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Foram Hegel e depois dele Marx que enfatizaram a cultura como história. Para Hegel, o tempo seria o modo como o Espírito Absoluto ou a razão se manifesta e se desenvolve através das obras e instituições. Em cada período de sua temporalidade, o Espírito ou a razão engendraria uma cultura determinada, que exprimiria o estágio de desenvolvimento espiritual ou racional da humanidade em uma seqüência de civilizações que se iniciam no Ocidente e terminam no Oriente, cada qual se exprimindo com uma cultura própria e que seria necessariamente ultrapassada pelas seguintes, em um progresso contínuo (CHAUI, 2006).

A relação entre necessidade e liberdade, entre o particular e o universal, é a base do pensamento hegeliano, traduzido pelo Estado como o mediador entre os antagônicos interesses dos indivíduos dispersos na sociedade civil, afirmando a racionalidade e a universalidade do Estado nacional como a culminância do processo de desenvolvimento histórico e político de um povo. Assim, Hegel tanto se afasta do patriotismo romântico ao negar que o Estado seja uma comunidade quanto do contratualismo liberal, ao negar que este seja fruto do contrato entre os indivíduos (CHAUI, 2006).

Para Hegel, a sociedade civil seria aquela em que os indivíduos buscam a satisfação das suas necessidades, através da divisão do trabalho e das relações de troca. Diferenciando comunidade e sociedade, o autor considera a sociedade civil o resultado de um processo histórico de destruição e superação da família como comunidade orgânica ou natural, destruição que dá surgimento à da figura do indivíduo isolado como núcleo da sociedade civil (CHAUI, 2006). O que merece destaque sobre a concepção hegeliana de sociedade

civil – Bürgerliche gessellschaft – é que se trata da esfera dos interesses privados, econômico-corporativos e antagônicos entre si.

Hegel foi o primeiro a teorizar o moderno paradoxo de individualização por meio de identidades secundárias, em consonância com o processo de industrialização que surgia nos principais centros europeus. No início, o indivíduo estava imerso numa forma de vida particular relativa ao seu nascimento, mantendo laços orgânicos com sua família e com a comunidade local, e nessa mesma comunidade o indivíduo podia atender à grande parte de suas necessidades fisiológicas e emocionais. Alguns produtos manufaturados eram produzidos, mas ainda por artesãos independentes que controlavam desde o processo de produção até a venda ou troca do produto final. Nas sociedades pré-capitalistas, a produção industrial era organizada de acordo com uma estrita hierarquia mestre-companheiro- aprendiz, mas apesar disso ainda diferia da produção capitalista em três pontos principais: o mestre-artesão trabalhava com o seu aprendiz, em vez de simplesmente lhe dizer o que ele devia fazer; a hierarquia era linear e não piramidal: o aprendiz será um dia companheiro e, verossimilmente, mestre; por fim, o artesão membro de uma corporação não estava separado do mercado por um intermediário (MARGLIN, 1978).

A industrialização, por seu turno, forçou esses artesãos a entregarem-se ao capitalista para combinar o seu trabalho com o trabalho de outros operários, de modo a fazer do todo um produto mercantil. Nesse sentido, a divisão capitalista do trabalho, baseada na concentração de empregados rigidamente hierarquizados dentro de uma fábrica, foi adotada não por causa da sua superioridade tecnológica, mas porque garantia ao empresário um papel essencial no processo de produção: o de coordenador (MARGLIN, 1978). Ao despojar o operário de qualquer controle e dar ao capitalista o poder de prescrever a natureza do trabalho, o controle hierárquico possibilita sua real função social: a acumulação de capital nas mãos do empresário através de um processo de extração da mais-valia dos trabalhadores.

Com a divisão social do trabalho, o que se segue é a transição de uma fase em que o operário tem uma margem de controle suficiente para compreender o que está a fazer para

aquela com o operário reduzido a executar uma tarefa monótona, cortada do contexto e desprovida de sentido. Marglin relembra mesmo uma passagem arrasadora de Adam Smith em A riqueza das nações para salientar os resultados da divisão social do trabalho:

...Ora, a inteligência da maior parte dos homens forma-se necessariamente pelas suas ocupações ordinárias. Um homem que passa toda a vida a executar um pequeno número de operações simples, cujos efeitos, possivelmente, são sempre os mesmos, ou muito aproximadamente os mesmos, não tem a oportunidade de desenvolver a sua inteligência nem de exercer a sua imaginação na procura de expedientes para evitar dificuldades que nunca surgem (SMITH apud MARGLIN, 1978; p.10).

Com o avanço da industrialização, cada vez mais os indivíduos se viram afastados de suas comunidades locais, com seus laços de parentesco, ritos religiosos e refeições em conjunto, e passaram a ser absorvidos pelo poder industrial, colocados lado a lado com outros indivíduos e submetidos a um rígido sistema de controle e disciplina operado por supervisores trabalhando para o empresário em nome do aumento da lucratividade e da acumulação de capital. A partir de então, os laços entre os indivíduos são profundamente alterados, e o que ainda restava de solidariedade entre eles derivava não de uma origem e de uma humanidade comum, mas da luta pela sobrevivência e por melhores condições de trabalho.

O advento da industrialização somente inicia o processo de desestabilização das comunidades, culminando nas modernas formas de trabalho, em que os indivíduos que ainda conseguem uma ocupação passam grande parte de seu dia em organizações ao lado de pessoas com as quais muitas vezes não se tem nenhuma afinidade a não ser a necessidade do trabalho para a sobrevivência, persistindo “momentos tópicos de solidariedade”, como a ginástica laboral, o almoço corrido no fast-food e o amigo secreto no final do ano.

Benzer Belgeler