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Os contratos nas relações entre consumidores e fornecedores são, em regra, de adesão. Tal modelo de contrato, decorrente da massificação das referidas relações no mercado de consumo, se perfaz pela simples adesão, pelo consumidor, ao contrato preestabelecido pelo fornecedor de produtos ou serviços. O próprio Código de Defesa do Consumidor o define:

Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.

§ 1º A inserção da cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão do contrato.

§ 2º Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que a alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no §2º do artigo anterior.

§ 3º Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao corpo

doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor (redação dada pela Lei nº 11.785, de 02/10/2008).

§ 4º As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão ser redigidas com destaque, permitindo imediata e fácil compreensão.

§ 5º (Vetado).

Os contratos de adesão encontram-se completamente disseminados nas relações contratuais de consumo, presentes nos contratos de seguro, de plano de saúde, de serviços educacionais, também nos contratos de concessão de crédito, de financiamento e de operações bancárias e até nos de prestação de serviços públicos essenciais, como no fornecimento de energia e de água e esgoto.

A manifestação da vontade do consumidor reduziu-se à mera adesão ao contrato cujas cláusulas foram prévia e unilateralmente estabelecidas pelo fornecedor. Esclarece Cláudia Lima Marques132 que,

[...] com a industrialização e a massificação das relações contratuais, especialmente através da conclusão de contratos de adesão, ficou evidente que o conceito clássico de contrato não mais se adaptava à realidade socioeconômica do séc. XX. Em muitos casos o acordo de vontades era mais aparente do que real; os contratos pré- redigidos tornaram-se a regra, e deixavam claro o desnível entre os contratantes- um autor efetivo das cláusulas, outro, simples aderente- desmentindo a ideia de que assegurando-se a liberdade contratual, estaríamos assegurando a justiça contratual.

A liberdade de contratar, no entanto, em algumas situações, não se verifica sequer no que concerne à opção de realizar ou não o contrato, como adverte Enzo Roppo133:

Ele não é livre- como vimos- de discutir e contribuir para determinar o conteúdo do regulamento contratual; mas não é livre, sequer, na alternativa de contratar ou não contratar, porque quando a adesão ao contrato standard constitui o único meio de adquirir bens ou serviços essenciais e indispensáveis à vida de todos os dias, trata-se, na realidade, de uma escolha obrigada; e, muitas vezes, por fim, não é livre, nem mesmo na individualização do parceiro com quem contratar: isto acontece todas as vezes que tais bens ou serviços são oferecidos ao público por uma empresa em posição de monopólio.

Sob esta realidade, reveste-se de fundamental importância o direito do consumidor à informação, pois, quando lhe for dada a faculdade da escolha, terá a possibilidade de avaliar os termos do contrato e decidir sobre a oportunidade de vir a realizá-lo.

O direito à informação, ao lado do direito à educação, constitui um dos princípios da Política Nacional das Relações de Consumo, de acordo com o art. 4º, inciso IV, do Código de Defesa do Consumidor.

132

MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. São Paulo: RT, 2011, p. 159.

A informação é considerada, ainda, direito básico do consumidor, segundo o art. 6º, inciso III, do mencionado Código, sendo devida sua prestação em todas as fases do contrato. Para Mário Frota134,

A obrigação geral de informação, se não mesmo a obrigação especial decretada neste particular, espraia-se por três fases ou períodos distintos:

 nos preliminares, isto é, no momento pré-contratual;

 na fase de conclusão do contrato, ou seja, na da celebração propriamente dita- a

da informação contratual;

 e na da execução do contrato, vale dizer, no decurso da vida do contrato, se for o

caso, ante as modificações objectivas de que possa padecer a relação em apreciação- a da informação pós-contratual.

Em relação à fase pré-contratual, importante é ressaltar o caráter vinculante da informação prestada quando da oferta de produtos e serviços no mercado de consumo. O art.

30 do Código de Defesa do Consumidor determina que: “Toda informação ou publicidade,

suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação em relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou

dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado”.

Cumpre esclarecer que nem toda informação é publicidade, pois a informação, considerada de modo mais amplo, somente adquire natureza publicitária se veiculada em anúncio por qualquer meio de comunicação coletiva.

Havendo recusa na realização da oferta, o consumidor poderá exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos do art. 35 da legislação consumerista, desde

que a informação nela contida seja “suficientemente precisa”, ou seja, que possua elementos

claros que possibilitem sua identificação.

Nos contratos de crédito, a alteração ocorrida no §3º do art. 54 do Código de Defesa do Consumidor pela Lei nº 9.298, de 22 de setembro de 2008, que passa a proibir que o tamanho da fonte utilizada na redação deles seja inferior ao corpo 12 (doze), corrobora a orientação do princípio da informação, no sentido de que os referidos contratos devem ser redigidos de forma correta, clara, precisa, ostensiva e, portanto, legível. O ajuste busca inibir a prática bastante recorrente no mercado de consumo, notadamente nos contratos de prestação de serviço de execução continuada, de emprego de fontes de tamanho minúsculo que impedem a sua leitura e, consequentemente, o acesso do consumidor às informações nele contidas.

134 FROTA, Mário. Do regime do crédito ao consumidor na União Europeia e seus reflexos em Portugal: a

inversão do paradigma. In: MORATO, Antônio Carlos; NERI, Paulo de Tarso (Orgs.). 20 Anos do Código de Defesa do Consumidor: Estudos em Homenagem ao Professor José Geraldo Brito Filomeno. São Paulo: Atlas, 2010, p. 281.

O consumidor, especialmente nos contratos de crédito, necessita de especial proteção do Estado. Vulnerável aos apelos e pressões da sociedade de consumo, o consumidor, leigo juridicamente e fraco economicamente, muitas vezes não é capaz de compreender por si só a complexidade dos referidos contratos e facilmente adere às condições neles impostas, sem ter a exata noção do seu conteúdo e, consequentemente, da obrigação contraída.

Esclarece Clarissa Costa de Lima135 que “a noção clássica de uma vontade livre, dirigida pelo próprio indivíduo, pressupõe uma igualdade de forças e liberdade de discussão entre as partes, o que não ocorre nas relações de consumo, marcadas pela desigualdade entre seus autores (consumidor e fornecedor)”. Como não se pode prescindir, todavia, na celebração dos contratos, da manifestação da vontade das partes, visto que ainda se configura como

elemento essencial para sua realização, é preciso que o seu conceito seja reformulado “de

modo a caracterizar-se como verdadeiramente ‘autônoma’ e, por conseguinte, válida”.

Sobre autonomia da vontade nas relações de consumo, enfatiza Nicole Chardin136que

O consumidor é um não técnico da decisão. Ele não conhece o mecanismo volitivo. No melhor dos casos, é um decisor empírico, cada uma de suas decisões sendo fruto de um mecanismo volitivo mais ou menos coerente. Ou pior, não é um mecanismo semelhante à vontade, mas simplesmente um desejo, um automatismo. Nisso o consumidor se opõe ao profissional que possui uma decisão técnica de decisão, a qual é fruto da experiência ou o resultado de uma preparação da decisão efetuada por um técnico da decisão. Do consumidor ao profissional há toda distância da técnica da decisão, o consumidor é um amputado de vontade. É possível desvendar uma outra diferença fundamental entre o consumidor e o profissional, o consumidor é um ator isolado, ao passo que o profissional se beneficia de uma ajuda técnica à decisão.

A informação, se prestada de forma adequada, exerce papel fundamental neste contexto, pois a manifestação da vontade deixa, assim, de ser exercida de modo autômato, para se manifestar de forma consciente, ou seja, por meio de uma vontade esclarecida, reestabelecendo o equilíbrio contratual.

135 LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo responsável: os deveres de informação nos contratos de crédito e a

proteção do consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 39-41.

136 CHARDIN, 1988 apud LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo responsável: os deveres de informação nos

contratos de crédito e a proteção do consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 40.