Contemporaneamente, os processos estruturais de irradiação do crescimento urbano, tomados a partir da lógica de expansão e reprodução do capital, com seus agentes hegemônicos globalizados e financeirizados — tornados possíveis pela intervenção conjugada do Estado e pelas novas tecnologias de integração territorial disponíveis —, fazem com que as cidades distanciem-se cada vez mais de novas áreas urbanizáveis, em detrimento de outras. Assim, é possível verificar certa seletividade geográfica nos vetores de expansão urbana, os quais apontam para estratégias de acumulação e crescimento mais rentáveis para os investimentos públicos e privados, gerando, por sua vez, contínuos deslocamentos espaciais dos segmentos sociais mais favorecidos e consequente agravamento da questão social.
A cidade de São José dos Campos, localizada na porção leste do estado de São Paulo26, apresenta elevados índices de desenvolvimento humano27. Esta realidade pode ofuscar a observação de determinados fenômenos comuns a grande parte das cidades com alta taxa de urbanização no Brasil, entre eles a segregação socioespacial, as desigualdades sociais e a pobreza. Outro dado importante é que o município, das cidades que compõem a região do Vale do Paraíba, possui a maior arrecadação de impostos. Analisar o complexo desenvolvimento do município impõe a necessidade de considerarmos, mesmo que brevemente, alguns aspectos históricos de seu processo de urbanização.
De acordo com Pereira (2009), no final do século XIX e início do século XX, o município de São José dos Campos convivia com a pobreza e possuía meios limitados, economicamente, de gerar riquezas. A terra não era considerada ideal para a agricultura, cujos empreendimentos agrícolas eram constantemente atacados por pragas, além de o café ser, naquele momento, um produto econômico em decadência28. Nos anos de 1920, a cidade era composta pelo núcleo central e por mais três pequenos núcleos separados na sua conformação — Santana, Eugênio de Melo e outro a sudoeste —, porém mantinham interligação com as vias então existentes, as quais também se articulavam com o núcleo central.
Não é possível compreender essas características da cidade e, ao mesmo tempo, analisar suas complexidades e contradições sem que se tome como central o processo de industrialização que tem comandado seu crescimento desde 1930, o qual tem produzido crescimento urbano desordenado e concentrado. É dos anos 1930 aos anos 1950 do século XX
26 O município possui localização privilegiada se considerarmos sua posição geográfica, isto é, entre as duas
principais regiões metropolitanas do país — Rio de Janeiro e São Paulo —, situando-se às margens da Rodovia Presidente Dutra. Importante salientar que a taxa de urbanização da cidade está acima das médias estadual e regional, concentrando 98,8% da população em área urbana.
27 São José dos Campos (SP) possui o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Vale do Paraíba,
região composta por 39 municípios, com 0,807. Já levantamento a respeito das Unidades de Desenvolvimento Humano (UDH), que são áreas com condições socioeconômicas similares, aponta para melhora dos índices auferidos, chegando a região nobre — composta por Aquárius e Vila Ema — a possuir IDH de 0,952, o mais alto da região. Por outro lado, cabe destacar que a região mais vulnerável é composta por um grupo de dez bairros periféricos, a maioria situada em São José, tendo índice de 0,633, classificação em que consta o Pinheirinho. Ver: Desigualdade no IDH diminui entre municípios da RM Vale em dez anos. G1, Vale do Paraíba e Região, 1 jul. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba- regiao/noticia/2015/07/desigualdade-no-idh-diminui-entre-munic ipios-da-rm-vale-em-dez-anos.html>. Acesso em: 23 jan. 2017.
28 No plano estritamente econômico, é importante anotar que os municípios de Taubaté e Jacareí, ambos no
interior do estado de São Paulo, possuíam atividades industriais mais relevantes e, consequentemente, maior protagonismo econômico na região. Entretanto, em 1925, com a instalação da Tecelagem Parayba, o município de São José dos Campos ganharia uma importante fábrica que marcaria o início de seu desenvolvimento industrial. Sobre esta questão ver: JANUÁRIO. E. A. A importância dos institutos de pesquisa para o surgimento do empreendedor de base tecnológica no polo aeroespacial de São José dos Campos. 2007. 133f. Dissertação (Mestrado em Gestão e Desenvolvimento Regional) – Universidade de Taubaté, Taubaté, 2007.
em que se pode apontar o prenúncio de uma cidade contemporânea nascendo em São José dos Campos com a sua estrutura de cidade-sanatório e em processo de industrialização.
Foi no período do governo de Getúlio Vargas que a região do Vale do Paraíba recebeu vultosos investimentos que mudaram o curso do desenvolvimento urbano da região. Um empreendimento estatal digno de nota foi o Sérvio de Melhoramentos do Vale do Rio Paraíba, o SMVP, implementado em 1938. Este fez parte de pacote de obras do governo interventor de Vargas em São Paulo, capitaneado por Adhemar Pereira da Barros (1901 – 1969), cujo objetivo foi realizar aproveitamento dos recursos hídricos para revigorar o uso agrícola das áreas de várzea ao longo do rio Paraíba do Sul, consolidando investimentos em infraestrutura, agroindústria e pesquisa científica.
A influência do governo de Getúlio Vargas continuou após a criação do Ministério da Aeronáutica, em 1942, culminando com a escolha da cidade para sediar a instalação do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), numa imensa área ao sul da estrada velha São Paulo-Rio e imediata à estrada para Paraibuna. O CTA pode ser considerado como projeto fundamental para a afirmação das atividades do setor no país. Lá foi concentrado o esforço nacional em criar um campo de formação e produção especializada com foco na indústria aeronáutica, bélica e aeroespacial (SANTOS, 2006). Os núcleos de Santana e Eugênio de Melo, antes descontínuos do tecido original, cresceram igualmente, mas mantiveram-se ainda separados, enquanto que o pequeno núcleo a sudoeste uniu-se à porção central da cidade.
Nesse contexto, talvez possamos considerar como evidências da dispersão urbana não apenas os pedaços de tecido urbanizado relativamente dissociados do núcleo central da cidade, como também os sistemas de engenharia que atravessam a cidade e as grandes glebas como a do CTA e da Rhodia, que também constituem, em suas escalas diversas, elementos separadores na estruturação do espaço urbano. (OLIVEIRA, J.; GOMES, 2010, p. 57-58).
Este processo acelerou-se depois da década de 1950, com a inauguração da rodovia BR-2, popularmente conhecida como Via Dutra, que representou todo um conjunto de investimentos federais na produção de infraestrutura urbana e regional e possibilitou a geração de energia e vias de circulação de pessoas e mercadorias. Do ponto de vista da organização do espaço urbano nos anos 1950, os efeitos iniciais das políticas de industrialização passam a serem percebidos com maior intensidade.
Naquele período já era possível observar, ao norte, o crescimento do núcleo central de forma interligada ao do bairro de Santana. Em direção ao sul, houve ampliação da estrutura urbana junto à estrada para Paraibuna e, a sudoeste, nos arredores da via Dutra, já implantada. Ademais, verificou-se, a sudoeste e nordeste, pequenos fragmentos de espaço urbanizado ao longo desta principal rodovia. Nesse período instalam-se na cidade mais duas indústrias, as quais ocupam grandes áreas: a Johnson & Johnson e a General Motors, além de outras unidades de grande porte econômico.
São José dos Campos já contava com a Rhodosá, em funcionamento desde 1949, instalando-se posteriormente no município a Johnson & Johnson (1953), a Ericsson (1954), a General Motors (1957) e a Eaton (1957). O setor têxtil foi incrementado com o surgimento da Kanebo (1957) e logo depois com a instalação das Alpargatas (1959), do setor de vestuário e calçados, e da Bendix (1960), do setor metalúrgico. No ano de 1961 surgiram a Avibras (referência pioneira na indústria bélica e aeronáutica) e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Estava delineado assim o perfil da industrialização joseense ao longo das décadas de 1970 e 1980, caracterizado pela concentração de empresas de três grandes setores, no caso, o metalúrgico (automotivas), o bélico-aeronáutico e o setor das telecomunicações. (SILVA, 2008, p. 48).
De acordo com Santos e Beltrame (2008), o auge da industrialização em São José dos Campos aconteceu entre as décadas de 1960 e 1970, com a chegada de indústrias de grande porte, entre as quais destacou-se a empresa pública Refinaria Henrique Lage da Petrobras (REVAP), ―[...] constituindo, a leste da cidade, outro elemento separador da estrutura urbana, de forma que a morfologia urbana resultante nos anos 80 praticamente se
equipara à dimensão espacial do início dos anos 2000‖ (OLIVEIRA, J.; GOMES, 2010, p.
58).
Ainda na década de 1960, registrou-se em São José dos Campos forte adensamento da região sul/ sudoeste da cidade, incluindo um grande pedaço da estrutura urbana relativamente separada do núcleo central. Nesse período, destacava-se a grande área da Kodak (em frente à da Johnson & Johnson). Também era possível ver novas pequenas áreas de espaço urbanizado, sobretudo a leste do CTA, onde se instalou o INPE, em 1961. Nesta mesma década, a cidade também se adensou na direção centro-nordeste, ao longo da Via Dutra, e ganhou contornos imensa área industrial a nordeste, pertencente à Fazenda Santana do Rio Abaixo.
Na década de 1970, além do processo de verticalização na área central, o adensamento da região sul se mostrou de forma acentuada sobretudo nas áreas a oeste do CTA. Elevou-se o crescimento ao redor do INPE e nas proximidades da EMBRAER
(naquele momento já instalada junto ao CTA). Foi nesse período que se verificou o início do processo de crescimento da região leste da cidade, com a implantação do conjunto Vista Verde, nas proximidades da Dutra e outros núcleos mais dispersos a sudeste, principalmente após a implantação de mais grandes indústrias ao longo da Dutra, na direção de Eugênio de Melo, como a Ericsson e outras. De outro lado, a ocupação da região oeste também teve seu início no grande espaço vazio que separava o núcleo central expandido e a porção da cidade nas imediações da Johnson. Do mesmo modo, novas indústrias surgiram ao longo da rodovia, como a Panasonic, a Phillips e a Monsanto (OLIVEIRA, J.; GOMES, 2010, p. 60).
Após a década de 1980, o município ganhou ainda maior notoriedade, com a implantação de mais indústrias armamentistas, como a ENGESA. Assim, com a chegada de empresas de alta tecnologia que se instalaram na região, as quais se especializaram em prestar
serviços às várias indústrias, o perfil de cidade ―polo tecnológico‖ se fortaleceu (FORLIN;
COSTA, 2010). Esse processo foi marcado pela chegada de fábricas de grande porte, em geral transnacionais, que contavam com vultosos incentivos do governo federal. É importante destacar, ainda, que a organização do espaço urbano resultante da urbanização ocorreu em todas as direções, exceto a nordeste do município. As regiões do extremo sul e do leste prosseguiram em crescimento, ampliando os pedaços de cidade. O adensamento de Eugênio de Melo e arredores também prosseguiu ao longo da Dutra. Também se verificou o avanço do processo de ocupação da região oeste, com a implantação dos conjuntos urbanos Esplanada do Sol, Aquarius e Urbanova. Por sua vez, a região norte crescia do outro lado do rio Paraíba do Sul, nas margens do rio Buquira e Jaguari (FORLIN; COSTA, 2010).
Nessa perspectiva, Souza e Costa (2010) afirma que São José dos Campos é um município altamente industrializado, constituindo um ―Polo Tecnológico‖ com base nos setores ―aeroespacial, bélico e eletrônico‖ e cuja infraestrutura foi proporcionada por ações conjugadas entre os governos federal, estadual e municipal, os quais foram de grande importância para a garantia dos processos de acumulação de capital. No caso do governo federal, essa participação foi além de incentivos e facilidades oferecidas ao setor privado, mas também se materializou na instalação de empresas públicas de grande porte e com alto valor adicionado na região29.
29 No entanto, mesmo considerando todo o avanço tecnológico e o crescimento econômico patrocinado pelo
Estado em suas várias esferas, seja através de incentivos fiscais ou por meio de investimentos diretos dos governos (sobretudo do governo federal), entre 1950 e 1990 a região do Vale do Paraíba Paulista teve seu desenvolvimento marcadamente econômico, ignorando o desenvolvimento sustentável do seu território, segundo Ronca e Vitale (2004). Para acesso às críticas dos autores, ver: RONCA, J. L. C.; VITALE, S. P. S. M. Caminhos para a gestão integrada do território no Vale do Paraíba de 1950 a 2004. Exacta, v. 2, p. 133- 149. São Paulo: Uninove, nov. 2004.
Nesse sentido, é possível observar algumas características do processo de urbanização de São José dos Campos. Primeiro, o papel exercido pela Dutra foi fundamental, sobretudo como eixo preferencial da localização industrial e do adensamento da urbanização. Também é imprescindível notar o papel que os centros de tecnologia e produção industrial instalados exerceram como referências e pontos capazes de organizar e fazer orbitar em torno de si o crescimento urbano. Ademais, na medida em que várias dessas indústrias se instalaram nas extremidades do principal eixo viário que atravessa a cidade, elas passaram a constituir, junto à própria rodovia, as principais indutoras de um desenvolvimento urbano marcado pela dispersão territorial.
Esta urbanização dispersa não pode ser atribuída, no entanto, a um simples processo de sobre-extensão do tecido urbanizado, possível apenas pelos distintos processos que se conjugam à industrialização. Ao contrário, a dispersão na urbanização da cidade é resultante dos desacertos da estrutura social que se constituiu, historicamente, de forma desigual e segregadora. De modo geral, nas cidades brasileiras, é possível se apontar certo modelo tradicional de crescimento urbano em que os mais privilegiados economicamente ocupam as áreas centrais das cidades, enquanto os mais pobres são cada vez mais empurrados para a periferia, processo que ganhou força no século XX. Entretanto, após os anos 1970, algo semelhante ao modelo americano (suburbanização) surgiu em algumas cidades, com edificação de condomínios voltados para setores de alta renda em terrenos afastados (BÓGUS; TASCHENER, 2000). Sobre o papel do Estado na expansão urbana da cidade asseverou Reschilian (2010, p. 166):
A ação do Estado, promotora de condições para a implantação de uma política de desenvolvimento baseada em um planejamento de escala nacional, criou mecanismos geradores dos problemas urbanos, especialmente nas cidades cuja concentração de investimentos públicos e/ou privados, demandou o crescimento de obras e serviços de alto custo, redefinindo padrões de consumo urbano, promovendo revalorização de terras, e tornando excluída grande parte da camada de trabalhadores urbanos e migrantes que convergiam às cidades a partir da década de sessenta.
Este tipo de crescimento descontínuo da cidade — que subverte a lógica de um centro urbano que concentra o processo de transformação da cidade e gera, portanto, segregações e exclusões sociais — tem sido tratado, na literatura especializada, como
―urbanização dispersa‖ (REIS, 2006). De acordo com o autor, vem ocorrendo a formação de
áreas urbanas na periferia de algumas cidades e metrópoles, cuja característica central é a expansão da malha urbana em descontinuidade ao tecido já existente, promovendo a criação
de novos núcleos, com variadas funcionalidades e formas de utilização e em pontos mais isolados.
Cabe ressaltar que os processos de expansão urbana são ancorados em amplos padrões de diferenciação e separação, constituídos cultural e historicamente. Por meio da observação de seus rastros é possível entrever os princípios que regem a vida pública, a abrangência das intervenções da lógica privada na produção as cidades e a forma como os diversos grupos sociais interagem e se inter-relacionam no espaço da cidade. São José dos Campos, de certa maneira, acompanhou as linhas gerais de desenvolvimento urbano reveladas na Região Metropolitana de São Paulo. De acordo com Caldeira (2000, p. 211), em São Paulo a urbanização e a segregação espacial tiveram pelo menos três formas de manifestação no espaço urbano:
A primeira estendeu-se do final do século XIX até os anos 1940 e produziu uma cidade concentrada em que os diferentes grupos sociais se comprimiam numa área urbana pequena e estavam segregados por tipos de moradia. A segunda forma urbana, a centro-periferia, dominou o desenvolvimento da cidade dos anos 40 até os anos 80. Nela, diferentes grupos sociais estão separados por grandes distâncias: as classes média e alta concentram-se nos bairros centrais com boa infraestrutura, e os pobres vivem nas precárias e distantes periferias [...]. Uma terceira forma vem se configurando desde os anos 80 e mudando consideravelmente a cidade e sua região metropolitana. Sobrepostas ao padrão centro-periferia, as transformações recentes estão gerando espaços nos quais os diferentes grupos sociais estão muitas vezes próximos, mas estão separados por muros e tecnologias de segurança, e tendem a não circular e interagir em áreas comuns.
Às formas de segregação espacial surgidas a partir dessas novas características da expansão das cidades Caldeira (2000, p. 211) denominará ―enclaves fortificados‖. Esses são, em sua maioria, ―[...] espaços privatizados, fechados e monitorados para residência, consumo,
lazer e trabalho‖ (idem). Esse modelo de ocupação e produção da cidade obedece a
imperativos gerados pela exploração do medo e da violência urbana, atraindo pessoas que, ao se integrarem nesses novos espaços, abandonam a esfera pública tradicional das ruas para os
―marginalizados‖ e os ―sem-teto‖.
Trago essa reflexão para destacar que a ocupação urbana de São José dos Campos, embora enredada na ―tradição clássica‖ de desenvolvimento e crescimento urbano atrelado ao processo de industrialização, tem passado por transformações importantes, sobretudo quando consideramos os movimentos do mercado imobiliário na definição dos eixos de ocupação da
terra urbana30, os conflitos urbanos em torno do direito à moradia e as formas de solução desses mesmos conflitos por parte das autoridades públicas cujo caso do Pinheirinho é representativo.
De volta à questão da urbanização dispersa, junto a esse processo de segregação estão os problemas ambientais (ecológicos e sociais), pois estes se expressam de modo bastante diferenciado o espaço urbano. Seus efeitos podem ser muito mais notados nos espaços físicos de ocupação das classes sociais de menor poder aquisitivo do que as classes mais elevadas, dimensões que levam em conta a dinâmica do mercado imobiliário e o
direcionamento das políticas públicas. Desse modo, ―[...] a lógica do mercado de terra define
a ocupação do espaço, ou seja, as pessoas são providas por direitos diferentes ao acesso à qualidade ambiental em função da capacidade social, o que ocasiona uma desigualdade
ambiental‖ (COSTA; DE MARIA, 2010, p. 113).
É possível constatar que, desde a década de 1940, São José dos Campos passou a ter sua dinâmica urbana profundamente ligada ao processo de industrialização do país, atravessando seus altos e baixos. Fez-se, dessa maneira, cidade símbolo deste modelo de modernização, cuja confluência de ações de empresas nacionais, transnacionais e do poder público (em suas esferas federal, estadual e municipal) enredaram uma trama que tornaram o município uma cidade industrial de grande relevância para o país (SANTOS, 2006), tornando-
se ―[...] uma alternativa para a descentralização industrial a partir da cidade de São Paulo, e
passa a dispor de infraestruturas e normas para acolher as novas empresas e grandes levas de
novos habitantes‖ (OLIVEIRA, J.; GOMES, 2010, p. 62). Dessa forma,
Com as obras públicas dos prefeitos sanitaristas, os favores especiais para a atração de indústrias, a delimitação de perímetros para as diferentes zonas de uso e ocupação, os planos diretores e demais legislações urbanísticas, o crescimento da cidade passa a ser orientado e/ou controlado, mas dando-se, de forma linear ou pontual, segundo os mesmos mecanismos de produção do espaço urbano: retenção especulativa e posterior ocupação dos vazios urbanos (com a extensão onerosa de infraestruturas) e, ainda, ampliação das bordas urbanizadas, mediante o loteamento de áreas rurais, a oferta de novas áreas urbanizáveis e a formação de novas centralidades ao redor das grandes implantações para a indústria, o grande comércio ou serviços (hospedagem, educação etc.).
30 Em relação à categoria ―enclaves fortificados‖ de Caldeira e sua verificação no espaço urbano de São José dos
Campos, Costa e De Maria (2010, p. 136) afirmam que ―São José dos Campos, em princípio, não possui
enclaves fortificados residenciais tão claramente definidos, como o exemplo fornecido por Caldeira (2000). A cidade, ou melhor, o mercado imobiliário, ao escolher eixos de ocupação destinados às faixas de renda específica, evita, de certa forma, o incômodo de habitar locais com discrepância social. Porém, não se pode afirmar que esses eixos, voltados às faixas de renda média e baixa, foram definidos diretamente, tanto pelo poder público quanto pela sociedade, mas, ao definir o local das faixas de renda mais altas, indiretamente definem-se os eixos destinados aos mais pobres‖.
Está inserida numa região marcada por forte industrialização e dinâmica atividade econômica, cujo processo de expansão urbana foi marcado por dispersão territorial que, ao longo de décadas, promoveu a segregação socioespacial de enormes contingentes populacionais. Essa situação de desigualdade e segregação é mascarada, no entanto, pelo discurso do progresso de desenvolvimento econômico do município, ainda muito atrelado à forte industrialização. É necessário romper essa cortina de fumaça para compreender melhor a