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Yörükler Ne Yerler

Se a cultura como civilidade acabou desembocando na crítica anti-capitalista, concomitantemente designou formas de vida que de alguma forma se consideravam superiores, possibilitando a exteriorização da visão de uma classe dominante em oposição às classes dominadas. Entretanto, o florescimento dessa dominação não pode ser completamente explicado se não introduzirmos um segundo significado para a noção de cultura, com sua gradual especialização às artes. A evolução do conceito de arte, primeiramente ligada à habilidade e engenhosidade para lidar com os materiais naturais, técnica, trabalho, passa a significar um conjunto particular de atividades e habilidades dependentes da imaginação criadora e da inspiração, transformando-se na idéia burguesa do culto à contemplação e à beleza (CHAUI, 2006). Nesse momento, passa a distinguir o artista do artesão, este trabalhando para seu sustento a aquele com o tempo livre para a prática do ócio criativo, materializando uma visão de mundo em formas simbólicas como a escultura, a pintura e a literatura. O movimento artístico passa a ser objeto de estudo de uma disciplina filosófica específica, a estética, fazendo com que formas peculiares de matéria sejam magicamente maleáveis ao significado, promovendo uma unidade do

sensível e do espiritual que falhamos em atingir em nossas dualísticas vidas diárias (EAGLETON, 2005).

Eagleton assinala ainda que mesmo relacionado com a produção artística o significado de cultura pode ser mais ou menos expansivo, já que nesse sentido pode incluir atividades intelectuais em geral, como Ciências, Filosofia, Erudição, ou ainda ser mais limitada a atividades supostamente mais “imaginativas”, como a Música, a Pintura e a Literatura, sendo que pessoas “cultas” são pessoas que têm cultura nesse sentido (EAGLETON, 2005). Dessa forma, a cultura como arte tem duas conseqüências: em primeiro lugar, que as ciências em geral já não poderiam ser vistas como criativas ou imaginativas; em segundo, que valores “civilizados” somente poderiam ser encontrados então na fantasia, enquanto Ciência, tecnologia e política seriam atividades monotonamente prosaicas. Eagleton sugere para essa noção de cultura a famosa indagação de Marx: Para que alienação deplorável é essa transcendência uma pobre compensação?

Para os românticos mais radicais, a arte, a imaginação, a cultura folclórica ou comunidades “primitivas” seriam sinais de um potencial criativo que deveria ser estendido para a sociedade política. (EAGLETON, 2005). O movimento romântico espera que a afirmação da alma popular, do sentimento popular, da imaginação, simplicidade e pureza populares quebre o racionalismo e o utilitarismo da Ilustração, considerada por eles causa da decadência e do caos social. Do lado contrário, não por acaso Hegel também considera a poesia “inferior” à prosa – à imediatez confusa da sensibilidade, contrapõe a articulação mediatizada e a racionalidade da prosa (CHAUI, 2006). Ao ligar-se com formas de arte realmente existentes, a cultura como crítica torna-se uma forma de crítica imanente, julgando deficiente o presente ao medi-lo com relação a normas que ele próprio gerou, potencializando a descoberta de uma ponte entre o presente e o futuro justamente naquelas forças no presente que são potencialmente capazes de transformá-lo. Um futuro desejável, um “como seria bom se” dá lugar a um futuro exeqüível (EAGLETON, 2005).

A cultura como sinônimo de arte surge quando a sociedade civilizada começa a tornar-se desconfortavelmente contraditória, impondo a alguns de seus teóricos o pensamento

dialético; a partir do momento que a civilização, no próprio ato de realizar alguns potenciais humanos, também suprime danosamente outros (EAGLETON, 2005). Como arte, a cultura possibilita o surgimento de um movimento de resistência ao presente ao mesmo tempo em que está solidamente baseado dentro dele. As formas de manifestações artísticas não seriam uma questão da arte usurpando a vida social, mas da arte indicando um refinamento de vida ao qual a sociedade deva ela mesma aspirar. Destilando os valores aos quais todos deveriam aspirar, a arte materializava inerentemente e de forma convenientemente portátil esses valores, suspendendo nossos eus empíricos, com todas as suas contingências sociais, sexuais e étnicas, fazendo-nos dessa forma nós mesmo sujeitos universais (EAGLETON, 2005).

Assim, reduzida a um punhado de obras artísticas, cultura passou a significar um corpo de trabalhos artísticos e intelectuais de valor reconhecido, juntamente com as instituições que o produzem, difundem e regulam (EAGLETON, 2005). Aqui reside um dos pontos fundamentais na contraditória evolução do conceito de cultura. No momento em que a cultura como forma de manifestação artística ainda guarda uma forte relação com a cultura como forma de vida, ela também herda o viés normativo da cultura como civilização. As artes podem refletir a vida refinada, mas são também a medida dela. Ao incorporar, também avaliavam, unindo o real e o desejável à maneira de uma política radical (EAGLETON, 2005). A partir do momento em que cultura não era mais uma descrição do que se era, mas do que poderia ou costumava ser, o viés valorativo da cultura passa a pender para o lado dos detentores dos meios de produção, difusão e regulação dos conteúdos artísticos, de sorte que aquilo que se diz do “culto” é cada vez mais uma descrição do próprio “culto” acerca de suas próprias características.

Eagleton ressalta então que, pelo fato das artes serem um fenômeno raro, limitado a uma minoria privilegiada, com o passar do tempo ficou difícil saber se, na qualidade de crítico, alguém era absolutamente fundamental ou completamente supérfluo. Com isso, ainda que a cultura passasse a significar o campo materialmente determinado das formas simbólicas e dos modos de vida de uma sociedade, a divisão social das classes como distinção entre

“culto” e “inculto” tornou-se predominante. E com essa divisão, Chauí ressalta as seguintes conseqüências para a cultura e as artes:

1) Distinguiram-se entre dois tipos principais: a erudita, própria dos intelectuais e artistas da classe dominante, e a popular, própria dos trabalhadores urbanos e rurais;

2) Quando pensadas como produções ou criações do passado nacional, formando a tradição nacional, receberam o nome de folclore, constituído por mitos, lendas e ritos populares, danças e músicas regionais, artesanato, etc.; e

3) A arte erudita ou de elite passou a ser constituída pelas produções e criações das belas-artes, consumidas por um público de letrados, isto é, pessoas com bom grau de escolaridade, bom gosto e consumidoras de arte (CHAUI, 2006); p. 13).

Chauí ressalta ainda que apesar da distinção entre cultura/arte popular e erudita ser realmente expressão e conseqüência da divisão social das classes, aparece como diferença qualitativa, observada: a) na complexidade da elaboração – a arte popular sendo mais simples e menos complexa que a erudita; b) na relação com o novo e o tempo – a popular tendendo a ser tradicionalista e repetitiva, ao passo que a erudita tende a ser de vanguarda e voltada para o futuro; c) na forma de relação com o público – na popular, artistas e público tendem a não se distinguir, enquanto que na erudita é clara a distinção entre o artista e o público e d) no modo de compreensão – na arte popular, o artista exprime diretamente o que se passa em seu ambiente, sendo imediatamente compreendido por todos e na erudita, por sua vez, criam-se novos meios de expressão, de sorte que sua obra não é imediatamente compreensível a não ser para um pequeno grupo de entendidos, que dessa forma a interpretam para o restante do público (CHAUI, 2006).

Benzer Belgeler