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O conceito de mundo da vida é utilizado por Habermas como complemento ao conceito de ação comunicativa, estabelecendo a ligação com o conceito de sociedade enquanto sistema. Ele consiste num horizonte pré-teórico formador de contexto, no qual se dá toda a ação social. Trata-se do pano de fundo, do background, do acervo culturalmente transmitido e linguisticamente mediado, que está presente sempre que se atua. Ele distingue- se pelo caráter de certeza imediata, de poder totalizante e pelo seu holismo que, em forma de linguagem e de cultura, fornece a todos os atores convicções não problemáticas de fundo.

Ao se entenderem frontalmente sobre algo no mundo, falante e ouvinte movem-se no interior do horizonte de seu mundo da vida comum; este permanece às costas dos implicados como um pano de fundo holístico, intuitivamente conhecido, não problemático e indissolúvel. [...] O mundo da vida constitui um horizonte e, ao mesmo tempo, oferece um acervo de evidências culturais do qual os participantes da comunicação tiram, em seus esforços de interpretação, padrões exegéticos consentidos (HABERMAS, 2002a, p. 416-417).

O mundo da vida abarca o conteúdo cultural, as normas sociais e as experiências subjetivas. A cultura compreende aquele estoque de saber produzido e organizado por uma comunidade, os saberes sedimentados historicamente e os conteúdos semânticos da tradição, que servem de modelos interpretativos aos processos epistêmicos e interativos. A sociedade engloba os agrupamentos ordenados e legítimos de indivíduos, que coordenam suas ações mediante normas e processos comunicativos. A personalidade consiste, por sua vez, num conjunto de competências e de habilidades que possibilitam a um sujeito interagir comunicativamente e, ao mesmo tempo, constituir, organizar e estabilizar a própria identidade.

90 Entendemos que os conceitos de competência e de ator competente são centrais para a continuidade desta tese,

especialmente pela possível relação dos mesmos com o campo da educação e com os processos de formação da subjetividade.

Chamo cultura ao acervo de saber, no qual os participantes da comunicação se abastecem de interpretações para entenderem-se sobre algo no mundo. Chamo

sociedade às ordenações legítimas através das quais os participantes na interação

regulam suas pertenças a grupos sociais, assegurando, com isso, a solidariedade. E por personalidade entendo as competências que tornam um sujeito capaz de linguagem e de ação, isto é, que o capacitam para tomar parte em processos de entendimento e para afirmar neles sua própria identidade (HABERMAS, 2003b, p.196).

A reprodução do mundo da vida e dos três componentes básicos – cultura, sociedade e personalidade – ocorre mediante o agir comunicativo. A tais processos podemos denominar, respectivamente de reprodução cultural, integração social e socialização individuadora91. Como veremos mais adiante, percebemos um vínculo estreito entre mundo da vida, reprodução simbólica e formação humana, visto que todos os processos de aprendizagem e de reprodução de seus componentes – a formação cultural, a socialização e a formação da personalidade – ocorrem no interior do mundo da vida mediante o agir comunicativo.

Os indivíduos humanos, sob a perspectiva do mundo da vida e do agir comunicativo, são reconhecidos como produtos das tradições culturais das quais pertencem, dos grupos sociais em que estão circunscritos e dos processos de socialização a que foram submetidos. Em situações sociais normais, a reprodução simbólica do mundo da vida se traduz num processo de reconstrução e fortalecimento da cultura, da personalidade e da sociedade. Entretanto, em situações de crise ou de patologias sociais, nas quais os fundamentos do mundo da vida não mais dão conta dos paradoxos sociais, prepondera a ação do ‘sistema’, que passa a ter primazia na reprodução da cultura, da sociedade e da personalidade. As patologias ou crises sociais podem ter origem interna ou externa. São patologias internas as correlacionadas aos déficits de racionalização, ou aquelas situações relacionadas: à perda de sentido decorrente da modernidade, mediante a passagem do agir sagrado ao profano; à crescente colonização do mundo da vida pelo sistema e seus derivados, o dinheiro, o poder e a burocracia; à diminuição dos níveis de moralidade e de regulação da vida prática; e ao empobrecimento cultural originado pela restrição da circulação do conhecimento. As patologias externas têm origem em situações de catástrofes sociais, de guerras, epidemias ou outros fatores que desestabilizam as sociedades, subtraindo das mesmas o potencial de integração e de desenvolvimento, oriundo da força comunicativa da linguagem e do manancial pré-teórico do mundo da vida.

91 De acordo com McCarthy (2002, p. 466), “aos diferentes componentes estruturais do mundo da vida (cultura,

sociedade, personalidade), correspondem processos de reprodução (reprodução cultural, integração social, socialização) baseados nos diferentes aspectos da ação comunicativa (entendimento, coordenação, socialização), aspectos que estão enraizados nos componentes estruturais dos atos de fala (proposicional, ilocucionário, expressivo)”.

Através do processo de racionalização do mundo da vida e de seus componentes estruturais, que permitiu um aumento da liberdade e da autonomia dos indivíduos, ocorreu simultaneamente um processo de racionalização do Estado e da economia, que acabaram se tornando autônomos em relação ao mundo vivido – tornaram-se sistemas baseados no poder e no dinheiro – e incorporaram-se ao sistema, regido pela lógica instrumental da racionalidade. A perspectiva habermasiana centra-se na esperança de reconquistar para o mundo vivido os espaços perdidos ao sistema, mediante uma contraposição da razão comunicativa à razão técnico-instrumental. Nesse sentido, faz-se necessário, entre outros elementos: criar espaços e instâncias de comunicação sem coação; optar pelo agir comunicativo, mesmo que tenhamos consciência de que é impossível agir o tempo todo visando ao entendimento e à justificação racional das falas e ações; aderir ao discurso racional como modo de elucidação dos problemas oriundos do mundo objetivo, social e subjetivo; organizar processos de aprendizagem com vistas ao acréscimo de racionalidade e ao aumento da competência comunicativa dos atores sociais; promover processos de individuação social sob a perspectiva do agir comunicativo e da interação.

3.2 O AGIR COMUNICATIVO E A REPRODUÇÃO DOS COMPONENTES DO MUNDO

Benzer Belgeler