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Esta dissertação fundamenta-se na teoria de Bourdieu, que prioriza a fundamentação histórica8 na construção teórica, fazendo pesquisa de forma empirista, ou seja, acredita que a pesquisa “apresenta-se como um programa de percepção e de ação só revelado no trabalho empírico em que se realiza” (BOURDIEU, 2002, p.59). É sua proposta desvendar os movimentos do espaço social escondidos dos olhares cotidianos, possibilitando pesquisar com profundidade os temas, sem necessariamente se afastar do local pesquisado. Sua proposta teórica convida o pesquisador a um “banho de realidade” na hora da pesquisa, “sem deixar o rigor científico no momento da análise, que deve ser metódica e resultado de trabalho dedicado” (DESAULNIERS, 1993, p.85).

Empreender uma pesquisa sobre as obras sociais maristas, tendo como caso exemplar o CESMAR, é analisar o campo religioso marista inserido no espaço social, um processo que considera as relações de poder entre os vários campos, como estrutura estruturante que, segundo Bourdieu, forma o habitus e produz capital simbólico. Perceber e investigar os caminhos, as relações que possibilitam a formação do habitus e conseqüentemente o capital simbólico exige do pesquisador muita atenção e disposição em aplicar métodos científicos adequados, que dêem resultado, ou como o próprio Bourdieu diz:“o método só se vê bem pelos resultados que produz e, quando é exigente, a sua aplicação requer muita inteligência e invenção e também muito trabalho”(BOURDIEU, 2002, p.60).

Utilizar a teoria de Bourdieu é procurar relativizar algumas posições dogmáticas da Sociologia tradicional e perceber que temos muito de irreal, ou “não concreto” nas

8 Conforme Bourdieu, Georges Canguilhem “produziu uma contribuição decisiva para a epistemologia

histórica ou, mais, para a historicização da epistemologia, para a análise rigorosa da gênese dos conceitos científicos e dos obstáculos históricos à sua emergência, sobretudo por meio de descrições clínicas das patologias do pensamento científico, das falsas ciências e dos usos políticos da ciência, em especial da biologia” (BOURDIEU,2005, p.58).

relações e trocas feitas constantemente entre os diversos campos, especialmente com o religioso que por vezes parece desconectado do espaço social, ou mesmo independente dele, talvez porque

a autonomia do campo religioso afirma-se na tendência dos especialistas de fecharem-se na referência autárquica do saber religioso já acumulado e no esoterismo de uma produção quase acumulativa [...] (BOURDIEU, 1974, p.38).

Entende-se que a pesquisa científica tem a preocupação de captar e demonstrar as relações do objeto investigado com o seu grau de inserção na realidade, mesmo que os dados contrariem a “análise visionária” do pesquisador. Desta forma, ele deve ser suficientemente astuto a ponto de construir possibilidades viáveis e que possam se opor ao convencional, ao dito como “correto” numa forma de “ruptura epistemológica, o que implica em ruptura com modos de pensamento, conceitos, métodos que têm a seu favor todas as aparências do senso comum” (BOURDIEU, 1989, p.49).

A problemática desta pesquisa foi construída a partir de um problema que, tensionado pela teoria, privilegia uma categoria central de análise, ao mesmo tempo que instiga a construção de um sistema de hipóteses. Operacionalizar tal dinâmica envolve um processo de desconstrução teórica, ou seja, desencadear procedimentos metodológicos em que a problemática se transforme em instrumentos de pesquisa, tais como: dimensões, indicadores, técnicas, etc. Assim, o pesquisador dispõe de ferramentas que lhe possibilitam categorizar, observar, mensurar o fenômeno a ser investigado com base no bom senso (teoria) e não no senso comum.

Para concretizar a pesquisa importa fazê-la utilizando várias fontes e recursos, mesmo que para tanto a pesquisa tenha que se constituir através das mais diversas formas, não só pela análise do pesquisador, que contará com suas constantes vivências, considerando que o objeto de pesquisa não lhe é desconhecido e tampouco estranho. O fato de o pesquisador estar inserido na organização como um de seus agentes, possibilita-lhe o acesso mais amplo a pessoas, dados e documentos mais restritos da unidade investigada, o que não dispensa uma constante vigilância

epistemológica para lhe garantir o rigor científico necessário ao trabalho que está sendo realizado.

Em outros termos, serão fundamentais os momentos de análise do subcampo pesquisado por meio de diálogos, entrevistas, comparações e mesmo de isolamentos para compreender e fundamentar a pesquisa, como meios de objetivação da pesquisa. O que exigirá do pesquisador, igualmente, um distanciamento para observar ações e jogos existentes entre os agentes pesquisados. É importante destacar o alerta feito por Bourdieu, de que

o fato de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto na análise, redobra uma dificuldade muitíssimo comum da análise sociológica, o perigo de as ‘intenções objetivas’, depreendidas pela análise, parecerem intenções deliberadas, estratégicas intencionais, projetos explícitos e, no caso particular, a intenção consciente ou quase cínica de preservar um capital simbólico ameaçado (BOURDIEU, 2005, p.96).

Bourdieu orienta o pesquisador para que sua presença seja intensa no meio pesquisado, inclusive no momento em que ele assume um determinado ponto de vista, sugerindo que se coloque:

[...] em pensamento no lugar que, escritor, pintor, operário ou empregado de escritório, cada um deles ocupava no mundo social: o sentimento de apreender uma obra e uma vida no movimento necessário de sua realização, [...] (BOURDIEU, 2005, p.134).

Uma pesquisa de “gabinete” pode tornar a análise sem sentimentos, ou mesmo sem “vida”, incapaz de perceber com profundidade o “porquê” da ação ou tomada de posição do agente.

A metodologia seguida nesta investigação privilegia a categoria central de análise: formação e a problemática de pesquisa, sob o foco constante da teoria de Bourdieu, através da operacionalização e sistematização da pesquisa efetuando a construção dos instrumentos de coleta de dados para o seu respectivo levantamento. Assim, espera-se dispor dos materiais necessários para a análise da problemática da pesquisa, pois “caso não se possa verificar pela experiência, verifica-se pela

multiplicação de observações. A ciência é a aventura da razão humana que tenta dialogar com os dados e os fatos” (MORIN; LE MOIGNE, 2000, p.147-148).