como