O homem contemporâneo, despojado de sua capacidade de autorreconhecimento tem sua trajetória atravessada por forças mutiladoras do sujeito na expressão de sua experiência socioespacial, tais como as normas e interditos, apropriações privadas e as misérias vividas pelo corpo alvo da biopolítica, que são marcas da forma segregada de como o urbano se manifesta no plano do vivido nas metrópoles. Essas são as marcas do trágico na experiência contemporânea, posto que a alienação está presente em ―[...] todas as esferas de realização da vida‖ (CARLOS, 2015, p. 43).
Ana Fani Carlos (2015) opera um movimento reflexivo fundamental ao analisar a experiência socioespacial dos sujeitos nas cidades contemporâneas. Sua proposta é passar de
uma visão centrada na ―produção das coisas no espaço‖ para a ―[...] produção do espaço
urbano como produto social orientado pela necessidade de ampliação da acumulação‖ (p. 44).
―Tal orientação dá centralidade à produção do espaço – a prática social, como práxis espacial – como elemento central da problemática do mundo moderno, tanto do ponto de vista do
processo de acumulação-reprodução do capital quanto da reprodução das relações sociais‖ (CARLOS, 2015, p. 44). Essa guinada de olhar a faz levantar a hipótese de que a urbanização é um processo que se efetiva por meio da produção social do mundo hegemonizada pela lógica da produção das mercadorias, fazendo da própria cidade uma mercadoria por
excelência a ser produzida. Vejamos como a autora define sua perspectiva de ―cidade como
negócio‖:
A produção da ‗metrópole como negócio‘ se situa neste contexto, dando novo
conteúdo à urbanização contemporânea, na qual o espaço aparece como condição necessária ao processo de reprodução do capital, isto é, o capital só pode se realizar através da estratégia que torna o espaço um momento do processo produtivo. Nesse momento, a reprodução da metrópole é condição necessária à reprodução do capital. Trata-se, aqui, do capital concretizando-se na produção específica do espaço sob a forma de empreendimento imobiliário (seja para escritórios ou para habitação). Como produção social, sua realização faz parte do núcleo do processo de acumulação que, sob a forma financeira, realiza-se, preferencialmente, através da reprodução do espaço urbano. (CARLOS, 2015, p. 44).
A metrópole contemporânea pode ser analisada sob o prisma da acumulação, mas também em suas dimensões social e política. Na primeira perspectiva, aparece como
localização e suporte das relações de produção (e de propriedade), ―[...] mas em seu
constantemente, os lugares propícios de realização dos momentos de produção, distribuição,
circulação, troca e consumo de mercadorias‖ (CARLOS, 2015, p. 45). Já no plano social, a
metrópole se reproduz como fonte de privação e destituição dos sujeitos de suas condições de vida. No plano político, o Estado aparece como criador das condições de realização da acumulação por meio de políticas públicas.
Nessa perspectiva, é possível afirmar que a estrutura espacial urbana está intimamente ligada às formas da reprodução das relações sociais de produção, que, por sua vez, são condicionadas pelos desígnios do regime de acumulação capitalista, a qual vem ampliando cada vez mais sobre o globo seu poder de mercantilização e a privatização do mundo em seu processo de expansão irrefreável, que afeta os diversos atores e esferas da vida social. Desse modo, a relação entre o capital e o aprofundamento da urbanização deve ser considerada dialeticamente. Portanto, as transformações do capital e suas consequências sobre a urbanização devem ser tomadas enquanto totalidade complexa, atravessada por campos de tensões39.
Voltando à questão da urbanização, é possível apontá-la como fundamental no desenvolvimento do capitalismo na medida em que tem funcionado como meio pelo qual ocorrem grandes absorções de excedentes de capital e trabalho. Além disso, o fato de permitir longos períodos de trabalho e garantir longevidade de grande parte dos investimentos realizados no ambiente construído faz com que a produção do espaço e dos monopólios espaciais tornem-se parte integrante da dinâmica da acumulação (HARVEY, 2014, p. 92).
A produção capitalista da cidade ou o ―fenômeno urbano‖ — termo comum nos dias de hoje —não seria mais do que uma ―utopia da forma espacial‖ (HARVEY, 2004b, p. 227), um projeto urbanístico enredado nas tramas do capital monopolista, não fosse sua imperiosa necessidade de edificação material e simbólica do seu poder sobre o espaço urbano, cuja consolidação deu-se sobretudo a partir do século XIX e no transcorrer de todo o século XX, especialmente nas grandes cidades norte-americanas. Nesse período, concebeu poderoso mercado especulativo de terras e propriedades fundiárias urbanas, tornando-se setor determinante para a acumulação de capital, sob o comando dos grandes grupos corporativos.
Os espaços e lugares produzidos por essas movimentações do capital, na justa medida de sua importância para a produção de valor e mais-valia — e por ocorrer em tão longo prazo —, comportam ―[...] alguma combinação de capital financeiro e engajamento
39 De acordo com Wallerstein (2001, p. 9), é necessário ―[...] ver o capitalismo como um sistema histórico,
abrangendo o conjunto de sua história como realidade concreta e única [...]‖. Ver: WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo histórico & civilização capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.
estatal absolutamente fundamentais para seu funcionamento‖ (HARVEY, 2014, p. 92). Em primeiro plano, é possível verificar os elementos que compõem as características do ambiente construído — a expansão territorial, residencial e dos sistemas de saneamento, energia, abastecimento, comunicação e transportes; concentração de equipamentos e serviços de uso coletivo; verticalização etc.
Todo esse processo de estruturação do espaço urbano exige volumosos investimentos em capital-fixo, imobilizados em infraestruturas físicas que funcionarão como suporte à produção, à circulação e ao consumo de bens e serviços. Na busca constante pela redução dos custos e aceleração do tempo de rotação, o capital, em seu processo de reprodução contínua e ampliada, acaba por gerar, contraditoriamente, ―[...] estruturas espaciais que, no fim, agem como barreiras contra a acumulação adicional‖ (HARVEY, 2005a, p. 53). Nesse sentido, a criação de infraestrutura física nas cidades e a imobilização de parte do valor em capital-fixo, ao passo que constitui barreira a ser superada pelo capital na
―circulação do valor pelo ambiente construído‖, em seu ímpeto de autovalorização, é também
parte necessária para a realização da mais-valia de que é portador, vez que se trata de processo
que envolve a ―[...] produção/reprodução do espaço como condição/meio e produto da reprodução social em sua totalidade‖ (CARLOS, 2008, p. 49).
Não obstante, as formas de circulação do capital pelos espaços comerciais (atividades de comércio, serviços, armazenamento e transporte que ocorrem em espaços estruturados e especializados de acordo com as funções desempenhadas por cada estabelecimento) e a circulação do capital (circulação como um valor que se realiza, implicando numa relação com o espaço na condição de ―objeto de trabalho‖, cuja rotação do capital aconteça através da produção do próprio ambiente construído) como valor por meio da produção do ambiente pressupõem alguma forma de fixação aos seus suportes materiais, quer como meio de trabalho quer como objeto da produção.
Nesse sentido, a busca será pela forma de circulação do valor mais adequada ao capital, portanto aquela que lhe proporcione maior autonomia de movimento e liberdade de rotação. Assim, trata-se de se encontrar uma forma de circulação cuja abstração constitua um estágio superior na tendência manifestada de aprisionamento ao espaço. Desse modo,
O ‗capital financeiro‘ é a etapa mais avançada do capitalismo porque nela a capacidade de mobilização dos capitais se transforma em função da força de supressão das barreiras tecnológicas e de mercado, nascidas do próprio processo de concentração – em particular daquelas que decorrem do aumento das escalas de produção, com imobilização crescente de grandes massas de capital fixo. (BELLUZZO, 2005, p. 7-8).
Mesmo com todo o desenvolvimento do sistema de crédito e da esfera financeira, a contradição entre a mobilização e a imobilização do capital não é eliminada, porém apenas mitigada. O crédito, no entanto, aparece como um meio apropriado de superar as contradições entre o capital fixo e o circulante, mas ―[...] tais investimentos, especialmente quando são do
tipo especulativo, invariavelmente requerem novas ondas de investimento‖ (HARVEY,
2005d, p. 231). E adverte Harvey (2014, p. 93) que ―[...] essa atividade é claramente especulativa no longo prazo, e sempre corre o risco de replicar, muito mais tarde e em maior
escala, as mesmas condições de sobreacumulação que, de início, tenta atenuar‖.