Segundo o que foi discutido, as sociedades têm modificado tanto suas tecnologias de informação quanto as formas de produzir conhecimento, organizando, assim, o conhecimento que serve diretamente para a melhoria do seu funcionamento e da forma de fazer política. O desenvolvimento das tecnologias deve, portanto, propiciar direitos e capacidades para homens e mulheres protagonizarem a construção do conhecimento e de políticas públicas e a formulação de um humanismo plural (SARDÀ; SOLÀ, 2008).
Cabe destacar que os espaços públicos on-line não compartilham das mesmas características deliberativas, ainda que sejam válidos como espaços democráticos de interação e discussão. Três fatores impedem que os consideremos espaços equânimes de participação: a importância de fenômenos que garantem aos cidadãos o debate de assuntos políticos; a natureza e a origem dos atores que criam e coordenam os debates, em vista da influência que interfere na qualidade das discussões; fatores contextuais que podem influenciar as deliberações, como características dos participantes, ideologia, impacto do debate (KIES, 2010).
Apesar da grande difusão da internet, há, quanto ao acesso, certo grau de exclusão de pessoas. Além disso, identificam-se aspectos que levam os cidadãos à exclusão em outras atividades e espaços, como renda, tipo de ocupação no mercado de trabalho, nível educacional, local de residência (urbano ou rural) e gênero (DiMAGGIO; HARGITTAI, 2001). A aproximação dos cidadãos depende diretamente, pois, da igualdade de acesso às TICs de toda a população. É talvez nesse contexto que se inicia a democracia, ou seja, combatendo a “estratificação digital”, uma série de desigualdades no acesso à internet, como acesso físico, habilidade na utilização e capacidade de adaptação psicológica e cultural às TICs. Essa estratificação se dá
em virtude da desigualdade de condições materiais e culturais de inserção no mundo digital, ocorrendo tanto no nível individual como no organizacional, também em função de características regionais (COLOMBO, 2006).
Para Colombo (2006), é necessário criar um contexto de participação equânime na internet, visto que, quando se tem uma situação de estratificação digital, como falta ou baixa qualidade de acesso, não se pode falar em inovação democrática, já que continua prevalecendo a estratégia demoelitista ou o elitismo democrático.
Apesar da crítica apontada, é fato que a internet se atrela à democracia, possibilitando que os cidadãos se insiram nos processos políticos de forma mais facilitada e ampliada, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista das mudanças paradigmáticas das relações e das comunicações. Por isso, ela pode colaborar com a educação democrática e o aumento de interesse pela política (COLOMBO, 2006).
Mas há possibilidades de ampliação da democracia por meio das redes sociais virtuais e de novas organizações sociais, já que associações tradicionais, como sindicatos, partidos políticos e organizações religiosas, parecem ter a procura reduzida por parte dos cidadãos interessados em participação na política. É nas “redes sociais que se tecem no âmbito dos desejos e das intencionalidades, que circulam os interesses, os bens e as informações num universo político não-especializado e institucionalizado” (DOIMO, 1995, p.151) [grifo da autora]. Há, no entanto, muita discrepância entre a interação comunicacional e a contribuição objetiva em projetos ou ações específicas nas redes (FERREIRA, 2011).
A Figura 5 reúne os principais elementos tratados até esta parte do estudo, como forma de organizar o pensamento acerca das mudanças contextuais pelas quais a democracia passou e tem passado, em especial pela inserção da internet e das possibilidades criadas para governos e sociedade.
Figura 5 - Democracia e participação
Fonte: Elaborada pelo autor, 2015.
Ao buscar entender a dinâmica relacional e comunicacional propiciada pela internet, em especial para a juventude, Carmo (2001, p.254) defende que “hoje o impulso é dado pelo computador, símbolo por excelência de um conjunto de tecnologias que realmente põem à disposição de grandes massas uma profusão de informações e conhecimentos, chegando ao risco de saturação”. O autor afirma: “estamos em um meio saturado de imagens, símbolos e informações, mas ainda carente de análises e reflexões. O difícil é saber como processar essa enxurrada de informações” [grifo do autor].
Justificando este estudo, ocorre que os debates sobre participação política na internet sofrem da ausência de discussões sobre a dinâmica organizacional e institucional no interior das comunidades on-line engajadas em ações políticas. Também se verifica ausência de discussões sobre implicações sociopolíticas do contexto. Portanto é necessário que pesquisas, neste campo, reconheçam e discutam as relações entre os movimentos democráticos, as mídias digitais e as formas de organização on-line (SHAW, 2012).
Torna-se complexo qualquer trabalho que busque compreender, de forma geral, o que está ocorrendo em termos de tecnologias e de política. Carmo (2001, p.261-262) afirma que “na atualidade não se fala mais em grandes movimentos. A revolução que está sendo travada é
molecular. Os jovens de hoje não estão preocupados em partir para grandes projetos de transformação social. Abrem-se a toda espécie de rebelião, sem um objetivo único”. O autor ainda defende que pequenas iniciativas “mesmo não tendo visibilidade na mídia, contribuem para a transformação social e dão esperanças de que contestar, resistir e propor alternativas não é uma atitude ultrapassada e fora de propósito”.
Neste contexto de democracia pela internet, que se desenvolve na atualidade, os jovens se destacam como protagonistas na utilização das ferramentas propiciadas nos mais diversos tipos de softwares, em especial os que permitem a criação de redes sociais virtuais que podem gerar Redes Sociopolíticas Virtuais. Importante é destacar que, com a ciberdemocracia, parece haver ressurgimento de ações políticas desses jovens que há muito tempo não se viam no Brasil, talvez desde o movimento dos caras-pintadas na década de 1990.
Torna-se importante, pois, lembrar que o atual contexto de participação política de movimentos sociais contra a corrupção e o surgimento de uma nova cultura política com a democracia digital são destaque neste estudo. Portanto, faz-se necessário discutir conceitos e contextos acerca dos movimentos sociais, como base para outras discussões.