Pik Yapılan Fazlar
OLGU ÖRNEKLERİ
Habermas acredita que a ação comunicativa enquadra-se no rol das demais ações humanas, possuindo como telos o entendimento e se diferenciando qualitativamente dos outros modos de ação [i]. Para ser considerada uma ação comunicativa, a ação deve cumprir com certos pressupostos ou condições formais [ii]. Além disso, o agir comunicativo, diferente do agir estratégico, faculta, aos participantes da interação, a possibilidade de coordenarem as próprias ações [iii].
[i] Modos de ação humana e a ação comunicativa
O conceito de agir comunicativo correlaciona-se à hipótese de que aquele que age estabelece um modo de relação com o mundo, tendo como horizonte da própria ação a possibilidade de alcançar um entendimento ou um acordo acerca de algo no mundo objetivo, social ou subjetivo. Disso depreende-se que existem três tipos de relações, que podem ser estabelecidas entre os atores e o mundo no qual estão inseridos e ao qual se referem em suas falas, as quais se traduzem em três tipos de ação: a ação teleológica, a ação normativa e a ação dramatúrgica.
A ação teleológica consiste num modo de ação no qual “o ator realiza um objetivo ou faz que se produza um estado de coisas desejado, elegendo, em uma situação dada, os meios mais congruentes e aplicando-os de maneira adequada” (HABERMAS, 2003a, p. 122). Em sua relação com o mundo objetivo, o ator pode formular proposições verdadeiras ou falsas. Ao mesmo tempo, pode realizar intervenções que tenham êxito ou que fracassem. Essas relações podem ser avaliadas por critérios de verdade e de eficácia. Serão verdadeiras as proposições que expressarem adequadamente os estados de coisas existentes, e serão eficazes as ações que atingirem os objetivos esperados.
A ação regulada por normas amplia o círculo das relações entre ator e mundo incluindo, além do mundo objetivo, o mundo social ao qual pertence. Este tipo de ação se refere aos comportamentos dos membros de um grupo social orientados por normas ou valores comuns.
As normas expressam um acordo existente num grupo social. Todos os membros de um grupo, para os quais rege uma determinada norma, têm o direito de esperar, uns dos outros, que em determinadas situações se executem ou omitam, respectivamente, as ações obrigatórias ou proibidas. O conceito central de
observância de uma norma significa o cumprimento de uma expectativa
generalizada de comportamento (HABERMAS, 2003a, p. 123).
Uma norma tem validade social quando é reconhecida pelos destinatários como válida ou justificada. Elas são representadas por orações universais de dever ou por preceitos que, no círculo dos destinatários, podem ser justificados93. A internalização de valores e de normas depende de processos de aprendizagem e de interação94.
Na ação dramatúrgica estão implícitos o mundo objetivo, o social e o subjetivo. Neste tipo de ação, o agente coloca-se em cena, apresenta-se e entende-se como um mundo ao qual somente ele tem acesso de forma reflexiva.
Todo agente pode controlar o acesso dos demais à esfera de seus próprios sentimentos, pensamentos, atitudes, desejos, etc., aos que somente ele tem um acesso privilegiado. [...] O conceito aqui central, o de autoapresentação, significa, portanto, não um comportamento expressivo espontâneo, senão uma estabilização da expressão das próprias vivências, realizada em vista dos espectadores (HABERMAS, 2003a, p. 124).
Ao agir dramaturgicamente, o ator suscita em seu público uma determinada imagem ou impressão de si mesmo, revelando traços de sua subjetividade, os quais somente ele tem acesso privilegiado. As expressões subjetivas serão aceitas e reconhecidas à medida que o sujeito, mediante o agir e o conviver com os outros, demonstrar autenticidade e coerência entre os proferimentos e as próprias ações.
[ii] Condições formais da ação comunicativa
Na perspectiva habermasiana, para enquadrar-se no rol de um agir comunicativo, a ação humana deve cumprir com certas condições formais, as quais são efetivadas de modo performativo. Segundo Habermas, são elas:
A suposição comum de um mundo independente dos objetos existentes; a suposição recíproca da racionalidade ou da “imputabilidade”; a incondicionalidade de exigências de validez ultrapassadoras de contextos, como verdade e correção moral; e os pressupostos da argumentação repletos de exigências, que os participantes
93Segundo Habermas (2003a, p. 128), “que uma norma seja válida significa que merece o assentimento de todos
os afetados, porque regula os problemas de ação em benefício de todos; que uma norma prevaleça faticamente significa, entretanto, que a pretensão de validade com que se apresenta é reconhecida pelos afetados; e esse reconhecimento intersubjetivo funda a validade social (ou vigência) da norma”.
94 De acordo com Habermas (2003a, p. 129), “o modelo normativo de ação associa-se a um modelo de
aprendizagem” que dá conta do processo de internalização de valores, tornando possível a assimilação de comportamentos de acordo com regras válidas socialmente.
conservam para a descentralização de suas perspectivas de interpretação (HABERMAS, 2002c, p. 35).
A suposição comum de um mundo independente dos objetos pressupõe o fato de que todos os seres humanos compartilham um sistema de referências, que torna possível as intervenções no mundo, bem como, as interpretações sobre algo nesse mesmo mundo95. Ou seja, os sujeitos, capazes de linguagem e de ação, a partir do seu horizonte compartilhado de compreensão, passam a supor o mundo como uma totalidade de objetos existentes, enquanto um mundo objetivo comum a todos. Disso decorre a compreensão de que “a objetividade do mundo significa que este mundo é dado para nós como um mundo idêntico para todos” (HABERMAS, 2002c, p. 39). Essa suposição comum torna possíveis os enunciados epistêmicos acerca do mundo e dos fatos, bem como as intervenções práticas nesse mundo.
A suposição recíproca da racionalidade ou de imputabilidade implica em reconhecer, nos outros, a capacidade para a fala e a ação, para o entendimento e a coordenação social das ações. Segundo Habermas (2002c, p. 80-81), “sem uma suposição de racionalidade recíproca, não encontraríamos nenhuma base do entendimento suficientemente geral”. Numa situação performativa, ver a racionalidade no agir ou no falar do outros, implica reconhecer nossa própria racionalidade, a racionalidade presente em nossa fala e em nosso comportamento.
A suposição de imputabilidade confirma, perante os outros, o compromisso e a capacidade de um agente orientar sua própria ação e suas emissões linguísticas por exigências de validez e, ao mesmo tempo, ser capaz de justificá-las racionalmente. Para Habermas (2002c, p. 48), o contrário disso, “aquele que não responder, perante os outros, por suas ações e afirmações, desperta a suspeita de não ter agido ‘imputavelmente’”. Essa suposição alinha- se ao conceito de liberdade, uma vez que a ideia de liberdade dá a certeza de que o agir autônomo é possível.
A suposição de exigências de validez criticáveis faz-se necessária nos processos de entendimento recíproco e de coordenação de ações. Além de supor racionalidade e imputabilidade recíprocas, para que o entendimento e a coordenação de uma ação sejam possíveis, os atores devem ser capazes de assumir uma posição fundamentada por exigências de validez e de se orientarem, em suas falas e ações, por essas mesmas exigências.
Finalmente, a última suposição refere-se à possibilidade de os agentes lançarem mão, a qualquer tempo, do discurso racional como instância de justificação prática. Ao usarem a
95 Nos dizeres de Habermas (2002c, p. 53), “a suposição de um mundo objetivo comum projeta um sistema de
referentes mundanos possíveis e, com isto, torna logo possíveis intervenções no mundo e interpretações sobre algo no mundo”. Além disso, denota que “para falantes e atores, é o mesmo mundo objetivo sobre o qual se entendem e no qual podem intervir” (ibid., p. 40).
linguagem com fins de regular as ações recíprocas, “os falantes se apoiam em um complexo reconhecido intersubjetivamente ou habitual de costumes, instituições ou regras, [...] de tal modo que os partidários sabem qual conduta deveriam esperar de modo legítimo do outro” (HABERMAS, 2002c, p. 61).
O discurso racional, que tenha a finalidade de justificar as ações da vida prática, necessita levar em conta quatro regras básicas: publicidade e inclusão; direitos comunicativos iguais; exclusão de enganos e de ilusões; e não-coação. Trata-se de regras que visam à preservação da igualdade universal de condições no processo de argumentação normativa e de estabelecimento consensual das normas e dos valores.
[iii] A coordenação das ações: agir comunicativo versus agir estratégico
Além do entendimento intersubjetivo, o agir comunicativo possibilita que os agentes envolvidos em processos interativos, numa atitude performativa, coordenem as próprias ações. Através dos atos de fala, os participantes da interação poderão coordenar as ações sob o prisma de dois modelos de mecanismos de ação – o da ação comunicativa ou o da ação estratégica – dos objetivos em cena e do uso que fazem da linguagem.
O agir comunicativo contrapõe-se ao agir estratégico. Neste, a linguagem é utilizada, predominantemente, como modo de transmissão de informações e com o intuito de influenciar o outro. Naquele, a linguagem é, fundamentalmente, meio de entendimento e de coordenação das ações recíprocas.
A ação comunicativa se refere à interação de ao menos dois sujeitos capazes de linguagem e de ação que (seja com meios verbais ou extraverbais) estabelecem uma relação interpessoal. Os atores buscam entender-se sobre uma situação de ação para poder, assim, coordenar, de comum acordo, seus planos de ação e, com isso, suas ações. O conceito aqui central, o de interpretação, se refere primordialmente à negociação de definições de situações suscetíveis de consenso. Neste modelo de ação, a linguagem ocupa um posto proeminente (HABERMAS, 2003a, p. 124).
Além disso, para Habermas, no agir comunicativo os agentes perseguem metas ilocucionárias, buscando coordenar suas ações sob o princípio do reconhecimento intersubjetivo.
O agir comunicativo tem de satisfazer as condições de entendimento e de cooperação: a) os atores participantes comportam-se cooperativamente e tentam colocar seus planos (no horizonte de um mundo da vida compartilhado) em sintonia uns com os outros na base de interpretações comuns da situação; b) os atores envolvidos estão dispostos a atingir os objetivos mediatos da definição comum da situação e da coordenação da ação assumindo os papéis de falantes e ouvintes em processos de entendimento, portanto, pelo caminho da busca sincera ou sem reservas de fins ilocucionários (HABERMAS, 2002b, p. 129).
Nessa classe de ação, está pressuposto o recurso performativo a uma segunda pessoa necessariamente presente no processo comunicativo. Desse modo, somente podemos falar de agir comunicativo “nos casos em que os participantes coordenam entre si os seus planos de ação por intermédio de processos linguísticos de entendimento, ou seja, recorrendo aos poderes ilocutórios vinculativos e associativos dos atos de fala” (HABERMAS, 2002d, p. 205). Disso decorre que a ação comunicativa implica a participação efetiva de falante e de ouvinte numa relação intersubjetiva e simbolicamente mediada.
No agir estratégico, a orientação das ações está pautada em objetivos perlocucionários, que implica em abrir mão do potencial comunicativo da linguagem em detrimento ao uso estratégico da mesma.
O uso estratégico da linguagem, de modo latente, é parasitário porque apenas funciona quando pelo menos uma das partes pressupõe que a linguagem está a ser utilizada com uma orientação para o entendimento. Quem quer que aja estrategicamente desta forma estará necessária e sub-repticiamente a infringir a condição de sinceridade da ação comunicativa (HABERMAS, 2002d, p.179).
Na ação estratégica, a intenção de pelo menos um dos atores está orientada à obtenção de um fim particular. Para realizar esse fim, utiliza-se de meios para influenciar o outro, sem deixar explícitos os propósitos perlocucionários. O outro da relação é considerado tão- somente um meio à consecução dos objetivos previamente traçados96.