• Sonuç bulunamadı

Martins(2006) ao discorrer sobre as performances do tempo e da memória na partitura dos congados utiliza a expressão encruzilhada para procurar entender como se dá o trânsito sistêmico e epistêmico que emerge dos processos inter e transculturais, formações vernaculares que resultam dos cruzamentos de diferentes culturas e cruzamentos simbólicos. Segundo a autora, na concepção filosófica nagô/ iorubá e na cosmovisão de mundo das culturas banto, a encruzilhada é o lugar das intermediações entre sistemas e instâncias de conhecimento diverso. É assinalada como:

[...] instância simbólica e metonímica, na qual se processam e da qual derivamviasdiversasdeelaborações expressivas, motivadas pelos próprios discursos que a coabitam. Da esfera do rito e, portanto, da performance, a encruzilhadaéolugarradialdecentramentoedescentramento, intersecções e desvios, texto e traduções, confluências e alterações, influências e divergências, fusões e rupturas, multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, origem e disseminação (id. ibid., p. 65).

Na concepção de Martins (2006) as culturas negras são uma síntese e resultam do diálogo entre as tradições africanas, européias e indígenas, fundam-se dos jogos de linguagem, intertextuais e interculturais, que performam. A esta discussão acrescentamos que a cultura negra encontra-se em constante conflito comasestruturasdedominaçãoonde novas sínteses são produzidas pela população histórica afrodescendente.

Ainda conforme a autora, “[...] o narrar, contado e cantado, é a energia e o fôlego que presentificam o sujeito [...]” (id. ibid., p. 22). Complementa ainda que a

encruzilhada é o ponto onde convergem saberes religiosos distintos bantos, iorubás

e católicos que são traduzidos neste lugar radial das intersecções. Nesse contexto, a fala, os gestos mnemônicos dos arquivos orais africanos em contato constante com o outro, transformam-se e ritualizam-se continuamente em novos e diferenciados rituais que se constituem em um processo de transmissão de conhecimento e da cosmovisãodemundoafricanoqueforamdesconsideradospelo colonizador europeu:

Esseolhar,amparadonumavisãoetnocêntricaeeurocêntrica, desconsiderou a história, as civilizações e culturas africanas, predominantemente ágrafas, menosprezou sua rica textualidade oral; quis invalidar seus panteões, cosmologias, teogonias; impôs como verdade absoluta, novos operadores simbólicos, um modus alheio e totalizante de pensar, interpretar, organizar- se, uma nova visão de mundo, enfim (ibidem., p. 25).

A palavra, nesse contexto, tem uma importância fundamental, pois é através dela que se dá a transmissão da visão de mundo africana. A palavra é dotada de teor sagrado, tem poder de criação, modifica a história do cotidiano e ainda, possibilita a contestação, a dúvida, a troca de idéias e a transmissão de conhecimentos. Enquanto uma forma de transmissão de saberes étnico-culturais é degranderelevânciana comunidade, “[...] pois trata-se de um processo de vivências, de partilhas, de criação de linguagem, de relação eu-outro” (ALVES, 2006, p. 403). Leite(s/d) esclarece que na concepção africana não se confunde ausência de escrita com analfabetismo e a palavra é tomada como elemento vital da personalidade, além de possuir papel decisivo na observância das normas ancestrais.

[...] a palavra constitui um universo concreto revelador das principais proposições históricas de uma dada sociedade, sendo capaz de explicar a organização do mundo e da realidade, bem como as práticas sociais globais, a captação, o exercício, o acúmulo e transmissão de conhecimento, segundo valores civilizatórios próprios nascidos de sua identidade profunda (id. ibid., p. 38).

Leite (s/d) esclarece ainda que não se deve confundir a palavra com a oralidade humana embora esta seja uma das formas da palavra se manifestar:

Nesse sentido, é um processo social interativo em várias instâncias mais imperiosas, com o que tende a explicar sistematicamente as diversas configurações da história e da vida em fluxo. Assim, cada evento decisivo constitui uma palavra, ou seja, constitui um enunciado abrangente com seus respectivos desdobramentos destinado a objetivar fatores cruciais. Designa-se dessa forma, sob o termo geral da palavra, o conjunto de enunciados históricos vitais existentes relativos a uma dada sociedade, que a explica no tempo e no espaço (id. ibid., p. 38).

Para as sociedades tradicionais africanas a palavra é “[...] portadora da ‘força’ que anima e vitaliza o mundo” (OLIVEIRA, 2006, p. 47). Em sua concepção a palavra é dotada de origem divina, é um instrumento do saber, atua como criadora do universo, é expressão da Força Vital e tem poder de transformação. Por meio da palavra na África tradicional aprendia-se sobre a história da família, sobre os fatos históricos, sobre os contos que traziam os ensinamentos (HAMPÂTÉ BÂ, 2003). O autor ressalta a importância da palavra quando informa que “[...] desde nossa mais tenra idade, o meio em que estávamos mergulhados era o verbo” (id. ibid., p. 170). Noentanto,énecessárioocuidadocomo quando e onde falar, pois a mesma palavra que é fonte de sabedoria e verdade pode se tornar trágica e amaldiçoadora, daí a necessidade de se aprender a controlar a língua e praticar o silêncio (ibidem.).

A transmissão dos conhecimentos no Congo, assim como nas culturas de tradição oral, é passada de geração a geração, na maioria das vezes de pai para filho. Na concepção de Alves (op. cit., p. 102): “A expressividade do povo negro, através da palavra, constitui prática fundamental no cotidiano da comunidade. Falar faz ecoar sentido e significado às ações do dia-a-dia”. Esta autora também destaca aimportânciadapalavrae do diálogo nas sociedades tradicionais africanas. Ressalta ainda que o corpo também participa desse processo, pois os nossos gestos, os tons das palavras, do silêncio, revelam nossas intenções.

De acordo com Martins (2006, p. 84) “[...] o corpo é um texto que, simultaneamente, inscreve e interpreta, significa e significado, sendo projetado como continente e conteúdo, lugar e veículo da memória”. Nos Congos de Milagres, os iniciantes passam por um processo de aprendizado que se dá basicamente através da oralidade e da imitação. As crianças que se interessam pela dança logo são incentivadas pelo mestre a observar os brincantes mais experientes e tentarem

repetir os movimentos. O ritual transforma-se em um processo de transmissão de conhecimentos.

Essa forma de transmissão do conhecimento nos remete à importância da ancestralidade para o povo africano. Hampâté Bâ (2003, p. 23) reforça essa importância quando esclarece que: “Na África tradicional, o indivíduo é inseparável de sua linhagem, que continua a viver através dele e da qual ele é apenas um prolongamento”. Oliveira (2006) também se refere à importância da ancestralidade permitindo que os princípios da experiência africana alterem a experiência desse povo no mundo. “A ancestralidade é a fonte de onde emergem os elementos fundamentais da tradição africana” (id. ibid., p. 165). Foi através dela que se organizaram as práticas sociais e rituais afrodescendentes.

A idéia de ancestralidade parte do reconhecimento e respeito aos conhecimentos transmitidos à comunidade através da memória. A ancestralidade é o que fundamenta o pensamento africano, é a principal fonte de conhecimento. De acordo com Videira (2005, p. 62), “A ancestralidade faz apelo às famílias e ao contínuo de sucessão de gerações. Esta ancestralidade nos remete à lembrança, à memória, e ao exercício da memória”.

Esta discussão sobre memória apresenta uma dimensão política, pois é através dela que os afrodescendentes reconstroem sua herançacivilizatória;auxilia- nos no processo de conhecimento sobre como as formas culturais são constituídas. Alves (2006) se refere à Munanga para quem a crença na ancestralidade, o poder da fala e do gesto e a relação de parentesco norteiam a vida das comunidades africanas e são traços culturais comuns ao modo de pensar e viver desses grupos.

Buscamos assim a produção de um novo pensamento, de um novo conhecimento, que tenha como base a experiência e o universo cultural afrodescendente presente na região do Cariri cearense. A criatividade, o dinamismo, o respeito à diversidade, a solidariedade e o compromisso com a comunidade fazem parte desse processo. Dessa discussão decorre a necessidade de compreendermos como podemos desenvolver uma educação fundamentada em uma filosofia afrodescendente nesta região do Estado do Ceará que tenha por base os valores africanos que foram preservados na diáspora.

Benzer Belgeler