2. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ALANYAZIN
2.1. Tüketici Tutum ve DavranıĢları
2.1.3. Tüketici DavranıĢ Modelleri
2.1.3.2. Tanımlayıcı DavranıĢ Modelleri
2.1.3.2.4. Nicosia Modeli
Junte-se aos fatores ora descritos a desinformação do consumidor quanto ao conteúdo das cláusulas contratuais, principalmente acerca das condições de pagamento e das políticas de juros praticados, bem como a falta de conhecimento dos seus direitos.
O consumidor, por definição legal, é um leigo. Assim sendo, tem direito básico à informação em todas as fases do contrato de consumo.
A informação, juntamente com a educação para o consumo, constitui também um dos princípios da Política Nacional das Relações de Consumo, segundo o art. 4º, IV, do Código de Defesa do Consumidor.
Acidentes de consumo causados por produtos ou serviços com “informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização (ou fruição) e riscos”61 dão ensejo à responsabilidade civil objetiva do fornecedor, com exceção dos profissionais liberais, além da responsabilidade penal e administrativa.
Nem sempre, entretanto, o fornecedor presta “informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores”, conforme preconiza o art. 31 do referido Código.
Além da falta de cumprimento do dever de informação por parte de alguns fornecedores, um fator que contribui de forma decisiva para desinformação generalizada do consumidor no Brasil é o elevado índice de 27% de analfabetismo funcional62 da sua população.
Embora o percentual da população alfabetizada funcionalmente tenha evoluído de 61% em 2001 para 73% em 2011, somente um em cada quatro brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e Matemática.
O mencionado índice é revelado pelo Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), criado em 2001 e desenvolvido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Organização Não Governamental (ONG) Ação Educativa. O INAF tem como principal objetivo oferecer informações qualificadas sobre as habilidades e práticas de leitura, escrita e Matemática dos brasileiros adultos (entre 15 e 64 anos de idade). A pesquisa é realizada de dois em dois anos
61 Artigos 12 e 14 do Código de Defesa do Consumidor. 62
IPM. Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativa mostram evolução do alfabetismo funcional na última década. Disponível em: <http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.00.00.00&ver=por>. Acesso em: 06 jan. 2013.
e conta com a colaboração do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) para a definição da amostra, coleta e processamento dos dados.
O conceito de analfabetismo e alfabetismo funcional foram adotados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Considera-se “alfabetizada funcionalmente a pessoa capaz de utilizar a leitura e escrita e habilidades matemáticas para fazer frente às demandas de seu contexto social e utilizá-las
para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida”63 .
Segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)64, a taxa de analfabetismo funcional no Brasil foi estimada em 20,4%. Em 2011, foram contabilizados, entre as pessoas de 15 anos ou mais, 30,5 milhões de analfabetos funcionais no País.
O IBGE define os analfabetos funcionais como pessoas com 15 anos ou mais de idade e menos de quatro anos de estudo. Especialistas também classificam este grupo como pessoas que sabem ler e escrever, mas não entendem aquilo que lêem.
A maioria dos analfabetos funcionais (30,9%) está concentrada no Nordeste, de acordo com a pesquisa. A região Norte tem 25,3%. Nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, esse indicador foi de 14,9%, 15,7% e 18,2%, respectivamente.
Com efeito, é importante também observar o fato de que estudos comportamentais revelaram que os consumidores tendem a ser excessivamente otimistas e confiantes em relação ao seu estado financeiro futuro, subestimando a suscetibilidade ao risco.
Esta autoconfiança exacerbada pode levar os consumidores a fazerem uma avaliação equivocada da sua capacidade de administrar as dívidas contraídas, deixando-os vulneráveis ao superendividamento.
Impende destacar o comentário de Jason J. Kilborn65sobre a análise do comportamento econômico do consumidor para compreensão do superendividamento:
Descobertas comportamentais indicam que consumidores sofrem de uma demasiada confiança. Eles sistematicamente avaliaram os riscos com inexatidão baseados em informações prontas e disponíveis para eles por meio da memória. Então, sucumbem à vontade vinculada a sérios custos futuros não devidamente avaliados- valorando
63 IPM. O que é INAF. Disponível em:
<http://www.ipm.org.br/ipmb_pagina.php?mpg=4.02.00.00.00&ver=por>. Acesso em 06.01.2013.
64
GLOBO. Nordeste concentra mais da metade de analfabetos do país, diz IBGE. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2012/09/nordeste-concentra-mais-da-metade-dos-analfabetos-do-pais- diz-ibge.html>. Acesso em: 06 jan. 2013.
65 KILBORN, Jason J. Comportamentos econômicos, superendividamento; estudo comparativo da insolvência
do consumidor: buscando as causas e avaliando soluções. In: MARQUES, Cláudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Coords.). Direitos do consumidor superendividado: Superendividamento e crédito. São Paulo: RT, 2006, p. 72-73.
apenas benefícios momentâneos. Deste modo, comportamentos econômicos oferecem explicações convincentes porque os consumidores não levam, frequentemente, em consideração a possibilidade de que não possam vir a honrar com suas obrigações creditícias futuras, baseados em seus rendimentos a receber.
O superendividamento constitui, pois, fenômeno multifatorial decorrente da sociedade de consumo, consequência natural e inevitável do modelo econômico capitalista, que afeta não somente os consumidores que se encontram nesta situação, mas também os credores, a sociedade e o Estado. Assim sendo, deve haver a socialização dos danos por ele causados, dando ensejo à responsabilidade do Estado pela sua prevenção e tratamento.
Destarte, defende André Perin Schmidt Neto66a noção de que
O Estado tem o dever de prevenir, capacitando o consumidor em termos de informação e educação, e tratar os superendividados, exigindo daqueles que ganham com este modelo, que dividam os prejuízos causados aos que foram usados para produção do lucro, recebendo seu crédito apenas na parte que o devedor consegue pagar sem abrir mão das necessidades básicas.
Além do reestabelecimento do consumidor superendividado, a tutela jurídica do fenômeno busca o reequilíbrio social e econômico, pois o endividamento em excesso
“repercute na microeconomia familiar e na macroeconomia social”67
, sendo absolutamente necessária.
O Estado deve, portanto, remediar, “pelo Direito, uma situação de grave desajuste
econômico e social no Brasil”68
, a do superendividamento.
Para tanto, impõe-se se instituir de proteção jurídica ao consumidor superendividado de boa-fé, a fim de que ele possa pagar seus credores com a preservação de um mínimo existencial, de modo a garantir uma vida digna para si e sua família, em atendimento ao comando do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.
66 SCHMIDT NETO, André Perin. Superendividamento do consumidor: conceito, pressupostos e classificação.
In: MARQUES, Cláudia Lima (Coord.). Revista de Direito do Consumidor. São Paulo: RT, n. 71, p. 9-33, jul.- set., 2009, p. 31.
67
BERTONCELLO, Karen Rick Danilevicz; LIMA, Clarissa Costa de. Tratamento do crédito ao consumo na América Latina e superendividamento. In: MARQUES, Cláudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Coords.). Direitos do consumidor superendividado: Superendividamento e crédito. São Paulo: RT, 2006, p. 208.
68
PEREIRA, Wellerson Miranda. Superendividamento e crédito ao consumidor: reflexões sob uma perspectiva de direito comparado. In: MARQUES, Cláudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (coords.). Direitos do consumidor superendividado: Superendividamento e crédito. São Paulo: RT, 2006, p. 187.
3 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO PRIVADO
Neste capítulo, aborda-se o princípio da dignidade da pessoa humana, visto que este princípio constitui o núcleo essencial intangível dos direitos fundamentais, e representa o centro axiológico do ordenamento jurídico brasileiro.
O estudo deste princípio é necessário porque se defende neste trabalho a criação de uma tutela jurídica para o consumidor superendividado em respeito à sua dignidade como pessoa humana, de modo a preservar condições mínimas para sua existência digna, evitando sua exclusão social.
Também porque a adoção do referido princípio pela Constituição Federal foi determinante para a constitucionalização do Direito privado, fundamental para o surgimento de outra concepção do contrato.