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3.3. Veri Toplama Aracı

3.3.2. Gözlem

Apesar de o Sítio ter sido o ambiente ideal para que Emília pudesse trilhar esse percurso de ascensão, os papéis de cada um dos habitantes é bem delimitado, como descreve o trecho de O Picapau Amarelo em que Visconde e Quimera conversam:

— Quem é o rei ou a rainha daqui? — perguntou.

— Não há disso por cá. Somos uma democracia. Há Dona Benta, que é a Tesoureira, ou a Dona. Há dois príncipes herdeiros: Narizinho e Pedrinho. Há a Lambreta-Mor, que é uma tal Marquesa de Rabicó. Há o Ministro da Defesa Nacional, que é o Marechal Quindim. Há a Provedora-Mor das Comidas, que é a Tia Nastácia. Há o Sábio dos Sábios, que é o ilustríssimo Senhor Visconde de Sabugosa... (LOBATO, 2010b, p. 35).

Como podemos perceber, o trecho dá conta do papel de cada um no Sítio. Além disso, observamos que, apesar de se negar a existência de reis e de rainhas ali, há evidentes referências ao sistema monárquico pelos títulos dados aos habitantes. Tais referências se devem não apenas ao fato de a pergunta da Quimera envolver esse sistema de governo — e assim a resposta de Visconde se balizar pelos padrões conhecidos por sua interlocutora — mas também ao fato de a República ainda ser um fato histórico recente no Brasil à época de enunciação da obra (1939), contando com

apenas 50 anos. De todo o modo, no imaginário popular brasileiro, até hoje, pululam as figuras de reis, rainhas e príncipes em toda a sorte de atividades.

No entanto, o claro estabelecimento de papéis não significa tampouco garante que esses mesmos papéis traduzam igualdades sociais. Ao contrário: apesar de todos terem voz e vez no Sítio, o modo como suas vozes ecoam, com maior ou menor volume de autoridade e a forma como participam do cotidiano do Sítio revelam algumas desigualdades, especialmente se considerarmos a personagem Tia Nastácia e o modo como alguns dos habitantes se referem ao povo. Isso surge de modo bastante claro, por exemplo, em Histórias de Tia Nastácia, quando os habitantes do Sítio comentam as histórias contadas pela personagem que dá título à obra.

Em Histórias de Tia Nastácia, até mesmo Dona Benta, representada, em outros momentos, como a personificação da democracia, juntamente a Emília, Pedrinho e Narizinho, tece comentários que situam esses habitantes do Sítio como uma elite divorciada do povo. Isso porque falam do povo como uma entidade abstrata e distante, cujo gosto e cujas tradições são menosprezadas ao final de muitas das histórias narradas por Tia Nastácia. O próprio desejo inicial de Pedrinho de “[...] espremer Tia Nastácia para tirar o leite do folclore que há nela” (LOBATO, 2009a, p. 12), sendo a personagem, para o menino, a representante do povo, já dá a ideia de exploração e marca o modo como Pedrinho exclui-se do povo. Além disso, sobre a primeira história, o menino observa que “A gente deve conhecer essas histórias como um estudo da mentalidade do povo” (Idem, p. 18), enunciado que corrobora a construção da imagem desse habitante do Sítio como pertencente a uma elite isolada, que não compartilha das ideias populares por não travar relações mais próximas com pessoas de outras classes sociais. Em relação a essa primeira história, Emília, por sua vez, diz que “Essas histórias folclóricas são muito bobas. [...] Por isso é que não sou democrática. Acho o povo muito idiota”. (Ibidem). Narizinho, de forma mais diplomática, concorda com Emília, dizendo que “Depois que li o Peter Pan, fiquei exigente demais” (Ibidem). Trata-se, na verdade, de três formas distintas de dizer o mesmo: que Narizinho, Emília e Pedrinho não se consideram pessoas do povo e que o olham como algo exótico (no caso de Pedrinho), com menosprezo (no caso de Emília) ou com indiferença (no caso de Narizinho, que prefere as histórias estrangeiras).

Já Dona Benta, ainda em relação a essa primeira história, contrariando a representação de democrata construída em outras obras, mostra-se orgulhosa das discussões empreendidas pelos seus netos e por Emília: “— Vê, Nastácia, como está ficando esse meu povinho? Falam como se fossem gente grande, das sabidas.

Democracia pra cá, folclórico para lá, mentalidade... Neste andar meu Sítio acaba virando Universidade do Picapau Amarelo” (Ibidem, grifos do autor). Dona Benta, nessa fala, em que se destacam palavras e conceitos discutidos em esfera acadêmica, não demonstra preocupação com o caráter discriminatório e antidemocrático do pensamento do “seu povinho”. Pelo contrário: ao se orgulhar do modo quase acadêmico com que falam, deixando os pressupostos ideológicos em segundo plano, contribui para afirmar o caráter elitista do grupo. Outro fator que vem somar-se na construção do caráter elitista é o fato de admirar o “bem falar”, ou seja, a adequação aos padrões da norma culta, em oposição às construções populares, testemunhando uma cultura de prestígio aos “doutores” e “bacharéis”, que até hoje encontra eco em nosso meio.

De modo ingênuo, mas confirmando o caráter excludente e elitista das considerações sobre essa primeira história, Tia Nastácia responde da seguinte forma à Dona Benta:

— Emília já disse que a culpa é sua, sinhá. A senhora vive ensinando tantas coisas dos livros que eles acabam sabidões demais. Eu até fico tonta de lidar com esta criançada. Às vezes, nem entendo o que me dizem. Ontem o Visconde veio para cima de mim com uma história de ‘rocha sedimentária’, ou coisa assim, que até eu tive que tocar ele lá da cozinha com o cabo da vassoura. Já não percebo nem uma isca do que o Visconde diz... (Ibidem).

Assim, com as palavras de Tia Nastácia, percebemos ainda mais claramente a tensão entre a cultura formal e a popular, e a valorização daquela em detrimento desta. Além disso, apesar de Tia Nastácia conviver sob o mesmo teto das crianças que aprendem “coisas dos livros”, não tem acesso a esses mesmos conhecimentos. O fato de a personagem enxotar o Visconde da cozinha – que pode representar um espaço de opressão de gênero e de classe, com uma vassoura, outro provável símbolo de opressão e segregação social – é emblemático: mostra o lugar que ocupa na estratificação social do Sítio.

No entanto, a segregação social e racial não acontece apenas nessa passagem da obra (e, tampouco, apenas nessa obra). À personagem Tia Nastácia — e, por extensão, ao povo — são tecidas críticas de diversas ordens. O trecho abaixo, nesse sentido, sintetiza essas críticas:

— Sim — disse Dona Benta. — Nós não podemos exigir do povo o apuro artístico dos grandes escritores. O povo... Que é o povo? São essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes e passá- las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda (Idem, p. 27).

Desse modo, não só as histórias populares são desqualificadas, mas o povo em si, que é considerado pela “democrática” Dona Benta como incapaz de expressões artísticas legítimas. A legitimidade de suas manifestações culturais também é negada a “essas pobres tias velhas” que constituiriam o povo, uma vez que, do ponto de vista da proprietária do Sítio, pelo fato de não estarem de posse da cultura formal e elitizada, não teriam cultura alguma. O fato de essas histórias serem da ordem da oralidade, já que suas transmissoras não tiveram acesso à alfabetização, também é visto como algo negativo. Essa postura de Dona Benta, no entanto, encontra eco no contexto de enunciação da obra, que foi publicada pela primeira vez em 1937. O gosto literário popular ainda se calcava em modelos rígidos e repetitivos, à moda parnasiana e estrangeira. Além disso, Tia Nastácia — e, de resto, as massas populares — representavam a herança do Brasil agrário e estagnado que se queria esconder, especialmente aos olhos estrangeiros. A seguinte afirmação de Emília arremata e confirma esse pensamento:

— É o que eu digo — ajuntou Emília. — O povo, coitado, não tem delicadeza, não tem finuras, não tem arte. É grosseiro, tosco em tudo o que faz. Este livro vai ser só das histórias populares do Brasil, mas depois havemos de fazer um só de histórias compostas por artistas, das lindas, cheias de poesia e mimos — como aquela do Príncipe feliz, do tal Oscar Wilde, que Dona Benta nos leu. Aquilo sim. Até deixa a gente leve, leve, de tanta finura e beleza (Idem, p. 49).

A fala de Emília confirma a desvalorização das histórias populares em prol de obras estrangeiras, mostrando claramente a tensão entre a cultura formal e letrada e a popular e oral. No entanto, o menosprezo também se dá por questões raciais. Embora

se entenda o contexto de abolição historicamente recente, da falta de condições para que os afro-descendentes pudessem usar da liberdade decretada de forma efetiva, as obras lobatianas representam, por meio dos desaforos de Emília à Tia Nastácia, o racismo que havia na sociedade da época e que continua, de forma velada, até os dias de hoje — prova disso é a necessidade de se criar, no Brasil, lei que criminaliza o preconceito racial. Como Emília é a personagem desbocada, mandona, malandra da obra, os xingamentos à Tia Nastácia, hoje, podem ser entendidos como forma de denúncia a uma realidade que, infelizmente, ainda nos acompanha, mas que, sendo negada e escondida, acaba por existir de modo sub-reptício. De toda forma, ao leitor de hoje, causa espécie ler expressões como “Bem se vê que é preta e beiçuda” (Idem, p. 90).

Benzer Belgeler