Antes do Golpe de Estado de 64, frei Carlos Josaphat Pinto de Oliveira funda o jornal Brasil -
Urgente, que reúne intelectuais e militantes da esquerda católica. O objetivo é servir de porta voz ao movimento revolucionário de inspiração cristã, à luz das teses por ele defendidas na obra Evangelho e Revolução Social de 1962. Com Golpe de Estado ele foi obrigado a exilar- se. Para os órgãos de informação e repressão, no entanto, o frade dominicano que “agitou a
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Dom Sherer Citado Pela Repressão: trecho da fala do Cardeal citado pelos agentes do DOPS/SP: “... Como magnificamente realçou Dom Vicente Sherer, cardeal arcebispo de Porto Alegre, que sabiamente disse: ‘Quem participa de um esquema comum com terroristas, que assassinam inocentes a sangue frio, assaltam e roubam, tornam-se coniventes com tais crimes e participa de sua responsabilidade! ’” (O Estado de S. Paulo, 18/11/1969, p. 09, in APESP, Código 02.03.049).
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vida sindical criando um clima violento entre patrões e operários”, durante o governo Goulart, continua no exílio “atuando na frente de informações que procura desfigurar a imagem do Brasil” (DEOPS-OP-1013-Padres Comunistas, v. 19).
Os golpistas invadem o Convento dos Dominicanos no dia 04 de abril de 1964. Como estivessem abertos aos movimentos de oposição, oriundos da Ação Católica ou não, como o movimento estudantil, ficam na mira dos órgãos de informação e repressão. A realização clandestina do XXIX Congresso da UNE (26-28/07/67) provoca a convocação de seu prior o Frei Francisco Pereira de Araujo para depor na Inspetoria de Polícia Federal na sede da 7ª CIA. de Guardas/II Exército. Interrogado sobre a Ação Popular - AP declara que “do movimento só tem conhecimento pela leitura de jornais, acreditando que os demais frades tenham o mesmo pensamento do declarante com referencia a Ação Popular”. Quanto ao XXIX Congresso da UNE declara que “não permitiria essa atividade dentro do convento”. Sobre a relação de Frei Betto com a Ação Popular declara nada saber. Segundo o Termo de
Declarações (02/08/1967) Frei Chico “deseja declarar que pretende se manter sempre numa linha sacerdotal e religiosa” (DOPS/SP-50-G-01: 199).
Na perspectiva do regime, Frei Chico apesar de suas declarações negando envolvimento político seu, e de outros dominicanos, é subversivo. Para os órgãos de informação, a concentração do Movimento Pela Paz (01/09/67) idealizado pelo dominicano está “sob orientação e auspício da esquerda, uma vez que todos os participantes eram militantes das várias facções do Movimento Comunista Internacional” (DOPS/SP-OP-1013-Padres Comunistas, v. 19). Na realidade participam da concentração realizada no auditório da paróquia Nossa Senhora do Sion, lideranças estudantis e sindicais, artistas, intelectuais, parlamentares, religiosos do Brasil e do exterior.
Segundo agentes de repressão que monitoram o evento, Marcio Moreira Alves criticou as desigualdades sociais do país, mas “para desapontamento de alguns... considerou utópica a idéia de uma greve de âmbito mundial contra a guerra”. O presidente do CA. XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, Aluysio Nunes Ferreira Filho, afirmou que a política norte- americana para o Vietnã “está orientada por uma corja de assassinos”, e que o Brasil também tem o seu Vietnã: o arrocho salarial, a repressão policial, as leis de greve e de segurança nacional. O cantor e compositor Geraldo Vandré “louvou a iniciativa e a pessoa de Frei Chico, com quem se identificou depois de afirmar que ‘se ser subversivo é se colocar contra a
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guerra e suas causas, contra a miséria e o analfabetismo, então eu sou um subversivo’” (DOPS/SP-50-G-2: 133A).
O discurso de Frei Chico encerra o encontro. Segundo o informante ele condena as minorias e seus desmandos, e “afirmou que o povo precisa aprender a protestar, a desobedecer”. Disse que o movimento se esvaziará se as pessoas o tomarem como o “movimento do Frei Chico, sem tomar nenhuma atitude mais concreta”. Para que o Movimento Pela Paz dê certo faz-se necessário “que essas idéias se alastrem e tomem vulto junto ás organizações operárias, estudantis, artísticas e em todos os setores profissionais, que deverão assumir uma luta permanente em prol dos ideais de amor, justiça e liberdade” (DOPS/SP-50-G-2: 133A). No dia 12/09/67 Frei Chico esteve na Comunidade Paroquial da Pompéia para uma conferência sobre “Justiça e Paz”, onde repete as denúncias sobre a corrida armamentista, o colonialismo, a civilização materialista. O informante anota suas referências contínuas aos documentos da Igreja, mas conclui que os conceitos que emite são de “origem nitidamente marxista”, e que geralmente condena os Estados Unidos, ainda que faça referências “também a Rússia e a China Comunista, como cúmplices nos preparativos bélicos”. Ao final, “frisou que as soluções para todos os problemas devem ser concretas e não meramente abstratas, como tem acontecido” (DOPS/SP-50-G-02: 136).
No dia 14/09/67 o dominicano esteve na Faculdade de Direito da USP, a convite do CA XI de Agosto presidido por Aloísio Nunes Ferreira Filho. Centenas de estudantes debatem suas propostas; e entre eles um informante da polícia para levar “ao conhecimento dessa chefia” as teses que o sacerdote defende. Frei Chico, com base na encíclica Populorum Progressio, e nos documentos conciliares do Vaticano II, “afirmou que a Igreja autoriza uma guerra armada em dois casos: 1) contra uma tirania prolongada (no plano interno); 2) contra uma agressão violenta e injusta de país estrangeiro (no plano externo)”, com a ressalva de que a Igreja veta a utilização de armas de destruição em massa. Propôs a união dos países subdesenvolvidos, e criticou a Guerra do Vietnã. Defendeu a socialização da propriedade e a primazia do trabalho sobre o capital e o lucro. Disse acreditar no Movimento Pela Paz, “se bem que o povo não tenha aprendido ainda a protestar” (DOPS/SP-50-G-02: 144).
Para os órgãos de informação o Convento dos Dominicanos, no bairro de Perdizes (SP), “é um verdadeiro centro de operações dos ‘padres progressistas’ destacando-se entre eles Frei Chico, cujas conferências pronunciadas nesta Capital, foram verdadeiras reuniões
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subversivas” (DOPS/SP-50-G-01: 1880). O documento Participação dos Padres
Dominicanos na Subversão e Terrorismo dá conta de que nos princípios de 1967, numa fazenda em Campinas (SP) o Comitê Nacional do Partido Comunista Brasileiro-PCB reúne- se, e os debates ideológicos levam à dissidência do grupo liderado por Carlos Marighella, que defende o enfrentamento armado, guerrilha urbana e rural, contra a ditadura. Nascia a Ação Libertadora Nacional – ALN. Segundo o documento: “Nesta reunião esteve presente o Frei Francisco Pereira da Silva, vulgo Frei Chico, que nessa oportunidade também rompeu com Luís Carlos Prestes e aderiu a ALN”* (DOPS/SP-OP-1013 – Padres Comunistas v. 19).
Nas suas memórias João Antonio Caldas Valença, o ex-frei Maurício, recorda que 1967 foi o
divisor de águas no envolvimento dos dominicanos com a oposição mais radical ao regime. Na contramão do documento dos órgãos de repressão afirma que não havia nenhum frade ligado a qualquer organização guerrilheira, nem mesmo Frei Chico. Ele destaca que entre 1967/1968 os jovens dominicanos fizeram uma experiência de secularização que consiste em contatos com a área universitária, sobretudo, a PUC-SP e a USP, e a conseqüente presença destes “em todas as passeatas de 68, presença e representatividade no Congresso da UNE em Ibiúna com presença na preparação do congresso, atuação constante nas assembléias do CRUSP (Centro Residencial de Estudantes da USP) onde nasciam as diretivas para as lutas dentro e fora da Universidade” (VALENÇA, 2009: 4) **.
A aproximação com os grupos estudantis mais radicais favorece o contato com os dissidentes do PCB, o Partidão, que não aceitam a postura defensiva de seus dirigentes no combate à ditadura. Os dissidentes ficam com Marighella e sua opção pela luta armada. No campo das lutas operárias, Valença recorda que “na capela do Vergueiro estava aberto um espaço para a militância operária do MPL – Movimento Popular de Libertação”, que reúne antigos militantes da Ação Católica (VALENÇA, 2009: 5).
As recordações do ex-frei Maurício coincidem com as memórias de Frei Fernando: “O ano de 1967 marca o divisor de águas. Nossa presença na USP propiciou a oportunidade de nos embebermos da convicção de que a revolução brasileira era iminente”. (apud, FREI BETTO,
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Frei Chico e a ALN: o documento acima citado não tem data. A pasta: OP.1010 – Padres Comunistas, V. 19, é de 1972-1974. No Processo Nº 207/69, da 2ª Auditoria de Exército/2ª CJN, o Procurador Militar ao denunciar Frei Tito faz referências a frei Chico: “O ex-frei Francisco de Araujo também participou das reuniões dos dominicanos, mas era pertencente ao Movimento Popular de Libertação, conhecido por Grupo Arraes, e fazia ligação com ALN” (DOPS/SP-50-Z-09: 22025).
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2009: 31). Na expectativa de uma superação revolucionária da miséria e exploração das classes subalternas, e inspirando-se no exemplo do padre guerrilheiro Camilo Torres para quem “a luta por libertação era, na América Latina, uma exigência da fé cristã”, os jovens dominicanos aderem à luta armada. Frei Tito explica os motivos para essa adesão:
“O Estado militar, instaurado pelo golpe de Estado de 1964, não assumiu uma política de transformação social; bem ao contrário, favoreceu o agravamento da miséria do povo a partir do momento em que escolheu um modelo de desenvolvimento capitalista, repressivo, fundado sobre uma tecnocracia militar, que esmaga os movimentos populares, que instaura o regime de força mantido pelos decretos institucionais” (FREI TITO, 2009) *.
Sobre a opção revolucionária o frade dominicano esclarece:
“[Ser revolucionário] é ser solidário e participar de todas as lutas da classe operária, em todas as formas, segundo táticas tanto legais como ilegais, tendo em vista a tomada do poder, inclusive recorrendo à luta armada, se o permitirem as condições subjetivas e objetivas. Alem disso, há todo um aspecto ideológico, humanista e utópico da revolução. A revolução é a luta para um mundo novo, um tipo de messianismo terrestre no qual há possibilidade para os cristãos marxistas se encontrares” (FREI TITO, 2009) **.
Frei Magno José Vilela, em suas memórias do exílio, afirma que na luta contra a ditadura se colocava como alternativa a construção do socialismo: “nós sonhávamos naquela época com uma revolução que viria de uma insurreição popular seguindo o exemplo da ‘vanguarda’ que havia começado o movimento” (apud CAVALCANTI – RAMOS, 1978:204). Para Frei Fernando o Estado brasileiro pós-64 tem dois elementos básicos que não podem ser ignorados: o fundamento ideológico com base na Doutrina de Segurança Nacional – DSN, e a dependência econômica dos EUA. Ele afirma que a opção pela ALN de Carlos Marighella deve-se à proposta inovadora do líder guerrilheiro: “a luta imediata por uma sociedade socialista, formada por revolucionários não necessariamente comunistas” (BRITO, 2010). Com a opção pela luta armada, como perspectiva para revolução brasileira, os primeiros a aderirem foram os freis Oswaldo Augusto Rezende Junior e Carlos Alberto Libânio Cristo, o Frei Betto. Outros jovens frades dominicanos***do convento das Perdizes (SP) foram aderindo, constituindo uma base de apoio logística da Ação Libertadora Nacional - ALN. No início a liderança do grupo fica dividida entre os freis Oswaldo e Betto, o que segundo o ex-frei Maurício dura até a prisão: “lutava-se para que a liderança do Frei Betto não se
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Frei Tito de Alencar in HTTP://www.adital.com.br/freitito/por/pedras_igreja.html (08/09/2009).
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Frei Tito de Alencar in HTTP://www.adital.com.br/freitito/por/pedras_inquietante.html (08/09/2009).
*** Dominicanos e ALN: Segundo João Antonio Carlos Valença: “faziam parte da ALN no Convento de São Paulo:
Frei Osvaldo, Frei Betto, Frei Maurício (João Valença). Frei Fernando, Frei Ivo Lesbaupin, Frei Magno Vilela, Frei Luís Felipe Ratton Mascarenhas, Frei Giorgio Callegari, Frei Tito Alencar. Esses é que tinham se decidido por uma participação efetiva na ALN dentro do Convento dos Dominicanos” (VALENÇA, 2009: 06).
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tornasse única e exclusivamente especificada dentro do grupo dos dominicanos. Ela também se derramava fora dos grupos religiosos”. Quanto a Frei Oswaldo ele destaca o seu papel de intelectual: “foi quem determinou mais agudamente o projeto e planejamento do trabalho desse grupo de frades e de militantes que extrapolava o estado de São Paulo, atingindo até contatos no Nordeste e em Goiás” (VALENÇA, 2009: 5).
O papel de Frei Osvaldo no engajamento revolucionário do grupo dominicano, aparece com destaque nos interrogatórios de seus companheiros depois de presos. São confissões arrancadas sob torturas, mas que coincidem com as memórias dos freis Betto e Fernando, e do ex-frei Maurício. Frei Fernando afirma que “Frei Oswaldo foi um dos primeiros dominicanos a conhecer Marighella e aglutinou um grupo de dominicanos para a proposta de Marighella” (BRITO, 2010). Frei Oswaldo conhece os grupos de esquerda mantém contatos com Carlos Marighella e, já em 1967 o Coordenador de Base da ALN. Essa presença intelectual e liderança é destacada no relatório sobre as atividades de Frei Tito de Alencar Lima:
“Mais ou menos em fevereiro de 1968, Frei Osvaldo, reuniu a Ala Jovem do Clero Dominicano em uma reunião no Convento dos Dominicanos de São Paulo, e expôs de maneira geral, a visão das esquerdas e sua atuação no Brasil, informando que estavam se formando diversas correntes marxistas, e que em São Paulo, uma das correntes marxistas, chefiadas por Marighella, éra (sic) a que mais objetivamente iria à luta e a que mais oportunidade daria para a participação nessa luta aos cristãos. Tal Ala de Marighella se constituiria em uma Frente de Libertação Nacional, na qual seria empregada a Guerra de Guerrilhas” (DOPS/SP-50-G-0: 333).
É Frei Osvaldo quem coordena a importante ação estratégica de reconhecimento de área, na região de Conceição do Araguaia, para o futuro desencadeamento de uma guerra de guerrilhas. No Relatório a respeito das atividades de Frei Fernando, (10/11/69) ele aparece com o grupo que se desloca até a região;
“Em julho de 1968, Frei Fernando de Brito, recebeu ordens de Frei Osvaldo para dirigir-se à Rodovia Belém - Brasília, no paralelo 13, região de Gurupi até a Região de Imperatriz, juntamente com Frei Oswaldo, Frei Ivo, Nestor da Motta e um amigo de Nestor de nome Hélio, juntamente com Frei Luíz Felipe Raton e Frei Tito, para ali promoverem um levantamento topográfico da região, visando conhecer condições para o desencadeamento da guerra de guerrilhas nas regiões acima mencionadas” (DOPS/SP-G-0: 333)
No Relatório sobre as atividades de Frei Ivo a ação aparece com detalhes, e ele destaca o interesse de Marighella nos resultados do estudo da região Norte do país:
“Em julho de 1968, Frei Oswaldo lhe disse que teriam de ir a uma cidade de Goiás, efetuar um levantamento da Região, por determinação de Marighella, sendo que tal levantamento era para a implantação de guerrilhas nesse local. A seguir, dirigiram-se para Goiânia de ônibus, desse local, foram de ônibus até a cidade de Miracema no Norte, daí, foram de Jeep até a cidade de Pedro Afonso, e desta cidade, foram para Itacajá, região a ser feito o levantamento topográfico. Em Itacajá, alugaram dois cavalos e se dirigiram para um local onde havia umas aldeias de índios, onde aproveitaram para dormirem. Ficaram no local determinado cerca de 15 dias, após
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o que retornaram para São Paulo, tendo o resultado do levantamento sido entregue a Marighella por Frei Oswaldo” (DOPS/SP-50-G-0: 333).
No seu interrogatório Frei Tito teria declarado que “uma das maiores preocupações nos levantamentos éra (sic) saber, a localização e disponibilidade de efetivos policiais e militares nessas regiões” (DOPS/SP-50-G-0: 333). Frei Tito juntamente com o Frei Luís Felipe Ratton fez um levantamento que durou dezessete dias na região de Araguaiana, Tocantinópolis e Imperatriz. Segundo os relatórios as despesas da viagem foram financiadas por Marighella. A presença de Frei Tito no grupo dominicano revolucionário era conflitante, pois o frade “não admitia a liderança do Frei Betto, nem a liderança do Frei Oswaldo” (VALENÇA, 2009: 06). Quando Frei Fernando torna-se o Coordenador de Base, após a viagem de Frei Oswaldo para a Europa (junho 1969), Tito expôs seu conflito pessoal, ou seja, ele acredita na possibilidade de cristãos e marxistas atuarem juntos, mas “não via bem como seria sua participação e dos frades como grupo religioso pertencendo a uma organização marxista declarada” (VALENÇA, 2009: 05-06).
A ação clandestina traz elementos novos para os dominicanos. Os cuidados com o inimigo externo, a polícia política e seus métodos fascistas de interrogatório, fazem parte do seu aprendizado como de qualquer outro, revolucionário na clandestinidade. Ocorre que os freis não cuidam devidamente do inimigo interno. Denúncia enviada aos órgãos de repressão um ano antes da prisão deles informa sobre suas atividades subversivas. Pela riqueza de detalhes, e pela simbólica assinatura, pode-se concluir que os freis, dormem com o inimigo.
O denunciante chama a atenção da polícia política para um detalhe que certamente não é do
conhecimento das autoridades, ou seja, que entre os detidos no Congresso da UNE, em Ibiúna, três são dominicanos: Luís Felipe Ratton, Tito José de Alencar e Domingos Guimarães. Disfarçando-se de morador relativamente próximo ao convento, informa que neste são promovidas reuniões e dá-se hospedagem a elementos suspeitos. Em seguida, ele passa a fornecer dados preciosos à repressão:
“Uma vez que eles já contam com a possibilidade de o seu convento ser vigiado, atualmente eles compraram um apartamento na Rua Rego Freitas 530, apto. E-19, onde residem uns cinco dominicanos, dentre eles o encarregado de subverter a imprensa, o jornalista da Folha da Tarde: Carlos Alberto Cristo. Lá são feitas reuniões mais secretas deles. Alem disso os encarregados de estabelecer os contatos dos dominicanos com a AP, o PC e outros organismos de subversão (geralmente em reuniões subversivas num apartamento da Av. Higienópolis), são os seguintes frades Fr. Chico (já bastante conhecido da Polícia) Fr. João Caldas Valença (que mora na Estrada do Vergueiro – não sei o nº), na saída para Santos, onde têm outro foco de subversão e onde atualmente reside o Fr. Chico).
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Fr. Osvaldo Resende Junior (estudante de filosofia da USP); Fr. Yves do Amaral Lesbaupin (estudante de filosofia da USP); Fr. Giorgio Callegari (este italiano, portanto sem direito algum de imiscuir-se em assuntos brasileiros, podendo inclusive ser repatriado).
Alem disso cumpre ressaltar que estes religiosos já por duas vezes, segundo pude saber, mas pode ser que já o tenham feito mais vezes, realizaram uma viajem a uma das reuniões* de guerrilhas do Brasil (no Pará, cidade de Conceição do Araguaia), para exercícios de subversão. Os dominicanos mantêm uma casa nesta cidade e estão preparando para dar guarida aos futuros guerrilheiros.
(...) “Faltou mencionar ainda outro foco de subversão onde são feitas reuniões secretas: Livraria Duas Cidades, na Rua Bento Freitas, próxima a Praça da República, dirigida por frades especialmente treinados em técnicas de comunização, na frança”. Assina: Teófilo Andrade Marcondes**.
A polícia política reconhece no informante um nome fictício, mas bem informado a respeito
das atividades da AP- Ação Popular. Investiga os nomes citados, suas atividades e endereços, e conclui que o convento dos dominicanos promove reuniões de elementos militantes da AP -
Ação Popular. Detalha informações sobre os freis que moram no apartamento da Rua Rego Freitas, 530 9º andar. Quanto aos freis Osvaldo, Yves e Giorgio, nada digno de nota foi
apurado. Sobre Conceição do Araguaia apura que, o convento está equipado de potente
estação de rádio. O documento do Serviço Secreto, investigando as denúncias do amigo de
Deus, tem data de 8 de agosto de 1968 (DOPS/SP-50-G-01: 176). Nessa data os freis já eram
base de apoio da ALN, as informações do dedo - duro eram quentes, mas a polícia política não aprofunda a investigação, naquele momento.
Ao longo de todo o ano de 1968 o Convento bem como a Igreja de São Domingos continuam vigiados. É que alem de seu clero subversivo abrigam movimentos como a União de Mães de
São Paulo Contra a Violência (06/09/68), liderado por Terezinha Zerbini, mulher do Gal. Zerbini, cassado pelo regime. O movimento, que conta com artistas, professores e intelectuais como Ligia Fagundes Teles reivindica “a anistia aos estudantes presos e nomeação de civis para participar do inquérito que apura as responsabilidades dos participantes de movimentos estudantis” (DOPS/SP-50-G-02: 148).
Dezembro de 1968 fecha o tempo com o AI-5, e uma onda de prisões alimenta a cadeira do
dragão nos cárceres da ditadura. Segundo Caldas Valença, “estávamos em pleno AI-5, e já tínhamos enxergado que minimizávamos demais os órgãos de segurança” (VALENÇA, 2009: 11). Depois do AI-5 estava aberta a temporada de caça aos inimigos do regime. Os
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“Reuniões”: pelo contexto é provável que o denunciante pretenda dizer regiões.
** Teófilo Andrade Marcondes: O Serviço Secreto do DOPS/SP reconhece que é um nome fictício. Frei Betto no Colóquio Homenagem – Frei Tito: 35 Anos depois (10/08/2009) do qual o pesquisador participou, decifra a
charada do nome Teófilo, do grego, igual a amigo de Deus. Para os dominicanos era um verdadeiro amigo da