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4. BULGULAR VE YORUMLAR

4.7. Kruskal-Wallis Testi

Desde a percepção de que o consumidor, nos contratos de crédito, se encontra em situação de maior vulnerabilidade do que em outras relações de consumo, na medida em que necessita satisfazer suas necessidades e desejos sem ter meios imediatos para tanto, Nicole Chardin criou um conceito de autonomia da vontade, denominada de “autonomia da vontade

racional”147 .

Para a autora, há diferentes tipos de “autonomia da vontade racional”: a presumida, a exigida ou criada e a educada. A autonomia presumida corresponde ao modelo clássico da autonomia da vontade, em que as partes se encontram em situação de igualdade formal e material, sendo a vontade presumidamente racional. Diferentemente, a autonomia exigida ou criada é verificada quando as partes e encontram em situação de desigualdade,

146 LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo responsável: os deveres de informação nos contratos de crédito e a

proteção do consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 37.

147 CHARDIN, 1988 apud LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo Responsável: os deveres de informação nos

contratos de crédito e a proteção de consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 44.

como nas relações de consumo, tendo uma das partes a sua autonomia da vontade mitigada, sendo preciso que a lei a reestabeleça, buscando por meio de informação e de orientação reinserir a razão na manifestação da vontade. Por último, verifica-se a autonomia educada, como resultante das duas primeiras.

Ainda não se alcançou no Brasil o estádio da autonomia educada, apesar do Código de Defesa do Consumidor conclamar o Estado e a Sociedade ao cumprimento do dever de educação para o consumo, ao estabelecer como direito básico do consumidor “a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a

liberdade de escolha e a igualdade nas contratações”148 . Para Clarissa Costa de Lima149,

Podemos afirmar, com segurança, que nos encontramos no estágio da autonomia da vontade exigida, uma vez que o consumidor de crédito, particularmente vulnerável em razão das pressões da sociedade de consumo, economicamente fraco, ignorante juridicamente e sociologicamente dependente, necessita de uma forte proteção do Estado, pois ainda não é capaz de extrair sozinho as informações importantes de um contrato, compreendê-las e valorizá-las a ponto de prevenirem-se de um endividamento excessivo. É por isso que os ordenamentos protetivos exigem transparência e informação nas relações de consumo, como forma de garantir ao consumidor a expressão de uma vontade verdadeiramente livre.

Embora tenha sentido amplo, o termo informação, no âmbito consumerista, tem dupla face: o dever do fornecedor de informar e o direito do consumidor de ser informado. O dever de prestar informação ao consumidor, presente em todas as fases do contrato, se desdobra em dever de informação stricto sensu ou de esclarecimento simples, dever de aconselhamento e dever de advertência150.

A informação stricto sensu, ou de esclarecimento simples, deve ser prestada espontaneamente ao consumidor e caracteriza-se pela sua natureza objetiva, ou seja, pela transmissão de informações acerca das condições estabelecidas no contrato, como as relacionadas nos incisos do art. 52 do Código de Defesa do Consumidor, e de outras que se façam necessárias ao pleno esclarecimento do consumidor.

148 Art. 6º, inciso II, do Código de Defesa do Consumidor.

149 LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo Responsável: os deveres de informação nos contratos de crédito e a

proteção de consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 47.

150 LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo Responsável: os deveres de informação nos contratos de crédito e a

proteção de consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 49.

Cumpre esclarecer que, segundo o art. 46 do referido Código, a falta de conhecimento prévio sobre o conteúdo do contrato ou a impossibilidade de sua exata compreensão desobrigam o consumidor do seu cumprimento.

O dever de aconselhamento vai além da prestação de informações neutras e objetivas referentes ao contrato, pois o fornecedor deve ainda explicar o seu conteúdo e orientar o consumidor quanto à sua decisão, cumprindo verdadeiro papel de aconselhamento. Não se trata, entretanto, de decidir pelo consumidor, mas de aconselhar o consumidor para que decida de modo refletido e também racional.

O dever de advertência consiste em chamar a atenção do consumidor sobre os riscos ou perigos de determinado produto ou serviço e se verifica em várias passagens do Código de Defesa do Consumidor, como nos artigos 8º, 9º e 10, que versam sobre a proteção à saúde e à segurança do consumidor. Nos casos dos contratos, inclusive os de crédito, trata da obrigação de chamar a atenção para estipulações desvantajosas para o consumidor, destacando expressamente cláusulas que impliquem exigência de um comportamento específico do consumidor sob pena de perda de direitos, em limitação de responsabilidade do fornecedor, quando permitida, ou em restrição de direitos do consumidor.

Neste sentido, determina o §4º do art. 54 da legislação consumerista, em relação

aos contratos de adesão, que “as cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão”.

Para Clarissa Costa de Lima151, o dever de conselho e o de advertência não se confundem, pois

O dever de conselho e de advertência são duas noções diferentes. A advertência consiste em chamar particularmente a atenção do consumidor sobre os perigos de uma determinada operação. Trata-se de uma obrigação que vai além da obrigação de informação, a qual tem o caráter mais objetivo, mas que resta aquém da obrigação de conselho, porque ainda não preconiza agir em um sentido determinado.

Embora o dever de informação, em sua acepção mais ampla, esteja presente em todas as fases do contrato, quais sejam, nas fases pré-contratual, contratual e pós-contratual, é na primeira fase que o dever de informação se reveste da maior importância, pois é antes da realização do contrato que se dá a formação do consentimento, manifestado no ato da contratação.

151 LIMA, Clarissa Costa de. Empréstimo Responsável: os deveres de informação nos contratos de crédito e a

proteção de consumidor contra o superendividamento. In: BERTONCELLO, Karen Rick Danillevicz; LIMA, Clarissa Costa. Superendividamento Aplicado: Aspectos Doutrinários e Experiência no Poder Judiciário. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2012, p. 83.

Busca-se, assim, por meio de imposição ao fornecedor do dever de informação, de conselho e de advertência, assegurar que o consumidor, quando da celebração do contrato, manifeste sua vontade de modo livre e esclarecido, e não sofra embaraços quando do seu cumprimento.