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3. YÖNTEM

3.4. Verilerin Toplanması

conversão e a integração dos povos indígenas à nossa sociedade [brasileira]. ...

Se os relatos missionários possuem algo de heróico... evidenciam também a limitação desta prática salvacionista. Boa vontade não era mais suficiente para salvar do extermínio aqueles povos, mesmo que pudessem ser considerados salvos pelo batismo. A catequese era na realidade sinônimo de civilização ocidental e o trabalho missionário levava inevitavelmente estes povos a se integrarem à nossa sociedade. E integração era sinônimo de extermínio cultural e, muitas vezes, físico.

O objetivo do trabalho era a evangelização e a integração dos povos indígenas... Na prática muitos destes indígenas, se não perderam a identidade, passaram a viver sérios conflitos culturais, dado o sistema educacional implantado.52

O “humanitarismo” estava presente nos militares e padres, postura recorrente no período da doutrina da formação da “nação brasileira”. No fundo, a construção de seus contrafortes ideológicos se apoia na “metáfora espacial” das fronteiras. Segundo Procópio, padres e soldados sempre tiveram uma relação muito estreita quanto à conversão e integração do índio. Para ele, moralmente não há como a Igreja contestar os militares em recrutar índios para seus batalhões de selva. Os fatos demonstram a semelhança entre o trabalho do padre e do soldado na Amazônia, não existindo antagonismos entre suas estratégias. O autor chama atenção para a cumplicidade entre a Igreja e a FAB que mantêm vôos exclusivos para transportar missionários desde 1940.53

Para Lima54, o SPI apenas atualizou os conceitos civilizatórios da catequese para o conceito de proteção tutelada. Para o autor, a prática se resume numa transformação da violência aberta para a violência simbólica. No caso do vale do Madeira-Guaporé, a violência não foi simbólica como na generalização de Lima. A qui não houve um cerco de paz. A violência simbólica foi discursiva, a prática era da violência assumida e “naturalizada”. Bigio, em sua conclusão, constatou a mesma prática: A Comissão Rondon e o SPI ofereceram

assistência às diversas sociedades indígenas que habitavam Mato Grosso. Porém a história demonstra que a “atração”, a “pacificação” e a “proteção .. não impediram o processo de extermínio físico ou a

aniquilação cultural dessas sociedades. Ao contrário “... o SPI serviu muito mais para a incorporação dos territórios indígenas à sociedade brasileira”. 55

51 CASTRO, C. O espírito militar: um estudo de antropologia social na A cademia Militar de A gulhas Negras. Rio de Janeiro, Jorge

Zahar, 1990. Para uma discussão sobre rituais de despersonalização nas academias das forças armadas ver o trabalho do autor.

52PREZIA, Benedito A. A história da Missão junto aos Povos Indígenas: 1939-1995. CIMI/Regional Rondônia.

Mimeografado, 1995. pp. 1-5. Grifos do Autor.

53 PROCÓPIO, Argemiro. “Da cruz à espada” in A mazônia: E cologia e Degradação Social. S. Paulo, Alfa-Omega, 1992.

Pp. 169-170. 54

LIMA, Antônio C.S. Um Grande Cerco de Paz: Poder tutelar, indianidade e formação do E stado no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1995.

55 BIGIO, Elias dos S. L inhas Telegráficas e Integração de Povos Indígenas: A s estratégias Políticas de Rondon (1889-1930). Brasília,

O Guaporé boliviano estava ocupado pela agropecuária e extrativismo da quina, da poaia, do caucho e da seringa. Conforme suas observações, a "fronteira Guaporé-Mamoré-

A bunã, [estava] em completo abandono do nosso lado, quando da banda boliviana existem guarnições militares em Cobija, Manoa, V illa Bella, Guayaramerin, Fortim do Machupo e Rio V erde."

Pelo lado brasileiro, o acesso pelo rio Abunã à região do Madeira-Mamoré era livre. Despovoada, não oferecia o menor controle na entrada de cidadãos, embarcações e mercadorias. Manoa, localizada em território boliviano na foz do rio Abunã e embocadura com o Madeira, inversamente, era maior e melhor estruturada. Guayaramerin era entreposto de Riberalta (no Beni) e Baixo Mamoré, apesar de ter 500 habitantes, possuía uma guarnição de 100 praças armados. Além dos oficiais comandantes do Exército, possuía também capitania de portos e alfândega. O povoado personificava o estado central boliviano, com suas unidades administrativas organizadas em departamentos, com forte presença militar. Guajará Mirim constituído como município no estado de Mato Grosso em 1928, apesar de ter o triplo da população, não possuía força de fronteira controlando a movimentação de estrangeiros entrando no Brasil pelo oriente boliviano.56

O Ten. Aluízio Ferreira objetivava a soberania de fronteiras por meio da colonização agrícola com soldados da própria região, reservistas, índios, nordestinos e seringueiros. Este projeto vinha ao encontro dos interesses de seringalistas e comerciantes, às voltas com o problema de mão-de-obra, além de concentrar as ações do poder público nos ministérios da Guerra, da Agricultura e da Viação e Obras Públicas.

Os militares viam a colonização agrícola como a única opção para “ocupar”, sedentarizar e fixar pessoas na região. Subliminarmente, tratava-se de deter o controle sobre o ordenamento do espaço, além de colocar limites aos deslocamentos populacionais na região. Tratava-se de ocupar, com “pessoas certas” e atividades sedentárias, “os lugares certos”. Assentado nesses pressupostos, teria início um projeto de ocupação e colonização da região, sob o controle dos militares. O primeiro núcleo agrícola, "Antenor Navarro", foi inaugurado entre abril e maio de 1932, em Porto Velho, no km 06 da rodovia Mato Grosso-Amazonas, por iniciativa da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, já sob a intervenção do governo federal. O jornal Alto Madeira57 apoiou a iniciativa do Diretor da EFMM, devido à ausência de capitais privados para sua execução. Isto pode ser

56 TEIXEIRA, Marcos e FONSECA, Dante. 2ª ed. História Regional (Rondônia). P.Velho, Rondoniana, 1998. Pp. 147. 57ME NE ZE S, E . “Jornalismo em Rondônia” in Porto V elho conta sua história. Porto Velho, SEMCE, 1998. Segundo o

autor, o jornal Alto Madeira foi fundado em 1917 pelo médico e político, ex-membro da Comissão Rondon, o Dr. Joaquim Tanajura. A criação do jornal se deu justamente quando fora superintendente do município de Porto Velho, eleito pelo Partido Republicano Conservador e apoiado pelas oligarquias locais, os patrões seringalistas e comerciantes. Logo após ser eleito deputado estadual pelo Amazonas, passou o jornal ao seu correligionário o Ten. Cincinato Elias Ferreira, e assim por diante até chegar às mãos dos Diários Associados. [grifos meus]

comprovado no editorial do Alto Madeira, editado no dia 08 de maio: "Governo Federal

forneceu muletas ao mulambo combalido que é o nosso A mazonas, ...e dá-nos a impressão de que o A mazonas veria melhores dias se o semeassem de centenas desses núcleos".58

Na visão dos seringalistas, a obrigação de salvar a economia era exclusiva do executivo amazonense. O Ten. Aluízio Ferreira, por meio da ferrovia, veio a intervir na economia e na política local, apoiado pelas elites na abertura dos núcleos agrícolas, na construção de casas e no plantio das primeiras safras. A colônia "Antenor Navarro" foi o resultado da parceria entre a EF MM/3º Distrito Telegráfico e o interventor Álvaro Maia, do estado do Amazonas. Ambos executando a política de “povoamento/ordenamento” do governo federal:

Ministro da Viação José Américo diante da exposição do Cap. Aluízio Ferreira concedeu à E FMM um auxílio para a colonização das margens da via férrea, [g.m.] ficando determinado a creação de duas colônias agrícolas nos moldes do núcleo agrícola Antenor Navarro com localização para 30 famílias cada uma, e uma média de 80 trabalhadores. Estas colônias ficarão situadas uma perto de Guajará-Mirim e a outra perto da vila de Presidente Marques (Abunã), devendo os serviços para o seu estabelecimento serem iniciados a 1° de agosto vindouro.59

Os interesses das elites civis e militares se compartilhavam na colonização, visto o apoio local à política ministerial. A medida federal, acompanhada de verba específica, oficializou a “ocupação/intervenção” na região pelo governo federal.

Os núcleos agrícolas foram organizados com lotes de 25 hectares, sendo 500m de frente por 500m de extensão, constituindo minifúndios voltados para culturas anuais: arroz, feijão, milho e mandioca. O objetivo declarado era o enraizamento do colono (seringueiros, soldados e os índios “civilizados”) por meio da pequena propriedade. Considerando um “incentivo” aos antigos servos do barracão, os seringalistas e seus “aliados” militares esperavam pelos nordestinos espoliados da terra. As elites civil e militar presumiam a fixação do colono pela posse do minifúndio. O objetivo real era o barateamento dos gêneros e o aumento do lucro dos comerciantes e seringalistas.

Podemos tomar por exemplo o núcleo agrícola do Iata, estruturado segundo as normas estabelecidas pela lei federal sobre colônias agrícolas. O sistema funcionava da seguinte maneira: primeiro o trabalhador era atraído no nordeste pelas agências do governo federal, e a ele era prometido passagem gratuita, alimentação e assistência médica gratuita. Aos que eram egressos dos seringais, era necessário uma seleção para poder ter

58 “Colonização”. A L TO MA DE IRA . Porto Velho, 08 de maio de 1932.

59 “A Exposição apresentada pelo Cap. Aluízio Ferreira traz inestimáveis benefícios à região”. A L TO MA DE IRA .

Porto Velho, 31 de julho de 1932. Primeira Página. Anexo 02 do Centro de Documentação Histórica de Rondônia/SE CE T.

acesso aos lotes. Era dada preferência aos homens maiores, casados e com filhos, depois em ordem decrescente, os de menor idade, os sem filhos, os solteiros e assim por diante. No início, o colono ficava no núcleo urbano da colônia, aguardando a demarcação dos lotes. Enquanto aguardava, era aproveitado para construir mais residências para novos migrantes que chegavam, também para demarcar novos lotes num sistema rotativo contínuo por mais de dez anos, entre a década de 30 e 40. Quando a família era instalada no lote, numa casa de madeira coberta com palha, feita geralmente pelos contingentes ou até mesmo pelos não-assentados, chegava outro para ocupar seu lugar no núcleo urbano e assim sucessivamente.

A análise de Silva60, sobre o fracasso das colônias agrícolas, comprova esta minha interpretação. Seu estudo de caso foi o Núcleo Agrícola do Iata (Guajará Mirim). Para a autora, o declínio deveu-se ao reduzido tamanho dos lotes, impedindo a rotatividade de culturas e a baixa qualidade das terras. Empecilhos agravados pela ausência de assistência técnica, na correção do solo e na política de preços, pelo alto custo dos fretes “oficiais” e outros encargos, onerando e subtraindo os ganhos depreciados dos colonos. Alguns abandonaram suas terras e voltaram para o seringal, ou foram para o garimpo, ou partiram em busca de novas “terras férteis”.

Na inauguração dos núcleos agrícolas, foi usado o paradoxal argumento da "falta de braços" e do "vazio demográfico" em Guajará Mirim e em Presidente Marques: “É preciso attrahir colonos de outros estados para evitar a deslocação dos que já se encontram situados, não só

para augmentar a população tão reduzida pela falta de occupação como também para incentivar

e encorajar os que aqui se acham desanimados, entibiados, descrentes de melhor futuro.”61 Os espaços estavam ocupados, porém com populações tradicionais, alheias aos interesses “nacionais”,

não faltava gente. Faltavam “coragem” e “incentivo” aos incapazes que “precisavam” da

tutela dos militares.

O relatório do Ten. Aluízio Ferreira ao Gen. Rondon explicitou, em 1929, a questão da “falta de braços, “não sucede o mesmo no médio e alto Guaporé, onde as margens são

pontilhadas de barracas dos pretos mato-grossenses, egressos dos mocambos de V ila Bela e aferrados à

vida improdutiva de caçar, pescar e procriar, mas em regra refratários à indústria gomífera, a única explorada e organizada na região.” 62 Comprova-se pela historiografia63 e

60 SILVA, Francisca A. Iata: Uma tentativa de Colonização (1943-1972). Goiânia, Dissertação de Mestrado UFGO, 1987. 61Colonisação”. A L TO MA DE IRA . Porto Velho, 17 de agosto de 1932. Primeira página.

62 FERREIRA, Ten. A. E m Prol do Guaporé. Memorial enviado ao Gal. Rondon Belém do Pará, 18/02/1929. 63TE IXE IRA, M.. Dos campos d'ouro à cidade das ruínas: apogeu e decadência do colonialismo português no V ale do Guaporé (séc. XV III e XIX). UFPE, Dissertação de Mestrado, Recife, 1997 e MEIRELLES, Denise M. Os Guardiães da Fronteira. Cuiabá, UFMT, 1983. Para esta “invenção” do vazio ver os trabalhos destes autores.

pelos relatórios militares64 a ocupação dos territórios e a contradição com o discurso paradoxal de “vazios demográficos” criado pelos segmentos dominantes, moeda política e econômica em suas mãos.

Os locais escolhidos para a instalação dos núcleos eram estratégicos, do ponto de vista militar. O núcleo do Iata, no entroncamento e foz dos rios tributários, que vinham da Bolívia. Os rios Mamoré, Beni, Madre de Dios e Iata eram rotas de trânsito, portas de entrada franca para o Brasil. O núcleo de Abunã situava-se na foz do rio Abunã com o Madeira, porteira escancarada ao país vizinho. Considerados pontos estratégicos para a defesa do território, esses locais foram escolhidos sem levar em consideração a fertilidade das terras, que foram sequer mencionadas. O núcleo de Poço Doce foi implantado, no dia 17 de Agosto de 1932, próximo à Guajará Mirim entre os km 338 e 346, da EFMM, em ponto estratégico para a implantação da colônia agrícola, movimentada via de acesso ao lado “brasileiro”. A descrição contida em 1932 é idêntica à do decreto.65 O decreto permite avaliar a continuidade do modelo de “ocupação” por meio de colônias.

Pinto66 ressaltou a criação das colônias agrícolas, como ações relevantes para a criação do território. Traz-nos elementos reveladores do contexto social e de sua visão de historiador:

A s realizações que estavam sendo efetuadas em Rondônia (sic), com a criação de contingentes militares para instalar colônias agrícolas, escolas, campos de pouso e estradas, demonstravam que o

projeto político da Revolução de 1930, pelo menos nessa região, estava sendo executado. Núcleos de agricultores haviam sido instalados ao longo da Estrada de ferro Madeira Mamoré, nos lugares

Iata, Poço Doce, Jaci-Paraná e A bunã, bem como ao longo da rodovia Amazonas-Mato Grosso, entre os quilômetros 8 e 13, e mais adiante, no cruzamento do rio Candeias.

O Ten. Aluízio Ferreira, Chefe do Distrito Telegráfico e Diretor da EFMM, estava subordinado à política nacional. "O ministro da fazenda encaminhou ao ministro do trabalho uma

carta do major Juarez Távora solicitando à presidência recursos à disposição do A mazonas para localizar os desoccupados nas colônias agrícolas." 67

Os núcleos agrícolas eram a saída para o extrativismo na década de 30. Os preços da borracha não compensavam os custos. A agricultura, baseada na pequena propriedade, baixaria os custos de produção e garantiria uma oferta estável de mão de obra fixada a

64 FERREIRA, Ten. A. E m Prol do Guaporé. Memorial enviado ao Gal. Rondon Belém do Pará, 18/02/1929. 65A Exposição apresentada pelo Cap. Aluízio Ferreira traz inestimáveis benefícios à região”. A L TO MA DE IRA .

Porto Velho, 31 de julho de 1932. Primeira Página.

66PINTO, Emanuel P. Rondônia E volução Histórica: A Criação do Território de Guaporé, fator de Integração Nacional. Rio de

Janeiro, Expressão e Cultura, 1993. Pinto foi correligionário do Cap. Aluízio Ferreira, eleito em 1946 como o primeiro deputado federal constituinte do Território Federal do Guaporé com largo apoio das classes dominantes. O autor foi seringalista, jornalista, empresário e político apoiava- e apoia atualmente via historiografia- as ações militares e governamentais de seu ex-padrinho político.

terra. A visão das classes dominantes ia ao encontro da política de ocupação de Vargas, interessado no apoio das oligarquias regionais.

O Estado Novo sistematizou a organização dos núcleos coloniais definindo normas para a localização de núcleos agrícolas, que “deveria estar em ponto próximo de centro de população

servida por estradas de ferro, rodovia ou companhia de navegação."68 Foi editado, em outubro do mesmo ano, decreto dispondo sobre os planos de colonização dos Estados e Municípios69, estabelecendo os critérios e a localização das áreas. A centralização da distribuição das terras nas mãos do Conselho de Segurança Nacional foi legitimada pela “ordem estratégica” explicitada no art. 5º. A competência atribuída ao Conselho de Imigração e Colonização e às repartições estaduais e municipais não prejudica a do Conselho de Segurança

Nacional, nos casos que lhe são reservados. Em seguida, o decreto-lei 6.ll770 previa a disciplina e ordem nas colônias em moldes militares. Os administradores centralizavam o poder de expulsão dos colonos, subjugando-os ao clientelismo político. A ocupação, por meio de núcleos agrícolas, era uma das estratégias para o controle militar de fronteira:

... O contingente de Porto Velho tem a seu cargo a construcção e a conservação da rodovia de

penetração "A mazonas-Matto Grosso", ... foi justamente para intensificar os trabalhos rodoviários, que o Contingente de Porto Velho, por aviso n.º 207, de 21 de marco de 1934, teve o seu effectivo augmentado, na fusão com o Contingente de Linhas Telegráficas. ... Objetiva essa estrada de rodagem attrahir, pela rapidez de transporte, a colonização em extensa faixa territorial quase deserta e em terras fertilíssimas ... Além da construcção da rodovia, o Contingente de Porto Velho auxilia o desenvolvimento do Núcleo A grícola local, installado no k ilometro

9 da estrada de rodagem. Nelle estão estabelecidas 25 famílias de patrícios egressos dos seringaes, em lotes de 25 hectares, tendo cada uma dellas recebido uma lavoura de 03 hectares em estado de producção e uma barraca de feitio regional, para moradia.71

Acrescente-se que o Contingente de Fronteiras de Porto Velho havia desbravado uma área de 50 hectares. Com o apoio do Contingente de Porto Velho, houve significativo aumento na produção, cujo resultado permitiu a aquisição de máquinas para uma pequena usina de açúcar, álcool e farinha de mandioca. A proteção à agricultura assemelhava-se a um ensaio de economia dirigida aos moldes da economia planificada. A deficiência alimentar era um dos problemas mais graves para a ocupação das fronteiras, fator que diminuía a resistência física dos habitantes. “E foi por isso que o recrutamento para os Contingentes se procedeu,

entre a população aclimatada.” Só com os habitantes adaptados ao meio, foi possível a

68 L E GISL AÇÃO FE DE RAL . Decreto-Lei n° 2009 de 09 de fevereiro de 1940. S. Paulo, LEX Editora S.A., 1964. 69 L E GISL AÇÃO FE DE RAL .. Decreto-lei n° 2681. Dispõe sobre os planos de colonização dos E stados e Municípios.

07/10/40. S. Paulo, LEX Editora, 1.964.

70 L E GISL AÇÃO FE DE RAL . Decreto-lei n.º 6117. Regula a fundação dos Núcleos Coloniais e dá outra

providências. 16/12/43. S. Paulo, LEX Editora, 1.964..

construção de rodovias e núcleos agrícolas. Concomitante à ocupação agrícola deveria ocorrer a ocupação militar para dar o devido apoio à empreitada.

Neste sentido, para garantir a “ocupação” da região, foram criados três contingentes militares de fronteira em locais estratégicos. O Ministério da Guerra, pelo aviso n.º 532, determinou que “a creação de contingentes de forças federaes [seria] nas cidades de

Porto V elho, Guajará Mirim e Forte Príncipe da Beira, todos, porém comandados por oficiais".72 Desse modo, o Ten. Aluízio Ferreira reuniu em suas mãos o poder quase absoluto sobre o território. A partir do controle político como Delegado do Governo, das comunicações como Chefe do Posto Telegráfico e do transporte como a Diretor da EFMM, além do controle militar como Inspetor dos Contingentes Especiais de Fronteira.73

Os contingentes de fronteira foram o meio de atingir três objetivos: 1) vigilância da fronteira por meio de destacamentos; 2) a ocupação por minifúndios instalados na orla destes contingentes, utilizando soldados, oficiais, trabalhadores e colonos com as suas respectivas famílias; 3) “ocupação racional ordenada” do espaço e dos recursos. A opção pelos minifúndios garantiria o cordão de isolamento nacional, realizado pelo povoamento, e, liberaria outras áreas para o extrativismo.

O argumento do “baixo custo” justificava, para a opinião pública, os investimentos na região. Segundo os militares, a administração por oficiais e soldados dispensava as estruturas burocráticas, economizando os recursos. Os pelotões, consequentemente os próprios consumidores da produção, propiciariam as condições para apoiar a pequena produção, por meio da abertura de núcleos agrícolas com vias de escoamento, da construção de casas para os colonos, e da prestação de serviços médicos e educacionais. A ação das forças armadas desarticulara politicamente as oligarquias regionais do Norte, colocando-as cada vez mais em torno de sua órbita, centralizando os recursos dos Ministérios da Guerra e Agricultura. Prática que significou o fortalecimento das forças armadas na disputa por recursos federais, em detrimento das elites regionais.

O objetivo era a criação de núcleos populacionais, conjugando produção agrícola com destacamentos militares. Constituíram núcleos, atraindo os pequenos produtores,