3. BİRLİKTELİK KURALI VE ALGORİTMALARI
3.4. Birliktelik Kuralı Türleri
Uma das consequências que os fatores angustiantes trouxeram ao indivíduo é uma modificação na sua noção de mortalidade. A morte assumiu um papel diferente daquele que possuía na modernidade sólida, e não apenas no que tange às religiões, mas também a um sistema de crenças pessoais e a um empoderamento do efêmero.
Para Bauman (1998), “estar ciente da mortalidade significa imaginar a imortalidade - esse sonho que enche de significado a vida, enquanto que, se alcançado traria somente a morte do significado” (p. 191). É um ciclo que se inicia preenchendo-o para saciar-se com o seu esvaziamento. O polonês também trata dessa questão (2014) pelo cerne da ânsia humana por transcendência, sendo este o “impulso no sentido do conforto e da conveniência”(p. 109), seria essa paz do corpo e da mente o âmago da ideia popular de “ordem”. Assim, o ser humano estaria inquieto pelo insaciável desejo de “ordem”, sendo que esse nunca será aplacado totalmente até que a morte chegue. Esse ciclo se retroalimenta, assim como ele explana:
A ironia, contudo, é que essa visão de uma “ordem final” formatada como um túmulo é precisamente o que nos torna compulsivos, obsessivos e viciados “construtores da ordem” e, desse modo nos mantém vivos, sempre ansiosos e instigados a transcender hoje aquilo que conseguimos atingir ontem. É a sede da ordem, insatisfeita e insaciável, que nos fazer vivenciar toda realidade como desordenada e carente de reforma (BAUMAN, 2014, p. 109).
No entendimento de Bauman, há duas estratégias para efetivar a imortalidade; uma, pela forma coletiva, através da reunião em pequenas comunidades ou “ilusões de comunidade”, do qual o indivíduo seja apenas uma extensão, como a Igreja, a Nação, ou o Partido. Os seres humanos individuais continuam mortais, mas sua morte se
justifica a partir do momento que sua “totalidade” segue. A segunda, é uma estratégia individual que depende da capacidade do indivíduo se perpetuar pela memória da sociedade, realizando feitos fantásticos e inéditos, que o coloquem acima do comum e lhe garanta uma posição digna de ser perdurável.
A segunda estratégia é, certamente, mais adequada aos preceitos que a modernidade líquida apregoa, a partir do momento que depende de uma ação individualizante, indo em direção a um movimento de introspecção geral da sociedade. Porém, Bauman alerta que a “a fórmula da imortalidade coletiva requeria a supressão da individualidade, ao passo que a fórmula da imortalidade individual somente tinha sentido enquanto a individualidade permanecesse privilégio de poucos” (p. 193). Quanto mais individualizada e mais efêmera a sociedade se coloca, mais difícil que haja “disponibilidade de memória” para os indivíduos pleitearem seu espaço eterno. Todos estão mais propensos a ter seus poucos minutos de glória, mas a eternidade parece mais distante no seio da modernidade líquida.
O que alguns autores chamam de “medo original”, o medo da morte também atua como combustível para o fluxo da vida. Maurice Blanchot4 chegou a sugerir que “enquanto o homem sabe da morte apenas por ser homem, ele só é homem porque é a morte no processo do devir”.
Haneke trata a questão da mortalidade em alguns de seus filmes, mas certamente nenhum a trata de forma tão direta como O sétimo continente, que iremos abordar de maneira mais aprofundada no capítulo 4. A família que decide, de forma racional e meticulosa, colocar fim à sua própria vida, é um aparente paradoxo de racionalidade, mas uma espantosa chama de lucidez em meio ao turbilhão da modernidade líquida. Dentro da cena final, há um momento no qual a família destrói, aos poucos, seus bens materiais que estão pela casa, em um ritual de desapego de tudo aquilo que não é realmente seu. Christopher Sharret, ao entrevistar Michael Haneke, o questiona sobre a beleza daquela cena, “de enquadramentos muito bonitos, que retratam o horror e a angústia”. Haneke complementa:
Você pode olhar para o fenômeno da destruição do ambiente próprio em termos de uma noção alemã, que na tradução é "destruir o lhe destrói" Isso pode ser
visto como uma libertação. Mas a forma como ele é representado é, sim, o contrário. Eles realizam a destruição com a mesma estreiteza restrita com o qual eles viveram suas vidas, com a mesma meticulosidade como a vida era vivida, então eu vejo isso como o oposto da visão de destruição total (HANEKE, 2010, p. 585).
Não são apenas questões religiosas que retiraram o foco do indivíduo frente à sua mortalidade, mas há uma variável de inconstâncias tão poderosa na vida dentro da sociedade líquida que quase leva a crer que o ser humano se sente imortal em determinados momentos. Não por ter uma clara noção desse espectro de poder, mas por nunca se deparar com a possibilidade racional da morte, a menos que algum acontecimento quase fatal o coloque necessariamente diante dessa eventualidade. O efêmero, o curto-prazo, o prazer instantâneo. Nada disso permite que se vislumbre um objetivo a longo prazo, e, muito menos, que se lide com a onipresença da morte. Como Bauman falou “Nas novas circunstâncias, o mais provável é que a maior parte da vida humana e a maioria das vidas humanas consuma-se na agonia quanto à escolha de objetivos, e não na procura dos meios para os fins, que não exigem tanta reflexão” (2001, p. 73). Esse paradoxo entre impulsos de vida em relação à morte é o que permeia o instinto humano e o faz tatear uma maneira de consumir-se nele.
Uma extensão desse impulso de consumir-se também se dá de outras maneiras, como pelas exigências culturais em termos de estética, que obriga o culto ao corpo e a padrões pré-determinados a uma nova demanda constantemente. Outra extensão desse impulso é materializada pela contínua obsessão em relação à vigilância. Na modernidade líquida, as redes de vigilância foram aumentadas abruptamente, e quase nunca se tornando um remédio efetivo para a constante sensação de insegurança. Como Bauman (2014) expõe, “[...] há uma dupla razão para investir numa densa rede de vigilância - proteger-nos dos perigos e de sermos classificados como um perigo” (p. 98). Segundo ele, “as variedades de vigilância contemporânea têm o propósito de causar a morte social” (p. 89), ou seja, faz parte do processo anterior ao encadeamento da individualização quase endêmica que a sociedade sofreu.
Para tratar dessa “primeira morte”, que faz parte da comunhão de um indivíduo com os outros, e que é um dos pilares da sociedade, Bauman (2001) traz um ponto de Zukin, para quem o perigo mais iminente para a “cultura pública” está na “política do
medo cotidiano”. O polonês completa que “o espectro arrepiante e apavorante das ‘ruas inseguras’ mantém as pessoas longe dos espaços públicos e as afasta da busca da arte e das habilidades necessárias para compartilhar a vida pública” (p. 110). E finaliza:
[...] o espaço público está cada vez mais vazio de questões públicas. Ele deixa de desempenhar sua antiga função de lugar de encontro e diálogo sobre problemas privados e questões públicas. Nessas circunstâncias, a perspectiva de que o indivíduo de jure venha a se tornar algum dia indivíduo de facto (aquele que controla os recursos indispensáveis à genuína autodeterminação) parece cada vez mais remota (BAUMAN, 2001, p. 50).
A partir desse ponto, o processo de individualização não consegue se sustentar, abdicando de uma estrutura de interação vital para as atividades humanas. Sem conseguir sustentar o exercício da civilidade, de que forma há possibilidade da sociedade se manter sólida? Segundo Sennet (apud Bauman, 2001), essa comunhão é a “atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas” e a civilidade “tem como objetivo proteger os outros de serem sobrecarregados com nosso peso” (p. 76). É justamente esse peso, o peso de se auto- consumir, o “medo original”; que parece estar sendo digerido de outras formas, fazendo com que a ansiedade latente e a angústia incessante sejam contínuas.