• Sonuç bulunamadı

Após a reintegração de posse muitas das famílias retiradas foram levadas a abrigos oferecidos pela prefeitura de São José dos Campos, outras encontraram acalento na casa de parentes. Há, ainda, aquelas que buscaram alugar moradias em outras localidades, contando com auxílio governamental para custeio parcial de aluguel, além daquelas cujo paradeiro até hoje é desconhecido. Definir, neste cenário fragmentado, uma amostragem para esta pesquisa foi tarefa árdua.

Importante destacar que a decisão judicial pela reintegração de posse e a execução da ordem pela polícia, considerando sua amplitude e efeitos, indicam um evento que caracteriza a amostra como de acontecimento ou de enredo, pois surge de um evento ―[...] que, por via de regra, é relativamente raro, do ponto de vista da frequência: um escândalo político, um rumor, uma crise, um motim, uma intervenção brutal das forças da ordem, um

assunto judiciário extraordinário, etc.‖ (PIRES, 2008, p. 177).

A complexidade do acontecimento produziu, para a pesquisa, uma amostra que abrangeu dois campos de eventos superpostos. Isso se deu na medida em que há uma dimensão anterior, uma ordem que é rompida a partir do evento ocorrido — neste caso, a

invasão policial do Pinheirinho. Por outro lado, o acontecimento não somente recorta o evento primário (ocupação da área conhecida como Pinheirinho) como o transforma profundamente, gerando diversos efeitos e impactos que podem significar variáveis a serem consideradas na investigação, além de atirar em condições bastante diversas as famílias que habitavam no Pinheirinho. Assim, como critério para mapear e selecionar os sujeitos que cederam sua voz a esta pesquisa, optei pela adoção dos sistemas de rede15, no qual

Se busca um ‗ego‘ focal que disponha de informações a respeito do segmento social

em estudo e que possa ‗mapear‘ o campo de investigação, ‗decodificar‘ suas regras,

indicar pessoas com as quais se relaciona naquele meio e sugerir formas adequadas de abordagem. De um modo geral, as pessoas indicadas pelo ‗ego‘ sugerem que se procurem outras ou fazem referência a sujeitos importantes no setor e assim se vai, sucessivamente, amealhando novos informantes. (DUARTE, 2002, p. 142-143).

Reconhece-se, desse modo, que alguém do meio, a partir do próprio ponto de vista, tem, relativamente, melhores condições de fornecer informações sobre esse meio do que alguém que observa, inicialmente, de fora.

Destaco, neste ponto, a importância do personagem Marrom. Trata-se, nas palavras de Guilherme Boulos (2014)16, de uma das maiores lideranças populares das lutas por moradia no país, sujeito que atuou intensamente na organização política da ocupação do Pinheirinho. Nosso contato se deu, inicialmente, através de militância conjunta que realizávamos na CSP- CONLUTAS17 — eu na condição de representante nacional de minha categoria de trabalho; ele como representante do movimento por moradia mais atuante em Pinheirinho, o Movimento Urbano dos Sem Teto (MUST), em 2012. O fato de eu manter naquele momento atuação política em entidade comum facilitou meu diálogo com a liderança, além de criar uma atmosfera de confiança entre nós.

Desse modo, Marrom incorporou o ―ego‖ focal que me iniciou no campo, apresentando-me os primeiros moradores, relatando a história do Pinheirinho e me indicando importantes personagens com os quais poderia dialogar e mergulhar mais intensamente no ambiente de minha pesquisa. Portanto, a escolha dos entrevistados se deu a partir de forte

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Nesta investigação, tomei como referência para o conceito de rede aquele apresentado por Bott (1976, p. 299):

―[...] a rede é definida como todas ou algumas unidades sociais (indivíduos ou grupos) com as quais um indivíduo particular ou um grupo está em contato‖. Trata-se, aqui, de uma ―rede pessoal‖ na qual existe um ego

focal que está em contato direto ou indireto (através de seus interrelacionamentos) com qualquer outra pessoa situada dentro da rede (idem, p. 300-302). Ver: BOTT, E. Família e rede social. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

16 Membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Entrevista concedida

ao autor em 30 de agosto de 2014.

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aproximação com um informante-chave, o que permitiu a primeira imersão no campo de estudo.

Conforme a imersão no campo de pesquisa foi adensando, estabeleci, gradativamente, ramificações e possibilidades de coleta de informações não apresentadas pelo informante-chave. Isso foi importante para manter a independência do pesquisador frente ao ego-focal, ainda mais porque este mantinha forte influência política sobre o movimento de moradia na região, bem como sobre muitos ex-moradores do Pinheirinho que ainda se mantinham ativos nas reuniões e mobilizações.

Primeiramente, realizei levantamento documental que serviu para situar contextualmente o processo de ocupação do Pinheirinho, assim como os momentos que antecederam a ocupação e as características da região. Foi neste momento que também trabalhei com os documentos jurídicos oficiais sobre o caso — pesquisa facilitada a partir de contatos com a Defensoria Pública de São José dos Campos.

Isso permitiu que eu mantivesse proximidade e conversas com o defensor público responsável pelo caso, Dr. Jairo Salvador, o que me abriu a possibilidade de acesso às manifestações processuais das autoridades judiciárias que instruíram o processo judicial de reintegração de posse e processos ajuizados após a desocupação, bem como das autoridades policiais que viabilizaram o cumprimento da ordem judicial. Quanto a estas últimas, foi de fundamental importância a pesquisa em diversos veículos de comunicação, inclusive nos órgãos institucionais oficiais, o que me permitiu alcançar posicionamentos de autoridades ligadas aos governos municipal, estadual e federal.

Vencida esta etapa e a partir das informações colhidas, o passo seguinte foi conferir voz aos ex-moradores da área, focando em dois grupos específicos: o primeiro foi composto por aqueles ligados à associação de moradores, bem como aos movimentos sociais, civis e políticos que atuavam na comunidade, sobretudo ao MUST, organização que reivindica o direito à moradia digna liderada por Marrom. O segundo grupo, por sua vez, foi integrado pelas pessoas que viviam o cotidiano da ocupação e que tocavam suas vidas, que trabalhavam, cuja rotina encontrava-se mais oigada ao dia a dia da ocupação. Essas foram as principais vozes desta investigação que busquei permitir que gravassem suas memórias, impressões e sentimentos nas páginas que se seguem.