3.6. Futbol Kulüplerinde Yıldırma Türleri ve Etkileri
3.6.2. Psikolojik Yıldırmanın Kulüp İçindeki Etkileri
Para além dos costumes distencionados que certos analistas vislumbram a partir dos aportes oferecidos pelo conteúdo de interpretações como a do "homem cordial" de Buarque de Holanda, partes expressivas da população brasileira repudiam comportamentos sociais menos tradicionais. A moral há tanto tempo assentada, pelo contrário, segue tecendo o critério para a distinção entre o que é certo e o que é errado, entre o que é virtuoso e o que é pernicioso em termos individuais ou sociais.
Esta percepção é especialmente visível quando estão em pauta temas relacionados à sexualidade e ao aborto. No que diz respeito ao primeiro aspecto, Almeida refere que "quando se procura ouvir opiniões pelo país afora [...] percebe-se o enorme conservadorismo do brasileiro quando o assunto é sexo" (ALMEIDA, 2007, p. 152). No mesmo sentido, a população tende a "apresentar os posicionamentos mais conservadores nas questões do
99 aborto", o que conduziria à hipótese de que "o peso da dimensão religiosa dos valores morais nessas opiniões" seria determinante (NISHIMURA, 2004, p. 365).
Como será ponderado no quarto capítulo, liberalidade sexual e descriminalização do aborto são algumas das questões que atualmente mobilizam correntes pentecostais para o embate político no Brasil. Porém, caso se retome um dos depoimentos transcritos anteriormente, a tentativa de naturalizar da conduta homossexual, por exemplo, se choca também com os valores dos brasileiros católicos: "isso é falta de religião Católica Apostólica Romana" (PIERUCCI, 1999, p. 33 – depoimentos de Dona Mariauta). Questões morais desse tipo nutrem, em larga perspectiva, a "guerra cultural" travada (às vezes silenciosa e até inconscientemente) por homens e mulheres de direita no Brasil dos dias que correm, como veremos no quarto capítulo. Nesse sentido,
A vasta presença desta linhagem ‘familista’, de forte sotaque católico-conservador, meio democrata-cristão, de direita, mas não radical, revela quão grande ainda é no Brasil o peso cultural do catolicismo como fator de permanência e retroalimentação de um eleitorado de direita (idem, p. 80-81).
A "linhagem familista" – ou simplesmente a tradição familiar – é de fato importante para a própria estrutura psicológica brasileira: "em casa e no código da família brasileira, existe uma tendência de produzir sempre um discurso conservador, onde os valores morais tradicionais são defendidos pelos mais velhos e pelos homens", porque "tudo, afinal de contas, que está no espaço da nossa casa é bom, é belo e é, sobretudo, decente" (DAMATTA, 1986, p. 27-28). Em tal contexto, também a moral sexual há tanto tempo preceituada pelas autoridades religiosas parece estar ainda presente, sendo escoltada, ao menos formalmente, pelos códigos que regram o comportamento coletivo. Esses códigos estruturais que conferem a citada decência às famílias e à sociedade são ameaçados pelos ventos de liberalização que emanam de grupos políticos e de extratos menos conservadores da sociedade brasileira. Diante do perigo, cabe rechaçar a liberalidade a fim de preservar o que importa. Tratando especificamente das questões ligadas à sexualidade, os dados a seguir comportam semelhante percepção:
Totalmente
contra Um pouco contra nem a favor Nem contra Um pouco favor Totalmente a favor Opinião sobre o homossexualismo
masculino 81 8 3 3 5
Opinião sobre o homossexualismo
100
Opinião sobre o sexo anal entre
homem e mulher 60 14 4 12 11
Opinião sobre homem fazer sexo
oral na companheira 50 11 3 15 21
Opinião sobre o uso de revistas
pornográficas para excitação sexual 49 16 3 19 21
Opinião sobre mulher fazer sexo oral no companheiro
49 11 3 16 21
Opinião sobre masturbação feminina 44 14 4 17 21
Opinião sobre masturbação masculina 40 16 3 20 21
Opinião sobre todo tipo de relação
sexual voluntária 24 10 3 19 44
Concepção dos brasileiros acerca da sexualidade (em %) Fonte: ESEB 2006 (In: ALMEIDA, 2007, p. 153).
Não se põe em dúvida que entre o que se fala e o que se pratica pode haver enorme diferença/contradição. Contudo, o que se verbaliza não deixa de conter importância, ao menos à medida que pode revelar concepções acerca daquilo que se entende que deveria ser praticado, daquilo que se concebe como formalmente decente/correto. A julgar pelas informações do ESEB, a maioria esmagadora da população brasileira manifestaria uma posição fortemente negativa em relação aos homossexuais (tanto no que refere aos homossexuais masculinos quanto aos femininos) e a práticas como o sexo anal entre homem e mulher (74% de rejeição, se somarmos aqueles que são "totalmente contra" e aqueles que são "um pouco contra"). Em acréscimo, outras condutas sexuais menos ortodoxas – como o sexo oral – são igualmente condenadas pela maioria dos entrevistados, o mesmo ocorrendo com o "uso de revistas pornográficas para excitação sexual" e com a masturbação (masculina e feminina). Apenas a "opinião sobre todo tipo de relação sexual voluntária" passa a ser positiva para a maioria da população (e ainda assim, 24% das pessoas se disseram "totalmente contra" e 10% foram "um pouco contra"). Ao avaliar os resultados, Almeida observa que
Ao falar em sexo não se pode deixar de pensar em religião. Historicamente o controle religioso do corpo, em especial da mulher, foi crucial para que se impusessem regras repressivas ao comportamento sexual. [...]. Mesmo em tradições religiosas mais liberais e não puritanas aa religião teve um papel repressivo. Dos dados colhidos junto à opinião pública captaram esse fenômeno no Brasil do século XXI (ALMEIDA, 2007, p. 168).
101 A tese de que o influxo religioso tenha sido determinante para moldar o comportamento sexual dos brasileiros pode eventualmente ser alvo de contestações. Contudo, é evidente que certas organizações religiosas permanecem inserindo a preservação da moral sexual tradicional na pauta do debate público, e o fato de que a maioria da população brasileira tende a positivar as igrejas90 pode em alguma medida refletir o relativo êxito das instituições religiosas em manter seu status de orientadoras morais no Brasil contemporâneo.
Nesse sentido, a maioria esmagadora da população brasileira julga que é imperativo crer em Deus para assumir valores verdadeiramente morais. É o que comprovou survey aplicado pelo Pew Research Center (2014). Diante da pergunta "você acha que acreditar em Deus é essencial à moralidade?", nada menos que 86% dos brasileiros responderam que "é necessário acreditar em Deus para ser moral", o que configura o segundo maior percentual no conjunto dos sete países pesquisados na América Latina. Além disso, 87% dos brasileiros entrevistados pelo Datafolha (2013) entendem que "acreditar em Deus torna as pessoas melhores"91.
À margem desse pormenor, está claro que fatias importantes da sociedade brasileira suportam as linhas gerais da doutrina tradicional das igrejas cristãs quando o tema é sexo e homossexualismo. Embora outras pesquisas informem que a rejeição aos homossexuais pode não ser tão incisiva quanto aquela encontrada pelo ESEB92 – o que nos remete à possibilidade bastante plausível de que, com o passar do tempo, o homossexualismo venha a encontrar cada vez menor resistência na sociedade –, a opinião sobre o aborto contribui para aproximar contingentes importantes da população e o ensinamento da maior parte das instituições religiosas.
Em 2002, o ESEB demonstrou que 37% dos entrevistados julgam que "o aborto deve ser proibido em qualquer situação", enquanto 51% acreditam que essa medida deve ser
90Conforme verificamos no tópico "Positivação de instituições tradicionais”. 91Índice quase idêntico ao encontrado no ano seguinte: 86% (DATAFOLHA, 2014).
92O ESEB (2002) nos demonstra que apenas 29,9% dos brasileiros consideram que os homossexuais são
"pessoas como quaisquer outras”, ao passo que 37% entendem que se trata de "pessoas que nasceram com problemas” e 33,4% crêem que são "pessoas com comportamento errado” (NISHIMURA, 2004, p. 352). Já o
Pew Research Center (2014) observa que 39% dos brasileiros consideram que o homossexualismo "é
moralmente inaceitável”, mas 44% entendem que é "moralmente aceitável”. O instituto Data Popular (2013), assegura que não mais do que 38% da população concordaria com a frase "Sou contrário que casais do mesmo sexo tenham os mesmos direitos dos casais tradicionais". Como acréscimo, o DataSenado (2008) observa que a aprovação de um projeto de lei que criminaliza a discriminação contra homossexuais seria aceita por 70% dos brasileiros. A despeito de tais atenuantes, parece razoável afirmar que o homossexualismo está longe de ser uma prática naturalizada sem reservas por boa parte da população brasileira.
102 permitida apenas em caso de gravidez decorrente de estupro. Logo, escassos 11,5% dos entrevistados seriam incondicionalmente favoráveis à autorização do aborto no Brasil93.
Em paralelo, pesquisa empreendida pelo IBOPE (2010) revelou números bastante similares. Embora se possa acrescentar que cerca de 2/3 dos entrevistados concordem com o aborto "quando a vida da mulher corre perigo" ou "quando o feto não tem nenhuma chance de sobreviver após o parto", apenas 9% aprovariam a prática do aborto "por falta de motivos econômicos" e 8% o aceitariam "quando o anticoncepcional falha".
Como complemento, o instituto Vox Populi (2010) assinala que apenas 308 dos 1.760 entrevistados (14%) consideram que se deveria providenciar a "descriminalização" do aborto, ao passo que 1.760 das 2.200 pessoas consultadas (82%) avaliam que a atual legislação brasileira sobre o assunto não deve ser alterada. Finalmente, survey aplicado pelo Pew Research Center (2014) constatou que 79% dos brasileiros consideram que a prática do aborto é "moralmente inaceitável", 7% consideram-na "moralmente aceitável" e 9% creem que "não se trata de uma questão moral".
Subsidiada por essa contundente percepção, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão máximo da hierarquia católica do país, investe publicamente contra as tentativas levadas a cabo pela atual presidente a fim de alterar a legislação sobre o aborto:
De fato, esta é a política da Presidente Dilma: incentivar e difundir o aborto, favorecendo os interesses de organismos internacionais que querem impor o controle demográfico aos países em desenvolvimento, mesmo se isto leva a Presidente a desrespeitar a vontade da maioria do povo brasileiro, que é contrária ao aborto, e a infringir as mais elementares regras da democracia (CNBB, 2012).
Mesmo as opiniões favoráveis ao aborto no Brasil reconhecem que a maioria da população o desaprova e não deixam de se ressentirem com aparente fracasso de movimentos ligados ao feminismo no que se refere à conquista da opinião pública:
A cada possibilidade de liberação do aborto as forças conservadoras contra- atacam, cada vez com maior agressividade, cooptando a opinião pública favoravelmente. Esse é um desafio a ser enfrentado pelas feministas brasileiras empenhadas nessa luta, o que nos leva a concluir que essas negociações tiveram mais êxito em nível político do que social, pois não lograram alcançar e sensibilizar camadas mais amplas da população (SCAVONE, 2008, p. 679).
Com efeito, veremos posteriormente que o tema do aborto (juntamente com a sexualidade) certamente protagoniza uma espécie de guerra cultural que vem tendo lugar no
103 Brasil contemporâneo, muitas vezes suscitando uma clivagem entre conservadores e progressistas. Nesse momento, cumpre questionar: tal clivagem teria fundamentos na percepção da própria população? Como se enxergam os brasileiros no continuum ideológico? Eis o tema do próximo tópico.