3.3. Veri Toplama Aracı
3.3.1. Teknolojik Pedagojik Alan Bilgisi Ölçeği
3.3.1.5. Verilerin Analizi
Se o universo ficcional do Sítio fornece-nos o modelo de líder para a metafórica nação que vinha construindo ao longo de suas páginas, não poderia furtar-se de também sugerir o modelo de cidadão desta nação. Como personagem mais notória da obra, Emília destaca-se tanto por características que poderiam ser consideradas “defeitos” de personalidade e “desvios” de caráter quanto pela sua postura criativa que, questionando o mundo, contribui para melhorá-lo.
Um desses “desvios” ou “defeitos” de Emília a situa no imaginário brasileiro da malandragem de seus cidadãos, acostumados ou obrigados ao notório “jeitinho” para resolver suas pendências. No entanto, não se trata da primeira personagem na literatura brasileira a representar essa condição social. Conforme nos mostra Antonio Candido, em Dialética da malandragem, o personagem Leonardo, de Memórias de um
sargento de milícias, é “[...] o primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira” (1982, p. 71). Comparando esse personagem com Emília, percebemos que os traços que o classificam como “malandro” também podem ser aplicados à personagem lobatiana. Ainda que haja uma distância temporal entre a publicação da referida obra de Manuel Antônio de Almeida e as infantis de Monteiro Lobato, a análise segue válida, uma vez que constatamos que a figura do malandro permeia o imaginário brasileiro, embora, nos dias de hoje, com modificações abissais.68 O que queremos
aqui, entretanto, é mostrar como a ideia de malandragem, à época de enunciação das obras lobatianas, é representada a partir da personagem Emília.
67 Apesar de Monteiro Lobato se ter posicionado em franca oposição a Vargas e ter sido preso durante o
seu regime ditatorial, certas características de Dona Benta, mesmo que remotamente, lembram o modo como o ex-presidente era conhecido popularmente, com o epíteto de o “pai dos pobres” e salvador do Brasil. De igual forma, Dona Benta é a líder que provém da elite agrária, como vários políticos da época.
68 Para os dias de hoje, falar em malandragem implica ir além, ocupando-se da marginalidade como outro
modo de navegação social. No entanto, não é o caso da personagem Emília, tampouco da época da enunciação da obra. Por isso, optamos por abordar apenas a questão da malandragem, que se aplica à personagem e à obra em questão.
Como já dizia a letra do samba Não tem tradução (1933), de Noel Rosa, contemporâneo de Lobato, “[...] tudo aquilo que o malandro pronuncia/ com voz macia é brasileiro, já passou de português”. Com certa frequência, observamos que a figura do malandro, aludida pela letra da canção, povoa o imaginário brasileiro como o que de mais nacional se tem, muito além da cópia cultural europeia e norte-americana69.
Paradoxalmente subtraídas e fundidas as figuras dos colonizadores — que aqui vieram de bom grado ou forçosamente — e dos povos pré-cabralinos, apagadas as diferenças regionais, carnavalizadas as visões estrangeiras acerca do festivo cidadão do sexo masculino brasileiro e personificadas as representações midiáticas desse mesmo cidadão, o que nos resta é o estereótipo do malandro. Personifica, assim, o que observa Roberto Goto:
No imaginário da sociedade nacional, costuma sintetizar certos atributos considerados específicos ou identificadores do brasileiro: hospitalidade e malícia, a ginga, a finta, o drible, a manha, o jogo de cintura muito apreciados no futebol e na política, a agilidade e a esperteza no escapar de situações constrangedoras ligadas ao trabalho e à repressão, o ‘jeitinho’ que pacifica contendas, abrevia a solução de problemas, fura filas, supre ou agrava a falta de exercício de uma cidadania efetiva (GOTO, 1988, p. 11, grifo do autor).
Na literatura, essa figura, que permeia o imaginário nacional, carregada dos atributos referidos por Goto, também se faz presente. Sobre ela, teorizou Antonio Candido em Dialética da malandragem, estudo qualificado por Roberto Schwarz como “[...] uma explicação surpreendente e bem argumentada do valor das Memórias de um
sargento de milícias” (SCHWARZ, (1987, p. 129). Trata-se da análise do personagem Leonardo, da referida obra de Manuel Antônio de Almeida (1852), refutando uma tese anterior segundo a qual seria ele classificado como um pícaro. Muito além disso, Candido vê em Leonardo a primeira representação literária do malandro nacional que povoa nosso imaginário, realizando “[...] uma síntese original de conhecimentos dispersos a respeito do Brasil” (Idem, p. 130). A partir do que se postula em Dialética da
malandragem, também podemos apresentar Emília como representante da malandragem nacional.
69 O problema da cópia é central na literatura brasileira, especialmente no Romantismo e para os
primeiros Modernistas, assunto abordado com propriedade por, entre outros, Schwarz (1987), em ensaio intitulado Nacional por subtração.
Em Dialética da malandragem, Antonio Candido afirma que o personagem Leonardo é “[...] o primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira vindo de uma tradição quase folclórica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca de seu tempo, no Brasil” ( CANDIDO, 1982, p. 71). Assim, no lugar da figura europeia do pícaro, temos a do malandro brasileiro, embora haja algumas características em comum entre os dois. Os traços de malandragem apresentados podem ser vistos também na construção da personagem Emília, de Lobato. Ainda que haja uma distância temporal entre a publicação da referida obra de Manuel Antônio de Almeida (1854, em livro) e as infantis de Monteiro Lobato (de 1920 a 1948), a aplicação segue válida, pois, como afirma Candido (2006, p. 83), “A literatura é, pois, um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a”. Essa ação de uma obra sobre a outra à qual se refere Candido justifica a análise que se seguirá, na medida em que se consideram esses conteúdos literários como componentes do amálgama das representações da brasilidade tão buscada por nossos escritores, especialmente a partir do início do século XX.
As aproximações entre os malandros Leonardo e Emília iniciam-se em suas origens humildes, apadrinhados por pessoas de melhor condição social. Emília foi feita com o tecido de uma saia velha de Tia Nastácia e recheada com macela, “[...] uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo [...] com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa.” (LOBATO, 2007, p.12). O fato de ser feita de sobras de uma empregada da casa situa Emília no mais baixo patamar social entre os habitantes do Sítio. Porém, à semelhança da proteção que Leonardo, personagem de Manuel Antônio de Almeida, recebe do Padrinho e da Madrinha, Emília é protegida por Narizinho, que “[...] gosta muito dela; não almoça nem janta sem a ter ai lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha entre dois pés de cadeira.” (Idem, p. 12).
No entanto, na sucessão das obras infantis lobatianas, a personagem transcende essas origens humildes. Busca ascensão social em diversas peripécias, o que, de certa forma, acaba por atenuar suas origens humildes. Essa atenuação das origens humildes reforça a ideia corrente de malandragem: a origem pode ser humilde, mas a sorte e a
esperteza lhe garantem, pelo menos, uma aparência de pertencimento a uma classe superior. É o que todo malandro objetiva: ascender socialmente. Para isso, precisa, ao menos, parecer bem posicionado.
Para que essa intenção de ascensão social seja levada a termo, conforme Candido, o malandro — que já “[...] nasce malandro feito, como se tratasse de uma qualidade essencial, não um atributo adquirido por força das circunstâncias” (CANDIDO, 1982, p. 69) — conta com a ajuda de outros. Para que Emília saísse da condição de boneca muda, contou com a ajuda de Narizinho, que intermediou o tratamento com as pílulas falantes do Dr. Caramujo, como se vê em Reinações de Narizinho. Esse fato eleva à Emília à categoria de ente humano, ultrapassando a condição de boneca de trapos. Como enuncia Tia Nastácia à Dona Benta, “Se eu imaginasse que ela ia aprender a falar, eu tinha feito ela de seda, ou pelo menos dum retalho daquele seu vestido de ir à missa” (LOBATO, 2007, p. 37). A fala de Tia Nastácia explicita o deslocamento social que a apropriação da palavra proporciona a Emília.
A apropriação da fala alia-se à dotação de títulos de nobreza à boneca. Primeiramente, Narizinho intitula a protegida de Condessa de Três Estrelinhas. Depois, arranja o casamento com o suposto Marquês de Rabicó pois, nas palavras da menina, dirigindo-se a Emília,“[...] se você casar-se com ele começa já a ser marquesa e um dia virará princesa. Não pode haver futuro mais bonito para uma coitadinha que nasceu na roça e nem em escola esteve”. (LOBATO, 2007, p. 80).
Assim, Emília, na medida em que conquista a fala, também conquista voz. Contudo, não é apenas essa voz a catapulta das origens humildes para a aristocracia. Malandra, vai dando seu “jeitinho”, no sentido que povoa o imaginário brasileiro, para que conquiste seu espaço e ali permaneça. Um exemplo disso ocorre quando descobre — e desmaia ao saber — que seu noivo Rabicó não era Marquês. Mesmo assim, não deixa de ostentar o título nobiliário angariado por meio desse arranjo. Cumprindo o acordo pré-nupcial de que não morará com seu marido “enquanto ele não virar príncipe novamente” (LOBATO, 2007, p. 79), ficou felicíssima com a enganosa notícia de que o falso ,marquês fora assado por Tia Nastácia para o jantar de ano novo, pois “Estava viúva! Podia finalmente casar-se com o Visconde de Sabugosa ou outro fidalgo qualquer” (Idem, p. 89). Apesar da atitude reprovável, que, de resto, não é a única,
Emília segue admirada pelos demais habitantes do Sítio, à semelhança do que descreve Candido em “Dialética da malandragem”, acerca da já citada obra Memórias
de um sargento de milícias:
O cunho especial do livro consiste em certa ausência de juízo moral e na aceitação risonha do ‘homem como ele é’, mistura de cinismo e bonomia que mostra ao leitor uma relativa equivalência entre o universo da ordem e da desordem; entre o que se poderia chamar convencionalmente o bem e o mal (CANDIDO, 1982, p. 78-79, grifo do autor).
No caso de Emília, transcende-se o plano da aceitação “da boneca como ela é”, partindo para o terreno da admiração. Ela vai passando da condição de boneca à de gente, fato que é registrado claramente nas reflexões de Dona Benta em O poço do
Visconde:
Dona Benta ficou pensativa. Que mistério, a Natureza! [...] E o que ela observava naquele Sítio também a punha atrapalhada, com as ideias zonzas. Tudo coisas que só vendo. Contadas lá fora ninguém acreditaria. O fenômeno Emiliano, por exemplo.
Emília nascera simples boneca de pano, morta, boba, muda como todas as bonecas. Mas misteriosamente se foi transformando em gentinha. Todos ainda a tratavam de boneca, por força do hábito apenas, porque na realidade Emília era gente pura, de carne. Fazia tudo o que as gentes fazem — comia com ótimo apetite, bebia, pensava, tinha um coraçãozinho lá dentro, e alma e tudo. Como explicar esse mistério, essa transformação de uma feia boneca de pano em gente? (LOBATO, 2010c, p. 110-111, grifo nosso).
No excerto em destaque, a superação de condição de simples boneca de pano é alçada ao plano de “fenômeno Emiliano”, mostrando, pelo emprego dessa expressão, que essa transformação é tida como algo extraordinário. Ou seja, em uma sociedade em que a mobilidade entre as classes sociais é uma falácia, Emília representa e protagoniza a ascensão improvável. Por isso mesmo é que a figura de Emília malandra, antes de ser culpabilizada pelos seus malfeitos, é festejada. Isso ocorre porque, à semelhança do que afirmou Candido, Emília faz “[...] coisas que poderiam ser qualificadas como reprováveis, mas faz também outras dignas de louvor, que as compensam. E como todos têm defeitos, ninguém merece censura” (CANDIDO, 1982, p. 84).
Essa ausência de censura em razão de os defeitos serem comuns a todos é uma hipótese para a explicação do sucesso da personagem Emília — para leitores de
Lobato e ainda mais para os espectadores do seriado televisivo, do qual trataremos a partir do próximo capítulo. Corporificando os conteúdos tácitos que cercam o imaginário a respeito da malandragem, a personagem provoca uma espécie de empatia, como se dissesse ou fizesse aquilo que os leitores/espectadores também gostariam de dizer ou fazer. Ocorre, assim, exibição pública da malandragem, acentuando certos valores e comportamentos, eximindo o leitor da culpa e dirigindo-o ao gozo do ver-se representado, pois, como acontece com a personagem analisada por Candido, por meio “[...] da figura do malandro, as relações entre ficção e realidade são de senso comum” (SCHWARZ, 1987, p. 138).
Essa admiração pela figura de Emília se dá pela sua esperteza, pelo seu espírito contestador, pela sua sinceridade enviesada, pela sua criatividade e até mesmo pelos seus sentimentos, embora tivesse “[...] um coraçãozinho sério, que ‘pensava que nem uma cabeça’.” (LOBATO, 1997, p. 26). Em A reforma da natureza, por exemplo, a malandragem, o espírito contestador e a criatividade da personagem se fazem notar com particular clareza. Nessa obra, Emília cria a possibilidade de ficar sozinha no Sítio, mentindo para Dona Benta que não a podia acompanhar à Conferência de Paz na Europa para não dar escândalo, e, finalmente, colocar em prática seus planos de reformar a natureza. Narizinho, no entanto, percebe que a desculpa dada por Emília a Dona Benta se trata de um plano para que a boneca ficasse sozinha no Sítio e assim a denuncia à avó:
— Isso é história dela vovó! Emília até gosta de escândalo. Quer ficar sozinha eu sei para que é — para sapecar à vontade, fazer alguma coisa ainda mais maluca do que aquela da Chave do tamanho. Eu, se fosse a senhora, não a deixava aqui sozinha (LOBATO, 2010a, p. 16).
As palavras de Narizinho dão conta do caráter contestador e excêntrico de Emília. Ao fazer referência ao episódio de A chave do tamanho, o trecho reforça a caracterização da inquietude e do espírito combativo de Emília. Somando-se essas duas obras a Emília no país da gramática, vemos que, em certos momentos, mais do que simplesmente uma malandra que pretenda uma existência com o máximo de prazer e bem-estar advindo do mínimo de trabalho e esforço (DAMATTA, 1986), há vontade de reformar o mundo não só em benefício próprio. O egoísmo de Emília, embora bastante acentuado, nem sempre é o motor exclusivo de seus atos. Em A chave do tamanho, a
razão que move Emília a buscar a Casa das Chaves para procurar a chave da guerra a fim de desligá-la é assim apresentada:
Aquela tristeza de Dona Benta andava a anoitecer o Sítio do Picapau Amarelo, outrora tão alegre e feliz. E foi justamente essa tristeza que levou Emília a planejar e realizar a mais tremenda aventura que ainda houve no mundo. Emília jurara consigo mesma que daria cabo da guerra e cumpriu o juramento — mas por um triz não acabou também com a humanidade toda.
[...] Quem entrasse em sua cabeça, leria um pensamento assim: ‘Esta guerra já está durando demais, e se eu não fizer qualquer coisa os famosos bombardeios aéreos continuam, e vão passando de cidade em cidade, e acabam chegando até aqui’ (LOBATO, 1997, p. 9, grifo do autor).
A tristeza à qual o trecho se refere diz respeito aos sentimentos de Dona Benta, que se entristece em relação aos acontecimentos da II Guerra, embora eles se passem longe do Sítio, como bem observa Narizinho à avó.70 Já Emília não tem tamanho senso
humanitário: sua motivação advém da tristeza de quem ela pode ver, que é Dona Benta, e do clima que sente no Sítio. Por outro lado, o uso do pronome “eu” em itálico colabora para a leitura de que Emília só vai em busca da chave para desligar a guerra porque seus desdobramentos podem atingi-la. Dessa forma, nessa passagem, embora o egoísmo de Emília continue existindo, a personagem não deixa de se mobilizar frente aos sentimentos de Dona Benta.
O referido excerto também mostra o quanto Emília é criativa na resolução dos problemas que a afligem. Para chegar à Casa das Chaves, usou, às escondidas, enquanto Visconde dormia, cansado do trabalho, o superpó que o sábio andava desenvolvendo. Ou seja, valeu-se de conhecimentos de um amigo para obter benefícios próprios, em uma estratégia similar à que DaMatta (1986) menciona sobre a “malandragem” e o “jeitinho” no Brasil, há situações em que cada um se salva como pode, utilizando também para isso as suas relações pessoais.
Roberto DaMatta (1986), acerca da malandragem, também afirma que esta seria a arte de sobreviver às situações mais difíceis que se apresentam. E nisso Emília é mestra. Um exemplo disso temos em A chave do tamanho, em que Emília, depois de
70 Essa observação da neta, ao mesmo tempo em que representa o remoto envolvimento do Brasil (e, por
extensão, do Sítio) na II Guerra Mundial, também ressalta as características solidárias e humanitárias da avó. Essa caracterização vem ao encontro do que falamos no tópico anterior sobre as características que fazem de Dona Benta uma líder singular.
ter sido reduzida a um centímetro de altura, consegue se livrar dos mais diversos perigos pela sua esperteza e pela sua capacidade de adaptação. É o que ela diz, nessa mesma obra, à Dona Nonoca, mãe de Juquinha e Candoca, a quem ajuda a salvar:
— Chorar não adianta, Dona Nonoca. O que temos de fazer é nos adaptar. [...]
— Adaptar-se quer dizer ajeitar-se às situações. Ou fazemos isso, ou levamos a breca. Estamos em pleno mundo biológico, onde o que vale é a força ou a esperteza (LOBATO, 1997, p. 24, grifo do autor).
A ideia de adaptação, ressaltada em itálico no excerto, é reiterada mais adiante pela personagem, que se autodefine: “Felizmente, eu não sou boba. Percebo as coisas muito bem. Penso em tudo e ‘adapto-me’, como diz Visconde” (Idem, p. 28, grifo do autor). Esse excesso de autoconfiança, no entanto, evoluiu para a arrogância, para a extrapolação de quaisquer limites e para a negação do poder das autoridades. Um exemplo disso temos ainda em A chave do tamanho, quando Emília não reconhece o erro que cometeu ao mexer na chave errada:
— Quer então a senhora que eu deixe o mundo como estava, dividido em duas partes, uma matando a outra, bombardeando as cidades, escangalhando tudo? Ah, isso é que não. Ou acabo com a guerra e com esses ódios que estragam a vida, ou acabo com a espécie humana. Comigo é ali, na batata.
A arrogância daquelas palavras era uma coisa incrível (Idem, p. 64, grifos nossos).
A arrogância de Emília, como se não fosse percebida por suas palavras, é textualmente marcada nas palavras do narrador, conduzindo a interpretação. Ela se vê dotada de poderes, já que ela é quem controla o único que não fora diminuído, o Visconde, e dela dependem os destinos da humanidade. Essa arrogância também é construída na brecha da lei, pois se diz imune a punições pelo seu erro, já que se vale do preceito ouvido de que “[...] Não havendo intenção, não há culpa, como disse Dona Benta outro dia. E por isso estou de cabeça levantada, pronta para aparecer diante de todos os tribunais do mundo. Quero vem quem me condena” (LOBATO, 1997, p. 64, grifo nosso). Assim, Emília, manipulando preceitos legais, desafia os tribunais. Também se vale, em alguns momentos, de sua condição de boneca — embora se saiba que já virara gente — para ser imune às regras do mundo convencional.
As autoridades constituídas também não intimidam Emília. Antes de resolver a situação da diminuição em A chave do tamanho, quer se assegurar de que a II Guerra não continue depois de ligar novamente a chave. Para tanto, procura o “Grande Ditador” de bigodes na Alemanha, em clara referência a Hitler. Faz ameaças de que, se depois que o Tamanho voltar a guerra continuasse, “alguém” desceria a chave de uma vez e ele ficaria reduzido a 4 milímetros e seria “[...] devorado pelas moscas e pulgas” (Idem, p. 68). Arremata a ameaça com um “Está entendendo?”. Hitler quer falar, mas Emília o cala: “— Não diga nada, meu senhor. Quem fala agora sou eu. Quero todos muito direitinhos e humildes. Esta semana de ‘redução’ não passa duma advertência que o tal ‘alguém’ faz ao mundo. Compreende?” (Ibidem). Nesse momento, Emília estava em situação de vantagem em relação ao ditador, em um procedimento semelhante ao que DaMatta (1986) destaca sobre a malandragem no Brasil: assim como algumas pessoas se valem de tráfico de influências para perguntarem “Sabe com