3. Bölüm Yöntem Yöntem
3.3. Veri Toplama Araçları
A Escola que começava buscando os ideais freireanos, no desejo de constituí-la com e para seus sujeitos, passamos a sentir necessidade de buscar outras experiências. Em uma doação de livros recebida, eis que se põe em nossas mãos um livro de Rubem Alves
31 intitulado: ‘A escola com que sempre sonhei sem jamais pensar que existisse’. Quando comecei a ler o livro, achei que seria uma boa sugestão para nossos encontros de formação. E foi aí que conhecemos a Escola da Ponte, uma escola, localizada em Vila das Aves, na cidade do Porto, em Portugal.
A forma como o Rubem Alves descreve a escola passava a nos encantar e a desenvolver um desejo enorme de adaptá-la à nossa realidade.
Quando lia que ali, ninguém tinha a necessidade de elevar a voz para se fazer ouvir, que todos tinham vez e voz; que as crianças não eram educadas para ranquicisações e competição, mas para a solidariedade, a entreajuda, a partilha e que as pulsões do individualismo, do egoísmo, da agressividade comportamental, gerando a temida e indesejada indisciplina, estavam quase ausentes do cotidiano da escola, me fazia acreditar que era possível trazer essa realidade para perto de nós.
Na Escola da Ponte, todos os seus membros são agentes do processo, se configurando numa comunidade democrática e autorregulada. Democrática no sentido de que o processo de construção e decisão era coletivo e, autorregulada, porque todas as normas e regras eram decorridas das necessidades inerentes ao pensar coletivo, cuja meta era a construção de um ambiente amigável e solidário de aprendizagem.
De acordo com Alves (2001, p. 15), “mais do que um projeto de educação para a cidadania, o que verdadeiramente distingue a Escola da Ponte é uma práxis de educação na cidadania”. E acrescenta:
O sentimento profundamente arraigado no indivíduo de pertença a uma comunidade e a consciência de que dele decorre dos direitos e deveres que nos ligam aos outros não se aprendem nas cartilhas ou nos manuais de civismo, mas na experiência cotidiana de relacionamento e colaboração com os que estão mais próximos de nós. O civismo não se ensina e não se aprende – simplesmente (como diria o publicitário Fernando Pessoa) “entranha-se”, isto é, organiza-se e pratica-se no dia a dia, de uma forma permanente, consistente e coerente. E é da prática do civismo que resultam a aprendizagem e a consciência da cidadania. Há muito que a Ponte o percebeu – e que age em conformidade (ALVES, 2001, p.15).
Essa educação na cidadania, impregnada no todo da Escola da Ponte, delineia sua identidade no paradigma de uma escola sem seriação ou anos, sem aulas, sem turmas, sem testes para avaliar o aluno, sem livros didáticos como manual único para os alunos, sem toques de campainha, nem tampouco com professores ministrando um programa imposto em sua disciplina específica. Cidadania vista na autonomia da construção do conhecimento, onde
32 as crianças, em grupos, elaboram quinzenalmente seus planos de trabalho e determinam os objetivos de aprendizagem, organizam seus roteiros de estudo, elaboram relatórios e avaliam suas descobertas.
Percebe-se, na Escola da Ponte, descrita por Rubem Alves, que o currículo não é algo pronto, instituído, devendo ser repassado, pelo professor, para o aluno. Ele se evidencia como uma construção coletiva, onde o papel do educador é o de acompanhar, orientar e fortalecer o percurso de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal e comunitário de cada aluno. Assim, o programa passa de um “cardápio” de saberes organizados e instituídos hierarquicamente por estâncias superiores, invisíveis à escola, distanciados da realidade e interesse dos alunos, para uma construção que nasce das perguntas que os sujeitos constituintes do espaço escolar fazem, na relação dialógica que permeia todo o fazer pedagógico, na linguagem entendida como instrumento de transmissão do pensamento, como meio de comunicação e processo de interação, na construção de um ensino-aprendizagem colado à vida.
Essa experiência demonstra um andar na direção contrária da sociedade capitalista, onde a escola acaba por assumir um espaço de reprodução do status quo, da ideologia dominante, do sistema econômico-social e político vigente. Para Alves:
Nossas escolas são construídas segundo o modelo das linhas de montagem. Escolas são fábricas organizadas para a produção de unidades biopsicológicas móveis, portadoras de conhecimentos e habilidades. Esses conhecimentos e habilidades são definidos exteriormente por agências governamentais a que se conferiu autoridade para isso. Os modelos estabelecidos por tais agências são obrigatórios, e têm a força de leis. Unidades biopsicológicas móveis que, ao final do processo, não estejam de acordo com tais modelos são descartadas. É a sua igualdade que atesta a qualidade do processo. Não havendo passado no teste de qualidade, elas não recebem os certificados de excelência ISO-12.000, vulgarmente denominados diplomas. As unidades biopsicológicas móveis são aquilo que vulgarmente recebe o nome de “alunos” (ALVES, 2001, p. 36).
Pela leitura realizada sobre a Escola da Ponte, percebe-se todo o encantamento do Rubem Alves, como que a realizar-se por conhecer algo que apenas existia enquanto ideal, sonho. A linguagem descritiva e poética nos convida o tempo todo sentirmo-nos na escola e a fazermos parte dela.
Um convite a lutar, a buscar outro jeito de fazer educação, quando olhamos para nossas escolas tão frias e sem vida para seus sujeitos, como um caminho nessa nossa vida de educador/a diante de nossas “retinas já tão fatigadas” com esse modelo de linha de montagem,
33 com essa produção de unidades biopsicológicas móveis, cujos resultados têm levado ao individualismo, à competitividade e à infelicidade.
Os fins da educação deveriam ser determinados pelas necessidades sociais em constante transformação histórica.
O ter não tem sido sinônimo da felicidade. A realização como pessoa, os saberes da vida passam também pelo afetivo, pelo emocional, pelo desejo. Pelo afetivo, somos seres de relação, nos reconhecemos e nos encontramos no outro, eu existo porque o outro existe. Freud revolucionou a subjetividade ao nos mostrar que não somos o senhor em nossa própria casa e Lacan desfez a ilusão de totalidade, afirmando que somos onde pensamos não ser e a miragem da unidade do eu, mostrando que o eu é, antes de qualquer coisa, o outro.
Essa indissociabilidade entre o eu e outro, das identificações e das relações duais, do imaginário e do simbólico, movidas pelas forças consciente e inconsciente, constituintes do ser, nos faz um ser de conflitos e de desejos, de carências e de prazer, de presenças e ausências.
A afetividade presente na Escola da Ponte se caracteriza como um importante instrumento pedagógico na busca do equilíbrio e do autoconhecimento, que promove a autonomia e proporciona a autoestima e o amor-próprio, necessários para a construção da identidade individual e social. Autonomia vista na constituição das regras e termos de convivências estabelecidos pelas crianças, da decisão de ouvirem música enquanto estudam, de instituir assembleias para tratar dos problemas surgidos na comunidade escolar. O diálogo é elemento fundante da coletividade, bem como a cooperação. As crianças que sabem ensinam as crianças que não sabem. Colocando-se sempre disponível as habilidades e competências em função do outro.
Assim, aprendizagem e ensino são indissociáveis, expressão de solidariedade e de um empreendimento comunitário, de um desejo partilhado. Desejo, que sendo da ordem do inconsciente, representante de uma falta de satisfação absoluta, nos torna sempre sonhadores, na busca do objeto desejado, embora jamais saciado.
Esse desejo que nos move e cujo ato de aprender acontece em resposta a ele, como diz Alves (2001, p, 58), é também a força motriz dessa intersecção de olhares, que nos remete a buscar outras experiências, como a de Anton Makarenko, na Colônia Gorki e na Comuna Dzerjinski.
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