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Com a emergência da lógica das competências, diversas hipóteses foram lançadas acerca da relação entre competência e qualificação29.

De acordo com Ramos (2000) uma das visões que mais instiga a reflexão é aquela que relaciona a qualificação com o regime taylorista-fordista, a partir de uma visão estática do mundo do trabalho. Em oposição a isso, tal análise apresenta a noção de competência como emergente dos novos modelos de produção, mais dinâmicos e mais abertos a transformações.

Na predominância do taylorismo-fordismo o conceito de qualificação esteve restrito às relações diretas, por um lado, com a formação e com diplomas e, por outro, com os códigos das profissões. Isto é, destacaram-se as dimensões conceitual e social, intimamente relacionadas entre si, justificadas por um determinismo tecnológico inicial, seguido por um de cunho societal.

Essas dimensões da qualificação são agora fortemente questionadas: o sistema de classificação, carreira, salários baseados em diplomas, portanto em profissões bem definidas, seria inadequado à instabilidade das ofertas de emprego e a uma gestão flexível no interior das organizações. Isto porque a qualificação repousa sobre os repertórios relativamente estáveis: os postos de trabalho, cuja classificação é determinada de maneira estática, o diploma e a profissão, cuja possessão é a combinação de direitos precisos e duráveis er não podem ser questionados. (RAMOS, 2000, p. 74).

A qualificação aparece, portanto, ligada a um saber formal e potencial, aferido por um diploma. A competência, por sua vez, relaciona-se mais diretamente a uma ação. Porém a ação, ou prática profissional poderá ser efetivada a partir da soma de habilidades, competências, atitudes e saberes, podendo os últimos ser advindos dos conhecimentos formais.

29 Ramos (2000) cita FERRETTI (1997) que considera a noção de competência como a atualização do

conceito de qualificação sob a perspectiva do capital e também FRIGOTTO (1995) que apresenta tal noção como a expressão de uma metamorfose do conceito de qualificação na sua conotação produtivista.

A qualificação traz em si a idéia de saberes adquiridos por vias formais, em instituições que posteriormente expedirão o diploma. Conforme informa Araújo (1999, p.177), “a qualificação profissional, em última instância, baseia-se sobre conhecimentos teóricos formalizados com vistas a pôr em prática uma profissionalidade”. A competência preconiza, também, a possibilidade de outros saberes adquiridos em locais diversos, inclusive no trabalho.

Sobre isso Schwartz30 acrescenta que:

A competência explica a nova articulação entre a dimensão conceitual dos saberes necessários à ação. Com a competência, tomam lugar o saber-fazer proveniente da experiência, os registros provenientes da historia individual ou coletiva dos trabalhadores, ao lado dos saberes mais teóricos tradicionalmente valorizados na lógica da qualificação. Enfim, fundamentada sobre a valorização da implicação subjetiva no conhecimento, ela desloca a atenção para a atitude, o comportamento e os saberes tácitos dos trabalhadores. (apud RAMOS, 2000, p. 78).

Aranha (2000), nesse sentido, analisa que no Brasil a discussão em torno do deslocamento do conceito de qualificação para o de competência rompe com a possibilidade de se discutir a qualificação como uma relação social, que engloba não apenas o conhecimento obtido por vias formais, mas também o que acontece para além da escola e da formalidade. A introdução do conceito de competência rompe com a possibilidade de tal expansão do conceito de qualificação e tende a tornar os conhecimentos e os percursos de vida e de trabalho dos trabalhadores aistórico e asocial e, portanto, descontextualizado.

30 SCHWARTZ, Y. A Propês Du Glissement Sémantique “Qualification-Compétence”: La qualification à la

recherché de sés conditions aus limites. 4º Journées de Sociologie Du Travail. PIRTTEM-CNRS, Université de Toulouse-Le Mirail, v. 1, p. 177-199.

Outro aspecto importante refere-se à organização dos trabalhadores. De acordo com Fidalgo a noção de qualificação:

Referida ao processo de hierarquização e classificações funcionais de cada setor específico da divisão técnica do trabalho, pressupunha no contexto das relações de trabalho e de negociação coletiva próprias à gestão e regulação fordista, acordos sobre parâmetros e critérios globais impessoais.

A noção de competência individualiza a referência, relaciona a classificação a padrões de desempenho e a meios para o alcance de resultados e se apresenta independente das especificidades da divisão técnica. Neste caso, seriam confrontados os indivíduos e as performances esperadas e a negociação passa a ser personalizada (FIDALGO, s/d, p. 3).

Assim, na lógica das competências as negociações fortificadas pela união de grupos de trabalhadores tendem a ser rompidas, uma vez que tal lógica preconiza caminhos individualizados de acordo com as trajetórias escolhidas pelos trabalhadores. Há, portanto, a tendência de individualização e conseqüente enfraquecimento da negociação.

Todo esse conjunto de mudanças torna os trabalhadores vulneráveis, e estes de vêem cada vez mais confrontados com uma rede de complexas relações, onde as saídas coletivas têm sido desencorajadas pela imposição da necessidade de adaptação individual, não somente aos novos processos de trabalho, mas às condições ferais de gestão do trabalho (FIDALGO, s/d, p.4).

Sobre isso, Araújo menciona, citando Tanguy31, que:

A qualificação significa uma codificação, pressupõe as grades de classificação, de caráter coletivo, que representa a existência de indivíduos portadores de capacidades as quais são atribuídas remunerações. A qualificação é o principal determinante de atribuições no posto de trabalho, sua remuneração e sua promoção (apud ARAUJO, 1999, p.177-178).

31 TANGUY, Lucie. Formação: uma atividade em vias de definição? Veritas, Porto Alegre, v. 42, n. 2, p.

Sendo assim, o autor acrescenta, citando Dugué32, que “o conceito de qualificação permite

desvelar os antagonismos e as contradições entre direções empresariais e de trabalhadores. [...] A noção de competência, ao contrário, contribui para mascarar as oposições possíveis entre exigências dos postos de trabalho e o conhecimento dos homens” (apud ARAÚJO, 1999, p. 179).

A teoria da competência busca naturalizar as relações de força, mas não na perspectiva de retratar os conflitos, mas de tornar naturais às relações consensuais. [...] busca substituir as relações de embates com o capital para dar lugar às relações consensuais entre classes que, hipoteticamente, superaram o antagonismo (PORCELI, 2003, p.140).

Stroobants33 (apud DESAUNIERS 1998), por sua vez, menciona que a competência vem

assumindo uma centralidade cada vez maior. Dessa forma, “isso faz com que o lugar da qualificação propriamente dita (saber-fazer) seja ocupado pela competência, onde o saber assume uma atribuição de sujeito e a relação cognitiva tende a definir-se sobre o modo de ser (ser competente) e não mais aquele de ter uma qualificação (com risco de perdê-la)”.

Sobre isso, Porceli (2004, p. 135) argumenta que a dimensão “saber ser” constitui-se como a mais importante noção, entre aquelas que integram a lógica das competências. Isso, segundo ela, é devido ao fato de que as outras dimensões do savoir faire estão também contempladas na noção de qualificação. Nesse sentido, a autora acrescenta que “as abordagens que se constituíram acerca do conceito de qualificação não explicitaram a dimensão inconsciente e subjetiva do processo formativo, apesar dessa dimensão estar

32 DUGUÉ, Elisabeth. La Gestion dês compétences: lês savoir dévalués, lê pouvoir occulté. Sociologie Du

Travail, France: DUNOD, n. 3, 1994.

33 STROOBANTS, Marcelle. Qualificação ou competência? Padrões de geometria variável. In:

DESAUNIERS, Julieta (org). Formação & Trabalho & Competência. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 17-46).

presente e ser remodelada pela forma, geralmente autoritária, como as relações sociais se desencadeiam na produção capitalista”. Dessa forma,

A competência propõe o resgate da subjetividade ou dos aspectos inconscientes, em respeito à relação social despótica e desigual nas organizações capitalistas. Por estar inscrita na sociabilidade capitalista, o forte apelo à individualidade, contido na noção de saber ser, adquire o sentido de disponibilidade para mudança, assimilação de novos valores de qualidade, produtividade e competitividade que, em complemento às capacidades anteriores, pressupõem uma atitude de abertura subjetiva para que se incorporem ideologias e valores empresariais. (IBIDEM). Com relação à superação das qualificações, a autora argumenta, ainda, que, embora a teoria das competências proponha acabar com as demarcações das qualificações, não é isso que ocorre na prática, uma vez que os diferenciais sob os quais se pautam as hierarquizações permanecem. “Isso porque não se vislumbra, nessa noção, nenhuma possibilidade de rompimento com a divisão de trabalho, que continua estruturando as relações sociais nas empresas” (IBIDEM, p.141).

Dessa forma e, a partir dos argumentos apresentados, a lógica das competências, ao se contrapor, ou ‘substituir’ a noção de qualificação, parece vir somar mais elementos para a adaptação dos sujeitos com base nas mudanças ocorridas no modo de produção. Na medida em que, para a formação ou adaptação dos trabalhadores, tal lógica agrega aos conhecimentos não apenas novos saberes, mas também ideologias que condizem com a flexibilização do trabalho e do trabalhador no mercado. Importa ressaltar, portanto, que a ênfase maior em uma noção e não em outra é devida ao fato de que aspectos e que dimensões pretende-se ressaltar ou emudecer.

2. CURRÍCULO: DA CONSTITUIÇÃO DO CAMPO AO CURRÍCULO POR