3.2. Metot
3.2.5. Yüzey sıcaklığına bağlı COP YS yöntemi ile hesaplama
Os conflitos ao longo de 1968, vão na contramão das tentativas de acomodação diplomática entre Igreja e Estado. A missa de sétimo dia na Igreja da Candelária (RJ) em memória de Edson Luis termina com repressão policial. Sem a chancela oficial de Dom Jaime, religiosos e religiosas escrevem um Manifesto onde denunciam a violência do regime para preservar uma
suposta ordem em nome da segurança nacional (DALE, et al, 1986: 59).
O outro protesto pela morte do estudante é a Declaração dos Padres, escrita por trinta e dois padres mineiros que denunciam a violência da repressão, solidarizam-se com os estudantes e afirmam que o Brasil necessita “mais de estudantes do que de militares, mais de universidades do que de quartéis, mais de livros do que de armas, mais de liberdade, justiça e paz do que de violência, medo e repressão” (REB, v. 28, 1968: 472). Abre-se um IPM e as autoridades do I Exército se pronunciam pelo indiciamento dos padres. O promotor ao denunciá-los e enquadrá-los na LSN: “vem-se verificando que estão [os padres] evangelizando à luz do marxismo, ou ensinando socialismo à luz do Evangelho, ao invés de ensinar o amor à Pátria, o respeito às leis e às autoridades, como cumpre à Igreja” (REB, v. 33, 1973: 734-35).
O patriotismo e o culto às leis e às autoridades que o promotor reclama como sendo parte da missão da Igreja na luta contra o comunismo pôde manifestar-se durante a visita programada da imagem de Nossa Senhora de Fátima, trazida ao Brasil pelo Cardeal Patriarca de Lisboa Manuel Gonçalves Cerejeira. A visita reúne autoridades civis, militares e religiosas. Aplaudida por integristas e reacionários, não intimida parte significativa do clero paulistano que em Declaração protesta junto ao Cardeal Rossi contra a promoção de “manifestações religioso-folclóricas espetaculares”, contra a transformação da fé religiosa em “instrumento de propaganda comercial”, e a “presença ostensiva das Forças Armadas e autoridades civis no ato”. Os sacerdotes questionam quanto a “coincidência entre a impopularidade crescente ao atual governo militar e esta vinda da imagem de Nossa S de Fátima, cujo culto é deturpado pelo integrismo internacional e pelo anticomunismo barato” (SEDOC-2, 1968: 201).
Em São Paulo, na Praça da Sé, as manifestações de 1º de maio de 68 terminam em violência. O fato tem implicações para o clero, pois a polícia política invade a casa e prende o mons. José Benedito Antunes que durante dez anos foi vigário na cidade operária de Santo André (SP). Os protestos contra a repressão não impedem a prisão (03/05/68) de José Sollero Filho, do Movimento Familiar Cristão – MFC, que se pronuncia denunciando que houve, de direito
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e de fato “uma violência, um flagrante desrespeito à dignidade e ao direito fundamental da pessoa humana” (apud DALE, et al, 1986: 76).
Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, grandes e pequenos eventos tornam-se pontos de atrito entre o regime e a Igreja. Em São Luís (MA) o conflito ocorre em razão do
sermão de Dom Manoel Edmilson da Cruz na missa (08/05/1968) em comemoração à vitória dos aliados na Segunda Guerra. Ele chama a atenção para o fato de que os soldados brasileiros lutaram pela “defesa da liberdade contra a opressão; da democracia contra a tirania”; pela “destruição de um regime que oprimia a liberdade – o Nazismo”. Ao final Dom Edmilson pergunta: “será que na situação atual podemos dizer que no Brasil existe liberdade de imprensa? de rádio? Sabe-se de passeatas impedidas pelas autoridades”. O sermão não agrada aos militares que se retiram da Igreja em sinal de protesto (SEDOC-2, 1968: 203-4).
Para a polícia política está em marcha um grande movimento que une operários, estudantes e o clero progressista para deflagrar, a partir de junho de 68, agitações nos maiores estados do Brasil. O movimento, segundo o Pedido de Busca Nº 64 (21/06/68) da 4ª Zona Aérea/2ª Seção, segue o esquema dos estudantes e trabalhadores franceses, e está programando a “deflagração de greves nos grandes Estados; sabotagens, terrorismos, colocação de barricadas, ocupação de Universidades, ferrovias, empresas de navegação marítima, portos, destruição de pontes, incêndios e ocupação de empresas de comunicações”. O movimento revolucionário deve se dar em meio a comemoração ruidosa do aniversário da Revolução Cubana, gritos de
guerra civil, e exigência de anistia ampla e irrestrita e tem o apoio de Brizola, Arraes, Lacerda, Mario Covas, Hermano Alves, e outros (DOPS/SP-50-G-2: 199).
Também o setor de informação e repressão do II Exército/2ª Seção, enxerga no mês de junho de 1968 uma onda de agitação operário-estudantil com apoio de parlamentares oposicionistas e do clero esquerdista, como informa o Pedido de Busca Nº 357/68 datado de, 21 de junho de 1968 (DOPS/SP-50-G-01: 116). Teme-se, sobretudo, os estudantes já que para o regime eles constituem a vanguarda do movimento revolucionário.
Os estudantes tomam as ruas no dia 21/06/68 numa passeata que termina em violenta repressão – é a Sexta-feira Sangrenta. O saldo é a morte de um militar atingido por um objeto lançado de uma construção, e a “morte à bala de diversas outras pessoas, estudantes e populares, cujos corpos desapareceram misteriosamente” (DALE, et al. 1986: 85). O mês termina com a Passeata dos Cem Mil (26/06/68) e o clero participa com o aval de Dom José
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de Barros Câmara. Um dos oradores, o padre João Batista é escolhido para representar o clero na Comissão que vai encontrar-se com Costa e Silva. A participação do clero nas passeatas é vista pela hierarquia como uma forma de impedir que estas descambem para a violência. Mas, o regime reaje negativamente à participação do clero ao lado dos estudantes: “padres e bispos se esquecem de seu sacerdócio e de sua missão social, mas principalmente sobrenatural para se tornarem uma subespécie de demagogos à cata de eleitores ou de publicidade barata”, afirma o senador Mem de Sá, da ARENA/RGS (apud DALE, et al, 1986: 89).
O clero vai marcar presença, oficial ou oficiosa, nas manifestações em, todo o país. Uma presença incômoda para os setores linha dura do regime, bem como para o reacionarismo católico, como o Movimento de Arregimentação Feminina - MAF, a Liga das Senhoras Católicas, e a Confederação das Famílias Cristãs. Na linha dos grupos da reação católica, o Movimento Anticomunista - MAC inicia campanha contra os padres comunistas (DALE, et al, 1986). Pressionados pelo regime, e frente à campanha ostensiva do reacionarismo e da extrema direita, a alta hierarquia revela-se ambígua no seu apoio aos estudantes: libera o clero, mesmo que oficiosamente, desde que este exerça um papel moderador, mas recua quando essa participação implica no risco de violência.
Essas tensões e contradições da alta hierarquia com relação ao regime, seu apoio mais ou menos oficial à luta estudantil, a mobilização ostensiva do reacionarismo católico e seus aliados direitistas se manifestam no Caso de Botucatu (SP) envolvendo o clero da diocese e o arcebispo Dom Vicente Marchetti Zioni; nomeado pela Santa Sé após a renúncia do conservador Dom Henrique Golland Trindade. Conhecido por suas posições reacionárias, Dom Zioni teve sua nomeação contestada por uma expressiva maioria de vinte três padres e um clérigo, de um total de trinta e três padres da diocese. Na Carta Manifesto (01/06/68) os padres, com base nas decisões do Vaticano II, não vêem condições de exercer suas atividades pastorais liderados por Dom Zioni, que consideram ultrapassado e autoritário:
“Acrescente-se que a orientação pastoral do novo metropolita, mais propensa a cercear do que a estimular, mais para centralizar do que para admitir a co-responsabilidade, mais apegada a um código que já não corresponde às necessidades da Igreja (e que, por isso mesmo, está sendo reformulado) do que à nova orientação exigida, com prudência, sim, mas exigida pelo Vaticano II, mais personalista do que objetiva, esta orientação pastoral e outros desencontros que aqui preferimos omitir nos colocam numa única perspectiva: a continuação da mesma situação anormal e constrangedora que tivemos nos últimos anos” (SEDOC-2, 1968: 171-72).
Dom Zioni responde e declara que conhece o baixo nível intelectual dos padres, que o documento é vazio e demagógico, e ameaça-os com sanções eclesiásticas. Para o padre Clarêncio Gusson, um dos que contestam a nomeação, as críticas de Dom Zioni são sofismas.
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Quanto à fala do arcebispo de que pode ser rigoroso e conservador, mas que pode mudar de
orientação diante de uma catástrofe, o sacerdote contrapõe: “Um homem que precisa esperar uma catástrofe para mudar é conservador demais. Aliás, depois dessa citação, seria ainda necessário explicar porque não o aceitamos?” (OESP, 05/06/1968). Onde Dom Zioni enxerga
baixo nível intelectual encontram-se professores universitários, filósofos e teólogos pela Universidade Gregoriana de Roma e da Faculdade de Teologia Nossa S. da Assunção (SP). Vários manifestos são escritos a favor dos padres, sendo que um deles, dos leigos de Botucatu (SP) passam de quarenta mil assinaturas. Na Carta - Manifesto os leigos afirmam que a vinda do arcebispo será causa de inominável injustiça, defendem os sacerdotes e pedem que Dom Zioni renuncie à nomeação. Até mesmo, o moderado Movimento Familiar Cristão – MFC apóia a decisão dos padres “por ser esta a única, atitude digna a ser tomada por pessoas humanas”. Contra as ameaças de sanções eclesiásticas feitas por Dom Zioni manifestam-se os
Padres do Carmo, de Belo Horizonte (MG): “não tem sentido, então, apelar para o Direito Canônico, que, aliás, o próprio Concílio reconhece, sob muitos aspectos, como inadequado aos nossos tempos, e por isso mesmo, está passando por reformas profundas e radicais” (SEDOC-2, 1968: 187-190). A favor dos sacerdotes se posicionam o Poder Jovem, e também os professores da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu.
Mas, Dom Zioni não está sozinho. O regime acompanha de perto o conflito, e monitora os
padres progressistas através dos órgãos de informação. O padre José Eduardo Augusti, visto como elemento subversivo que “participa ativamente no Movimento dos Padres Progressistas que lutam contra a posse de D. Vicente Marchetti Zioni, Arcebispo de Botucatu. Tem participado de todas as manifestações públicas estudantis, bem como pronunciado violentos discursos” (DOPS/SP-50-G-02: 139). Seguido pelos órgãos de repressão antes mesmo da crise, Padre Augusti é acusado de editar um jornal de fundo subversivo, o Manifesto, de mobilizar os estudantes como capelão na Faculdade de Medicina e de, junto com Dom Jorge Marcos participar de comício (01/04/68) onde fez “violento discurso subversivo, atacando as estruturas políticas atuais” (DOPS/SP - 1968: Fichas 1 e 2, Pe. Augusti).
Padre Augusti é acusado de liderar o movimento contra Dom Zioni, juntamente com Mons. Claudino do Nascimento e o padre Clarêncio Gusson. Ele foi preso em 18/07/68 acusado de crime contra a Lei de Segurança Nacional. Sua prisão, segundo os órgãos de repressão, “veio nos mostrar que os comunistas agora, mais que nunca, considerando a Igreja uma organização de massa, tratam de usá-la” (DOPS/SP-50-G-0: 322-A). Solto, graças a um habeas corpus
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concedido (15/08/68) pelo Superior Tribunal Militar - STM, ele volta a ficar na mira da polícia política que o acusa de agitar os estudantes na Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas, vista como um centro de subversão:
“Padre José Eduardo Augusti, indivíduo perigoso e maquiavélico, o qual, aproveitando-se de sua condição de religioso infiltrou-se habilmente junto as ‘Repúblicas’ de estudantes, instigando e pregando a agitação, como fase preparatória da ‘guerra revolucionária’. Foi o referido Padre o líder do movimento de ‘Padres Novos’ que impediu a posse do novo Arcebispo desta Arquidiocese no ano passado, D. Vicente Marchetti Zioni e que agora, às vésperas finalmente da esperada assunção daquele Prelado, eis o mesmo Padre José Eduardo Augusti procurando novamente impedir definitivamente aquela posse e para tal juntar-se a elementos subversivos daquela Faculdade e a ala de ‘Padres Novos’, procurando desmoralizar o ilustre e digno Arcebispo D. Zioni” (DOPS/SP-50G-02: 214).
A posse do ilustre e digno Dom Zioni só vai ocorrer em abril de 1969. O acontecimento reproduz na medida exata tudo que o precede nos meses anteriores. Forte esquema policial foi montado para garantir a festa e a segurança pessoal de Dom Zioni. As praças e avenidas principais de Botucatu foram policiadas a fim de evitar aglomeração, e a ação de agitadores. O trânsito foi impedido horas antes nas ruas onde a comitiva deveria passar, e guinchos foram posicionados. Até a guarda de honra de Dom Zioni estava preparada para entrar em ação caso alguma manifestação ocorresse. A população está dividida: para os mais jovens que apóiam os padres, o bispo é reacionário, para os mais velhos e os mais ricos ele representa a ordem. O correspondente do jornal O Estado de S. Paulo entrevista um fazendeiro local:
“Graças a Deus que este homem vai voltar para acabar com a folga desses padrinhos. Se eles têm razão eu não sei, mas o que me parece é que eles são desobedientes, não têm o menor senso de humildade nem obediência. Porque isso que eles estão fazendo é desobedecer ao Santo Papa, que mandou um bispo para uma cidade e eles não querem. Foi ótimo Dom Zioni voltar. E eu vou colocar quatro carros meus na caravana que vai esperar o bispo. Esse homem para nós é uma tranqüilidade” (DOPS/SP-OP-0077-Botucatu – vol. I).
O aparato policial garante que a posse de Dom Zioni ocorra sem incidentes. Autoridades religiosas, o governador Abreu Sodré e, representando o regime, o Ministro Gama e Silva que veio pessoalmente prestigiar a posse do novo arcebispo. A ditadura reconhece seus aliados. Junho de 1968, o novo foco de tensão é o documento de Dom Candido Padin comparando a Doutrina Social da Igreja com a Doutrina de Segurança Nacional. Nas suas memórias ele recorda que a questão surge em meio ao clima tenso que marcou a IXª Assembléia Geral da CNBB (15-20/07/68). Na ocasião os bispos tomam conhecimento da repressão à greve operária de Osasco (SP), inclusive com a prisão do padre operário Pierre Joseph Wauthier, do cerco policial ao Seminário de Botucatu, da prisão do padre Augusti, e do padre Antonio Almeida Soares em São Paulo. Dom Padin observa que a Comissão Central da CNBB já chamara a atenção para a situação de tensão envolvendo Igreja e Estado no seu Comunicado
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de 30/11/67, quando os bispos declaram-se “dispostos a aplicar os princípios do Concílio e da Encíclica Populorum Progressio, ainda que isso nos custe amarguras e dificuldades pessoais”. Contrariados com a intromissão das autoridades nos assuntos religiosos, os bispos recordam: “Dentro dos respectivos campos, a Igreja e o Estado gozam de autonomia e independência, observando o respeito mútuo”. (REB, v. 27, 1967: 1010-11).
O estudo de Dom Padin sobre a Doutrina de Segurança Nacional – DSN conta com a participação de um grupo de professores da PUC/SP, ex-militantes da Ação Católica. Na
introdução ele faz a relação do regime com o nazismo. Recorda a Encíclica Mit Brennender
Sorge de Pio XI que condena o racismo nazista, para afirmar que o Estado totalitário reage criando em torno da Igreja “um ambiente de desconfiança, de ódio, de difamação, de maquiavelismo; comprimiu-se a liberdade de ação da Igreja: canonizou-se a estatolatria; (...) a perseguição para silenciar sacerdotes”. No Brasil, Estado e poder econômico se juntam numa dominação absoluta, que não aceita oposição: “Os métodos particulares são os mesmos do nazismo, mais refinados pela experiência”. É isso que explica o aniquilamento da Igreja, “a única capaz de se opor a esse estado de coisas” (SEDOC ESPECIAL, 1968: 433-5).
Dom Padin recupera documentos jurídico – institucionais do regime, bem como textos dos seus ideólogos, sobretudo Geopolítica do Brasil do gal. Golbery, para identificar as principais características do Estado sob os princípios norteadores da DSN: uma visão ideológica maniqueísta que contrapõe o Ocidente democrático e cristão ao Oriente comunista e
materialista, como fundamento da tese do inimigo interno, ou seja, o perigo está dentro das fronteiras nacionais. Disto resulta a guerra total aos opositores, vistos como aliados do comunismo internacional. Para D. Padin esse é o cerne da famigerada Doutrina que se apresenta como salvadora da civilização cristã:
“... A ‘civilização ocidental e cristã’ pregada pela DSN é um chavão que não resiste a um confronto sério com a mensagem evangélica; os direitos fundamentais da pessoa humana são relativizados; a democracia é um nome que cobre a realidade de um totalitarismo militar: a repressão injusta impede a liberdade de opinião, de expressão e de associação, a análise da conjuntura impõe uma ideologia baseada no falso dilema de opção de Ocidente e Oriente; a soberania nacional é delimitada a ponto de não subsistir” (SEDOC ESPECIAL, 1968: 439).
Segundo o documento os princípios da DSN são facilmente identificáveis na prática do regime pós-64: os Atos Institucionais; o bi-partidarismo forçado; o clima de terror dos IPMs; a perseguição aos opositores; as eleições indiretas; a política externa; o arrocho salarial, e outras medidas arbitrárias. Simulacro de democracia, quando na realidade “trata-se de um totalitarismo militarista” (SEDOC ESPECIAL, 1968: 441). Com base na Gaudim et Spes e na
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Populorum Progressio Dom Padin denuncia também o poder econômico capitalista, sustentado pelo regime, e que é fonte de miséria e sofrimentos. Retoma as principais teses da Doutrina Social da Igreja e confronta-as com a DSN, denunciando “seu caráter radicalmente oposto aos princípios cristãos” (DOM PADIN, 2002: 176).
O documento não chega a ser debatido pela Comissão Central, mas vaza para a imprensa e repercute. O regime evita bater de frente, mas Dom Padin passa a ser acompanhado de perto pelos órgãos de informação e repressão (DOPS/SP Fichas 1 a 6, DOM PADIN). As suas denúncias chamando a atenção para o caráter totalitário do regime, bem como dos bispos exigindo respeito ao direito de livre expressão fazem sentido quando vemos que o controle dos órgãos de informação sobre a sociedade civil e os grupos religiosos, se intensifica. O
Informe Nº 595, de 20/07/68, exemplifica:
Assunto: Subversão em Igreja da Vila Ré (SP)
“Por ocasião de um casamento o padre oficiante ao invés de proferir conselho aos nubentes, modificou sua conduta, criticando o governo (principalmente os militares), concitando todos os presentes a apoiarem os grevistas de Osasco” (DOPS/SP-50-Z-09: 5503).
Enquanto a ala mais progressista do episcopado liderada por Dom Hélder firma o pacto (19/07/68) de estimular ao máximo o movimento da Pressão Moral Libertadora, os integristas da TFP desenvolvem intensa campanha contra a infiltração comunista na Igreja, que conta com o apoio da primeira dama Iolanda Costa e Silva, de vários ministros e inúmeros oficiais das três armas. Alem de fazer conferência aos oficiais da Vila Militar (GB), Dom Sigaud foi recebido em audiência pelo mal. Costa e Silva, ocasião em que declara “o apoio da maioria dos bispos e do clero á linha política do governo” (DALE, et al, 1986: 104- 05). Contra Dom Sigaud e a TFP mobilizam-se alguns membros da hierarquia que pedem providências a Dom Rossi e à Comissão Central da CNBB. A Arquidiocese de Fortaleza acusa a TFP de estar a serviço da extrema direita (REB, v. 28, 1968: 973-4).
Apoiado pelo reacionarismo católico, a tática do regime de atrair os setores conservadores e moderados nem sempre funciona. As relações da hierarquia com o regime foram abaladas com a declaração pelo Circulo Militar de São Paulo de persona non grata ao Cardeal Rossi. A ofensa ocorreu em função dele não ter oficiado missa no aniversário do mal. Costa e Silva, e recusado a medalha da Ordem do Mérito Nacional. A resposta veio quando o cardeal se dirigia ao Circulo Militar para celebrar missa da primeira comunhão das crianças. Convidado a retirar-se Dom Rossi “humildemente apesar de surpreso, reuniu seus auxiliares e retirou-se” (DOPS/SP-50-G-02: 175). Dias antes, em 27/11/68, o Cardeal oficiara uma missa em
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memória dos mortos na Intentona Comunista de 1935. Na homília ele defende reformas que favoreçam o desenvolvimento integral do homem, e ataca os comunistas que a seu ver “apenas aguardam a melhor oportunidade para desferir o golpe também em nosso querido Brasil” (DOPS/SP-50-Z-09: 5654). Desta vez Dom Rossi não fora considerado persona non
grata, nem saiu humilhado, pois rezara na cartilha do regime.
O fato desencadeia uma série de ataques militares à hierarquia católica. O ministro do Interior, o gal. Albuquerque Lima, ligado à linha dura, ataca em sucessivas vezes “os bispos e padres da esquerda festiva”. Acusa os padres progressistas de promover junto aos jovens educação sexual deformada (DALE et al, 1986: 108-9). A crise foi acompanhada pelos órgãos de informação que têm uma singular explicação, como esta do Ministério da Marinha:
“Em referência à recente atitude do cardeal Arcebispo de S. Paulo; D. Agnelo Rossi, soube este Centro que o referido Cardeal foi pressiordo (sic) por um grupo de padres jovens, integrantes da ‘ala progressista’, do sentido de recusar a ‘Ordem do Mérito Nacional, alegando que a mesma seria entregue pelo cidadão que assinou decretos de expulsão de padre do país; alem disto, foi dado um ‘últimatum’ que seria o abandono da batina pelos jovens padres caso o Cardeal aceitasse a cosenda (sic). Frize-se que alguns dias antes o Cardeal (sic) D. Hélder Câmara, esteve em São Paulo e reuniu-se com os componentes da ‘ala progressista’. Segundo o informante, D. Hélder já sabia que D. Agnelo seria condecorado, tendo então aconselhado os padres a agir da maneira que agiram” (DEOPS/SP-50-G-01: 18).
Em que pese Dom Hélder tornar-se cardeal numa penada dos órgãos de repressão, o