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Foi mencionado anteriormente o fato de São José dos Campos ser um município que ostenta altos índices de desenvolvimento humano, sendo ainda uma cidade caracterizada por grande dinamismo industrial. É fundamental traçar, mesmo que em linhas gerais, o processo de conformação da questão habitacional em SJC de forma a contextualizar as características do desenvolvimento das políticas de habitação e os conflitos em torno do acesso à moradia, com a finalidade de evitar uma visada meramente isolada do que significou o acontecimento do Pinheirinho.

Acreditar que a ocupação do Pinheirinho foi um evento casuístico, que ocorreu por interesses pessoais ou meramente político, nas palavras de Machado (2014, p. 49), seria

―[...] acreditar que a sua existência – e posterior remoção – não terá reflexos na cidade de São José dos Campos, ou mesmo na região em que a cidade se insere‖. Seguindo esta

interpretação, Forlin e Costa (2010, p. 123-158) afirmaram que

O atual estágio de exclusão social, e segregação espacial, em que nossas cidades se encontram, pode ser apontado como um dos reflexos do processo marcado pelo regime autoritário do desenvolvimentismo. A ocupação conhecida como

‗Pinheirinho‘ e os déficits habitacionais existentes na cidade de São José dos

Campos são reflexos desta política. O processo de crescimento urbano e modernização vieram acompanhados de uma dívida social urbana.

Já foi destacado que planejamento e ação governamentais — ainda que de modo não explícito, associando-se ou não ao capital no processo de desenvolvimento industrial —

produziram no Brasil, nas décadas de 1960 e seguintes, um modelo econômico que gerou forte concentração de renda e riqueza, além de operar profunda transformação urbana mediante a formação de um exército industrial de reserva e interferências nas dinâmicas econômicas, elementos essenciais à implantação do complexo industrial, que necessitava de condições para a obtenção de lucros e reprodução cada vez mais ampliada do capital. Nesse sentido,

Deve-se observar, no entanto, que a ordem física correspondente à organização econômica da sociedade, significou a materialização de uma estrutura social, em que as camadas menos favorecidas, para concorrer por renda e por terra, ao mesmo tempo em que eram peças indispensáveis de tal engrenagem, tornaram-se alvo de políticas ambíguas do ponto de vista da consequência de suas ações. (RESCHILIAN, 2010, p. 167).

O estado de São Paulo protagonizou de modo hegemônico a industrialização brasileira nas primeiras décadas do século XX, fruto da confluência de fatores como o processo de formação da sociedade urbano-industrial, a intensa metropolização de São Paulo e a unificação do mercado nacional, constelação de elementos que foram fundamentais para a consolidação do processo de acumulação interno (SCHIFFER, 1999). Esse processo, no entanto, dominante até a década de 1960, sofreu mudanças a partir de então. A década de 1970 marcou a tendência à desconcentração da estrutura produtiva, a qual agora se deslocava, também, para a Região Metropolitana de São Paulo, o que permitiu o surgimento de novos polos de desenvolvimento industrial no modelo de então. Desse modo,

O processo de desconcentração industrial da região metropolitana de São Paulo tornou o Vale do Paraíba, assim como as regiões de Campinas, Santos e Ribeirão Preto, uma região de expansão econômica que atingiu expressiva taxa de urbanização. Nesse mesmo período, verifica-se, tanto do ponto de vista populacional, quanto dos índices de crescimento urbano, que a cidade de São José dos Campos supera Taubaté e se afirma como polo catalisador de investimentos privados e estatais. (RESCHILIAN, 2010, p. 168).

Nas décadas de 1980 e 1990, o desenvolvimento urbano estendido para o Vale do Paraíba paulista trouxe consigo uma maior concentração populacional nas cidades de maior porte da região como São José dos Campos, Jacareí e Taubaté. Essa dinâmica de expansão populacional, mediante transformações na dinâmica econômica da região, não tardou em

gerar impactos na questão do assentamento dessas populações, gerando fortes implicações na questão habitacional da região.

O processo de urbanização do município de São José dos Campos pode ser analisado, observando-se a forma pela qual o modelo de organização espacial, direcionado para a industrialização, a partir da década de 1970, permitiu a geração de uma dinâmica de ocupação territorial que reproduziu o modelo de expansão periférica e de inclusão precária simultaneamente à qualificação de áreas urbanas nobres e ‗planejadas‘ pelo capital imobiliário. (RESCHILIAN, 2010, p. 169).

Os indicadores da dinâmica de constituição dos assentamentos precários no município de São José dos Campos dão conta, ainda, das primeiras décadas do século XX. O aparecimento da primeira favela na cidade, de acordo com pesquisas de Rosa Filho (2002) — que contou com valiosa entrevista com Geraldo Vilhena, ex-secretário municipal de Desenvolvimento Social (1968-70; 1978-82; 1989-92) — data de 1931, na localidade conhecida como Banhado, atualmente denominada Jardim Esperança. Em 1932, surgiu a Linha Velha, posteriormente chamada de Santa Cruz. Atraídos pela expectativa de melhores condições de vida no Vale do Paraíba, especialmente a partir do final da década de 1940 e início dos anos 1950, assim como pela gradativa desestruturação produtiva da economia rural, migrantes provenientes do sul de Minas Gerais e do Nordeste deslocavam-se e se instalavam na cidade de São José dos Campos.

É sobretudo a partir da década de 1970 que o fluxo migratório para São José dos Campos se intensifica e passa a contar com pessoas vindas de outras regiões, como o Nordeste. Isso devido às transformações na região, principalmente na área urbana da cidade, em função do aumento dos investimentos no setor industrial na região. Na década de 1970, já habitavam em favelas 1.926 moradores em cerca de 430 barracos dispostos em quatro núcleos pela cidade, praticamente dobrando o número de pessoas que habitavam na cidade nessas condições. Surgiram novos núcleos de favelas como a Vidoca e Vila Guarani, sendo a primeira localizada na zona sul.

O ritmo do crescimento industrial, aliado às profundas modificações no espaço urbano das cidades da região, enredado nas tramas de um modelo de desenvolvimento concentrador de renda, riqueza e terra, não foi acompanhado de políticas públicas urbanas e habitacionais capazes de mitigar a expansão periférica precária da cidade e gerar alternativas de moradia no mercado imobiliário formal, sobretudo às pessoas de extratos sociais de renda inferior. Foi apenas no final da década de 1960 que gestores do município de São José dos

Campos procuraram implementar ações de urbanização de favelas ou, como se convencionou chamar, de desfavelamento.

Data de 1969 o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) de São José dos Campos, elaborado com o objetivo de promover o adensamento de algumas áreas da cidade sem que houvesse elevação dos preços dos terrenos, impondo medidas como redução das unidades dos lotes em certos setores e construção de casas em séries e em conjuntos habitacionais. Entretanto, segundo Gouvêa (2003), o plano não continha nenhum artigo específico relacionado à política habitacional, aparecendo como um aspecto de menor importância no interior das Diretrizes Urbanísticas.

É importante destacar que foi a partir da década de 1970 que a Grande São Paulo tornou-se uma metrópole nacional por excelência, ostentando possuir uma importante praça financeira e mercantil, além de desenvolvido setor terciário. Por outro lado, passou a

experimentar uma verdadeira ―urbanização explosiva‖ (CANO, 2011). A expansão das

periferias e a urbanização caótica se aprofundaram, num contexto de governos autoritários que não enfrentavam com a devida seriedade os problemas sociais decorrentes desses processos.

Em 1977, no momento em que a cidade já contabilizava doze núcleos de favelas, estruturou-se o primeiro plano de desfavelamento, na gestão de Ednardo José de Paula Santos, cujo objetivo oficial, de acordo com a pesquisa de Rosa Filho (2002), foi manter os moradores das favelas no próprio tecido urbano, sem remoções para regiões distantes da cidade. Resultante do processo de implementação do plano foi criada, em abril de 1979, a Empresa Municipal de Habitação (EMHA)31, cuja atuação foi responsável, segundo apontamentos de Anjos (2004), pela primeira tentativa real, por parte do poder público, de implantação de programa habitacional visando suprir a demanda social por moradia. Por outro lado, foi nesse mesmo período também que se afirmou a tendência de construção de unidades habitacionais em regiões periféricas, além da verificação do crescimento de loteamentos clandestinos.

Foi no final da década de 1980 a inauguração de uma grande intervenção da esfera pública na construção de habitações populares, o Conjunto Habitacional Elmano Ferreira Veloso, situado na Zona Sul da cidade, com 800 unidades domiciliares. Porém, àquela altura, ainda de acordo com Rosa Filho (2002), São José dos Campos adentrava a década de 1990

31 Empresa criada pela Lei Nº 2007/78 cuja principal função seria planejar e executar programas de erradicação

de favelas, cortiços e outras habitações inadequadas, segundo redação do artigo 2º da lei. Em 1984, após denúncias de fraudes, a empresa foi fechada.

com cerca de 28 núcleos de favelas, abrigando por volta de 8.000 moradores, além de 140 loteamentos clandestinos.

Outro aspecto que vale mencionar foi o fato de a população que esses programas iriam atender deveriam apresentar, obrigatoriamente, rendimentos de, aproximadamente, até 10 salários mínimos. Assim, constatou-se que as unidades habitacionais se tornaram insuficientes e muitas vezes não contemplaram a população mais carente, principalmente a parcela que recebia até 3 salários mínimos. Outro aspecto que dificultou o acesso dos mais pobres foi destacado por Forlin e Costa (2010):

Nos anos 1980, há o agravamento da crise econômica do país, altos índices de desemprego e queda do padrão de moradia e (Em janeiro 1988, o salário mínimo correspondia a CZ$ 4.500,00 - aproximadamente US$ 60,00 na época) de vida. O município de São José dos Campos sofre fortemente os efeitos da crise. A legislação de zoneamento vai sendo alterada, no sentido de dificultar o acesso à aquisição de lotes populares. (FORLIN; COSTA, 2010, p. 128-129).

Ainda em resposta à crise dos anos 1980, foi realizada alteração na legislação de zoneamento, que acabou gerando ainda mais embaraços e dificuldades ao acesso de pessoas

de baixa renda a lotes populares. Um exemplo foi ―[...] a Lei nº 3.110/86, que restringiu o

perímetro urbano e extinguiu a zona de expansão urbana‖ (GOUVÊA, 2003, p. 174). Os anos 1990, em relação às políticas públicas de habitação, foram assim resumidos por Silva (2008, p. 64-65):

Os problemas habitacionais herdados da década anterior ainda repercutiam na primeira metade dos anos 1990. Observou-se a redução do número de loteamentos aprovados, pouco mais de vinte. Registrou-se no período a aprovação de cinco conjuntos habitacionais. Já a oferta de novos lotes diminuiu, mas manteve-se a dinâmica da ocupação dos vazios urbanos por meio do incremento do comércio e dos serviços nas vias principais dos subcentros e da construção de moradias em partes ainda não ocupadas. Percebeu-se no final da década que ‗novas cidades‘ surgiram dentro da cidade. Trata-se dos subcentros que formaram regiões que caminham para a ‗autonomia‘ e para a verticalização. Em 1995 foi aprovado o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado, PDDI (Lei Complementar Nº 121/95) e em 1997 uma nova lei de zoneamento (Lei Complementar Nº 165/97). A verticalização e os novos loteamentos ocuparam os vazios mantidos pela especulação, ao mesmo tempo em que continuaram a ampliar as bordas da malha urbana já definida. A falta de segurança manifestou-se no espaço, perversamente ao longo da década, com o fechamento de ruas para se construir condomínios privados.

A forma como se deram os assentamentos desde a década de 1970 no território pode ser considerada como indicativo de inclusão precária, além de ter caracterizado o desenvolvimento urbano no que concerne à habitação no município. O poder público, por sua

vez, pretendeu atuar por meio da elaboração de políticas ou programas que pudessem equacionar a questão. Entretanto, as políticas municipais de habitação, a partir de 1997, buscaram se ancorar, como mencionado anteriormente, em programas de ―desfavelização‖. Desde que foi apresentado sob a administração municipal do prefeito Emanuel Fernandes (PSDB/SP), o programa não atingiu o objetivo principal de dar sustentação às demais políticas habitacionais populares. Ao contrário, foi bastante criticado, mormente em relação a sua aplicação, na medida em que foi identificado como um programa de ―limpeza urbana‖ que visava esconder os pobres, retirando-os do centro da cidade por meio da remoção das favelas e levando-os para setores periféricos da cidade. A proposta principal incluiria apenas as famílias que moravam nas favelas da cidade, porém não previa mecanismos eficazes para geração de renda e empregos para esses moradores nos locais para onde seriam transferidos, uma vez que abandonavam seus empregos ao serem deslocados para longe de onde viviam originalmente. Sem dinheiro, muitos não conseguiam arcar com o pagamento da casa e, ao mesmo tempo, garantir a alimentação da família (FORLIN; COSTA, 2010).

O enfrentamento da questão habitacional pelo poder público, de forma geral, teve seus projetos intensamente questionados, e os especialistas denunciavam possíveis desvios de finalidade para atender a cálculos eleitoreiros. O Campo dos Alemães32 esteve no centro dessas polêmicas no final dos anos 1980, sobretudo após o anúncio de programas habitacionais para as áreas remanescentes do bairro, sob a administração da Urbanizadora Municipal (URBAM), em que o regime de construção das casas era programado pelo sistema de autoconstrução, custeado pelos moradores. Sobre as críticas aos programas habitacionais Gouvêa (2003, p. 174-175) afirma:

As críticas se estabeleciam, entre outros aspectos, pela escolha da área, que além de não dispor de nenhuma infraestrutura, tinha uma localização extremamente afastada e simbolizava a total exclusão socioespacial desta parcela da população, transformando um ‗programa habitacional‘ em um instrumento de segregação social onde estas pessoas se viam induzidas a ocupar uma área gigantesca, que durante muito tempo ficou marginalizada com preocupantes índices de violência [...], este loteamento ficou durante muito tempo com sérios problemas de infraestrutura e equipamentos urbanos [...]. Em 1990 esta área [...], teve uma parte destinada para a futura construção de conjuntos habitacionais, denominados D. Pedro I e D. Pedro II, os quais, associados ao Campo dos Alemães, acabaram formando uma verdadeira

‗cidade à parte pra a população de baixa renda, devido às grandes dimensões da

área‘.

32 Bairro onde estava situada a ocupação do Pinheirinho. Este bairro será tratado de forma mais específica no

Outro aspecto relacionado à forma com a qual a administração pública de São José dos Campos, historicamente, tem tratado a questão das habitações precárias são os conflitos travados com as populações locais, alvos das políticas de ―desfavelamento‖. São casos emblemáticos as favelas Nova Detroit e Nova Tatetuba. Por se tratarem de núcleos de ocupações que integram áreas de interesse do capital imobiliário, elas foram objeto do programa. Contudo, os embates causados, sobretudo em função dos procedimentos adotados pela administração pública, configuraram verdadeiros impasses nas negociações, pois houve alegações dos moradores de que foram pressionados ou mesmo ludibriados quando da apresentação das contrapartidas da prefeitura na execução das remoções (RESCHILIAN, 2010).

Nesse sentido, identifica-se, no plano da política de ―erradicação de favelas‖, associado à construção de moradias nas periferias da cidade, elementos que apontam para

uma política de inclusão precária, ―[...] uma vez que o perfil dessa política é deslocar os

moradores de favela para as regiões sul e leste da cidade, consagrando a segregação da

população de baixa renda‖ (RESCHILIAN, 2010, p. 177), contribuindo para a organização do

território, de modo a aprofundar a precarização das condições habitacionais e urbanas nessas regiões.

De modo mais particular, é possível apontar que há um processo de segregação

residencial que resulta na ―inclusão precária‖ de parcela dos habitantes da cidade. Esse pode

ser considerado como um dos vários processos espaciais capazes de gerar fragmentação do espaço urbano (CORRÊA, 1979). Os territórios da cidade são, portanto, a forma de manifestação espacial desse processo, marcado por diferenciações em relação à apropriação econômica dos espaços (como divisões entre áreas comerciais, residenciais e industriais), bem como das relações sociais que se estabelecem as quais, em muitos casos, podem implicar disputas territoriais que envolvem embates entre movimentos sociais e as forças do Estado (SOUZA, 2000; MARCUSE, 2003).

Assim, o processo de segregação espacial em São José dos Campos está intimamente ligado às classes sociais e suas frações, bem como na forma como se apropriam do espaço urbano, seus espaços de existência e reprodução. Com efeito, não se pode compreender em profundidade fenômenos como a diferenciação residencial sem analisar a estruturação de classes de uma sociedade. É nesse sentido que o controle da propriedade da terra desempenha papel fundamental na segregação residencial das classes subalternas, pois

propriedades especulativas e residentes em áreas de auto-segregação garantem a execução

dessa política‖ (CORRÊA, 2016, 44). O mercado imobiliário também reflete os complexos

jogos de poder encenados pelas classes e suas frações, além de suas capacidades para impor seus interesses ao conjunto dos grupos sociais que habitam os diferenciados territórios — por exemplo, estabelecendo preços distintos para a terra urbana. Em relação às formas de moradias, é possível perceber que

Condomínios exclusivos e ruas protegidas, com amplas e confortáveis residências em ambiente limpo, seguro e com abundante vegetação, fazem parte da paisagem das áreas autossegregadas. Favelas, cortiços, modestas ou precárias moradias construídas no sistema de autoconstrução e conjuntos habitacionais, muitos dos quais recentes e já deteriorados, localizados, sobretudo, na periferia ou em áreas de risco ou já caracterizadas pela obsolescência, com precária ou nenhuma infraestrutura urbana, sujas e inseguras, compõem a paisagem das áreas de segregação imposta. (CORRÊA, 2016, p. 44).

São José dos Campos, ao contrário do que se poderia supor a partir de apressadas análises, há muito sofre com o processo de segregação e com a dificuldade de acesso à terra urbana e à moradia por parte dos setores mais frágeis da sociedade. O resultado tem sido forte exclusão social e aprofundamento das desigualdades sociais, que têm empurrado as populações mais pobres para as franjas da cidade, forçando-as a viver em áreas precárias do ponto de vista das condições de habitação digna e segurança social.