2. VERİ MADENCİLİĞİ
2.3. Veri Tabanlarında Bilgi Keşfi Süreci
A readequação dos paradigmas sólido-modernos provocaram uma modificação no conceito de comunidade que antes permeava a sociedade. A abertura dos espectros, ao mesmo tempo que possibilitava uma liberdade maior para os indivíduos, também os deixava mais “soltos” e sem ter no que “se agarrar”. Para Bauman, Jock Young condensa essa modificação de forma sucinta: “[...] precisamente quando a comunidade entra em colapso, a identidade é inventada”. Para ele, a necessidade pungente do indivíduo se auto-afirmar como um ser único e especial, ao mesmo tempo que precisa se sentir pertencente a uma comunidade, mesmo que em menor grau, é uma das consequências das aberturas da sociedade líquida.
Os laços sociais e as formas de parcerias passam a ser tratados como passíveis de serem consumidas, e não elaboradas e desfrutadas. As diretrizes das relações sociais contam agora com os mesmos critérios de avaliação de todos os outros objetos de consumo. O que dá valor às coisas não é “o suor necessário à sua produção (como diria Marx), ou a renúncia necessária para obtê-las (como sugeriu Simmel), mas um desejo em busca de satisfação” (p. 117), e a partir disso, fica claro que para criar valor para algo, basta criar uma intensidade suficiente de desejo. A sociedade de consumo, como já vimos, produz consumidores, inclusive e acima de tudo.
Bauman relaciona o imediatismo da modernidade líquida com a cadeia de desejos do indivíduo como ser-consumidor. A ampliação de possibilidades de consumos torna o desejo de satisfação muito maior que a real possibilidade de concretizá-lo. Sobre isso:
Pessoas inseguras tendem a ser irritáveis; são também intolerantes com qualquer coisa que funcione como obstáculo a seus desejos; e como muitos desses desejos serão de qualquer forma frustrados, não há escassez de coisas e pessoas que sirvam de objeto a essa intolerância. Se a satisfação instantânea é a única maneira de sufocar o sentimento de insegurança (sem jamais saciar a sede de segurança e certeza), não há razão evidente para ser tolerante em relação a alguma coisa ou pessoa que não tenha óbvia relevância para a busca da satisfação [...] (BAUMAN, 2001, p. 189).
Porém, ao mesmo tempo que a emancipação de uma camada da sociedade foi efetivada, a supressão de outra foi ainda mais longe. Não é como se a abertura da sociedade se desse de uma maneira democrática e livre, principalmente levando-se em conta a forma como o sistema capitalista exerce sua influência. Se estabelece um cenário de tantas possibilidades que se cria a imagem de que todos podem postular um lugar na sociedade de consumo. Todos são passíveis de serem atendidos na sua condição de consumidor. A meritocracia é implantada como uma forma de “democratizar” as postulações hierárquicas dentro da sociedade líquida, como se elas já não fossem necessariamente muito distantes entre si para serem alcançadas. Para Bauman, a “ideia de que o mérito, e só o mérito, deve ser premiado é prontamente transformada numa carta autocongratulatória com que os poderosos e bem-sucedidos atribuem generosos benefícios a si próprios a partir dos recursos da sociedade”. Essa abertura de “possibilidades” e sua suposta democratização fazem com que a sociedade na qual a “incapacidade de exibir alguma capacidade especial é tratada como base suficiente para a condenação a uma vida de submissão” (2008, p. 56).
Bordieu já observava que “o estado de permanente precarité - insegurança quanto à posição social, incerteza sobre o futuro de sobrevivência e a opressiva sensação de ‘não segurar o presente - gera uma incapacidade de fazer planos e seguí- los” (p. 42), ou seja, é cada vez mais difícil, na modernidade líquida, elaborar planos a médio e longo prazo. A impossibilidade de uma visão mais clara do horizonte obriga as pessoas a se cercarem de todas as suas possibilidades dentro do agora. O imediatismo é a regra e o presente parece se adonar do futuro.
Essa urgência afeta também as construções de comunidade e de vida em sociedade, visto que são noções que foram construídas dentro de um longo período de tempo. As “comunidades líquidas” estão prontas para serem firmadas dentro de uma lógica urgente, e que possa ser igualmente desfalecida, se for preciso. Sobre isso:
Em suma: foi-se a maioria dos pontos firmes e solidamente marcados de orientação que sugeriam uma situação social que era mais duradoura, mais segura e mais confiável do que o tempo de uma vida individual. Foi-se a certeza de que “nos veremos outra vez”, de que nos encontraremos repetidamente e por um longo porvir - e com ela a de que podemos supor que a sociedade tem uma longa memória e de que o que fazemos aos outros hoje virá a nos confortar ou perturbar no futuro; de que o que fazemos aos outros tem significado mais do que episódico, dado que as consequências de nossos atos permanecerão conosco por muito tempo depois do fim aparente do ato - sobrevivendo nas mentes e feitos de testemunhas que não desaparecerão (BAUMAN, 2008, p. 47).
Essas eram a base do que Bauman chama de “fundamento epistemológico” da experiência de comunidade, que agora parece cada vez mais distante de ser compartilhada à maneira que sua caracterização permitia. Não é mais possível exercer um compartilhamento de experiência duradoura e uma interação longa, frequente e intensa. Por mais que as metrópoles e grandes cidades se multipliquem pelo globo, a proximidade não é mais sinal de aproximação. A própria estrutura da cidade é uma representação da modernidade líquida, com seus “estranhos em extrema proximidade o tempo todo” (p. 129). As massas em proximidade não mais podem ser reconhecidas, são aglutinações de estranhos sem um denominador comum que não seja o medo.
Bombardeadas de estímulos, de mensagens e de testes, as massas não são mais do que um jazigo opaco, cego, como os amontoados de gases estelares que só são conhecidos através da análise do seu espectro luminoso. Não se trata mais de expressão ou de representação mas somente de simulação de um social para sempre inexprimível e inexprimido. A massa torna-se um sujeito, e ninguém pode falar em seu nome. Não sendo sujeito, não podem ser alineadas, nem por sua própria linguagem nem em alguma outra que pretendesse falar por elas (BAUDRILLARD, 2004. p. 23).