De acordo com Diniz, a partir da década de 80, “Organismos Internacionais da Organização das Nações Unidas – ONU – tais como o Banco Mundial – BM- e o Fundo Monetário Internacional – FMI- indicaram um modelo de estabilização e ajustes para os países subdesenvolvidos” (DINIZ, 2002, p.36-37). Dentre as recomendações, a redução do gasto governamental caracteriza-se como elemento central.
De uma maneira geral, no Brasil, as políticas no campo educacional têm seguido uma lógica14 que aponta na direção da redução do papel do Estado, que tende a transferir ou
dividir com a iniciativa privada suas responsabilidades administrativas15. O maior objetivo
13 De acordo com Vólkov (1985, p. 301), mais valia refere-se ao: “valor creado com el trabajo del obrero
assalariado por encima Del valor de su fuerza de trabajo, Del cual se apropria gratuitamente el capitalista: la producción y apropriación dela plusvalía expresan la relación de producción más emportante del modo capitalista de producción, la ley econômica fundamental del capitalismo”.
14 Cabe ressaltar que a Escola Plural, a Cadanga, a de Porto Alegre, por exemplo, fogem de tal lógica e
apontam em uma perspectiva de maior inclusão social e de superação do assistencialismo.
é, sobretudo, a redução de gastos do setor público com serviços sociais, com a educação, saúde, etc. O Estado tende a incentivar cada vez mais a busca de alternativas de financiamento, por parte das instituições públicas, tendendo a deixar, assim, o papel de provedor de recursos16.
O Estado busca adotar a lógica de eficiência do mercado de trabalho e passa a ser orientado por “valores de eficiência e qualidade na prestação de serviços públicos e pelo desenvolvimento de uma cultura gerencial nas organizações” (BRASIL, 1995, p. 12). Os princípios de orientação são, portanto: “o cidadão-cliente, o controle por resultados e a competição na administração, pois ‘a administração pública gerencial vê o cidadão como contribuinte de impostos e como cliente de seus serviços’” BRASIL17 (apud PERONI,
2003, p.60).
Na proposta de reforma do Estado, o cidadão é adjetivado, é o cidadão-cliente, o que, portanto, de acordo com as leis de mercado, não inclui todos os cidadãos, pois os clientes dos serviços do Estado serão apenas os contemplados pelo núcleo estratégico e por atividades exclusivas. As políticas sociais não serão contempladas, pois são consideradas, pelo maré, serviços não-exclusivos do Estado e, assim sendo, de propriedade pública não-estatal ou privada [...] (PERONI, 2003, p. 60).
Assim, nos anos 90, de acordo com a autora citada, as políticas educacionais passam a enfatizar a qualidade, entendida como produtividade e, dessa forma, há a ênfase na maior eficiência e eficácia que se efetivariam por meio da autonomia da escola, do controle da qualidade e da terceirização de serviços.
16 Cf. LIMA FILHO, 1999.
17 BRASIL. Ministério da Administração e reforma do estado. Plano diretor da reforma do aparelho de
No que tange à Educação Profissional, nesse mesmo período, as políticas apontam em sentidos diversos, uma vez que, se por um lado, algumas das novas propostas sinalizam para a necessidade de uma educação que incorpore valores humanísticos e informações científico-tecnológicas, por outro, e vinculado à lógica das competências, outras enfatizam a necessidade de adaptação às novas exigências relativas à organização do mercado de trabalho.
Observa-se na última década, de acordo com Arantes:
Que houve o consentimento ativo das autoridades governamentais aos princípios dos organismos internacionais (Banco Mundial – BIRD e Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID) para que as reformas educativas dos países que dependem de seus recursos. O “novo” consistiu na adequação direta dos conceitos e objetivos educacionais às necessidades econômicas [...] Neste sentido, buscou-se reduzir o papel do Estado, propôs-se a aproximação mais estreita do ensino às necessidades do mercado de trabalho, da empresa com a escola [...] Prevaleceu a idéia das escolas se ajustarem ao mercado, montando o currículo não mais a partir das disciplinas de formação geral, mas segundo o perfil ocupacional e as demandas de competências do mercado de trabalho (ARANTES e outros, 2003, p. 24).
Percebe-se, então, que a aparente diversidade se resolve através de um viés mercadológico, que aponta no sentido de submeter a educação às exigências do mercado. Nesse sentido, Lima Filho (1999) argumenta que a Reforma da Educação Profissional, no Brasil, se pauta na lógica neoliberal que prevê um reordenamento estrutural e operacional do ensino técnico profissional, em voga no governo Cardoso.
Anterior a isso, o Brasil, para se “desenvolver”, principalmente nas décadas de 60 e 70, contou com forte presença do capital estrangeiro e com empréstimos fabulosos vindos dos organismos de créditos internacionais, o que fez com que contraísse uma grande dívida. Tal situação colocou o Brasil em uma posição de submissão em relação aos seus financiadores e sendo assim, com as sucessivas crises, a política nacional foi, cada vez
mais, se submetendo às orientações neoliberais. Essas orientações estão pautadas, basicamente, na redefinição do papel do estado. Nesse sentido, “o Estado administrador, provedor benevolente de recursos, deve ser substituído pelo Estado avaliador, incentivador e gerador de políticas de longo prazo” CEPAL18 (apud LIMA FILHO, 1999).
As modificações propostas vêm, sobretudo, ligadas à questão do financiamento. Constata- se que um dos pilares da reforma do estado foi o incentivo para que as instituições buscassem parcerias, ou que vendessem seus produtos com o objetivo de que, assim, pudessem se responsabilizar por sua manutenção. O PROEP19, por exemplo, passou a
financiar as instituições, no que se refere à estrutura física (prédios, instalações, equipamentos, etc.), e deixar sob a responsabilidade das mesmas a captação de recursos para a manutenção e pagamento de pessoal. Por outro lado, o Estado buscou avaliar todas as instituições, a fim de verificar a eficácia dos caminhos traçados pelas diferentes escolas em seu processo de formação, se tem ocorrido convergência dos perfis de formação, considerando a diversidade dos caminhos traçados e qual a qualidade da educação ministrada.
Um outro aspecto importante da reforma a ser enfatizado refere-se ao alinhamento do setor educacional com os setores empresariais. Como já visto anteriormente a reforma do Estado seguiu uma lógica mercantil e conseqüentemente, a educação, imersa no contexto da reforma do Estado, seguiu, em linhas gerais, pelo menos no que se refere à adotada pelo governo Central, o mesmo desiderato.
18 CEPAL, 1995, p.190.
A reforma da educação adotou, portanto, uma lógica organizacional baseada na eficiência e eficácia do mercado de trabalho. O papel da escola tende a ser definido em termos econômicos, como se ela engendrasse a capacidade de ser propulsora de maiores possibilidades ao trabalhador de ter sucesso no setor laboral.20
Nesse sentido, observa-se no interior dela uma tendência a se valorizarem conteúdos mais condizentes com as demandas do mercado, tendendo ao empobrecimento do conhecimento cientifico e humanístico, principalmente no que se refere à Educação Profissional.